sábado, 14 de janeiro de 2017

Filho da mãe

                                         Esther Shalev-Gerz, Les inséparables

Filho da mãe
Por Oscar Fussato Nakasato

Naquela tarde, uma dor de cabeça como nunca.  Servidor municipal, funcionário-padrão, nenhuma falta em seis anos. Homenagens, um certificado emoldurado e pendurado na sala do apartamento. A moça que atendia no balcão da biblioteca lhe disse um dia, Você vive no meio dos livros, por que não faz o concurso para trabalhar aqui? Exigência de Ensino Médio. Ele fez o concurso e passou em primeiro lugar. Vê os companheiros faltando ao serviço, a Mirtes inventando doenças, pedindo para mentir para a diretora. O livro-ponto como se fosse. O Paulo preenchendo o livro uma vez por semana.  Quem vai anotar que chegou atrasado, que saiu meia hora antes? Um relógio-ponto, sim. Digital. Sem digital, um bate o cartão para outro. O funcionário público sendo.   

         Mas, naquela tarde, precisando sair mais cedo. O analgésico que tomou na hora do almoço não resolveu.  A diretora, os óculos grossos de não sei quantos graus, a escrivaninha parecendo de um filme noir. Suas primeiras palavras para ela: me desculpe.  O dia está tranquilo, sem. É a primeira vez em seis anos que você me pede para sair mais cedo, acha que vou negar? Quando chegar, vá para o quarto, feche a cortina, fique deitado. Você precisa de silêncio.

         No ônibus imagina a mãe na sala assistindo ao filme da tarde ou bordando. Um susto ao vê-lo tão cedo. Estranho chegar no meio da tarde ao apartamento.  O dia cinzento, mas sem chuva. Devagar, pisar devagar para doer menos. A mãe não está na sala. Até a cozinha, um copo de água da geladeira. Depois vai para o quarto da mãe. Abre a porta.   

         Viviam felizes. O pai, a mãe, Lorena e ele. Quando resolveram se casar, fizeram as contas: aluguel, geladeira, fogão, os móveis. Tudo tão caro. Ele há pouco tempo na biblioteca, ela, um pouco mais que o salário mínimo no balcão da farmácia. Vamos morar com papai e mamãe, propôs, e Lorena aceitou. Que jeito? Acordavam os quatro às seis e meia. A mãe preparava o café, os outros se trocavam para ir ao trabalho.  Sentavam-se à mesa da cozinha faltando dez minutos para as sete, tomavam leite com café e comiam pão caseiro com margarina, às vezes com doce de abóbora ou doce de. Os três saíam às sete e quinze.  Ele e o pai paravam no ponto de ônibus, Lorena seguia a pé até a farmácia.  O pai tomava o 208 para a metalúrgica, ele, o 111 para a biblioteca.  Retornavam para o almoço.  O pai sustentando que era um privilégio morar numa cidade assim, no interior, Em São Paulo ninguém almoça em casa. Arroz, feijão e. Acabou a pimenta, mãe? No início da noite, os três retornavam para casa. Cansados. Felizes. A mãe no sofá da sala, assistindo à novela das seis. As panelas no fogão. O jantar invariavelmente às sete. A mãe querendo notícias da rua, porque as novelas. Lorena, alguma fofoca da farmácia, a moça do caixa que estava grávida e não sabia como contar aos pais. Depois, o jornal da televisão, a novela das nove horas.  

         O pai e Lorena morreram. Ele, no mês de março, ela, em junho. O pai, atropelado pelo 111. Lorena, um aneurisma. Aneurisma é um grande azar, disse o médico. Então, órfão de pai e viúvo. Mas viúvo é sempre velho. Viúvo é careca ou tem cabelos brancos. Ele, trinta e um anos. Na estante da sala, os dois porta-retratos, o pai sorrindo, Lorena com a cara séria.

         Seguiram mãe e filho acordando às seis e meia, a mãe preparando o café , somente duas colheres de pó depois que. Almoçavam ao meio-dia, jantavam às sete e meia, assistiam ao jornal e. Depois ela ia lavar a louça, reclamava de uma dor no lombar, ele ia para o quarto. Deitava na cama, o quarto cheio de lembranças de Lorena.  Abria um livro, geralmente uma biografia. Quando se cansava da leitura, enfiava a mão debaixo do colchão, pegava uma revista para se masturbar. Antes de, dispensava a revista e buscava, de olhos fechados, a imagem de Lorena, nua, ou somente o seu rosto, que, antes, gostava de ficar vendo enquanto se movimentava sobre o seu corpo, as pernas dela enlaçando-o.

         Aos domingos, o privilégio de acordar um pouco mais tarde, às sete meia ou às oito  horas, era norma. Quando despertava antes e não conseguia mais dormir, ficava irritado, como se. Quando Lorena vivia...? Quando Lorena era sua esposa...? Enfim, cutucava-a para que ela compartilhasse o seu desconforto. Na alegria e na. Depois do café-da-manhã, a missa das nove na igreja do bairro, o mesmo ritual, somente o sermão se renovando.  Na volta para casa, comprava o jornal na banca de revistas, o mesmo jornal que lia de segunda a sábado na biblioteca. Depois a mãe se entretinha com os bordados. A casa cheia de toalhas e tapetes com os bordados da mãe. O almoço às 12 horas. Macarrão de domingo.

          Após o almoço, uma soneca em frente à televisão. Às vezes, tomavam o ônibus das 14 horas, atravessavam a cidade e iam à casa de um primo do pai, o único parente. Desde que era criança, a família ia lá, a casa de madeira, o pai e a mãe na sala com o primo solteiro, o pai e a mãe no sofá, o primo na poltrona, conversando, a televisão ligada no programa do Faustão ou no futebol, e ele sentado na escada que havia na entrada da sala. O domingo. A mãe continuava visitando o primo do marido morto, e ele junto, ele e a mãe sentados no sofá, a televisão ligada no Faustão ou no futebol. Voltavam com o sol se pondo, o motorista do ônibus bocejando, um passageiro reclamando que o fim-de-semana passava muito rápido.

           Quando abre a porta do quarto, vê a mãe e o primo na cama. Ela alcança o lençol para se cobrir, os dois olhando para ele, sem saber o que falar, até que a mãe diz, Meu filho, o primo Nelson e eu... Não quer ouvir as.  Sai batendo a porta, sai correndo do apartamento, desce os quatro lances de escada até chegar à rua. A dor de cabeça, a mãe debaixo daquele homem. Ir para a esquerda, ir para a direita, atravessar a rua? Escolhe sem razão ir pela calçada, à direita. Quinze minutos depois, o coração desacelera. A dor de cabeça passará. No dia seguinte, levantará às seis e meia, irá à biblioteca, que estará esperando por ele, e ele não se atrasará.

xxx




Oscar Fussato Nakasato nasceu em Maringá, PR, onde morou até completar 8 anos. Atualmente reside em Apucarana, na Vila Agari, e é professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Graduou-se em Letras na Universidade Estadual de Maringá. É mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista. Em 1999 foi premiado com os contos “Olhos de Peri” e “Alô” no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul, que os publicou com outros três num volume que se chamou “Contos”. Em 2003, foi vencedor do Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, com o conto “Menino na árvore”, que também foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso. Em 2011, seu romance Nihonjin venceu o Prêmio Benvirá de Literatura e foi publicado pela Editora Saraiva. No mesmo ano, o romance dividiu o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Contos do Sol Nascente”, de André Kondo, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota. Em 2012, Oscar Nakasato, venceu a 54ª edição do Prêmio Jabuti na categoria romance. 

2 comentários: