terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Mulher é tudo igual



ESCORPIÃO
As duas irmãs dormiam no mesmo quarto. A mais velha tinha os cabelos curtos e negros, expressão grave e sofria com a gordura que lhe avantajava o corpo. A caçula, muito meiga, tinha olhos rasos e azuis como piscinas infantis.
Certa noite, pé ante pé, a mais velha levantou-se, abriu a cesta de costuras e apanhou a tesourinha de bico curvo. Sem fazer barulho algum, cortou os longos cabelos da irmã, frágeis linhas amarelas que nem pra bordar serviam mais. Depois enterrou a tesoura nos olhos da boneca.


MULHER É TUDO IGUAL
Eu e a Marieta Severo não temos tempo pra solidão. Ela foi casada com Chico Buarque, eu com João Teodoro. Ambos nos deram muito trabalho. Teodoro era alcoólatra e me batia na cara. Passei com ele os piores momentos da minha vida. Como se não bastasse era meio veado, o cara. Vivia se enroscando com garotinhos por aí, depois os trazia pra casa e me apresentava como coleguinhas de trabalho. Ora, vê se eu sou boba. Punha os moleques pra dormir na minha cama, “ele não tem pra onde ir, coitado”, e dormia comigo no sofá da sala. No meio da noite, João sumia.

Quando bebia além da conta e se punha a fazer escândalo, eu lhe dizia: qualquer hora pego minha bolsa e vou embora sem nem me despedir. Ele não acreditava. “Mulher é tudo igual”, dizia.

Um dia eu estava na cozinha preparando o almoço quando João entrou e me viu despejar meio litro de azeite, dos bons, no copo do liquidificador. “Pra que tanto azeite?”, berrou. A receita é essa, molho pesto é assim mesmo, vai azeite pra burro. Não sei por que, meus olhos se encheram de lágrimas. Liguei o liquidificador na potência máxima e aquele barulho infernal, e aquele manjericão todo moendo lá dentro, e aquelas nozes sendo trituradas, e aquele verde virando pasta cheirosa, foi me dando uma coisa de novidade, de começar de novo, uma coragem, que eu fui ao quarto e peguei minha bolsa. O liquidificador ficou ligado. Depois disso arranjei tanta coisa pra fazer, pra me divertir, que nem tive tempo pra solidão. João Teodoro estava certo, mulher é tudo igual. Um dia vira tudo Marieta.

Jeff Koons, Caniche, 1991 © Musée Collection Berardo / Fondation d'art moderne et contemporain

CADELA
Não que eu faça muita questão dos passeios, gosto mesmo é do bem bom das almofadas de cetim, do chinelo de saltinho, do pegnoir de plumas. Mas quando ele aparece com a coleira nas mãos, eu me espreguiço, passo perfume atrás das longas orelhas peludas e vou. De braço dado com o senhor meu marido, desfilo feito rainha, matando de inveja as outras cadelas da vizinhança.


XEQUE MATE
Quem me vê com esta coroa na cabeça e este manto cravejado de brilhantes sobre as costas é incapaz de me imaginar nua embaixo do corpo de Felipe, este mesmo que se ajoelha à minha frente e me jura fidelidade como um súdito qualquer. À noite, nos aposentos reais, ele sempre expressa um certo nervosismo ao me ver de pernas abertas. Eu entendo. Não deve ser fácil comer uma rainha.

GILDA
Nunca houve mulher como Gilda. Ruim como a peste. Seu prazer era atazanar a vida de quem estivesse ao redor. Na hora de escolher a profissão, foi ser manicure. Sangrava as clientes de propósito só para vê-las pulando na cadeira. Um dia foi chamada para fazer o pé de Damião. Achou o pé do rapaz tão lindo, tão macio, que não teve coragem de feri-lo. Pela manhã, ao vê-lo nu sobre a cama, comentou como se fosse sem querer: sabe que eu pensei que seu pinto fosse maior?


RECEITA PARA COMER O HOMEM AMADO
Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro verde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais.


SÃO CRISTÓVÃO
Eu sozinha nesse bar, um pires de azeitona a minha frente e uma cerveja quente pela metade. Largada nesse canto da vida é difícil acreditar que o Rodrigo Santoro vai passar por aqui e se apaixonar por mim. Mas vai.

La Mariée, Niki de Saint Phalle

A VERDADEIRA TRAGÉDIA
Jamais esquecerei aquele 11 de setembro. Quando acordei, estranhei que Hugo ainda estivesse em casa. Normalmente, ele já teria tomado banho, feito o café e saído para o trabalho. Mas não, ainda estava lá, sentado na sala, de camisa esporte. 
- Precisamos conversar – ele disse.
- Fala – respondi com a boca seca.
- Eu estou indo embora.
Sem querer ouvir o resto, levantei-me e fui à cozinha. Debrucei-me sobre a pia com o corpo tremendo. Pensei em pegar uma faca.
- A chave está na mesinha – ele disse lá da sala.
Foi a última vez que ouvi sua voz. Soube depois que, nesse mesmo dia, aconteceu um acidente terrível em Tóquio ou Nova Iorque. Um avião egípcio bateu numa torre e derrubou uma antena de televisão. Não sei direito como foi a tragédia, mas duvido que tenha sido pior do que a minha.

XXX


Ivana Arruda Leite nasceu em 1951, em Araçatuba (SP). Mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo, publicou três livros de contos: Histórias da Mulher do Fim do Século, Falo de Mulher e Ao homem que não me quis (reunidos na antologia Contos Reunidos). Seu mais recente livro de contos é Cachorros (2014). Publicou ainda uma novela Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e dois romances: Hotel Novo Mundo e Alameda Santos. É autora de livros infantis e infanto-juvenis. Está em todas as redes sociais. Mora em São Paulo. Ministra oficinas de contos.

Um comentário:

  1. Que beleza de Antologia! Dá bem a medida do que nos aguarda nos livros de Ivana Arruda Leite. Parabéns ao Blog e que venham mais estudos sobre Ivana!

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