segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dia de morrer de amor com você

Somnyama Ngonyama, © Zanele Muholi Courtesy Stevenson Cape Town et Johannesburg 
Sibusiso, Cagliari, Sardinia, Italy, 2015

Dia de morrer de amor com você

Paulo Emílio Azevedo

Cortinas
Desde criança tenho olhado cortinas, quiçá tenha começado aí meu entendimento estético no mundo. Cortinas são bailarinas que dançam nas coxias para plateias atentas; plateias que ficam fora do grande público, plateias de um ou dois que ficam sós nos seus quartos e salas observando cortinas embaladas por brisas pedindo um par; paradas no corpo do alizar esperando a janela abrir pela manhã - cortinas são disciplinas malditas olhando para o teto. Elas têm o caimento de cima em baixo de uma dama em vestido longo, cuja honraria está prestes a receber o prêmio de mulher mais bela da casa. Elas têm a loucura quando entram em cena com seus cabelos rebelados pela brutalidade do palco; abauladas, ali esquecem seu lado mais doméstico e avançam em forma de lençol abraçando a todos, cujas janelas abertas deixaram as portas do vento entrar - ventos são sopros tristes que transbordam do cuspe de Deus. Cortinas são pastoras ninfomaníacas fingindo que são santas.

Bill Viola

Apnéia
Ontem observei as pessoas que pisam no chão. Não, não são todas as pessoas que pisam no chão. Àquelas que pisam nas pessoas não pisam no chão e dividem a humanidade em dois grupos distintos: gente que pisa no chão e gente que pisa nos outros. O chão recebe cada pé na forma de mundo, história que se passa na presença do passo. Impasse de ir, vontade de ficar, será? O compasso se abre e procura um raio exigente em contato com o ser. Há quem diga que é Deus na Terra, há quem duvide que és tu no céu. Do mar só tenho lembranças das mãos não me deixando ir para sempre - ninguém pisa no fundo do mar, mar não tem chão justamente porque o infinito é feito de areia movediça e sonho. O peso no piso de vidro quebra a última fronteira de estar, agora por detrás dos muros nos encontramos sem eira nem beira. A chuva cai e molha o chão, o céu desaba e faz a gente virar caos. Não há centro e nem corda. Não há mais como pisar nos outros. Somos um só formando uma estrela na superfície. Boiar é imaginar que voamos na água. A circunferência nos atingiu e ora somos pontos de luz à deriva. Hoje é dia de morrer de amor com você.

O filme sem título
Passamos pelo Passeio e demos de cara com a Senador Dantas que é um lugar sujo, poético, dionisíaco e paranoico do velho Rio. Na esquina próxima ao monumento de Ghandi, contei para ele que foi ali perto que outrora entrei no cine pornô (aonde atualmente é a Livraria Cultura) e que lá ocorreu a coisa mais engraçada que passei na adolescência aos meus 13 anos. Ele deu gargalhadas na chuva; talvez mérito da eloquência gestual da narrativa. Max é o irmão mais novo que hoje me falta. Eu 39, ele 32. Gosto de diminuir a minha idade e aumentar a dos meus amigos - a diferença de sete anos me esclarece sempre uma descoberta. Sete além do número de notas musicais é também o equivalente a quantidade de dias da semana - lembremos que a quarta só se chama quarta porque é o quarto dia da mesma. A semana começa domingo e não na segunda, o que corresponde dizer que ´fim de semana´ em nosso calendário é um termo de expressão falaciosa: o final de semana é a combinação da sexta com o sábado (não do sábado com o domingo) e, por isso sabe-se que o Criador descansou no último dia, o sábado; no domingo ele seria capaz de criar outro mundo porque nesse está faltando poesia. Mas, aquele dia era uma sexta-feira, em 16 de dezembro do ano de 2016. Foi bonito vê-lo sorrir na chuva. São essas coisas que guardo das pessoas que amo e, por isso, nunca (jamais) olho para trás em despedidas. Pois, caso algo ocorra na tragédia de nunca mais nos vermos, ficará o abraço e não o hiato como memória da cidade em nós. Enfim, esse hoje já não é mais o agora. Vem soando em prelúdio do verão a nostalgia que me gela o peito - meu corpo se perdeu de mim e não sabe mais se sente frio ou calor; está em crise térmica: não sabe se é corpo revestido por pele ou se é apenas uma pele sem derme; se é fogo ou gelo outra vez - aos meus 13 anos eu era um vulcão, apesar de que gelei quando vi o que ouvi daquele tarado que me seguia dentro do cinema. Apenas, lembro-me de sair disparado e pulado a roleta em direção à Avenida – um pé ficou preso na roleta e o tombo foi necessário. Crescer também é isso. Talvez, eu seja nesta dupla partida a expressão lacônica de um violino que arranha no mesmo lugar e não fura; quiçá seja uma faca que corta, mas não sangra. A vida é esse “sangue frio” à espera do tempo. Eu até tentei, mas não me lembrei do nome do filme.



