quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Eles eram muitos cavalos

Eles eram muitos cavalos

Leonardo Tonus, livre docente na Universidade Paris-Sorbonne, na França, coordenador do núcleo de estudos lusófonos da instituição, uma das pessoas que mais têm se esforçado para propagar a literatura brasileira pela Europa, leu trecho de seu livro favorito de Cecília Meireles, sentado na varanda do histórico casarão Ramos de Azevedo, sede da Global Editora, em São Paulo. Um grande momento, em si.
Para ouvir a leitura do trecho do livro clique no link abaixo :


Fonte : Blog da Global Editora

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Leonardo Tonus é Livre Docente e Coordenador do Departamento de Estudos Lusófonos na Université Paris-Sorbonne (França). Membro do Conselho Editorial e do Comitê de Redação de diversas revistas internacionais, atua nas áreas de literatura brasileira contemporânea, teoria literária e literatura comparada, com pesquisa sobre imigração. Publicou vários artigos sobre autores brasileiros contemporâneos e coordenou (ou co-organizou) a publicação, entre outros, dos ensaios inéditos do escritor Samuel Rawet (Samuel Rawet : ensaios reunidos, 2008), do número 41 da Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da edição  da Revista Ibéric@l, em torno da nova cena literária no Brasil e da edição em francês La littérature brésilienne contemporaine com a Revista Pessoa. Condecorado Chevalier em 2014 na ordem das « Palmas Acadêmicas » pelo Ministétio da Educação francês, foi nomeado Conseiller Littéraire pelo Conseil National du Livre para o Salon du Livre de Paris de 2015 que teve o Brasil como país homenageado. Participou  da Delegação Oficial brasileira no Salão do Livro de Göteburg (2014 e 2016) e em 2015 foi condecorado Chevalier na ordem das « Artes e das Letras » pelo Ministério da Cultura francês. Leonardo Tonus é o idealizador e organizador do festival europeu « Printemps Littéraire Brésilien ».


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Todas por uma


Todas por uma

Por Claudia Nina
        

         Porque a verdade era um relance. A frase está em um dos contos referenciais de Clarice Lispector: “Feliz aniversário”, de Laços de família. Estavam por obrigação na festa da senhora – “a mãe de todos” -  que completava 89 anos. Cada qual amargava a seu modo, com algum disfarce, a má vontade quanto ao compromisso diante do bolo aceso. Com raros diálogos, as pessoas quase não se falam. Mas o narrador, este, sabe de tudo. Especialista em mudez, conhece o significado secreto do punho fechado sobre a mesa – “mudo e severo sobre a mesa”. De tudo o que sabe, compartilha, porque “é preciso que se saiba”. Os relances montam o jogo de olhares dos personagens. Escondem pensamentos (azedos) que vão muito além das cenas, como nas reflexões da aniversariante: “O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade. O rancor roncava no seu peito vazio”.
         “Truth was a glimpse”. A tradução para o inglês da frase foi pinçada pelo suplemento literário do New York Times em 2015, quando elegeu Clarice Lispector à categoria de gênio escondido do século 20 na resenha sobre The complete stories (tradução de Katrina Dodson, lançada nos EUA e no Reino Unido). O livro entrou na lista dos 100 melhores livros de 2015 feita pelo jornal. Todos os contos, reunião de 85 narrativas curtas, chegou ao Brasil um ano depois pela Rocco, com organização e prefácio de Benjamin Moser, americano, biógrafo de Clarice e responsável pela edição do volume em inglês. A frase em questão não é só uma linha de impacto - poderia servir de epígrafe à obra. Não é à toa que o NYT tenha lhe dado ênfase; um “relance” é algo peculiar a Clarice. Interessante que tal percepção tenha sido captada por um olhar estrangeiro com a devida importância.
Ler Clarice Lispector é um aprendizado para a percepção de relances, assim como em toda e qualquer boa literatura. A “verdade” à qual a autora se refere no conto não é uma assertiva absoluta e inalcançável, mas a verdade íntima da existência de um minuto, um segundo, que não se repetirá. Como nas cenas, inclusive as minúsculas, que povoam o aniversário da matriarca – quem perdeu, não viveu. Nem viverá.
Em geral, as pessoas vão de um extremo ao outro: cultiva-se uma histeria coletiva, com repetição de frases na internet (que Clarice não escreveu) ou o pavor pela escritora supostamente difícil. Na realidade, falta muitíssimo para que a excepcional autora de A hora da estrela (obra que primeiro caiu nas graças do biógrafo) seja absorvida.


