sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Pontos de fuga


Pontos de fuga


Três premiadas vozes da novíssima literatura em língua portuguesa falam de suas influências, técnicas e experiências: como lidam com a tradição e a renovam, seus modelos e perspectivas. Debate realizado durante a FLIP 2017 com as escritoras Carol Rodrigues, Djaimilia Pereira de Almeida e Natalia Borges Polesso. Mediação de Leonardo Tonus.
xxx



Três mulheres da novíssima literatura em língua portuguesa — escritoras de romance, contos e poemas — estiveram lado a lado na mesa "Pontos de fuga”, a terceira do segundo dia da Flip, realizada no Auditório da Matriz. A angolana Djaimilia Pereira de Almeida, a carioca Carol Rodrigues e a gaúcha Natalia Borges Polesso transitam entre estudos acadêmicos e escrita literária, mas foi nesta última que estabeleceram de vez sua produção textual. Sob mediação do professor de Estudos Lusófonos Leonardo Tonus, a conversa se estabeleceu nos temas centrais de cada uma, que envolvem identidade, subjetividade, feminino e forma e gêneros literários. 

Antes dos participantes entrarem no palco, foi exibido no telão um videopoema de Josely Vianna Baptista, parte da série "Fruto estranho”.  Com passagens sobre o etnocídio indígena, especialmente do povo guarani, a intervenção artística foi dirigida por Yasmin Thayná e terminou sob aplausos do público.

Quando a conversa entre o trio começou, Natalia ressaltou que ser escritora é uma escolha que precisa ser feita diariamente. "É me formar escritora todos os dias, com o exercício da literatura, do outro, da escuta." Carol comentou o ato da escrita pela perspectiva do silêncio: "Ao escrever, a gente aprende a fabricar a quietude e a compartilhar a quietude". Djaimilia, por sua vez, relatou como foi difícil a transição de doutoranda para romancista. "Ao tentar escrever, percebi que não sabia o que fazer com tanta liberdade, tão habituada que estava ao rigor acadêmico."

Sobre a obra “Esse cabelo”, Djaimilia revelou que, a partir da leitura de blogs de moda, percebeu que não era a única com um "drama capilar". Ao se aprofundar no tema, chegou em questões identitárias da mulher negra e saiu em busca de suas origens, "perceber minha avó, o cheiro da minha avó”, o que a levou para a escrita efetiva do romance. Atentou-se ainda para o fato de que "uma pessoa pode se transformar numa caricatura de si própria", inclusive no contexto de discriminação racial em que ainda vivemos.



Com formação em cinema, Carol citou a influência da experimentação visual em seu trabalho — sobretudo na pontuação, elemento essencial para a condução do ritmo do texto e da respiração do leitor. E acrescentou: "As palavras designam destino, tem o destino que as palavras colocam nos corpos”. Natalia também compartilhou nuances do seu método criativo. "Penso no encontro das palavras, no ritmo, no texto a ser lido quase sem respirar". Às vezes sua preocupação é com o lirismo, com estabelecer conexões e intersecções, alcançar "autoplágios": contos seus que viram poemas e quem sabe até trechos de outros livros.


Por fim, as convidadas falaram de seus personagens, alguns pertencentes a grupos de minorias, e de como buscam a literatura que lance luz a múltiplas histórias. "Talvez não baste para deixá-los visíveis, o que a gente faz é abrir um espaço espaço mental; assim podemos compartilhar sensibilidades", falou Carol. O trio leu também trechos de suas obras, ressaltando marcas e particularidades de cada fazer literário. ( fonte : edições FLIP 2017 )


xxx


Clique no link abaixo para ouvir o debate : Pontos de Fuga

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Poesia brasileira na Sorbonne

Poesia brasileira na Sorbonne

Encontro com poetas brasileiros Edimilson de Almeida Pereira, Ana Martins Marques, Ana Elisa Ribeiro, Fabrício Marques e Lucas Guimaraens no âmbito da  14ª Bienal Internacional de Poetas Paris/Val-de-Marne.

Université Paris-Sorbonne – institut Ibérique
Sexta-feira dia 17 de novembro
Das 15h às 17h
Sala Delpy

31 rue Gay-Lussac
75005 – Paris

Encontro em português.

Por conta do Estado de Urgência e do Plano de Segurança Vigipirate, confirmar sua presença através do email : leotonusbr@hotmail.com


En raison de l’Etat d’urgence et du plan Vigipirate, merci de confirmer votre présence par email à l'adresse suivante : leotonusbr@hotmail.com

( Organização : Leonardo Tonus) 


XXX

Ana Martins Marques é belo-horizontina que busca na expressão da linguagem contemporânea observar o cotidiano por meio de sua poética. É formada em Letras e doutora em literatura comparada pela UFMG. Publicou os livros “A vida submarina”, “Da arte das armadilhas” e “O livro das semelhanças”, esses dois pela Cia das Letras. Em 2007 e 2008, recebeu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Literatura. Com “Da arte das armadilhas” recebeu o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional na categoria poesia e foi finalista do Prêmio Portugal Telecom. “O livro das semelhanças” recebeu o Prêmio APCA de Poesia e o terceiro lugar do Prêmio Oceanos. Recentemente, publicou dois livros em dupla: Duas janelas, com o poeta Marcos Siscar, e Como se fosse a casa (uma correspondência), com o poeta Eduardo Jorge.



Ana Elisa Ribeiro, também nascida em Belo Horizonte, possui uma criação voltada ao poema curto em que trata das questões relacionais e de gênero. É escritora, professora e doutora em linguística. Publicou mais de 20 livros entre poesia, conto, crônica, infantis e técnico-científicos. É autora de Poesinha (BH, Pandora, 1997), Perversa (SP, Ciência do Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (BH, InterDitado, 2008), Anzol de pescar infernos (2013, SP, Patuá, semifinalista do prêmio Portugal Telecom) e Xadrez (BH, Scriptum, 2015). Com o poeta Bruno Brum publicou Marmelada, pela coleção Leve um Livro, que ela também edita, com o patrocínio da Prefeitura de Belo Horizonte. Tem poemas publicados em mais de uma dezena de antologias, revistas e jornais no Brasil, além de poemas publicados e traduzidos na Espanha, no México, na França e em Portugal. Tem participado de festivais literários em mesas-redondas, leituras e oficinas. Atualmente, em seu trabalho como professora e pesquisadora, tem investigado as questões editoriais de mulheres escritoras e editoras no Brasil.



Fabrício Marques é poeta memorialista natural de Manhuaçu, no território Caparaó, que trabalha a relação entre o homem e a máquina para dar corpo à sua poesia. Foi editor do Suplemento Literário de Minas Gerais em 2004. Publicou os seguintes livros de poesia: Samplers (Relume Dumará, 2000, Prêmios Culturais de Literatura do Estado da Bahia), Meu pequeno fim (Scriptum, 2002) e A fera incompletude (Dobra Editorial, 2011, finalista dos Prêmios Portugal Telecom e Jabuti). Também é autor de Uma cidade se inventa (Scriptum, 2015, finalista do Prêmio Jabuti), Dez conversas (entrevistas com poetas contemporâneos, edição bilíngue, Gutenberg, 2004, finalista do Prêmio Jabuti) e Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski (ensaio, Autêntica, 2001). Organizou, para a Editora da UFMG, Sebastião Nunes (2008) e Papel Passado (seleção de poemas de Libério Neves, 2013). Juntamente com Tarso de Melo, organizou a antologia digital Inventar la felicidad. Muestra de poesía brasileña (Vallejo & Co., 2016). Participa de antologias e festivais de poesia no Brasil e no exterior.


Natural de Juiz de Fora, Edimilson de Almeida Pereira possui uma poética multicultural, ligada a pesquisas etnográficas, principalmente voltada à poesia africana. Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1963. É docente de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Na área de antropologia social publicou, dentre outros, os livros Mundo encaixado: significação da cultura popular (1992) e Do presépio à balança: representações sociais da vida religiosa (1995), A saliva da fala: notas sobre a poética banto-católica no Brasil (2017) e Entre Orfe(x) e Exunouveau: análise de uma epistemologia de base afrodiaspórica na Literatura Brasileira (2017). Na área de literatura infantil e infantojuvenil editou, dentre outros, Os reizinhos de Congo (2004), O primeiro menino (2013); Poemas para ler com palmas (2017, no prelo). Sua obra poética foi reunida nos volumes Zeosório blues (2002), Lugares ares (2003), Casa da palavra (2003) e As coisas arcas (2003). Seus livros de poesia mais recentes são Relva (2015), maginot, o (2016), Guelras (2016), E (2017) e Qvasi – segundo caderno (2017, editora 34).


O poeta Lucas Guimaraens é neto de Alphonsus de Guimaraens. Possui uma produção calcada na remissão literária e no coloquialismo da geração contemporânea, utilizando uma linguagem atrelada ao neo-surrelismo de Murilo Mendes. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1979. Atualmente, é o Superintendente de Bibliotecas Públicas e Suplemento Literário de Minas Gerais e embaixador da UNESCO. É poeta, ensaísta e tradutor. Possui formação em Direito, no Brasil, e em filosofia, na França. Publicou poemas em diversas antologias, periódicos e revistas no Brasil e no exterior (dentre as quais, a Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional, a Revista da Academia Mineira de Letras, a revista Espanhola En Sentido Figurado, a turca Siiristanbul Poetistanbul 2014 e a francesa Caravelles), tendo recebido alguns prêmios literários. Lançou, em 2011, seu livro: “Onde (poeira pixel poesia)”, pela editora carioca 7Letras. Em setembro de 2014 lançou, em Paris, pela editora L’Harmattan, o livro de filosofia “Michel Foucault et la Dignité Humaine”. Em 2015, lançou, pela Azougue Editorial, novo livro de poemas, “33,333 – conexões bilaterais”, com o artista plástico Fernando Pacheco. Em 2017, lançou, em Paris, pela editora L’Harmattan, seu terceiro livro de poemas, “Exil – Le lac des incertitudes”, em edição bilíngue.

BIENAL INTERNACIONAL DE POETAS PARIS/VAL-DE-MARNE

A Bienal Internacional de Poetas Paris/Val-de-Marne foi criada em 1991 por meio da iniciativa do poeta Henri Deluy, com o apoio do Conselho Geral de Val-de-Marne, juntamente com o Ministério da Cultura da França e da Direção Regional de Ação Cultural de Île-de-France. O evento se tornou ao longo dos anos um dos principais festivais de poesia da França e é o mais antigo. Durante esta trajetória, mais de 500 poetas estrangeiros e franceses participaram do encontro. O evento é realizado em diversos locais de Paris, como teatros, bibliotecas, universidades, escolas secundaristas, livrarias, facilitando a troca simbólica entre os poetas o público. As últimas edições contemplaram a poesia da África do Sul, da China, da Austrália, da Coréia do Sul e do Canadá. O presidente atual da Bienal é o poeta Alain Lance e o diretor geral é o poeta e editor Francis Combes.

