segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

a que não entra no mundo

a que não entra no mundo

Por Eliza Caetano Alves

pontos e linhas abaixo dos olhos, entre as sobrancelhas
o queixo. sou o queixo.
cotovelo
joelhos
um vão abaixo das costelas
a boca aberta
mãos em cuia
o que se dobra em ângulos fechados
sou as frestas e as pontas

a da fotografia
a que muda de cor
a que o mofo pinta
e apaga
a do filme exposto duas vezes
a que ficou presa na câmara escura

a que não vem mais
a que desistiu dentro do trem
a que passou do ponto
aquela cujas pernas não se moveram na hora de descer
a que não entra no mundo
está sempre sobre os trilhos
a do caminho

outra
ainda outra
a que chegou depois que fui embora
a que vive em outra casa
lava os pratos que estão hoje sobre a pia
a que não reconhece as próprias roupas
a que come as próprias roupas
a que não tem gavetas
a que ainda deixará o casulo oco pendurado num fundo de armário
a que terá delírios e abrirá asas
a que virá depois da larva petrificada
a que aguarda para abrir os olhos grandes a qualquer momento






mate com dentes pernas e cabelos soltos
mate em alta velocidade
durante a viagem de férias
mate com uma dança
a hora que a moça escorrega as costas e segura firme suas mãos para deixar os cabelos tocarem o chão

mate com a festinha em casa
no chão da sala na cozinha
onde já se apaga cigarro
mate bem morto

sufocado de vômito na privada
mate de sozinho não de solidão

o fantasma que só está quando olhamos
deixe falar sozinho
mate-o com sua própria loucura:
habitar o espaço entre dois
que não estão
foram ao banco ou supermercado
farmácia trabalho
com o tempo
mate
deixe passar




Escrita, palavra

Depois de alguns dias
longe de você,
         querida
me sinto, confesso
um pouco seca
um pouco alta.
Ando pela casa.
Um banho
a geladeira
o fogão
ver televisão.
Me sinto outra
como se não me visse há tempos.
Então, querida
resolvo voltar.
Contando que também
você queira me ver.
Sigo pelo cheiro
invento uma festa
convido os amigos.
Salgo a carne
preparo o lombo
acendo a grelha
espero você
aparecer.
Venha,
         querida
me querer vermelha
defumando a casa
espalhando cheiro de fome
pelos vestidos guardados.
Venha me erguer em brasa
sobre as telhas
me exibir morta
como um troféu
me deixar dançar
pés de ponta
carbonizados
sobre as telhas
de barro
rígida e silenciosa
cortar meus cabelos
deitar cedo
e depois dormir.
Depois de você
                   querida.

The Hated Flower,2014 by Rebecca Louise Law

Live me alone on the flower corner

Even
if you saw the look
on the face of the cat
she found lost on
the corner of the quiet street with
the frenetic avenue
in front of the small shop selling
flowers and newspapers
just two blocks away from
home (?)
as if someone gets
flowers these days and newspapers
what to say
about the newspapers
covering with stories
and photographs and black
solid headlines
the floor of the
apartment two blocks
she is now painting
herself but can´t decide
between orange and
lively green or
the old wood of the window
changing its colors
every hour
making harder
for her to decide
one: what color to paint
the room and two:
where to look every hour and
maybe
the lost cat
would be able to
decide for her and
certainly
absolutely certainly, you
wouldn´t guess
even if you saw the look on
the cat´s face
and it´s hard to know
the gender of a cat just by looking,
which anyway
wouldn’t help guessing
what way it would look
while thinking just leave me
alone
on the flower corner.


a presa

medir cada parte
pela utilidade
lamber a carne fresca
guardar no bolso as unhas
fazer um colar dos dentes
descartar os olhos de peixe


XXX





Eliza Caetano Alves é nascida em Belo Horizonte. Jornalista e mãe de duas filhas, escreve poesia desde sempre. Caderno das Inviabilidades (editoraUrutau, 2016) é seu primeiro livro de poemas.






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