Autoetno12
Tenho métodos tortos, nada convencionais de sobrevivência e recuperação do existir. Eles foram estruturados depois do agir, mas não, não era instinto - não gosto dessa palavra. Se, por exemplo, quero me lembrar de algum documento importante, jamais deixo sobre a mesa ou cabeceira. Acho cabeceira uma coisa triste e a mesa uma coisa que só tem sentido na presença do outro. Eu sou só, então sento em sofás e camas. Documento importante para lembrar-se de levar no outro dia há de ser disposto em cima da calça, afinal, ainda me visto para ir à rua; chaves, no entanto, deposito na geladeira ao lado do pão, mas se não houver pão ou leite uno a mesma à garrafa d'água - sempre acordo com sede; a solidão é um deserto. Aos 12 anos aprendi que se estou andando num lugar mais marginal devo de vez em quando cuspir no chão - nenhum bandidinho, daquele tipo bem bandidinho algum, vai em cima de quem supostamente é mais sujo que ele próprio, de quem não parece sozinho ou é tão sozinho que se acha protegido por Deus; covardes temem quem não parece temer. Dois passos, uma cuspidinha e gesticule sem parar como se ouvisse rap. Eu só tinha 12 anos e me rendia ao auto etnografismo. Pois, as minhas técnicas seguem as mesmas, mas agora vou começar a parar de cuspir no chão - homens de 40 anos tem que ser mais educados e, é verdade que tem gente mais suja para eu direcionar esses meus restos de ira; os de solidão são apenas os restos de mim, sem parte alguma.

Nicolas Dalprat - Silêncio

Epílogo
E disse o ator gritando do palco depois que a plateia se foi:
“_eu quero um amigo para falar sobre o que eu quiser e também o que ele quiser. Mas, sobretudo, alguém para pode ficar em silêncio ao meu lado sem tempo definido para voltar a dizer uma sequer palavra”. Por fim, apagou as luzes e se foi, mas antes concluiu seu epílogo: “_solidão só presta se for para ficar sozinho, sem jamais se sentir só”.

xxx



Paulo Emílio Azevedo é professor, Doutor pela PUC-RJ em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014) – com este concorreu a final do Prêmio Rio Literário (2015) na categoria “Ensaio”. Com a atual publicação O amor não nasce em muros (2016) completa dez livros escritos, sendo o nono publicado. Entre os demais, destacam-se Meninos que não criam permanecem no C.R.I.A.M. - histórias sobre adolescentes em conflito com a lei (2008); Palavra projétil, poesias além da escrita (2013) e Ensaios de um poeta só (2015). Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da poesia falada e performance. É idealizador do sarau “Tagarela, o maior slam do mundo”, professor da oficina “Palavra Projétil” e autor do projeto “Biblioteca de griots”, os quais receberam contemplação em editais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Coordena a Rede de Criação e Protagonismos Cia Gente e a Fundação PAz. No ano de 2016 foi um dos escritores convidados pela FLIP, Paraty/RJ e da Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes/RJ. Em sua principal pesquisa na Literatura está a criação do gênero/método Reestruturalismo.



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