Para consultar a programação da Bienal clique no link : Bienal de Poesia


Fonte ( texto) : Cultura Minas Gerais

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Hoje, estou artista

© Mariana Keller

O vazio-pleno da natureza

Maio 1959,
Carta à Mondrian

       Hoje me sinto mais solitária que ontem.
       Senti uma enorme necessidade de olhar o teu trabalho, velho também solitário. Dei com você numa foto fabulosa e senti como se você estivesse comigo e com isto já não me senti tão só. Talvez amanhã possa dar também de meus olhos, de minha solidão e de minha teimosia a alguém que será um artista como eu ou talvez mais ainda, como você. Não sei pra que você trabalhava. Se eu trabalho, Mondrian, é para antes de mais nada me realizar no mais alto sentido ético-religioso. Não é para fazer uma superfiície e outra... Se exponho é para transmitir a outra pessoa este "momento" parado na dinãmica cosmológica, que o artista capta. Você que era místico deve quantas e quantas vezes ter vivido "momentos" como este dentro da vida, ou não?
       Dizem que você detestava a natureza - é verdade? Pois eu senti hoje essa transcedência através da natureza, na noite, no amor - como você poderia ter raiva da natureza? Você acha que a obra de arte é o produto de duas polaridades, que é a dinâmica da vida humana? Você estava preso à terra tão profundamente e o vôo no sentido da verticalidade era sua medida?
       Pois a natureza me alimentou, me equilibrou quase que de uma forma panteistica. Mas com o tempo, numa outra crise, já isto não adiantou e foi o "vazio pleno", a noite, o silêncio dela que se tornou a minha moradia. Através deste "vazio-pleno" me veio a consciência da realidade metafísica, o problema existencial, a forma, o conteúdo (espaço pleno que só tem realidade em função direta da existência desta forma...).
       Mondrian: você acreditou no homem. Você fez mais: num sonho utópico, estupendo, pensou em eras vindas em que a própria vida "construída" seria uma realidade plástica...


Piet Mondrian Red Tree Oil on Canvas 1908

       Talvez isto te salvasse da tua própria solidão. Pois eu, meu amigo, não sonho porque não acredito. Não por excesso de realismo mas para mim o coletivo só existe na razão desta desordem de ordem prática e social. Se o homem não pode sentir como é importante esse desenvolvimento interior - chamemos de uma forma que nasce com a pessoa como um punho fechado, talvez se abrindo no primeiro tempo com o próprio nascimento - então ele jamais poderá atingir sua plenitude como a rosa que se abre dentro do seu próprio tempo e morre amorosamente realizada, inteligente e feliz...
       Mondrian, um segredo eu vou contar: às vezes, eu me sinto tão desesperada, porque no momento em que "checo" este problema a solidão, o frio, "o medo do medo" me envolvem com todos os seus braços e procuram fechar este novo tempo que desabrocha na minha forma interior, amassando pétalas frescas e delicadas que levarão novo tempo para se abrirem como se abre um olho devagar, depois de ter levado um bom murro.
       Mondrian, se sua força pode me servir, seria como o bife cru colocado neste olho sofrido para que ele veja o mais depressa possível e possa encarar esta realidade às vezes tão insuportável - "o artista é um solitário". Não importam filhos, amor pois dentro dele ele vive só. Ele nasce dentro dele, parto difícil a cada minuto, só irremedialvemente só. Você seria talvez a chuva que molha a flor que nasceu na areia ou no asfalto, se você prefere, pois é cidade e não natureza.
       Você hoje está mais vivo para mim que todas as pessoas que me compreendem, até um certo ponto. Sabe por quê? Veja só se tenho razão ou não. Você já sabe do grupo neoconcreto, você já sabe que eu continuo o seu problema, que é penoso (você era homem, Mondrian, lembra-se?). No momento em que o grupo foi formado havia uma identificação profunda, a meu ver. Era a tomada de consciência de um tempo-espaço, realidade nova, universal como expressão, pois abrangia poesia, escultura, teatro, gravura e pintura. Até prosa, Mondrian... hoje a maioria dos elementos do grupo se esquecem dessa afinidade (o mais importante) e querem imprimir um sentido menor a ele, quando preferem que ele cresça sem esta identidade para mim imprescindível, numa tentativa de dar continuidade superficial a este movimento. Você bem sabe que, no cubismo, as formas foram várias mas, no sentido mais profundo que era esta nova realidade espacial, foram respeitadas. Só o tempo a meu ver traria continuidade real a este movimento.


