domingo, 8 de janeiro de 2017

Horizonte de espelhos

Michelangelo Pistoletto, Twenty-two-less-two, 2009

Horizonte de espelhos
Susanna Busato




marugem

As coisas surgem
do caule da gente
insurgem
marugem
de esponjas
quais monjas
silenciosas



*
horizonte de espelhos
colunas e conchas
água clara
seios
no chão as curvas
de um sol navegam
sua ilha
clitoriana gruta
horizonte de espelhos
superfície ao reverso

*



on part

part
ida

à espera e à deriva
como um lenço ao longe
a cena assina

sino úmido
lusco-fusco
som pregueado no branco
punho abrupto de pedra
partida
réstia de tempo
que se engole
sem vida

*




Tarde inescrupulosa...
Teu olhar invade-me as coxas
Entre claves de sol e colcheias

*
Postes

Na resistência da tarde
espreito esquinas:
solitários, os postes se
entreolham se
desejam nas
vielas e
virilhas


*

oralidades

entre lábios
inchados
a língua devora
o grito

oralidades
à luz
das grutas

estalactites
roçando
as curvas

na sua boca
todas
surtam



*

As mulheres têm peitos.
Pelos peitos elas tecem
sua presença redonda e completa.
Sob a blusa os peitos falam
descansam
caminham.
Somente os peitos têm asas.

*


Réveiller

um corpo acorda
sustenido
em meu peito

um corpo sombra
sobre o meu
raro e perfeito

um corpo onda
*

un regard

onde ) ouverte (
oferta aérea
) fenétre de l’esprit (
vacante vaga
palavra ) ivre (
intacta
ronda-me
cibernética
e assalta? )
*

Nascimento do olhar
(inédito)

O pôr do sol avermelha o horizonte.
O sol se põe no vermelho do horizonte.
O vermelho se horizontaliza no sol.
O pôr do sol orienta o vermelho.
O horizonte deposita vermelhos no sol.
Um sol se põe na vermelhitude ortogonal do horizonte.
Um horizonte avermelha ao sol.
Em decúbito dorsal o sol do sol
avermelha.
Horizontalizam vermelhos de sol.
Solarizam rubros horizontes vergéis.
Vertem vermelhos espelhos de sol.
Horrorizontes vesgos vergam-se ao sol.
Horrorizontes velhos vertem vespas de sol.
Horrorizontes vermelhizam sendas de sol.
Vertem rubros vergéis em horizontes de fel ao sol.
Um pôr de sol depõe contra o horizonte.
Vermelhorror:
o sol se
con-
some.

Xxx




Susanna Busato é poeta, paulistana, professora de Poesia Brasileira na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP, campus de São José do Rio Preto / SP. Coordena o Grupo de Estudos de Poesia – GEP/CNPq, voltado à pesquisa em poesia brasileira e à sua divulgação, por meio de atividades de leitura e recitais, e atividades de extensão. Participou do Recital “Multitudo Haroldo de Campos”, no Itaú Cultural, em São Paulo, em 2011, e do Recital “Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros” (homenagem a Oswald de Andrade), na FLIP em Paraty em 2012, ambos patrocinados pelo Itaú Cultural. Seu projeto de pesquisa atual intitula-se “As performances da voz no espaço da poesia brasileira contemporânea”. Tem poemas publicados em antologias e revistas, como Anamorfoses, Cult, Brasileiros e várias revistas eletrônicas como Zunái, dEsEnrEdoS, Mallarmargens e Aliás. Tem ensaios publicados em livro e em revistas acadêmicas e especializadas em literatura e arte. Premiada pelo Mapa Cultural Paulista, fase estadual, categoria Poesia, em junho de 2010. Publicou como organizadora e autora de capítulos quatro livros em parceria com outros autores, pela Editora da UNESP (A memória do sujeito e a memória da linguagem: redes textuais, 2010; Fragmentos do Contemporâneo: leituras, 2010; Figurações Contemporâneas do Espaço na Literatura, 2011; Em Torno de Hilda Hilst, 2015). É autora do livro de poemas Corpos em Cena (Editora Patuá, 2013), finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014.

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