segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Alpharrabio : um gesto de resistência

Um projeto nanico de resistência ao gigantismo

Por Dalila Teles Veras

Em 1992, quando a Livraria Alpharrabio abriu suas portas em sede própria, em Santo André, SP, além da escassez de livrarias, não havia um único local na cidade onde interessados pudessem se reunir e partilhar vivências culturais. Muito mais que uma simples livraria de livros usados, como rezava seu contrato social, foi idealizada como polo cultural, difusor e fomentador da produção cultural e do debate de ideias. Um lugar de estar, onde as pessoas se reconhecessem como seres culturais, um lugar com significados, um lugar de pertencimento.

Localista apenas pelas circunstâncias, o Alpharrabio, por sua ação ininterrupta há um quarto de século, tornou-se referência cultural no Grande ABC Paulista, região Metropolitana de São Paulo, com  dois milhões e meio de habitantes, sempre com os sentidos de projeção e diálogo brasileiro/universal.


Editar livros não foi propriamente uma escolha, mas o resultado de determinadas circunstâncias. Em decorrência do encontro permanente de pessoas interessadas em literatura, a efervescência artístico-cultural instalada, fez-se urgente a criação de uma editora que pudesse dar conta de registrar e divulgar a notável produção literária e do pensamento ao redor. Graças ao decisivo entusiasmo e capacidade criativa de Luzia Maninha Teles Veras, criamos, em 1993, a chancela Alpharrabio Edições.

Desde então, seguimos com a tarefa sem fim de editar livros, sem jamais descuidar do rigor em nossa linha editorial que, diga-se, já projetou além-fronteiras muitos de nossos autores. Pela estreita relação que estabelecemos com estes, nosso catálogo foi-se compondo majoritariamente por escritores residentes na própria região onde estamos fisicamente estabelecidos. Longe de qualquer rótulo de caráter “regionalista” ou coisa que o valha, aquilo que seria apenas um dado facilitador do trabalho, acabou por compor uma certa “cartografia literária” de uma região fortemente industrializada, mais conhecida pelo mundo do trabalho.


Ao lado de edições comerciais, por prazer estético, também nos dedicamos a edições alternativas, artísticas e artesanais, com tiragens que vão de 38 a, no máximo, 300 exemplares. A coleção "micro", com 11 títulos de 38 exemplares cada, sendo que 8 fora do comércio ou, a coleção "mimo", com 18 títulos e tiragem de 92 exemplares, todos fora do comércio, publicados sempre "à revelia" do autor, são exemplos radicais dessa opção.
        
Alpharrabio Edições é, portanto, um projeto cultural sem preocupações com a lógica perversa do mercado. Um projeto nanico de resistência ao gigantismo dos conglomerados econômicos que passam o rolo compressor nos pequenos e tornam tudo homogeneizado, tedioso e previsível. O nosso compromisso é de outra ordem, a da resistência. Braço de um projeto maior que é o Alpharrabio (livraria e espaço cultural), o nosso plano editorial jamais estabeleceu metas, mas trilhou os mesmos caminhos, ou seja, nenhum "degrau" desta trajetória foi galgado com intenções que não fossem ao encontro daquilo que realmente somos: nanicos, sem que isso signifique descuidados.



Na contramão de uma sociedade em permanente revolução tecnológica, que supervaloriza hipérboles, assumimos cada vez mais essa condição. Somos movidos a paixão e comprometimento. Num tempo de urgências, optamos pela "slow edition", que vai do computador caseiro a uma eventual grande gráfica, passando ocasionalmente pela tipografia do mestre Raul e sempre pelo "Casulo 3x4" de Luzia Maninha, na certeza de que esta silenciosa revolução representa não só um gesto de resistência, como também um projeto político e cidadão.

Por fim, devo confessar que, ao menos uma vez por ano, baixa um certo desânimo e a ideia de encerrar as atividades é muito forte. Mas logo volto atrás, convencida, afinal, pelos mais próximos, de que esta história foi construída por muitos e não nos é mais permitido fechar um bem que já se configurou comum, por tudo que representa em seus significados simbólicos.



XXX





Dalila Teles Veras é escritora, editora e ativista cultural. Publicou mais de 20 livros, nos gêneros poesia, crônica, ensaio e diário literário, ao longo de 35 anos. Reside em Santo André, desde 1972, cidade onde nasceram suas três filhas e seus quatro netos. Fundou e dirige, desde 1992, a Alpharrabio Livraria, Centro Cultural e Editora, Santo André, SP, reconhecido polo irradiador de cultura. Coordena, desde 2007, o Fórum Permanente de Debates Culturais da Região do Grande ABC.
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