Lygia Clark (b. Belo Horizonte, Brazil, in 1920; d. Rio de Janeiro, Brazil, 1988)
       Agora, velho, simpático mestre, diga-me com toda franqueza: meu desejo é deixar o grupo e continuar fiel a esta minha convicção, respeitando a mim mesma, embora mais só que ontem e hoje, eu serei amanhã, pois as pessoas que se aproximaram um dia, há bem pouco tempo, se afastam desorientadas sem enfrentarem a dureza de estar só num só pensamento, sem resguardar o sentido maior, ético, de morrer amanhã, sozinha mas fiel a uma idéia. Diga, meu amigo: é duro, é terrível porque é deixar de ter, mesmo sem me afastar realmente do grupo, pois já se fragmentou a unidade, a verdade dura e terrível feita a sete para se multiplicar em realidades pequenas - reconfortantes por certo, às centenas.
       Hoje eu choro - o choro me cobre, me segue, me conforta e acalenta, de um certo modo, está superfície dura, inflexível e fria da fidelidade a uma idéia.
       Mondrian: hoje eu gosto de você.
                            Lygia Clark[1]


XXX


© Mariana Keller

Hoje, estou artista

Mariana Keller

       À partir dessa carta de Lygia Clark sou capaz de traçar muitos paralelos com as minhas reflexões desse "momento" dentro da vida. Ao lê-la, sinto como se a artista fosse capaz de me traduzir com uma precisão que eu mesma seria incapaz de determinar.
       Talvez seja uma questão mística...talvez seja apenas a subjetividade com a qual ela se expressa. Ou talvez, ainda seja pela magnífica metáfora ao comparar Mondrian à chuva que nutre a flor que nasceu no asfalto que me lembra Carlos Drummond de Andrade em sua A Flor e a Nausea. Pouco importa.
       Peço licença a artista porque faço minhas algumas de suas palavras, hoje me sinto Lygia.
       Todo artista é solitário. Todo ser humano é um solitário. Ao refletir sobre o estar só, a solidão ou o "vazio-pleno", Lygia descreve inúmeras das vezes nas quais se deparou só, chegando ao ponto de comparar sua vida à vida de outro artista. O medo do medo e o desespero...quem nunca se sentiu solitário? Acreditei, ingenuamente, que a solidão era o antônimo da felicidade. Bobagem. Estar só, saber estar só...querer estar só é uma qualidade admirável.
       Ah, o silêncio!
       Só existe uma coisa que me inspira mais do que o silêncio: "o vazio-pleno" da natureza. Eu tenho um fascínio pela natureza. Adoro a cidade e muito, mas de tempos em tempos preciso me distanciar dela. Eu preciso da linha do horizonte. É nessa atmosfera quase material deste "vazio-pleno" que eu me equilibro.
       Essa solidão, esse desespero que dispara o medo e que asfixia é só a falta de ar. Falta do horizonte. Você já reparou que não existe mais a linha do horizonte em São Paulo?
       As linhas do horizonte em São Paulo são verticais e estão no plural. Elas são poligonais dos mais variados formatos que contornam a paisagem construída. Uma linha do horizonte clássica, onde o olhar se perde e os pensamentos divagam dividindo a paisagem em duas, não existe mais.
       Eu preciso ir além, eu preciso ir à algum lugar onde se perca de vista o horizonte e então tudo fica bem. Nesses momentos a forma, o conteúdo e o existencial se encaixam. Mas não é apenas uma questão de espaço físico...
       Eu já acreditei no homem, também acreditei que a "vida construída" poderia ser uma realidade plástica. (Tenho um quadro do Le Corbusier na sala e um poster da Bauhaus no quarto que me lembram da habilidade humana de projetar o espaço); mas também estou de acordo com a Lygia:  o coletivo só faz sentido na beleza e desgraça da desordem na qual vivemos. A arquitetura sozinh\\ já não me basta.
       Capturar a realidade "plástica" da vida não-construída é um desafio e tanto. Se eu fotografo talvez seja para coletar esses momentos e transformar em uma superfície sensorial algo que sou incapaz de traduzir naquela situação. Nesse sentido a fotografia só não me basta.
       Falta o olhar para dentro. Por isso me apropriei de seus olhos, de sua solidão e de sua teimosia. Talvez com uma chuva de Lygia Clark eu possa um dia ser uma artista como ela.
       Adoro a ambiguidade da declaração final que soa como um elogio a princípio. Hoje sim, amanhã talvez.
       Hoje, estou artista.

Xxx



Mariana Keller é nascida em Guarulhos em 1983, trabalha e estuda em Paris. Formada em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, tem formação complementar em fotografia, cenografia e artes visuais. Desde 2013 desenvolve séries fotográficas tendo como tema os Espaços de Paisagem. Em 2016 inicia o master em Esthétique parcours « Téorie Culturelle » na Sorbonne e atualmente cursa a Licence menção « Langues, Littératures et Civilisations Etrangères et Régionales » parcours « Portugais » na Sorbonne.









[1] Escritos de Artistas Anos 60/70, FERREIRA, Gloria e COTRIM, Celilia (orgs), 2006, p.46

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Cíntia Moscovich na Universidade da Sorbonne

Cíntia Moscovich na Universidade da Sorbonne

Daqueles dias em que seu cérebro não sabe o que fazer. E que você se recupera de um mal-estar que o coloca de cama. Daqueles dias que sua única paisagem exterior ( e interior) é a janela do quarto da infância. E a chuva que escorre pela vidraça. Apenas. Até. Até que surge a pergunta. Qual é a cor da chuva ? Cor-de-chuva, diriam os sábios. Cor-de-água, afirmariam os doutos. E você formula um silogismo capenga. Chuva é água. Sua chuva é água. Logo, sua chuva é cor-de-água. Mas você pensa no Tapajós. E no esmeraldado do mar de João Pessoa. Você pensa na água da chuva. E em sua textura. Chuvisco. Chuvona. Chuvinha. Em sua espessura. Garoa. Pé-d'água. Salseiro. Você pensa no gosto da chuva. Dilúvio. Aguada. Você pensa em sua voz. Bátega. E na  sua ausência de cor. E você fica com dó de sua chuva descolorida. De sua chuva que sulca suas faces. E seus olhos que brilham. Até que você pega o livro à cabeceira. E descobre essa coisa brilhante que é a chuva. Essa coisa brilhante que é a chuva de Cíntia Moscovich.

Encontro com Cíntia Moscovich
Quarta-feira dia 8 de novembro
Das 11h às 12h30
Institut Ibérique - Sala 12

Institut Ibérique
31 rue gay Lussac
75005 – Paris



Por conta do Estado de Urgência e do Plano de Segurança Vigipirate, confirmar sua presença através do email : leotonusbr@hotmail.com

xxx

En raison de l’Etat d’urgence et du plan Vigipirate, merci de confirmer votre présence par email à l'adresse suivante : leotonusbr@hotmail.com



Cintia Moscovich é escritora, jornalista, mestre em teoria literária e ministrante de oficinas de criação literária. Com oito livros individuais publicados, participa de mais de três dezenas de antologias publicadas no Brasil e no exterior. Tem publicações individuais na Espanha, Portugal e na Itália. Foi quatro vezes vencedora do Açorianos de literatura da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, além de ter conquistado o prêmio Jabuti (Câmara Brasileira do Livro), o  Portugal Telecom e o Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional. Foi editora de livros do jornal Zero Hora de Porto Alegre. Colabora com jornais e revistas de todo o país.

( Realização e organização Leonardo Tonus) 







terça-feira, 24 de outubro de 2017

Essa sobra de mim


Essa sobra de mim


Reginaldo Pujol Filho

Estavas tão bonito, recolhendo meu olhar pela calçada. E eu aqui a te observar com o olhar que me sobrou. Recolhias meu glóbulo que agora nem sei se ainda é olhar, fora do meu rosto. Minha orelha que pende no meio-fio é ouvir? E essa mão minha na mão tua que tiras do asfalto, como se me tirasse para dançar? Pena ser somente ela quem vai, já que meu braço foi descansar lá do outro lado no momento em que o carro me partiu em duas, três, quatro, tantas. Mas agora sou apenas uma, um olho só, uma cabeça só a te mirar tão lindo. O que sentes neste exato momento em que seguras firme uma das minhas coxas? Percebes minhas horas de academia, meus anos de balé?

Tem nome essa tua profissão de recolher meus pedaços, meu sangue do chão? E importam nomes agora que encontrei um homem capaz de tocar cada pequeno canto de mim? Olha, que incrível, tu reparas, eu era feita de mínimos detalhes, notas o mindinho do meu pé esquerdo que, não imagino como, se desgarrou, foi para longe dos quatro irmãos, que devem estar ainda com o pé (com a perna) em algum lugar que este único olho que me resta não consegue alcançar.

Quem me dera ter sido forte e resistir ao impacto do para-choques, do capô, dos estilhaços, quem me dera ter caído inteira no asfalto, para depois ter caído inteira nos teus braços. Mas, fosse assim, tu virias me recolher? Ou seria um enfermeiro, uma enfermeira, cuidando para que eu sobrevivesse?

Isso sim seria a morte, não descobrir que algum homem, alguma vez na vida, poderia recolher meu tronco com o zelo, com o carinho e com a firmeza com que pegas esta parte de mim. Veja, lindo, teu olhar agora encontra este meu. Vens por ele ou pela cabeça, ou, devaneio, por isso tudo que sinto? Sinto aonde se meu coração já está naquele saco preto? Mas sinto, sinto, sinto em algum lugar dessa sobra de mim que agora sou, sinto que esse homem que recolhe minha cabeça da calçada como se fosse me dar um beijo, é o homem da minha vida, mesmo que nessa hora derradeira, em que dela me despeço.

Estás tão bonito aí fora, largando minha cabeça aqui no saco preto.

 (conto do livro inédito Por que estamos todos juntos se somos diferentes?)

Xxx



Reginaldo Pujol Filho (Porto Alegre/1980) é autor de Só Faltou o Título (Record, 2015), Quero Ser Reginaldo Pujol Filho (Não Editora, 2010) e Azar do Personagem (2007). É mestre e doutorando em Escrita Criativa pela PUCRS e tem pós-graduação em Artes da Escrita pela Universidade Nova de Lisboa. Publica ensaios e resenhas em espaços como O Globo, Zero Hora, Suplemento Pernambuco. Organizou a antologia Desacordo Ortográfico (2009), que reúne 19 nomes de 5 países lusófonos e é curador da Coleção Gira, de literatura de língua portuguesa da editora Dublinense. Leciona e coordena cursos de criação literária como o .TXT (Perestroilka) e “Quem está falando – o narrador com personalidade”.

www.reginaldopujolfilho.wordpress.com
www.porcausadoselefantes.blogspot.com

@Quero_Ser

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A Pitonisa do Cambuci

A PITONISA DO CAMBUCI

por Bruno Cirillo

Cristina Judar assume a voz de quatro personagens, entre eles um genial Serafim, no seu primeiro romance, Oito do Sete, que narra encontros, desencontros e escolhas amorosas, indo de São Paulo a Roma com uma bagagem cheia de referências peculiares

Se os escritores escrevem porque precisam sobreviver - e não por motivos divinos, o que é discutível - Cristina Judar não brinca em serviço. Autora de dois livros, com diversas colaborações na imprensa e no ramo das HQs, ela é uma verdadeira profissional. Metáforas e comparações como " terremotos são o orgasmo do planeta" e "o intestino é um baixo coração" mistificam Oito do Sete, seu primeiro romance, lançado neste ano pela editora Reformatório. No livro, Cristina pinta um quadro onírico com detalhes cinematográficos, musicais, das artes plásticas, sem que isso o torne pedante, pois o que ela faz é colocar a sua erudição (bagagem cultural adquirida nos anos 1980 e 1990) a serviço da narrativa.
Oito do Sete é livro para quem gosta de literatura, como certos diretores fazem filmes para cinéfilos. Mas também é um livro pra todos. Se há demasiada abstração no início, que descreve o nascimento, infância e adolescência da Magda, ela e sua amante, Glória, vão se revelando nas páginas seguintes como uma fotografia analógica. Num exemplo de maturidade literária, Cristina escreve na justa medida de quem conhece a própria força. Descreve sonhos, mergulha na essência dos personagens e constrói frases de um realismo evanescente, olhando ironicamente para o abismo antes de voltar à realidade palpável. "E daí até arrumar as melhores palavras para, nelas, fazer caber tudo o que existe, o esforço necessário antes de se chegar ao extrato das coisas - o que chamam literatura."

O que você acha de panteísmo?
Nossa, que difícil. Você diz em que sentido?

A crença em Deus como representação do universo e das forças da natureza. Ou do politeísmo, que é a crença em diversos deuses, o que você acha?
Eu acho ótimo. Você pega a cultura hindu, por exemplo, que é muito forte. A nossa africana também. Acho maravilhoso, porque é a diversidade da natureza expressa em deidades, em figuras, não é uma coisa única, com uma cara só. A pessoa que está conectada com esse politeísmo tem uma visão mais real do que é a vida e a natureza.

E de uma deusa mulher?
Isso é incrível em termos de simbologia e de significado para as mulheres. Eu acho incrível que existam essas deidades. Deusas. Eu gosto muito, eu tenho uma afinidade muito grande, embora eu não me considere, hoje, uma pessoa religiosa.

O escritor está em missão sagrada, profana ou é antes um profissional que depende daquilo para sobreviver - o que Balzac chamava de 'operário das letras'?
Não dá pra unir tudo: profano, divino e operário das letras? Eu acho que une tudo isso. Mas eu não entendo a escrita como um trabalho que alguém me pagou, falando: 'olha, agora você está sendo uma operária das letras' - no sentido de executar um serviço a mando de outrem. Aí não. É uma coisa muito individual e muito libertária. Até me tira dessa cadeia de ser operária, de estar dentro de um sistema e executar ordens ou movimentos repetitivos. Até pode ser um movimento repetitivo, mas pra mim mesmo e porque quero, não porque estou sendo operária para os outros. 

A Bíblia é o livro primordial, ou um dos livros primordiais?
(Você está puxando para o lado religioso - por quê? Justo comigo.) Deve ser pra muita gente, mas para mim não.

Onde se baseia toda a literatura, quero dizer.
Acho que não tenho condições de analisar com esse nível de profundidade a literatura que remete à Bíblia. Não sei, algumas pessoas devem acreditar e ter embasamento pra isso. Eu não tenho - porque eu tenho um conhecimento muito limitado da Bíblia, então não posso fazer esse tipo de afirmação. Eu digo que no meu caso, especificamente, não.

O pensamento pagão é muito presente no Oito do sete.
O que te levou a achar isso? Que o livro é pagão?

Tem uma passagem com receita de feitiço, por exemplo.
Tem a passagem da benzedeira.

Eu achei que você tivesse referências pagãs.
Eu tenho. Tenho por interesse pessoal, por pesquisas e vivências que já fiz, porque me aproximei de grupos. Não pratico, hoje, mas já tive muito interesse. E foi um momento importante pra mim, eu aprendi muita coisa. Mas acho que no livro... é interessante você falar disso porque geralmente o pessoal me procura pra falar do relacionamento dos personagens. A questão da fé é muito presente no livro, como um dos questionamentos maiores. E que bom que você percebeu, não ficou só na questão de 'ah, eles fazem sexo...' - aquilo é uma passagem, e nem é a mais importante. É uma reflexão sobre essa questão mesmo, religiosidade e fé.



Na sua descrição de Roma, você diz que a origem da cidade remete às pitonisas, que são bruxas mitológicas.
Eu fui a Roma e procurei resquícios pagãos na cidade. Acho ótimo que você tenha reparado nas pitonisas. Teve um dia que eu fui para o Panteão [templo romano usado pelos antigos antes de virar igreja católica] e fiquei olhando para aquela abóboda, me perguntando o que havia antes do cristianismo, o que ainda havia ali de pagão. Mas eu não achei quase nada, saí muito frustrada. Foi tudo suplantado, totalmente, pela Igreja.

Você é ateia?
Não. Eu não sei explicar. Durante a produção do livro, eu tive vários sinais. Eu sou uma pessoa supersticiosa. Engraçado isso, não é? Eu não tenho uma fé especifica, uma religião, eu nego muitas coisas, mas sou uma pessoa extremamente supersticiosa. Eu vejo sinais, eu leio as coisas como sinais. Um dia cismei que Roma deveria entrar no livro, aí logo depois tive um encontro de poesia e o primeiro poema era sobre Roma. Foi um sinal. Depois aconteceram vários fatos em sequência que interpretei como sinais. Tora hora aparecia Roma na minha frente. Eu pensei: 'gente, não é possível'. É igual aquele lance do 11h11, sabe? Você começa a ver os números, mas não é que eles resolveram aparecer, é você que...