Por isso, o trabalho de Benjamin Moser é maior do que se pode imaginar. Tanto a biografia Clarice, (CosacNaify) quanto este volume de contos multiplica o alcance com sua presença física, atuante em vários espaços para onde é chamado; quase um “sacerdócio”. Ele começou a estudar a vida de Clarice Lispector na faculdade e acabou devorando a ficção. Não parou mais. Com habilidade e entusiasmo, consegue despertar curiosidade pela leitura e desejo de conhecer de perto a trajetória biográfica singular da autora, que nasceu na Ucrânia em 1920, mas partiu bem pequena com a família para o Nordeste, onde passou a infância.
Os relances de Clarice espalham-se por textos que precisam ser conhecidos também fora dos ambientes acadêmicos, para além das teses universitárias. Moser busca os despossuídos, não os iniciados. Tirar de Clarice a aura de escritora inacessível, levar a leitura de suas obras a lugares imprevistos. A seara é gigantesca, há um trabalho imenso pela frente. Quanto desafio. Quem sabe ele seja capaz de operar alguns milagres.
O entusiasmo de Moser é bastante clariceano. Isso porque, nos textos da autora, especialmente nos contos, existe uma fé oculta nas pequenas alegrias do cotidiano, “apesar de”. Apesar dos entraves - dor, morte, pobreza ou abandono – um amor desmedido, meio divino, pelo delicado essencial da vida surge quando menos se espera, como a esperança-inseto que de repente aparece na casa, e as crianças se alvoroçam, no conto “Uma esperança”. A visita é o ponto de partida para reflexões: “Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la”.
 Os contos são a melhor porta de entrada para este mundo necessário. Um motivo e tanto para celebrar uma edição que reúna todos os trabalhos em um mesmo volume. Com uma produção gigantesca, foi nos contos que Clarice mais se superou ao criar um projeto estético genial, seja pela diversidade dos temas abordados, seja no exercício de uma linguagem exótica e em permanente transformação, capaz de surpreender o leitor nas construções de sentido e na justaposição incomum das palavras. Sem serem, em um primeiro momento, inacessíveis, como talvez os romances mais densos e pedregosos, a exemplo de A paixão segundo GH, A maçã no escuro, O lustre ou A cidade sitiada.
Um leitor de 11 anos, por exemplo, pode perfeitamente ler o belíssimo “Restos do carnaval”, em Felicidade Clandestina, e chorar de emoção. O conto é escrito por um “eu” que remonta à infância da própria autora no Recife, entrelaçando ficção e realidade de forma absolutamente impossível de se detectar o que é real e o que é invenção. Escreve, “de coração escuro”, lembrando a mãe doente (referência biográfica), no milagroso carnaval que lhe permitiu fantasiar-se com as sobras de papel crepom rosa do figurino da amiga. Qualquer leitor independente é capaz de impactar-se com os instantes de alegria roubada do assombro de ter uma mãe doente em casa, em um momento que era para ser feliz - só que não. Sensibilidade a partir de relances. A leitura de Clarice é mais do que um desafio intelectual, é uma experiência emocional inusitada. Eis um trecho do belíssimo conto, repleto de um agridoce que é bem a marca destes textos reunidos em Felicidade clandestina, publicado pela primeira vez em 1971:
“Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. (...) fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava. Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina”.

Na apresentação ao volume, Benjamin Moser enfatiza a descoberta do pioneirismo, não só no Brasil como no mundo: Clarice Lispector seria a primeira escritora de que se tem registro a produzir, durante a vida inteira, obras que capturam todas as fases de uma mulher da classe média, burguesa, ocidental, casada, com filhos, da juventude à velhice. Um trabalho que, dos 19 aos 56 anos, não foi interrompido por nada - casamento, filhos, exílio não a fizeram parar. Enfrentou inclusive a doença e a dificuldade financeira, foi até os últimos momentos escrevendo, não sucumbiu ao suicídio ou às drogas – “O terrível dever é ir até o fim”, como a própria um dia escreveu.
Todos os contos permite uma leitura em perspectiva que revela o quanto Clarice evoluiu em sua própria história literária. Estão lá os primeiros contos publicados antes dos 20 anos, como “O triunfo”, “Obsessão” “Cartas a Hermengardo” entre outros, nos quais, página por página, Clarice se aproxima assustadoramente de si mesma. Na corda estendida, que vai dos primeiros aos últimos textos, equilibra-se o tempo das personagens, desde jovens indóceis e desafiadoras, passando pelas donas de casa em busca de seus pontos “F” (que quase nunca as levam ao marido, mas alhures, às fugas), alcançando as mulheres maduras e solitárias, até as senhoras idosas, como a aniversariante de 89 anos.
Nas histórias iniciais, sobressaem-se mulheres às voltas com seus primeiros sustos, mergulhadas em imaginárias horas perigosas: como escapar à rotina, ao tédio e a elas mesmas? Neste sentido, “A fuga”’ é um texto emblemático e antecipa alguns contos de Laços de família, como “Amor” e “A imitação da rosa”: “Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma – primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam”.
O estranhamento e a capacidade de escrever nas entrelinhas, subtraindo obviedades, são traços marcantes, desafiadores. De repente, o leitor se surpreende com Clarice sendo Clarice. Como nas últimas linhas de “Cartas a Hermengardo”: “E se não puderes seguir meu conselho, porque mais ávida que tudo é sempre a vida, se não puderes seguir meus conselhos e todos os programas que inventamos para nos melhorar, chupa umas pastilhas de hortelã. São tão frescas”.


         Quando todos os contos da autora são dispostos assim, em um grande tabuleiro, lado a lado, fica mais evidente observar a força com que Clarice mergulha no universo feminino. A legião estrangeira (1964), por exemplo, reúne dois textos que estão seguramente entre seus melhores trabalhos: “Os desastres de Sofia” e “Viagem a Petrópolis”. Entre uma personagem e outra, cabe uma existência inteira. (Vale lembrar que este primoroso livro de contos não foi tão celebrado quanto deveria à época, talvez porque tenha surgido simultaneamente ao romance A paixão segundo GH, também de 1964. Duas obras essenciais, que precisam ser saboreadas sem pressa).
Em “Desastres de Sofia”, Clarice recorre mais uma vez a um “eu” que poderia ser confundido com ela mesma – ou não, mas isso não importa – para contar as aventuras da menina às voltas com um professor por quem desenvolve uma exasperada forma de amor. Ela o odeia na mesma medida que elabora um cuidadoso jogo de sedução, do alto de seus 9 anos de idade, humilhada por não ser uma flor e torturada por uma infância eterna.
Até o dia em que o professor oferece o desafio de escrever uma redação a partir de uma história que ele conta. A menina ouve com desdém, preparando-se para escrever “com suas palavras” um texto que subvertesse a mensagem contida na ideia da composição proposta. Experimenta as estratégias da conquista secreta com sofrimento e insegurança. Afinal, ela “não sabia como existir” na frente dele. Novamente aqui, a poética dos “relances” monta a estratégia das cenas:
         “É que na falta de jeito de amá-lo e no gosto de persegui-lo, eu também o acossava com o olhar: a tudo o que ele dizia eu respondia com um simples olhar direto, do qual ninguém em sã consciência poderia me acusar. (...) E conseguia sempre o mesmo resultado: com perturbação ele evitava meus olhos, começando a gaguejar. O que me enchia de um poder que me amaldiçoava”.
         No mesmo livro, alguns contos à frente, o frescor apaga-se por completo. Entra-se no mundo de Mocinha, “uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo”. Assim começa o impactante “Viagem a Petrópolis”.  A forma como apresenta a perambulação da personagem por um espaço que a acolha é desconcertante. O narrador sabe de tudo e partilha os assombros. Conhece as reminiscências muito íntimas, como o remorso que a velha sentia quando se lembrava dos gritos que dava com a filha Maria Rosa, falecida ainda jovem: “Lembrou-se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar”.
Só no mundo, marido e filho igualmente mortos, este último atropelado. Uma profunda piedade por aquela senhora-sequilha agiganta-se à medida que ela caminha de uma rejeição à outra, pois ninguém da família a quer. A solução fatal acontece como um espanto. A velhinha é revolucionária quando decide abandonar-se ao abandono: “A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu”.
         Nos contos tardios, Clarice Lispector se aproximou da primeira pessoa de forma diferente; não é mais o “eu” da infância, como nas histórias de Felicidade clandestina, mas o “eu” fragmentado, movediço, dos escritos não coesos que rumam sem desfecho, como no texto “É para lá que eu vou”, no qual a definição de conto entra em pânico. Clarice, é preciso lembrar, não acreditava em gêneros, o que fica mais evidente em seus em textos-experimentos. Mas é preciso igualmente que se saiba: a estrutura sempre esteve a ponto do colapso, pois, mesmo nos contos do início, já se poderia prever abalos sísmicos no interior dos parágrafos. Basta ler com cuidado. Pedaços do futuro cintilam em textos como “História interrompida”: “(...) por isso que a vida se resumia num monte de cacos: uns brilhantes, outros baços, uns alegres, outros com um ‘pedaço de hora perdida’, sem significação, uns vermelhos e completos, outros brancos, mas já espedaçados”.
         Os contos cronologicamente distantes e agora dispostos lado a lado facilitam ainda o jogo do reconhecimento entre situações e temas que se repetem na obra como um todo. Além de ampliar a devoção de quem já é iniciado. Inevitável: Clarice ganha na releitura, pois o estranhamento inaugural não se esvai quando se lê, por exemplo, um conto como “O búfalo” pela quinta vez. E o que dizer de “O ovo e a galinha”, um dos textos mais enigmáticos da autora, sempre e cada vez mais caleidoscópio, que entrou na categoria de conto só por falta de opção? Talvez aí esteja um pouco do mistério que envolve a escrita da autora: a qualidade de ser absolutamente inesgotável em si mesma.


         O culto às frases pode ser também parte do jogo da leitura. Por que não? Clarice sabia cravar impacto em poucas palavras, o que explica a facilidade das citações. Mas é bom contextualizar as frases, para que se cultive a sede em buscar a fonte. “Ao mesmo tempo que imaginário – era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas”. Eis o mundo de Clarice Lispector a ser descoberto.
(A citação está no conto “Amor”, de Laços de família).

TRECHO
“Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso. Mas não tinha uma palavra sequer a dizer. De porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranquila como num trem. Que já partira”.  (Do conto “A imitação da rosa”).

Texto publicado no Jornal Rascunho.


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Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest). Em 2016 participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien et foi finalista do Prêmio Rio de literatura. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ler é mais importante que escrever


Ler é mais importante que escrever

Por Marcelo Maluf

A palavra literária só resistirá ao tempo se houver leitores. O texto só tomará corpo, na alma e na mente de cada leitor, se for lido. E como disse Tzvetan Todorov: “O leitor, por sua vez, procura nos livros o que possa dar sentido à existência”. Mas para que existam leitores se faz necessário dar acesso pleno à alfabetização, para que o leitor possa ter amplo domínio da leitura e capacidade de compreensão de todos os tipos de textos. Havendo isso, o leitor nasce e o escritor se faz. Afinal de contas, como sempre digo, temos sede e fome de fabulação.

Sem a consciência de que não há nada maior do que o leitor, nós do meio literário, de toda cadeia do livro, ficaremos sempre isolados, presos em nosso microcosmo. Sem prestar essa reverência à leitura, definharemos. A minha causa tem um nome: o leitor. O leitor que fomos, somos e o que seremos. Estar em contato íntimo com ele. Esse é o maior desafio da literatura brasileira contemporânea: se aproximar do leitor, valorizar os professores, os mediadores de leitura, os bibliotecários, e não apenas os críticos, jornalistas e acadêmicos. Possibilitando a todos o mesmo lugar de importância.

O que, talvez, precisássemos compreender, não só no campo das ideias, mas no da prática, é a interdependência que existe entre prosadores, poetas e seus leitores. A liberdade de ler e não ler, escrever e não escrever é de todos. Trata-se de uma escolha. Mas o fato é que vivemos ainda hoje, uma crise da leitura, fruto da crise do pensamento, das violações de direitos básicos, das injustiças sociais, do desencorajamento de ser o que se é, da devastação da educação e da cultura. Além de um cenário editorial dominado, brutalmente, pelos fenômenos de mercado. A verdade é que se lê muito pouco os autores brasileiros contemporâneos. E é aí que nos encontramos como criadores. Flutuando. Buscando um processo criativo, autêntico, livre e profundo. Mas sim, a nossa relação com o cenário descrito acima é de uma dependência mútua. Fazemos parte. Por isso, ir ao encontro do leitor: provocá-lo e convidá-lo para dançar se faz necessário todos os dias. Nas feiras, nos clubes de leitura, nas escolas, nas bienais, na casa do vizinho, no bar, na rua, nas bibliotecas, no ônibus, nos trens, nos asilos, nas prisões, nos saraus, enfim, estar presente no mundo. Participar. Cada qual encontrará o seu melhor jeito. Cada qual saberá o seu caminho. Ter a consciência de que o processo será longo e cheio de obstáculos. E exatamente por isso, persistir.

Mas, ler o quê?
Ler o universo e ler o umbigo, o fato, a poesia, a revista encardida e a bula de remédio, a prosa, ler o prato vazio e o copo de uísque na beira da piscina. Ler o tarô, os clássicos, os contemporâneos, os filósofos, os modernos, os místicos, os poetas, os cordelistas, os silêncios, os gritos, a paisagem, os mitos, os contos de fadas, as fábulas, as parábolas e os santos.

Como ler?
Ler com coragem e liberdade. Não esperar nada. Esperançar tudo. Ler sem regras, por paixão, ler sentado no sofá ou deitado no chão. Em voz alta. Ao pé do ouvido. Em volta da fogueira. Ler aquilo que dá prazer, que encanta, sonha, enoja, causa angústia, ódio e fome de viver. Ler sem pressa. Sempre. Ler é coisa eterna. Ler é o contrário de velocidade. Nunca é pra ontem. É lentidão, exige o tempo estendido, sem a violação do ágil modo de ser das redes sociais. Ler é fracassar em grande estilo.
No entanto, um livro não pode nada sozinho. Sozinho ele não anda e as palavras não se iluminam na página. Sem o leitor, o livro é palha úmida que não pega fogo.  E mesmo que exista o leitor, tudo dependerá de quem lê. Rubião, Clarice, Adélia e Raduan, podem dar o tiro e, mesmo assim, a bala sair pela culatra. Mas esse é outro passo.

Ler para quê?
Para se perder e se achar, para ser no mundo, para conhecer a vida de seres e lugares imaginários, para reconhecer a verdade e a mentira da ficção, para encarar uma jornada, seja ela mítica, simbólica ou realista. Para capturar a sabedoria da palavra poética e o seu mistério, para aprender a sonhar e concretizar os sonhos. Para realizar o contato entre a linguagem e a nossa existência.

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Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Mestre em Artes pela Unesp. Escreveu o livro de contos Esquece tudo agora (Terracota, 2012) e o infantil As mil e uma histórias de Manuela (Autêntica, 2013), entre outros. Em 2015, publicou o romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório),  livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Para onde tudo vai?

Para onde tudo vai?
Por Luiz Biajoni

Tenho acompanhado os textos que discutem as questões levantadas pelo professor Leonardo Tonus aqui e achado tudo muito interessante. Meu pitaco talvez seja divergente do que a maioria apontou – e creio que isso possa ser bom para continuar & estimular o debate.

Os principais pontos do professor questionam são: 1) diversificação X homogeneização; 2) mercado X qualidade;  3) como incentivar a leitura; 4) o lugar do autor no cena. Entendo que os outros pontos são convergentes para esses.
O que acho é que essas questões são intrínsecas do fazer literário desde sempre – elas sempre estiveram aí, sempre estarão e não há respostas para elas: apenas o fazer contínuo de todas as partes implicadas: o autor, que escreve, dentro de suas possibilidades e a partir da sua visão artística & de mundo; a editora que avalia e publica, levando em conta os aspectos que convém a ela (qualidade, mercado, arte); os mecanismos satélites da relação autor-editora-leitor realizam suas feiras, saraus,  discutem políticas públicas; e a mídia explora aspectos que lhe interessam, um evento ou outro que seja mais expressivo, um autor ou outro que seja mais simpático ou menos, mais midiático ou comunicativo. Neste quadro, temos a autopublicação através de ferramentas virtuais, mas a autopublicação também sempre existiu, e com os mesmos resultados: uns se dão bem, outros não – ao final, como acontece no sistema tradicional.

Não quero ser o chato que diz que a discussão é inútil, mas recentemente li três livros que recomendo e que reforçam que essa gangorra de tensão e distensão “mercado X qualidade” e todo o resto neste entorno é o que move a literatura desde que ela, bem, “virou mercado”, ou melhor, expandiu seus domínios através das técnicas de produção industriais, lá pelos meados do século XVIII.


O primeiro livro é As Origens do Sexo, de Faramerz Dabhoiwala, que fala, em sua parte final, sobre como o aparecimento do jornal impresso fez com que as pessoas se interessassem por detalhes da vida privada de gente conhecida, por mexericos, e isso resultou em uma onda de livros que exploravam justamente isso, a biografia de pessoas conhecidas ou não, com detalhes “secretos”. Santos e putas eram os alvos preferidos, as pessoas gostam de grandes sofrimentos ou grandes diversões. Os livros eram vendidos como se as histórias fossem reais, embora a grande maioria fosse apenas ficção – e da pior qualidade literária. Até que aparecia alguém que levava aquele lixo para um degrau acima, gerando algo com qualidade literária – ainda que continuasse tendo apelo popular. 



Foi o que aconteceu com Daniel Dafoe e seu Moll Flanders e, depois, com Oscar Wilde que, dândi, tinha o apelo midiático que comentei acima. Se você observar os meandros do início do mercado literário vai ver tudo o que há hoje: jornalistas sendo pagos para falar bem de livros (hoje temos youtubers), feiras com autores que são sensação (a obra da maioria não se sustentou, escritores mais discretos tiveram mais sucesso depois de sua morte – mas, afinal, quem quer sucesso depois da morte?); autoficção, jornalismo literário, simulação da realidade (Conan Doyle foi chamado para ajudar a polícia a esclarecer crimes, ora veja) tudo isso já existia no começo do “negócio”, que foi se construindo a partir dessas relações.


Outro livro é a biografia de Max Perkins, um editor de gênios, de A. Scott Berg, livro vencedor do National Book Award, que conta a história desse cara que descobriu F. Scott Fitzgerald e editou Hemingway, entre outros. Sua atuação foi especialmente importante entre 1919 e 1939 e quando vemos suas dúvidas, inquietações e as posturas que tomou... vemos que não é nada diferente do que temos hoje! As avaliações para lançar o primeiro romance de Fitzgerald, por exemplo, tiveram como principal ponto as questões de mercado. Depois de lançado, uma onda de novos autores apareceu pelo caminho aberto – muitos foram lançados e esquecidos, outros surfaram midiaticamente por um período, alguns ainda estão com seus livros aí. Eventos literários aconteciam e resenhas elogiosas e maldosas, defendendo um ou outro interesse, também. A Scribner, editora onde Perkins trabalhava, editava o panteão americano e tinha medo da diversificação – apenas depois de muita lapidação Este Lado do Paraíso foi lançado; a jogada foi ousada. Perkins teve que acionar seus contatos para que o livro tivesse boas análises nos jornais e revistas e boas vendas (não foi Best-seller instantâneo). Também de olho no mercado, houve ajustes na “apresentação” de escritores como Fitzgerald e Hemingway para o público.

Mas o livro mais interessante desses três é A Hora Terna do Crepúsculo – Paris nos anos 1950, Nova York nos anos 1960: Memórias da era de ouro da publicação de livros, o memorial de Richard Seaver, que descobriu, editou e teve que lidar com gente como Beckett, Burroughs, Genet, Henry Miller, D.H. Lawrence, entre outros. Esse comprou briga grossa, enfrentando o estado & o mercado, editando o que considerava ser importante, arte e inovador – e pagando o preço pelas decisões. Foi através de Seaver que a caiu a censura americana a livros, com as publicações do Amante de Lady Chatterley e Trópico de Câncer. É um mito, o Seaver, e esse livro é lindamente escrito, mostrando que dominava a arte de contar histórias. Mas, ao mesmo tempo, ilustra minha tese de que esse jogo de mercado está posto desde sempre – e não há maneira de avançar se não for “jogando”.

Apesar de conhecer escritores que escolhem ir por um caminho mais comercial que outros e outros que preferem o fazer artístico em detrimento do sucesso comercial (sic), nem sempre se dão bem, sejam uns ou outros. Editoras com perfis X ou Y dependem mais de gestão e estratégia do que de bons livros (em quaisquer casos, artísticos ou comerciais) para sobreviver. O público leitor, esse monstro, vai sempre ser conduzido por um titereiro maluco que uma hora quer livros com muito sexo, outra hora quer livros com adolescentes morrendo, num outro momento quer heroínas feministas que matam os maridos. Não dá pra entender, é sério.

Essas dinâmicas não são muito diferentes no Brasil, muda um cenário apenas economicamente prejudicado.

Os governos ficam pensando em como estimular a leitura e não há muita saída: existem outras prioriades. Países que consomem mais livros são países mais ricos onde as pessoas podem gastar dinheiro com coisas inúteis. E são países onde os governos não precisam se preocupar muito com políticas públicas de leitura, já que as principais prioridades estão equacionadas.
Então, amigos, o resumo é que o jogo está aí para ser jogado. Você pode escolher ser uma peça nele e até mesmo adotar uma postura clara, definida. Se você será lido, publicado, amado, considerado, resenhado, estudado, etc... irá depender muito pouco de você mesmo, vai depender de como as outras peças serão movidas. Se sua qualidade for óbvia e inquestionável – o que pouco acontece – você fará parte do panteão. Espero que isso aconteça em vida.
Boa sorte.
xxx



Luiz Biajoni é autor de Elvis & Madona – Uma Novela Lilás, A Comédia Mundana e A Viagem de James Amaro, todos publicados pela Língua Geral.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Escrever no Brasil é se desdobrar

Escrever no Brasil é se desdobrar
por Alex Sens


Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?

O melhor. As feiras e festas literárias produzem não só o interesse pela leitura, mas a aproximação necessária entre autor e leitor. São eventos assim que acabam com o estigma da torre de marfim, que aproximam leitores, que fomentam interesses e criam mais canais de valorização da cultura, seja ela de massa ou não. A tecnologia pode vir bem associada a isso, basta usá-la da forma correta. Embora as feiras também possam assumir o papel do que chamo de “fertilizante de egos”, elas são extremamente necessárias e bem-vindas quando bem-organizadas e inclusivas.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?

As duas coisas já vêm acontecendo, muitas vezes juntas. Internacionalizar a literatura para criar um público leitor maior ou para atingir um público diferente não são as únicas opções. É preciso, antes, valorizar mais o material nacional e não compará-lo com o mercado estrangeiro. Toda cultura é única e sua literatura reflete muito isso. Exportar o livro brasileiro é dar voz, reconhecimento e valor ao trabalho do escritor nacional, não apenas uma estratégia comercial. Além de apresentar ao mundo um outro olhar, uma outra interpretação da vida.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?

Tudo isso, desde que bem-feito, desde que organizado. Mas é necessário também observar o conteúdo, não fomentar a leitura com mais do mesmo, não empurrar o que já foi requentado, mas criar uma receita nova e servir algo original.

Ler o quê? Como? Para quê?

Leitura é liberdade, não um cubo fechado. Ler sempre mais e arriscar, entregar-se ao desconhecido e não temer jamais um novo tipo de linguagem, uma nova cultura ou um novo gênero. Ler para expandir o próprio centro e descentralizar a própria história.

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea: um espaço de exclusão?

Talvez um espaço pouco explorado. As editoras e livrarias investem monstruosamente na literatura estrangeira. O contemporâneo literário é espelho de uma máquina de fazer dinheiro. É preciso incluir mais a literatura brasileira, colocá-la em destaque, discutir sobre o que ela fala, o que ela traz, o que revela, dar oportunidade aos novos, a quem não está nas “panelinhas”, nos círculos fechados. Abrir os círculos e fazê-los girar. No entanto, com novas formas de publicação, de propaganda, de distribuição, a exclusão tem sido dissolvida. Cada autor consegue a visibilidade que lhe é possível, mas consegue. O leitor também precisa agir, e isso acontece quando ele se interessa e lê. É preciso deixar a zona de conforto e descontruir o preconceito literário.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.

Escrever no Brasil é se desdobrar. Foi-se o tempo em que o escritor ficava em seu escritório, na companhia de um gato, vendo a chuva cair pela janela enquanto as palavras lhe saltavam da boca em brados musicais para a lapidação de uma frase perfeita. Foi-se o tempo da misantropia. Hoje se faz necessário o movimento, a agitação cultural, o envolvimento com o processo. Mas ainda prevalece — deve prevalecer como marcado a fogo — a escrita. Ela é sempre mais importante, ela sempre vem antes. O escritor que subestima a importância da escrita para se tornar celebridade não faz literatura, mas um espetáculo efêmero, cuja obra será esquecida e cujos aplausos não deixarão ecos.

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Alex Sens é escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. É autor do romance O frágil toque dos mutilados, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e semifinalista do Prêmio Oceanos 2016.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Eu escrevo para quem?

Leia o que quiser por prazer
e o obrigatório por razão

Por Maira Garcia


Nas feiras e festas literárias é preciso criar mais oportunidades para editoras pequenas, da periferia, e demais seguimentos, conferindo representatividade.O selfie vai se manter, mas pode ser diferente. Precisamos de mais selfies nos livros e nas novas caras da literatura que corre nas bordas.




Alguém que escreve e aproxima sua literatura à vida das pessoas, é uma espécie de ativista, independente de que atividade paralela exerça. É ofício de todo escritor trabalhar com as palavras e dar trabalho para elas.





Das políticas Públicas que passam por pessoas, escolas e bibliotecas nascem saraus. Mas existe o caminho inverso. Saraus que criam leitores e escritores que passam a participar com mais força da comunidade. Estes exigem e atuam pelas melhorias do entorno. E olham de perto as ações do governo.


Eu escrevo para que alguém leia,
numa aldeia, num vilarejo, em Tejo.
Eu escrevo para que alguém sinta,
e também minta, dizendo que não leu.
Eu escrevo para quem não enxerga,
pra quem não vê, mas que alguém conte,
que as mãos saibam.
Eu escrevo para quem não quer ler.
Eu escrevo para quem não tem tempo.
Eu escrevo para quem quer esquecer.
Eu escrevo para quem quer escrever.
Eu escrevo para quem quer.
Eu escrevo para quem?

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Maira Garcia, 45 anos, é cantora, compositora, redatora, contista e poeta formada em Propaganda pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Participa do Centro de Artes e Promoção Social do Grajaú, em São Paulo, uma ONG que promove rodas para a construção do conhecimento.  Autora de um blog que reúne poemas, aforismos e contos chamado 'Depois da Lua de Ontem', são mais de 2000 textos que se preparam, através da seleção de amigos escritores, virar um livro de papel.




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Uma erótica da leitura


Ler o quê? Como? Para quê?
Por Leonardo Villa-Forte

Torna-se cada vez menos frequente um momento em que não estejamos lendo. Lemos emails, mensagens, comentários, placas de direção, nomes de lojas, preços de produtos, pixos nos muros, correspondências e a multa que lamentavelmente chega em nossa casa. Entre uma coisa e outra, de acordo com a fatia de tempo permitida pelo cotidiano de cada um, lemos livros também.

Está claro que o impresso hoje não é o veículo único para a leitura. Ainda assim, a “vida literária oficial” (prêmios, resenhas, matérias, cursos, concursos) gira em torno deste objeto. Tal “vida literária” é, obviamente, um ganho inestimável, principalmente num país em que a valorização do livro como veículo para leitura ainda está se construindo. A inserção do livro no dia-a-dia brasileiro me parece uma meta que toda secretaria de cultura, entre outros agentes, deveria ter. Faz pouco tempo vi um vídeo do discurso do Julian Fúks na entrega do Jabuti e achei curioso como o mise-en-scène, não do autor, mas do Prêmio, lembra muito o de um evento como o Oscar. Suspeito ser uma tática de guerra: fazer a literatura disputar o campo dos eventos (geralmente concentrado em categorias como esportes, música e audiovisual) apropriando-se dos códigos desses eventos, mas colocando a literatura (ou o autor?, é outra questão) no centro. Se isso fizer com que as pessoas leiam mais livros de literatura contemporânea brasileira – além de ajudar o autor a sobreviver e continuar trabalhando em sua arte – vale muito. Uma medida que poderia ser interessante em eventos, prêmios, festivais e etc, seria incluir mais a leitura dentro dos eventos, assim como nos eventos de cinema nós vemos trailers/trechos dos filmes, se me permitem um pitaco. Ou realizar eventos com leitores no palco, não em oposição, mas em acréscimo aos eventos com autores. Mas bem, voltemos à pergunta: Ler o quê?



A audição pode ser o sentido mais traiçoeiro, pois é impossível fechar os ouvidos, mas ultimamente tem sido tão difícil fechar os olhos e fazer uma escolha consciente do que iremos ler… Somos atravessados de maneira incessante por leituras que não pedimos ou não decidimos de livre e espontânea vontade que chegassem aos nossos olhos. Demandas de trabalho, demandas de atualização sobre “o que está acontecendo”, postagens e compartilhamentos nas redes sociais, notícias.... Colocando tudo isso de lado, eu diria que o primeiro critério, a meu ver, para decidir o que ler é o prazer. É um critério subjetivo, então não tenho como responder objetivamente à questão sobre “o quê” ler. As minhas preferências passam por dois critérios: como já dito, primeiro, o critério do prazer. Ler o texto que você sente que está caminhando junto com você (mesmo que ele, em termos de conteúdo ou forma, esteja à sua frente, mas nunca atrás). Gosto de pensar que essa sensação do junto – de não estarmos sozinhos quando se lê determinado livro – se dá por uma espécie de fio invísivel que as linhas do texto lançam ao nosso peito, e, por vezes, tocam nossa pele e retornam ao livro sem nos causar dano, mas em outras, elas nos perfuram e causam uma dor gostosa que é a de um novo alfinete no coração. E quando falo de “leitura que caminha junto” não estou falando apenas de seguirmos como observadores passivos de um enredo, mas de um sensação de que aquele texto ou obra te toca, diz respeito a você ou aos seus gostos, ou à sua curiosidade (te apresenta algo ao qual você adere). Tenho interesse pela abordagem que Susan Sontag propõe como “uma erótica da arte”. O prazer do texto, de estarmos juntos aos seu corpo, antes da construção de interpretações. Antes, e não em oposição a. Isso pode estar na leitura de um romance, num livro de contos, poesia, num ensaio, numa graphic novel, numa coleções de entrevistas, num artigo que nos lança novas questões ou nos esclarece outras…

E aí entra a segunda razão para ler: a leitura que traz algum conhecimento ou contextualização ao qual ainda não temos acesso. Podem inclusive alterar o nosso prazer – dirigir as nossas leituras para novos terrenos. Mas é claro que essas definições (prazer/conhecimento) são estanques. Na realidade, os dois “motivos” muitas vezes chegam misturados, como nas minhas leituras recentes de Atmosferas urbanas, de Armando Silva e The faith of graffitti, com texto de Norman Mailer – que me mostraram a cena de arte urbana da Colômbia, e como ela, desde os anos 1980, é predominantemente textual; e como a Polícia, a Prefeitura e a população de Nova York tratou violentamente o início do graffiti nos anos 1970 em suas ruas e metrôs. Os dois “motivos” estiveram juntos também nas minhas leituras de Submissão, do Michel Houllebecq e dos quadrinhos da série Um árabe do futuro, do Riad Sattouf, uma dupla que me deu noção maior da tensão entre Oriente Médio e Europa. Assim como nos contos de O tradutor cleptomaníaco, livrinho gracioso, que vem da tradição do leste de pequenos causos ligados a pessoas comuns, e, com humor fino, trabalha em cima da nossa relação problemática com o dinheiro e a aquisição.

Penso que a leitura por prazer está sempre nos trazendo algo que temos em nós e esquecemos ou não formulamos de modo compreensível para nós mesmos. Este é um ótimo motivo para ler: compreender melhor a si mesmo. No meu caso, leio interessado nessa conjugação: uma linguagem que me seduza e um abordagem, operação, procedimento, efeito ou conteúdo que amplie aquilo que chamam de “minha visão”. Ampliar “minha visão” não precisa ser conhecer mais do graffiti em Nova York ou entender as questões do Oriente Médio, mas pode ser – e no meu caso é mais frequente –  ler um romance satírico para entender como determinado autor construiu esse gênero na sua obra; ler uma autora e ver como ela trata um personagem esquizofrênico, ler para ver como foi tecida a voz do narrador-criança, ler tentando “desmontar” o roteiro do livro, conhecer novas linguagens que estão sendo experimentadas, descobrir como um escritor desenvolveu o fiapo mínimo de enredo do seu livro, entender como um feto poderia falar e o que ele falaria – pensando no recente Enclausurado do quase sempre excelente Ian McEwan. A curiosidade é um dos melhores motivo para ler. Arrisco dizer que não há curioso de verdade que não leia.

Eu poderia ainda dizer um terceiro motivo: ler para inspirar. Há trechos de Ó – que nunca li de cabo a rabo, pois para mim não é assim -, do Nuno Ramos, que colei num mural na porta da minha cozinha e desde então esses parágrafos ficam comigo como clarões no matagal. Só na porta da minha cozinha eu percebi a força daquilo (e isso mostra como é importante, em certos momentos, transgredir o “modo de usar” da obra e gerar um outro, imprevisto, mas que será o seu e fará ela ter significado para você). Há trechos de John Cage que iluminam e expandem a ideia de criação. A estética do Lourenço Mutarelli, que admiro muito, e é sempre uma paisagem no horizonte. Trechos de Julio Ramon Ribeyro que instalam a risada em meio às pequenas desgraças. A voz musical e sempre olhando pra frente de João Gilberto Noll. As liberdades maravilhosas que Sérgio Sant’Anna, Cesar Aira e Lydia Davis se dão, e, assim, nos dão. E os trechos de Beckett que me dão dor de barriga e secam minha saliva. Tudo isso é inspirador. Acho que, ao final, busco leituras que me permitam continuar desejando ler. E se me estimularem a escrever, podem ser um alfinete a mais no meu coração.



Já sobre a questão de como ler, sinto que cada livro sugere como devemos lê-lo, e tento estar aberto a isso: não encarar cada livro como mais um livro. Para mim, a leitura tem muito de excercício de flexibilidade. Não se entra num romanção como O mestre e a margarida – divertidíssimo – da mesma maneira que se entra nas curtas e diversas Prosas Apátridas ou nos poemas-ensaio de Um teste de resistores ou na lucidez inventiva de Uma literatura nos trópicos. São coisas bastante distintas, cuja única semelhança, além de serem textos, é estarem materializadas sob a mesma forma do códex. Faz parte da beleza o fato de que para descobrir como ajeitaremos o nosso corpo ao corpo do livro, e o nosso tempo ao tempo do livro, é preciso dar início a ele sem termos essas respostas de antemão. Só depois de algumas páginas intuiremos como podemos promover essa relação. Às vezes conseguiremos manter essa conjugação por mais tempo, às vezes por menos. Há livros que consigo ler no metrô e no ônibus e aqueles que só consigo ler em casa. Há livros que leio grifando ou rabiscando quase toda página e há livros em que o melhor é seguir sem se intrometer nas suas margens. Há livros que consigo ler enquanto leio outros, e livros os quais entendo que precisarei terminá-lo antes de começar a ler qualquer outra coisa. Poesia, por exemplo, prefiro ler aos poucos. Nunca leio um livro de poemas de uma ponta até a outra de uma vez só. Leio dois, três poemas, e eles me bastam. Fico com aquilo. Levo alguns dias até voltar ao mesmo livro e ler mais dois ou três.

Nunca terminei de ler o Folhas de relva, do Walt Whitman, pois toda vez que pego o livro meus olhos recaem sobre “Eu celebro a mim mesmo,/E o que eu assumo você vai assumir,/Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.” – os primeiros versos – e isso me assusta, me assombra, me comove, e não consigo seguir, de uma maneira que muito me alegra. Então de vez em quando eu pulo as primeiras páginas e vou para o meio do livro, e leio novos trechos dele, com certa satisfação triste por finalmente conseguir estar em contato com outras partes além do início hipnotizante.

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Leonardo Villa-Forte é autor do romance O princípio de ver histórias em todo lugar (2015, editora Oito e Meio), do conto Agenda (2015, Megamíni/7Letras) e da coleção de contos O explicador (2014, editora Oito e Meio). Tem trechos, contos e ensaios publicados em jornais e revistas pelo Brasil, como nas revistas Pessoa, Arte & Letra, Rascunho oline, revista serrote, e traduzidos para sites e revistas em inglês e espanhol. Criou a intervenção urbana-literária Paginário e a série de colagens MixLit. Graduado em Psicologia pela UFRJ com intercâmbio em Salamanca, Espanha, é mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RJ.