...está disposto a enxergá-los. Sim. 
Mas eu entrei nessa pira, vamos dizer assim, e isso me fez bem. Eu pensei: é pra ser Roma mesmo. Me baseei nisso para compor o Serafim, e fui pesquisar algumas pinturas. É uma figura que está no topo da hierarquia angelical, mas existem poucas representações suas. Eu comecei a pesquisar como ele foi representado no decorrer dos séculos, mas é super raro achar quadros dele. Escrevi para o Vaticano, mas ninguém me respondeu. Em Londres, eu fui à National Gallery e encontrei uma imagem. Nossa, aquilo foi demais. Na minha frente, aquele quadro gigante do Serafim. Eu fiquei exultante, o segurança do museu não entendeu nada.

"Ter seis asas é estar nu", diz o Serafim. Ele parece um daqueles anjos do Wim Wenders, que também são figuras da cristandade. A sua obra faz, afinal, concessões à cruz e à espada, ou pelo menos à base teológica do cristianismo.
Com certeza. Cito e respeito.  Eu não nego completamente, está na obra e eu estou fazendo uso de um personagem que faz parte de toda essa cosmogonia. Eu criei o Serafim de um modo que ele pudesse ser real, eu deixei ele mais próximo de nós. Em muitos momentos, em várias passagens, ele está próximo daquelas mulheres e continua sagrado. Em alguns momentos ele interfere e transmite o fogo necessário para determinados momentos. Independente de ser um fogo sexual ou o fogo do mais alto nível intelectual, pra ele não existe diferença. Pra ele é tudo igual. Ele tem a capacidade de transitar por todos esses céus que podem ser vistos como camadas ou etapas, e ele interfere com seu fogo. Ele está sendo divino do mesmo jeito. Não existe essa coisa de: 'ah, ali ele não podia ter ido'. Ele podia, e pra ele está tudo normal. Ele está exercendo a natureza dele na sua completude.

[GRIFO - p.144, Oito do sete - Serafim:] "Como disse, tenho a capacidade múltipla de nascer. E de subir e descer por aí, vagueando, o que se denomina vulgarmente como: voar. Não é bem o voar dos pássaros, que planam e, prioritariamente, só seguem em frente ou traçam círculos e zigue-zagues ou rasantes. Para mim é outro lance, na já referida leveza, mas em uma dinâmica diferente. Não estou sujeito a temperaturas, pressões atmosféricas ou vento, o que para pássaros e aviões é fator determinante e pode ser aniquilador. Para ficar mais fácil de entender, eu posso voar em todas as direções e também recuar, sem ter que obedecer a uma ordem exata e linear. É um voar subversivo, que não obedece a regras. Mais para nuvem de chuva e vapor do que para projétil. Obedeço a leis que desconheço ou que são inexistentes. Quando me questiono sobre essas coisas devo ficar com cara de distraído, o que o povo interpreta como arrogância. Basta analisar os retratos que de mim fizeram até hoje para ter certeza do que estou falando. Sorte que isso não me incomoda, não tenho fígado."

Glória, Magda, Serafim e Roma. São quatro lados de uma mesma alma ou pura criação fictícia? É possível dissociar a obra do autor?
A primeira parte: não, são diferentes faces relacionadas entre si. E são papeis que se entrecruzam. Até a cidade, que serve de pano de fundo para um capítulo, também é meio pessoa, tem alma, assim como os outros três. Estão todos relacionados e cada um apresenta a sua leitura, a sua vivência de cada situação. Tem um âmago comum, mas os personagens se expressam de forma diferente. São várias faces relacionadas a uma realidade única.



Você acha que conseguiu se dissociar completamente da obra, quer dizer, contar uma história sem fazer parte dela?
Não. Acho meio impossível e desconfio do escritor que diz não haver nada seu na obra. A história passou pelo meu interior, pelas minhas entranhas, pelo meu pensamento, pelo meu sentimento, até ser expresso pelas minhas palavras. É difícil dizer que não há relação, que é algo totalmente externo. Lógico que tem muita coisa minha ali, muitas reflexões sobre várias coisas. E, num momento como esse, o papel de quem escreve é conectar-se. Há coisas necessárias, que precisam ser refletidas. Que a cultura traga isso. Que a arte e a literatura tragam isso. Eu não consigo produzir algo totalmente à parte do que acontece no mundo.

Negar-se a seguir o ethos contemporâneo e se entregar à própria sensibilidade, o que me parece ser premissa de qualquer artista, não é algo como perder o medo da morte - ainda que a nível simbólico, de escancarar a própria imagem?
Você quer que eu responda isso sem beber nada? Ai, não sei nem por onde começar. Acho que tem isso, sim, uma coisa meio de tacar o 'foda-se' e não se preocupar como aquilo vai ser recebido. E, claro, até pensando na questão de vida mesmo, e na questão literária, estou correndo o risco de ser vista das mais diferentes formas, o que pode me prejudicar ou não. Mas aí é que está, se você age de outra forma, no extremo da cautela, eu não sei até que ponto isso é garantia de que você também não vai ser... Você ainda pode terminar sendo visto de uma maneira que você não gostaria ser visto, e você ainda não fez aquilo que você queria. Quer dizer, frustrado. Então, pelo menos, eu fiz, eu falei tudo ou quase tudo o que eu gostaria. Agora, se eu vou ser interpretada de uma forma que eu não esperava, isso faz parte do jogo. Não dá pra esperar unanimidade ou aceitação o tempo todo.

A escrita é um ofício penoso?
Não. Não é penoso, envolve muito prazer e realização. Não é um sofrimento, não é um fardo. Pelo contrário, é uma das poucas coisas que trazem significado, sentido. Até brinquei uma vez: 'a literatura é a maneira que encontrei para dar algum significado à minha esquisitice'. Lógico que há momentos complicados, se a gente falar de uma parte mais técnica, um trecho difícil de resolver, isso é normal, como com qualquer escritor. É claro que tenho esse tipo de problema, mas não é um sofrimento, como tem gente que proclama que é um grande martírio. Pra mim é bastante prazeroso. 



No seu primeiro livro de contos (Roteiros para uma vida curta), parece haver um esboço do estilo intrincado que você aprimora no romance, onde sua proposta estética está mais consistente e bem acabada. Como você vem trabalhando esse processo criativo? 
Roteiros é um livro que me preparou muito para o que vinha depois. Eu o considero um trabalho bem experimental, ali tem vários formatos que eu quis usar, e isso me ajudou muito. Reflete diferentes momentos e diferentes processos de produção. Agora, para o Oito do sete, acho que fiz um trabalho como muito escritor faz, tentar achar uma linguagem que ficasse própria do trabalho, mas com suas diferenças de acordo com cada parte. A voz do Serafim é diferente das de Magda e Glória. Eu fico feliz de saber que dá pra perceber essa singularidade, é legal a gente saber que existe uma linguagem em forma de expressão que tem a minha cara. Não quer dizer que pro resto da vida eu vou escrever dessa forma, estou escrevendo um novo livro em que vou por outro caminho, vou sentindo outras coisas.  

Mas no romance estão presentes técnicas que você exercitou no outro livro.
Não sei dizer. Acho que foi mais intuitivo. Eu não pensei 'agora vou usar a técnica X, agora a Y'. Isso comigo não rola. Vejo escritores que usam até planilhas, direcionamentos, uma série de recursos que eu, particularmente, não conseguiria usar. Não é que fecho o olho e sai. Eu sei o que vou fazer em cada parte, tenho um planejamento. Mas não é tão técnico naquele sentido de seguir à risca um determinado recurso. Isso não. Não penso muito nisso, não. Depois eu vou burilando pra chegar naquilo que eu quero. Eu tenho uma ideia clara do que quero, mas não é tão mecânico. Não sei se chega a ser totalmente intuitivo. É um meio termo.

Eu tenho uma última pergunta.
Já?!

Uma brincadeira, na verdade. Eu cito nomes de autoras e você me passa a sua impressão sobre elas.
[Ela topa, rindo.]
Jane Austen
Ainda não tive curiosidade de ler.

Virginia Woolf
Mestra total. Adoro. Venero. Ela foi pioneira em vários aspectos, quebrou barreiras, foi inovadora, ousada. Cada vez que leio Virginia Wolf, me apaixono mais pelo que ela é capaz de fazer. Acho ela genial, é a escritora que eu mais gosto.   

Simone de Beauvoir
Referência total que pauta a literatura e a vida. Quer dizer, ela pode e está presente nos livros e fora deles. A força dela vem disso. Não é influenciar o pensamento, é muito mais, é uma questão de transformar mesmo o pensamento de quem a lê.

Clarice Lispector
O que dizer dela além do que já se fala? Eu não acho que ela foi subestimada, mas que cada vez mais as pessoas vão descobrir a genialidade dessa mulher como escritora.



Hilda Hirst
Impressionante. É um trabalho fundamental da nossa literatura, algo muito representativo. É um tipo de literatura que pra mim fala muito, me toca muito. Hilda Hirst, mais do que Clarice Lispector.

Cecília Meirelles
Nunca li nada dela.

Svetlana Aleksievitch
Também ainda não.

Scholastique Mukasonga
Estou com o livro em casa. Não conseguir ler ainda.

Qual livro você está lendo agora?
Alguns. Eu leio, paro no meio, abro outro. É um processo meio angustiante pra falar a verdade. [Um riso seco e agudo.] Eu estou no meio de um livro de contos da Virginia Woolf, que é uma coisa sensacional lançado pela Cosac Naif. Eu comecei a ler um do Roberto Menezes, que lançou um dia desses em São Paulo pela Patuá, Palavras que devoram lágrimas. Eu comecei a ler um do Jorge Filholini, Somos mais limpos pela manhã. Que mais? Estou no meio de um do Beckett, aquele preto e branco. Eu leio muito devagar, meu ritmo é muito lento. Às vezes as pessoas dizem que leram cinco livros em um mês. Para. Se você gostou, não é possível. Quando eu gosto muito do livro, eu sou capaz de ler uma mesma frase 50 vezes, eu volto e eu volto e eu volto, porque não quero perder o sentimento que aquela frase trouxe em mim. Então eu leio muito devagar, num ritmo totalmente diferente da velocidade que se espera, e da nossa realidade hoje, que é tudo muito rápido, na internet, notícia atrás de notícia. Eu levaria um século pra ler tudo o que quero. Porque é lento, eu leio muito devagar. E, se gosto do livro, mais devagar ainda.

XXX




Cristina Judar é escritora e jornalista, autora e roteirista das HQSLina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir). Seu livro de contos Roteiros para uma vida curta (Editora Reformatório, 2015) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto de prosa poética “Questions for a Live Writing” e passou a integrar o Archive of The Now, uma coleção digital de poetas contemporâneos. Contemplado pelo ProAC de Literatura 2014, Oito do sete é o seu primeiro romance.

XXX



Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural