quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Vejo a língua como o maior limite


Vejo a língua como o maior limite

Por Jacques Fux

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
Sempre me questiono em relação ao mercado editorial contemporâneo: qual o sentido de continuar publicando ‘altas literaturas’? As vendas são poucas, muito poucas, enquanto a venda dos livros de youtubers, instagrammers e outras celebridades é gigantesca. Claro que acredito na literatura de qualidade, no amor pelo conhecimento e pelas letras, mas o mercado é cruel. A crise, tanto econômica quanto literária, está grave, e só aumentando. Então, como conciliar isso? Como buscar alternativas para que a literatura brasileira contemporânea não seja esquecida? Como escritor, penso dia e noite em como divulgar e vender meus livros. Acho que eles poderiam ser lidos por muitos, e por isso busco formas diferentes e contemporâneas para alcançar esses milhões de leitores (que leem os youtubers e instagrammers) por aí. Ainda tenho que fé que eles possam se interessar pela Literatura.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Espero que as festas e feiras literárias continuem existindo! Elas são importantes para motivar o público a conhecer os livros dos autores que participam desses eventos. Claro, muitos vão assistir as mesas das celebridades e best-sellers, mas eles podem acabar esbarrando em algum autor, descobrindo algum outro livro, se apaixonando por alguma obra. O autor tem que fazer um trabalho de formiguinha, tem que despertar o interesse pelo seu trabalho em cada um dos leitores que encontra. É uma guerra constante e, nessas feiras, temos que ir para a batalha!

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Ainda não tive nenhum livro traduzido e publicado no exterior (apesar de já ter minhas obras estudadas no curso de mestrado e doutorado em literatura da Boston University, e de ter uma dissertação escrita na Alemanha sobre meu primeiro livro), mas sonho com isso. Claro, traduzir é só um começo de um longo caminho e de outra guerra. Acho interessante a internacionalização, a quebra de fronteiras, e acho que todos temos que lutar para conhecer o maior número de escritores possíveis. 

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Acho interessante os dois. São formas de atingir o público leitor! De buscar um por um. De lutar pela leitura e pelos livros. Cada livro que vendo, cada comentário que leio, cada novo leitor é preciosíssimo! 

Ler o quê? como? Para quê?
Ler literatura! Ler os antigos, os clássicos, os contemporâneos. Ler para compreender o mundo, as pessoas, os sentimentos, as angústias, os medos, os diferentes povos e culturas. Ler para se encantar, para se desiludir, para rir, chorar, para ler mais e mais, e sempre. Para se perder nas páginas infinitas das grandes obras, e também das obras esquecidas, das nunca lidas, das nunca imaginadas. Ler para continuar lendo, para passar o tempo, para criar tempo, para inventariar o mundo, para ser leve, rápido, exato, visível, múltiplo, consistente... e também para não ser nada disso.

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Não. Um espaço de inclusão. Inclusão de novas vozes, de novas mídias, de novos gêneros, anseios, sonhos. Há muita gente escrevendo em redes sociais. Muitos tentando publicar. E vamos todos seguindo nessa luta!

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Acho que o escritor tem que ser tudo hoje em dia. Tem que escrever, escrever bem, trabalhar muito na busca pela palavra correta, pela música perfeita, pelo olhar distinto. Depois que o livro for publicado, ele não pode mais viver naquele romantismo de esperar que o livro ‘vingue’ sozinho. Que alguém o leia e que o descubra. Estatisticamente é muito improvável que isso aconteça. São milhões de livros publicados. Então, acho que o autor tem que se dedicar a mostrar as qualidades de seus livros. Ele tem que ser um acrobata, um artista, um comediante, um erudito, um intelectual, um agitador, e também um maldito!

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Gostei do termo ‘fricção’. Não sei se queria dizer ‘ficção’, ou ‘fricção’ mesmo. Brinco que meu romance Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor, que muitos o classificam como ‘autoficção’, seria na verdade uma ‘autofricção’!
Acho que os desafios são muitos. Vender, ser lido, escrever com cada vez mais qualidade literária. E mesmo com todo empenho, dedicação, amor e paixão, há o imponderável. O contingente. O fator sorte. Mas, mesmo assim, temos que tentar.
Limites: vejo a língua como o maior limite. Se eu pudesse escrever literatura em outra língua, talvez pudesse tentar novos horizontes, novos concursos, novas editoras. Impossibilitado, aguardo pelas traduções que são caras e difíceis de conseguir. Mais uma guerra!

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Jacques Fux é formado em Matemática, mestre em Ciência da Computação e doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Université de Lille 3. Em 2012 ganhou o Prêmio Capes pela melhor tese do Brasil em Letras/Linguística. Já viveu em Israel, França, Argentina e Estados Unidos. Foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 com seu primeiro romance, Antiterapias.



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O que fica quando uma festa acaba?

O que fica quando uma festa acaba?

Por Rafael Gallo

Passei muito tempo olhando para as perguntas do questionário, pensando no que poderia responder. Escrevi, apaguei e reescrevi meus pensamentos várias vezes, percebendo, inclusive, que eles se alteravam sensivelmente conforme o dia. Acho que, dado o estado das coisas, qualquer escritor brasileiro atual que leve a sério seu trabalho - e o cenário no qual ele se insere - já refletiu muitas vezes sobre esses mesmos temas. Mais do que isso, já deve ter variado bastante dentro do espectro de sentimentos que essas questões suscitam. Em alguns dias estamos mais otimistas, olhando para as flores que rompem o asfalto; em outros, acordamos com o espírito punk-adorniano atacado, achando tudo um horror, uma grande fábrica de mentiras mercantilistas que precisa ser combatida.

Um exemplo, entre as questões colocadas: a literatura brasileira contemporânea é um espaço de exclusão? Poderia dizer que em certo grau sim, porque todos os espaços são, de alguma forma, de exclusão. E talvez poderíamos aqui focar no número de autores que não recebem atenção, nos muitos que não tiveram oportunidade de se fazerem conhecidos (e nós não tivemos oportunidade de conhecê-los, o que pode ser mais triste), nas dezenas de escritores do nível, talvez, de um Rubem Fonseca, dos quais nunca saberemos nada, sequer a existência. Dos muitos perfis que perdem representação, como os negros, os indígenas, os habitantes de regiões chamadas periféricas, etc. etc., porque não correspondem aos padrões da moda, do mercado. Por outro lado, e se não existisse esse mercado? Nenhuma dessas feiras e festas? Nenhuma das políticas públicas, dos incentivos à literatura? Nenhum dos saraus ou dos concursos literários? Nenhuma editora como grande negócio, que possibilite certos trânsitos? Por certo, a exclusão seria ainda maior (perderíamos até os autores que estão no mainstream e fazem algo interessante), o mundo seria um lugar ainda menos agradável e esperançoso. Eis o lado mais otimista, vendo que o copo não está cheio nem pela metade, mas tem algo ali, ao menos. E que, sim, tantos as políticas públicas quanto as editoras comerciais, tanto os saraus nas ruas quanto as grandes festas literárias têm seu valor.


Por outro lado, claro que, especialmente no caso dos ambientes mais mercadológicos, me assusta a ideia de substituição. Ou seja, ao usarmos sempre o discurso de que as festas, bienais, os best-sellers, as selfies e o interesse pela pessoa do escritor (não pelo livro necessariamente) permitem um mínimo de circulação da literatura, é preciso estar atento para o fato de que essas coisas - justamente elas que em tese disseminam a literatura – podem ter como efeito colateral a supervalorização dos elementos periféricos ao livro, ao ponto de eles dominarem o centro e deixarem o livro de fora. Uma total inversão de valores. Quando uma pessoa vai a um evento, simpatiza com o escritor – por tê-lo visto falar coisas bonitinhas/engraçadas/comoventes em uma hora e meia – e compra seu livro, estamos ganhando mesmo um leitor? Essa pessoa vai mesmo ler o livro do autor que o autografou para ela? Que fez a selfie junto? Ou será que esse conjunto de experiências – ver o bate-papo, comprar o livro, pegar um autógrafo e tirar uma selfie com o autor – já não proporciona ao consumidor a sensação de ter tido a experiência completa? De ser isso o que significa participar da literatura? Se tendo feito tudo isso, ele já é um leitor (e privilegiado, afinal teve contato pessoalmente com o autor), então ele já não precisa fazer mais nada, sequer... ler o livro. Como disse Clarice Lispector, o problema da mentira é que ela cria uma nova verdade em seu lugar.

Sei que, além disso tudo, há milhões de questões que dificultam o hábito da leitura no Brasil. Somos uma cultura com sérios problemas educacionais sob nossos pés e um sol tropical sobre nossas cabeças. Entre esse céu e essa terra, há muito mais do que poderia dizer minha vã filosofia. E então, o que fazer, diante de tantos problemas? Às vezes eu penso que poderíamos, talvez, em vez de culpar a tudo e a todos, em vez de usar a carta do “problema educacional” como condição incontornável (e nos paralisar diante disso), também pensar em pequenas coisas que possibilitem pequenas mudanças. Penso, por exemplo, na nossa própria responsabilidade como escritores e agentes do livro. Será que estamos mesmo trabalhando duro, para produzir uma literatura capaz de convencer leitores por sua própria qualidade? Será que estamos nos esforçando para disseminar o hábito da leitura? Ou estamos simplesmente levando as coisas meio em espírito de brincadeira, conforme o que for prazeroso para nós mesmos? Estamos mesmo tentando incentivar a leitura ou apenas passeando, deslumbrados com nosso próprio “sucesso”? 

Como faço a mediação de clubes de leitura, dou oficinas e faço palestras com uma certa frequência, eu percebo algo muito facilmente: se você dá livros bons para as pessoas lerem, elas aderem. Elas passam a gostar daquilo, porque é bom, porque foi apresentado de maneira adequada. É impressionante ver como a maioria, ainda que leitores “treinados”, não conhecem quase nada da literatura brasileira atual. Mas quando conhecem certos livros, se apaixonam, vão atrás de ler outras obras do mesmo autor. A ponte funciona. Se for bem construída, ela funciona. Então, por que não conseguimos fazer essas pontes com mais pessoas? Talvez começar a pensar nisso, tentar resolver melhor essa equação, seja um caminho. Apresentar bons livros para leitores, em um canal mais próximo, em vez de querer, por exemplo, transformar tudo em uma grande festa para o nosso clubinho de amigos.
Porque o Brasil tem uma espécie de sina, sempre repetida: ao longo da história, por um motivo ou outro, em determinados períodos temos um governo que ajuda a financiar certos aspectos da cultura, com alguma abundância. Mas aí a euforia toma conta, e deixamos de pensar em construir estruturas mais perenes, para simplesmente transformarmos tudo em um parquinho de diversões para os protagonistas. O que acontece poucos anos depois? Algum outro governo assume, e, por um motivo ou outro, decide que é melhor cortar esses financiamentos (afinal de contas, eles não deram muitos frutos, aparentemente, além de festejos para alguns).

E agora, José, a festa parece estar acabando. Mais uma vez. O pior é pensar que não aprendemos muita coisa. Afinal, acabamos de ter mais de 10 anos de bonança, e o que fizemos com isso? Criamos leitores? Criamos espaços e hábitos de leitura mais consistentes? Os índices mostram que não. Criamos, em grande parte, uma legião de escritores jovens, brancos, classe média, modelo exportação, fenômenos da internet. Temos mais escritores do que leitores, mais gente em cima do palco do que fora dele. De que nos serve isso? Acho que enquanto não aprendermos que precisamos construir relações mais sólidas entre possíveis leitores e os livros, vamos nos manter repetindo esses ciclos bipolares. Escrever bons livros, encorajar leituras que sejam estimulantes, ter relações mais honestas com os leitores, sermos menos egocentrados: acho que tudo isso pode ser um ponto de partida, para que a coisa fique melhor para todos. Para que nos tornemos mais do que essa festa que sempre acaba. Afinal, o que fica quando uma festa acaba?

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Rafael Gallo é paulista, autor de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti, ambos na categoria Contos. Em 2015 lançou Rebentar, seu primeiro romance, também pela Editora Record, livro vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2016. Tem ainda contos publicados em diversas revistas e antologias, como a Desassossego (Ed. Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (Ed. Biblioteca Nacional, 2012), que publicou tradução do conto “Réveillon” para o espanhol.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

É uma escolha ser um pop star.

Profissional das letras, agitador ou intelectual?

Por Paulo Emílio Azevedo

Acredito que esta questão traduz, de fato, uma experiência (talvez, ainda não seja uma experiência nos termos benjaminianos), mas que de qualquer forma está tal processo (sim processo, parece-me mais adequado) pautado na “perplexidade” e hibridismo das identidades. E o que seria isso? As configurações que se amparam na abertura de mercados e acúmulo de funções por parte do autor geram nesse que produz a “criação” uma infinidade de perguntas sobre os desafios aos quais ele e o próprio mercado decidem abraça-los. É importante, no entanto, situar que a ideia de “decidir” expressa a retomada de escolha por este autor/produtor/criador – portanto, não é uma imposição, necessariamente, como equivalência hermética, quando o autor somente encontraria como saída deixar “ser levado por”. Ao contrário, como ressaltado é uma escolha e é, justamente, aí que ele se depara com a perplexidade diante de tais desafios e ofertas. No atual cenário de sua contemporaneidade abrangente e efêmera precisará o autor ser muitos em um só e, tais funções anteriormente tão bem delimitadas em seus status, profissionais atuantes e ações confluem para um mesmo sujeito na sua práxis: estar nas redes sociais, dar entrevistas, escrever o livro, revisar o livro, ter receio sobre o livro (se o livro é necessário ou deveria se manter no diário), tomar coragem e publicar o livro, lançar o livro, sorrir no dia do lançamento confiando a isso verdade de sê-lo (e saber que os intelectuais podem sublimar a ortodoxia de ter que parecerem chatos, pois talvez esse status caiu. Será?), não fechar portas de modo algum (e daí talvez se tornar promíscuo. Será?), viajar, entrar em contato com as editoras, vasculhar sites em seis idiomas e inscrever-se nos editais, falar in box a todo instante e outras redes sociais, ler tendendo ao esgotamento, fazer postagens, passar por outro nas postagens com uso abusivo de sujeito indeterminado para não parecer ser a si próprio - aflito por ser descoberto no protagonismo maldito de uma “fama às avessas” (ser alguém que deve existir com glamour, mas sem parecer que é o mesmo em nenhum instante), ter que lidar com seu alter corpo, seu alter ego, sua alteridade ameaçada e imaginada como leviana. Mas, repito: é uma escolha ser um pop star.
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Paulo Emílio Azevedo é Professor, Doutor pela PUC-RJ em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014) – com este concorreu a final do Prêmio Rio Literário (2015) na categoria “Ensaio”. Com a atual publicação O amor não nasce em muros (2016) completa dez livros escritos, sendo o nono publicado. Entre os demais, destacam-se Meninos que não criam permanecem no C.R.I.A.M. - histórias sobre adolescentes em conflito com a lei (2008); Palavra projétil, poesias além da escrita (2013) e Ensaios de um poeta só (2015). Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da poesia falada e performance. É idealizador do sarau “Tagarela, o maior slam do mundo”, professor da oficina “Palavra Projétil” e autor do projeto “Biblioteca de gritos”, os quais receberam contemplação em editais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Coordena a Rede de Criação e Protagonismos Cia Gente e a Fundação PAz. No ano de 2016 foi um dos escritores convidados pela FLIP, Paraty/RJ e da Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes/RJ. Em sua principal pesquisa na Literatura está a criação do gênero/método Reestruturalismo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Inquiétudes et incertitudes des utopies


COLLOQUE INTERDISCIPLINAIRE

Inquiétudes et incertitudes des utopies dans l’espace Lusophone

Qu’est-ce que l’utopie si ce n’est un autre nom pour le désir d’une autre façon d’être ?
Paulo Pires do Vale, commissaire du Festival de l’Incertitude


Ce colloque s’inscrit dans le cadre du Festival de l’Incertitude, organisé à Paris par la Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France. L’utopie de Thomas More ouvre sur un horizon de possibilités de réflexions qui la lient avec « l’horizon d’attente », terme que Paul Ricœur emprunte à Koselleck pour formuler la forme de doute qui s’empare de l’humain, face à l’attente de la réalisation incertaine de la promesse initiale. Nous proposons d’analyser les inquiétudes et les incertitudes des utopies dans l’espace lusophone, selon une temporalité allant de la période des Découvertes à nos jours.

Les problématiques, pour lesquelles nous mobiliserons les outils combinés de plusieurs champs disciplinaires, seront développées de façon croisée. Durant deux jours, cinq séances conjugueront communications et débats autour d’objets thématiques allant des arts plastiques à la sociologie en passant par le théâtre et le cinéma, la linguistique et la littérature, l’histoire et l’histoire culturelle. Il ‘s’agira également d’analyser et d’interroger les contours d’un discours qui ne cesse de défier et de perturber l’ordre des choses au sein de nos sociétés de plus en plus fragilisées.

Comission scientifique:

Egídia Souto (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3)
Graça dos Santos (Université Paris Ouest Nanterre La Défense)
Leonardo Tonus (Université Paris Sorbonne)
Maria Helena Carreira (Université Paris 8 Vincennes-Saint Denis)
Saulo Neiva (Université Blaise-Pascal/ Clermont II)

Programme du Colloque

Le Mardi 29 NOVEMBRE

9h15- Accueil des participants
9h30- Ouverture du colloque

10h-11h30 Séance 1- Inquiétude et déplacements
Modérateur : Leonardo Tonus

Marie-Hélène Piwnik – Livros do desassossego d’une traduction l’autre: la conception novatrice de Teresa Rita Lopes

Résumé:

La conception du magnum opus de Fernando Pessoa proposée par Teresa Rita Lopes. Réflexions sur la traduction du titre en français.


Marie-Hélène Piwnik est professeur émérite à l’Université Paris Sorbonne. Elle est Agrégée d’espagnol. Ses principales publications sont "Échanges érudits dans la Péninsule Ibérique  (1750-1767)", Paris, Fondation Calouste Gulbenkian ; "Eça de Queiroz revisitado", Opéra Omnia, Prix de l’essai Grémio Literário. Elle est aussi la traductrice de nombreux romans des écrivains suivants: Eça de Queiroz, Mário de Carvalho, Urbano Tavares Rodrigues ou Gonçalo M. Tavares.

Saulo Neiva et José Augusto Cardoso Bernardes – Incertitudes et anachronismes - relectures du passé dans Les Lusiades

Résumé:

Quels rapports s’établissent-ils entre incertitude et anachronisme dans la représentation camonienne du passé collectif ? Cette représentation est-elle redevable à une conception « achronique » de l’histoire (Koselleck) ? Ou est-elle caractéristique d’une conception « moderne » du temps, fondée sur le morcellement du temps en passé, présent et futur, dont le repère principal est constitué par le présent contingent et proche ? Autrefois source d’incertitude pour l’historien, l’anachronisme a commencé à être réévalué positivement depuis quelques décennies. Acte délibéré ou involontaire, donnant lieu aussi bien à une relecture du passé qu’à une réinterprétation du présent, il nous permet de penser autrement les rapports que nous établissons à la fois avec le présent d’où écrit l’auteur, avec le passé que cet auteur réinvestit et avec le présent d’où nous lisons ses textes.

José Augusto Cardoso Bernardes est professeur à l’Université de Coimbra, où il dirige la Bibliothèque Générale de l’Université. Il s’intéresse à la littérature portugaise de la Renaissance et à la situation des Humanités dans le cadre de la recherche et del’enseignement. Tout récemment, il a coordonné les volumes Camões nos prelos de Portugal e da Europa (1563-2000).

Saulo Neiva est professeur à l’Université de Clermont-Auvergne, où il dirige le Centre de Recherches sur les Littératures et la Sociopoétique (CELIS EA4280), ainsi que la Chaire Sá de Miranda. Ses travaux portent sur les transformations des genres littéraires et sur les échanges entre la France et le monde luso-brésilien. Il a co-organisé le Dictionnaire raisonné de la caducité des genres littéraires (Droz).


Catarina Vaz – Incertitudes et ambiguïtés dans la traduction d’œuvres littéraires lusophones contemporaines

Résumé :
L’une des missions du traducteur littéraire est de construire des ponts et des liens entre les différentes langues et cultures. Les œuvres littéraires hypercontemporaines (en portugais) sont un défi majeur pour le traducteur car il doit les interpréter de façon à pouvoir recréer, dans une autre langue, les mêmes caractéristiques discursives. L’ambiguïté et l’incertitude assument dans ce cadre un enjeu majeur dans le travail mené par le traducteur. Comment interpréter un monde fragmentaire, un discours en apparence décousu où une multiplicité de temps, de lieux et de personnages évolue ? Nous souhaitons réfléchir aux processus d’interprétation présents dans le domaine de la traduction littéraire qui permettent à la fois la dilution de frontières linguistiques et le partage de significations et d’expériences.

Catarina Vaz Warrot est boursière de la FCT en post-doctorat à l’université de Porto (CLUP) travaillant sur «Le rôle du traducteur littéraire : entre coopération et re-création textuelle». Son ouvrage Chaves de leitura e chaves de escrita nos romances de António Lobo Antunes a été publié en 2013. (Lisboa, Leya, Texto Editora, coleção «ensaio», sob a direcção de Maria Alzira Seixo, 253pp.)

11h30-12h - Pause-café

12-13h Séance 2- Utopie et contre utopies
Modérateur : Maria Helena Araújo Carreira

Adelaide Fins – Devenir soi-même dans l’incertitude et l’utopie : la portée éthique et politique de Os Memoráveis de Lídia Jorge

Résumé:

Du soi utopique au soi fraternel : l’apport de Os Memoráveis à l’éthique de la sollicitude. Soulignant l’importance de la littérature pour la philosophie, cette contribution vise à accentuer la dimension éthique et politique présente dans Os Memoráveis, une éthique du « devenir soi-même » qui suppose une approche narrative de la temporalité et qui joue avec le concept de fraternité, d’abord incertain, puis relationnel. L’œuvre symbolise toute une éthique de la sollicitude que nous exploiterons dans les perspectives ouvertes par l’éthique de Paul Ricœur, Martha Nussbaum, Solange Chavel et Julia Kristeva. Notre but est de contribuer à une compréhension des sujets dont la singularité (affects, imagination, subjectivité) ne peut se comprendre que comme travaillée par l’universel (liberté, justice, démocratie).


Adelaide Gregório Fins – Université de Paris-Sorbonne/Université de Coimbra. Prépare une thèse de doctorat en philosophie politique et éthique. A participé à l’ouvrage collectif Les grandes œuvres de la philosophie en fiches. Auteurs classiques et contemporains, dir. C. Ruby, Paris, Ellipses, 2016. A traduit des textes pour Rue Descartes, Revue du Collège International de Philosophie.

Leonardo Tonus - Utopie et contre utopies de l’immigration

Résumé:

Le thème de l’immigration n’est pas nouveau dans la littérature brésilienne. Présente dès le milieu 19ème siècle, cette thématique s’est inscrite de façon définitive dans le champ littéraire brésilien, notamment pendant la période de transition démocratique. Par la quête des origines ces romans témoignent d’une volonté d’inscrire « la geste immigrante » dans le flux de l’histoire. Toute la complexité et la contradiction de ces récits reposent sur la recherche d’un « jalon premier » qui, tenu pour nouveau, n’est en aucun cas novateur. Les expériences fondatrices mises ici en exergue convergent toutes vers un questionnement sur l’échec des grandes utopies fondatrices qui pendant des siècles ont dicté les représentations identitaires du Brésil.



Leonardo Tonus est Maître de Conférences et responsable de la section de portugais à l’université Paris-Sorbonne. Ses recherches portent sur la représentation de l’immigration dans le roman contemporain brésilien et les rapports entre texte et spatialité.

13h-14h30 - Pause déjeuner



14h30-15h30h Séance 3 - Sublimer les incertitudes
Modérateur : Saulo Neiva

Egídia Souto - De l’atelier du peintre à la table du poète. «Recettes contre l’incertitude»

Résumé:

Nuno Júdice développe un jeu baroque où le destinataire doit dévoiler l’énigme de l’image et voir au-delà de l’espace de la feuille. Le poète est loin de l’imitation et cependant très proche d’une écriture symbolique qui parle à tout un chacun, selon son degré d’implication et d’intuition. Le lecteur a le choix de jouer et de voir au-delà de l’œil du créateur et, à partir de ses mots, de reproduire aussi son propre tableau comme artefact littéraire. Le poète est un autre en se faisant peintre par les mots? Mais ne cherche t-il pas à peindre le mot parfait avec son crayon? Serait-il en quête du souffle divin pour construire un discours qui semble né d’une intranquillité....


Egídia Souto est docteur en art, littérature et civilisations des pays lusophones à l’Université Sorbonne Nouvelle Paris-3, chercheur associé au CREPAL, au CEAUP (Centre d'études africaines de l'université de Porto) et membre du groupe « Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal ». Actuellement Maître de conférences à l’Université de la Sorbonne Nouvelle-Paris 3. Passionnée par la littérature, les voyages et l’art, elle a publié plusieurs articles au Portugal et en France. Depuis quelques années, elle est conférencière au musée Dapper, musée du Quai Branly et au Musée de l’Homme.


Izabella Borges - Les incertitudes de la création : quand l’écrivain s’égale au peintre

Résumé:
Notre communication vise à examiner les aspects formels du dialogue entre les arts, instauré par l’écrivain brésilien Sérgio Sant’Anna dans son œuvre. Ce dialogue, qui au départ semblait être celui d’un écrivain en quête de modèles, prend progressivement un cheminement bien particulier et débouche sur une forme nouvelle : celle l’exercice de l’ecphrasis. C’est donc en « donnant à voir » à ses lecteurs des œuvres issues d’un champ disciplinaire autre que le littéraire que Sérgio Sant’Anna tente de dépasser, à sa manière, les limites de l’écriture, afin de sublimer les incertitudes intrinsèques à l’acte de créer.

Docteur ès-lettres (Langue et littératures lusophones), Izabella Borges est membre associé du CREPAL (Centre de recherches sur les pays lusophones Université Paris 3 - Sorbonne Nouvelle). Traductrice et directrice de la collection Brésil pour les Éditions Envolume, Izabella Borges enseigne actuellement à l’Université Paris – Sorbonne.

Marcelo Marinho - Poétiques de l’incertitude: l’autobiographie irrationnelle de João Guimarães Rosa

Le chef-d'oeuvre Grande Sertão : Veredas (1956) est présenté par son auteur comme une « autobiographie irrationnelle » : l'ambassadeur, médecin et romancier polyglotte João Guimarães Rosa (1908-1967) est mort trois jours après la cérémonie d'entrée à l'Académie Brésilienne de Lettres, à l'apogée de son parcours littéraire et diplomatique. Cet événement biographique majeur, craintivement ajourné pendant quatre ans de suite, s'offre comme un « horizon d'attente » pour la lecture du pacte faustien passé par le héros Riobaldo, inévitablement condamné à perdre Diadorim, son âme. Le doute s'empare du lecteur : quel est ce lieu utopique où l'on raconte un destin pour ensuite le vivre ? Biographie et littérature se conjuguent ici pour ouvrir l'espace à la Poétique de l'Incertitude.

Marcelo Marinho est docteur en Littérature Comparée (Sorbonne Nouvelle) et chercheur associé au CREPAL. Il a enseigné dans différentes universités au Brésil, en Hongrie (Université Eötvös Lorànd) et au Canada (Université du Québec). Actuellement, il enseigne à l'Université fédérale de l'intégration latino-américaine, au Brésil. Il est l'auteur de João Guimarães Rosa (Paris, L'Harmattan).

16h-16h20- Pause-Café

16h30-18h Séance 4 - L’incertitude de créer face à la contrainte
Modérateur : Graça dos Santos

Catarina Firmo - Utopies du corps en scène chez Almada Negreiros: figures, scénarios et paysages de l'inquiétude

Résumé:
Le théâtre dans la vie de Almada Negreiros est indissociablement lié à son œuvre plastique. Dans son parcours de dramaturge et scénographe, la représentation du corps est avant tout un reflet de l’utopie : le corps abstrait dans les silhouettes futuristes des Ballets Russes ; le corps-figure, fusionné avec la matière, dans Antes de Começar où deux marionnettes débâtent l’opposition entre l’humain et le pantin ; la mascarade du Music Hall et du Cabaret artistique dans Deseja-se Mulher. Chez Almada le corps oscille encore entre l’autoportrait et la quête de l’altérité ; ce corps fragmenté, à la fois scénario et paysage se réclame aussi comme manifestation de l’inquiétude.

Catarina FIRMO est chercheuse dans un projet de pos-doctorat intitulé « Artefacts en mouvement – Frontières et hybridismes aux théâtre de formes animées », accueilli par le Centre d’Etudes de Théâtre de l’Université de Lisbonne, à l’abri d’une bourse de la Fondation pour la Science et la Technologie. Elle a été enseignante de Langue et Littérature Portugaise à l’Université Paris 8 entre 2009 et 2015. Actuellement elle donne des cours de Théorie du Théâtre à l’Ecole Supérieure d’Education de Lisbonne. Elle a soutenu une thèse de doctorat en 2011 intitulé « Du mot à la scène et du mot en scène – Dramaturgies de l’absurde en France et au Portugal » à l’Université Paris 8, en cotutelle avec l’Université de Lisbonne (sous la direction de Maria Helena Araújo Carreira et Maria João Brilhante).


Eurydice da Silva - L'âge d'or du cinéma portugais sous l'Etat Nouveau : l'envers du décor (de 1933 à 1950)

Résumé:

L’histoire du cinéma portugais pendant l’Etat Nouveau est profondément liée au contexte politique de l’époque. Dès 1933, le Secrétariat National de la Propagande contrôle la production cinématographique portugaise dans le but de promouvoir un cinéma national fidèle à l’idéologie de l’Etat. Considérées aujourd’hui encore comme l’âge d’or du cinéma portugais, les années 30-40 sont marquées par des succès commerciaux (films historiques et musicaux, comédies, adaptations de classiques de la littérature portugaise). Nous analyserons le scénario censuré d’un film représentatif de la production de l’époque : Amour de Perdition (1943), de António Lopes Ribeiro, afin de comprendre les articulations entre cinéma et politique, les modes de production de ce cinéma utopique, ou l’envers du décor de l’idéal cinématographique sous l’Etat Nouveau.


Eurydice Da Silva est scénariste et doctorante contractuelle à l’Université Paris Ouest Nanterre La Défense. Elle est membre du CRILUS (EA 369 – Etudes Romanes) et son projet de thèse porte sur le cinéma portugais pendant l’Etat Nouveau de Salazar (1933-1974).


Le Mercredi 30 NOVEMBRE

9h30- Accueil des participants


9h45-10h45 Séance 5 - Incertitude et utopie en Orient et en Afrique
Modérateur : Egídia Souto

Dejanirah Couto - Les luso-indiens dans la littérature indienne contemporaine

Résumé:

En gardant à l’esprit la ligne de force de ce colloque - la thématique de l’incertitude - la présente communication examinera le statut identitaire des luso-indiens tel qu’il nous apparaît dans l’ouvrage de Salman Rushdie « Le dernier soupir du Maure », publié en 1996. Ballotés entre deux cultures, l’indienne et l’occidentale, entre deux religions, l’hindouisme et le christianisme, les luso-indiens (ou les indiens de culture lusitanienne), sont perçus comme des métis et des intermédiaires entre deux mondes. Ils cristallisent autour de leur image une « incertitude identitaire » qui enduit de nombreux préjugés à leur égard. En dépit d’un message apparent de pluralisme et de tolérance, Rushdie demeure très ambigu lors qu’il s’agit de leur identité et de leur place dans la société indienne. La vision de Rushdie, qui rejoint celle de V.S. Naipaul sur les luso-indiens, s’inscrit dans une perception au vitriol du premier passé colonial, n’est pas dépourvue d’arrière-pensées politiques. Elle rejoint un certain débat post-moderne, actuel en Inde, sur le métissage et l’identité.


Dejanirah Couto est historienne, maître de conférences habilité à diriger les recherches à l’École pratique des hautes études. Spécialiste de l’Histoire impériale portugaise en Asie et des relations politiques, économiques et culturelles avec les Empires et états musulmans à l’âge moderne, elle a publié de nombreuses études dans son champ de recherches.


Martin Ramos - Les destinées incertaines de la chrétienté japonaise (16e-19e siècles)

Résumé:

Les succès acquis au Japon, au 16e siècle, par des missionnaires principalement portugais ont été fort précaires. Dans la première moitié du 17e siècle, l’Archipel rompt ses relations commerciales avec les puissances ibériques et les communautés catholiques connaissent la répression ; celles-ci sont rapidement coupées de leurs élites et le catholicisme disparaît peu à peu de l’espace public. À première vue, l’entreprise évangélisatrice semble ainsi avoir été un échec. Un renversement de perspective, des centres de pouvoir vers les campagnes, permet cependant une autre lecture des événements : dans de nombreux villages, l’héritage catholique — et donc aussi, en quelque sorte, portugais — se transmet de génération en génération et survit aux deux siècles de clandestinité.


Martin Nogueira Ramos est maître de conférences à l’École française d’Extrême-Orient (EFEO). Il a effectué sa thèse de doctorat sur la question du catholicisme et du crypto-christianisme dans la société villageoise japonaise du 19e siècle. Il travaille actuellement sur la diffusion du catholicisme, au 16e siècle, dans ce pays.


10h45-11h15-Pause-café

11h15-12h30- Maria-Benedita Basto, Agnès Levécot et Raquel Schefer - Afrique lusophone : dialogue entre l’histoire, l’image et la littérature à propos des incertitudes et des utopies

Résumé:

Dédiée aux pays de l’Afrique lusophone, cette table ronde se propose de réfléchir de façon interdisciplinaire et connectée sur les deux grands axes thématiques de ce colloque, que nous écrivons au pluriel : incertitudes et utopies. Dans un dialogue qui traversera l’histoire, le cinéma, la photographie et la littérature, nous tenterons de saisir la place et le rôle des incertitudes dans le travail esthétique mené par les artistes africains, en ayant comme horizon d’analyse la relation entre l’utopie, l’art et le politique. Une fonction utopie et un effet utopie pourront se dégager de nos échanges autour de passages d’œuvres choisies qui reflètent à la fois des inquiétudes, des formes de résistance et des désirs de communspossibles.


Maria-Benedita Basto est Maître de conférences en Histoire et cultures lusophones à l’Université Paris-Sorbonne, chercheuse au CRIMIC, chercheuse associée à l’IMAF et à l’IHC-UNL. Son travail porte sur des problématiques coloniales et postcoloniales autour des mémoires, de l’archive, de la décolonisation des savoirs et des (trans)nationalismes croisant histoire, littérature, cinéma.

Après avoir quitté ses fonctions de Maître de Conférences à l’Université Sorbonne Nouvelle–Paris 3, Agnès Levécot poursuit ses recherches au sein du CREPAL (Centre de Recherche sur les Pays Lusophones) dans les domaines de la production romanesque portugaise et africaine contemporaine.
Elle a publié de nombreux articles dans des revues spécialisées nationales et internationales, ainsi qu’un essai intitulé Le Roman portugais contemporain. Profondeur du temps (Paris, Editions de l’Harmattan, 2009).

Raquel Schefer est chercheuse et cinéaste. Docteur en Études cinématographiques et audiovisuelles de l’Université Sorbonne Nouvelle — Paris 3, Schefer est ATER en Études cinématographiques à l’Université Grenoble Alpes. Elle a publié l’ouvrage El Autorretrato en el Documental en Argentine. Elle est co-éditrice de la revue de cinéma La Furia Umana.


12h30- Clôture du colloque


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Festas literárias, Rock'n Rio ou Free Jazz?

Festas literárias, Rock'n Rio ou Free Jazz? 

Por Rodrigo Casarin


O Brasil viu crescer o número de eventos literários no país principalmente após a criação da Flip, em 2003. Em determinado momento, levantamentos apontavam que tínhamos mais de 300 iniciativas do tipo, algo surpreendente para um país onde poucos são leitores (e isso é fato). De 2014 para cá, no entanto, a situação financeira degringolou e, claro, a derrocada impactou imediatamente na área cultural e, por consequência, alguns encontros do tipo começaram a sumir do mapa (um exemplo lamentável foi a Jornada de Passo Fundo, pioneira no assunto, que, pelo que prometem, felizmente retornará no ano que vem).

Eventos já solidificados deverão sobreviver por um bom tempo ainda, em todo caso. Não creio que a Flip ou as Bienais do Rio e São Paulo acabarão em um futuro próximo. E é principalmente sobre esse último que eu gostaria de me ater.

Fiz uma crítica sobre ele em minha página no Uol que gerou bastante discussão. 


Nela, lamentava principalmente o excesso de youtubers na programação do principal palco montado no Anhembi. Muitos alegaram que aquela era uma forma de atrair um público jovem para a leitura; com o livro da Kéfera descobririam o maravilhoso universo da literatura. Tenho lá minhas dúvidas se essa suposição é realmente válida, mas, considerando que seja (e entendendo que por trás desse discurso está a necessidade de promover o que mais se está vendendo no momento), questiono: por que, ao menos, não se colocou alguém que pudesse tirar aquele púbico da zona de conforto para dividir o palco com os youtubers?

source : UOL


E esse tipo de desperdício não vem de hoje. No passado já perdemos excelentes oportunidades de apresentar aos fãs de best sellers autores menos conhecidos, mas de notória qualidade. Em 2014, por exemplo, Eric Novello poderia tranquilamente ter sido parceiro de mesa de Cassandra Clare e, na de Harlen Coben, por que não um Mario Prata? Se um Dan Brown aparecesse por aqui, que aproveitassem para colar nele o Marcos Peres.

Hoje, felizmente, não faltam escritores nacionais fazendo um trabalho que pode servir de ponte entre os nomes mais conhecidos e a literatura local relegada a um nicho minúsculo. Falo de gente como Henrique Rodrigues, Thiago Tizzot e Maria Clara Matos, para ficar só em alguns, que possui uma prosa que pode realizar a mediação (e essa é a palavra-chave disso tudo) entre o tipo de literatura que hoje atrai os jovens (ou supostamente atrai os jovens) e aquela produzida a exaustão por aqui, mas que atinge, quando muitos, seus mil leitores.

Claro que isso é só a ponto de uma infinidade de questões que precisamos solucionar para que primeiro o Brasil seja um país de leitores e, depois, de bons leitores (que podem, claro, ler o que quiser, mas que tenham referências suficientes para tomar com propriedade suas decisões). E existe o outro lado da moeda, eventos como a Flip também precisam se esforçar para que se tornem interessantes a um público diferente daqueles 20 mil de sempre que vão até Paraty (o que rolou quando trouxeram Neil Gaiman deveria ter sido um bom aprendizado de caminho a seguir). É preciso apostar mais na bermuda e chinelo do que no blazer.

Há um censo comum de que Bienal é Rock'n Rio e Flip é Free Jazz. Enquanto os eventos literários ainda existem, precisamos colocar um tanto de Jazz nesse Rock e um tanto de Rock nesse Jazz.

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Rodrigo Casarin é jornalista, especialista em jornalismo literário e edita o blog de livros Página Cinco (paginacinco.blogosfera.uol.com.br), do Uol. Além disso, colabora ou já colaborou com veículos como Valor Econômico, Carta Capital, Rascunho, Suplemento Literário Pernambuco, Revista Continente e Revista da Cultura, na maior parte das vezes com textos que, de alguma formam, tratam da literatura e do mercado editorial. Ocasionalmente também escreve sobre cerveja. 

domingo, 20 de novembro de 2016

O mercado editorial, antes de ser “editorial” é mercado

O mercado editorial, antes de ser “editorial” é mercado

Por Antonio Salvador


O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
O mercado editorial, antes de ser “editorial” é mercado. Seria ingênuo esperar do mercado aquilo que ele não se propõe a oferecer: ações humanizantes. Desse modo, diversificação é palavra que definitivamente passa longe das vontades do mercado. O mercado quer o produto que dá certo, isto é, o que vende. Esse produto será produzido e pasteurizado à exaustão, com nomes e etiquetas diferentes, mas, essencialmente, é o mesmo produto. O resto é mero curto-circuito.


Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Quanto às feiras, o que se percebe é muita gritaria, atropelo, vendedores simpáticos oferecendo peixe estragado, gente fuçando uma montanha de maçãs, na esperança de encontrar uma que preste... Nas festas, como não poderia deixar de ser, cordialidade premeditada, embriaguez, alguma coisinha para comer, mas que não necessariamente sacia, fumaça, muita fumaça, e torpor. Esse é o futuro de qualquer feira e de qualquer festa.


Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Tentativas de internacionalização da literatura brasileira houve diversas. A Feira de Frankfurt de 2013, em que o Brasil foi homenageado, é dos exemplos mais recentes. Eu estive lá e considero que o evento, combinado com as bolsas de tradução da Biblioteca Nacional, foram importantes para a inserção de uma parcela da literatura brasileira contemporânea no mercado internacional. Nada disso, porém, pode ser chamado propriamente de “internacionalização”; também não é um fracasso total - há, no mínimo, maior comercialização de direitos autorais.
Mas se quisermos mesmo pensar os rumos da internacionalização da literatura brasileira, ela não tem ocorrido no âmbito dessas feiras de negócios. Há movimentos recentes mais eficazes, cujo sumidouro são os próprios artistas e intelectuais do setor. A Primavera Literária Brasileira (Printemps Littéraire Brésilien), por exemplo, nascida em Paris e expandida para diversas cidades da Europa, tem se consolidado como o maior evento literário brasileiro fora do Brasil e, sem dúvida, o mais importante. Circulam livros, autores, leitores, a língua portuguesa circula. A iniciativas como essa, em que a literatura pulsa por si mesma, sem a participação de atravessadores comerciais, dá-se genuinamente o nome de internacionalização.


Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Ambas devem coexistir e de maneira alguma são excludentes entre si. As ações propaladas pelo Estado brasileiro (políticas públicas) e pela sociedade civil (saraus literários) combinam-se muito bem. É um equívoco considerar que o Estado deva concentrar o monopólio dos canais de expressão da literatura. O Estado não é nem deve ser encorajado a usurpar o espaço do fazer cultural como se fosse centro nevrálgico desse fazer. Mais uma vez, cito a Primavera Literária como pulsão orgânica da sociedade civil que tem engendrado não só a internacionalização da literatura brasileira, mas, por meios indiretos, uma espécie de política para apoio à leitura – eventos como a Primavera são, por excelência, movimentos políticos.


Ler o quê? como? Para quê?
Grande parte dos autores contemporâneos aprendeu a repetir a máxima de que a literatura não serve para nada ou não tem obrigação de servir para algo. Eu me oponho frontalmente a essa ideia. A literatura, assim como as demais formas de expressão artística, tem um papel crucial na transformação da pessoa humana e, consequentemente, da sociedade. Evidente que a literatura não ocupa mais o espaço que ocupou no século XIX, mas essa derrocada não tem relação com a palavra, e sim com o aparecimento de outras formas de mídia, das quais o livro é uma das mais antigas. Desse modo, o livro, o texto e, antes, a palavra como canal de implosão da ordem posta continuam e continuarão tendo impacto social. É para isso que se lê; “como” e “o quê”, parece-me, decorrem diretamente do “para quê”.


Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea: um espaço de exclusão?
A literatura não é espaço de exclusão nem de inclusão. Vejo a literatura como o espaço da iconoclastia, da ruptura de paradigmas, da transcendência do sabido e consabido. Claro que é compreensível e até legítimo esperar do texto literário certa democratização, no sentido de conferir voz e representatividade ao todo da sociedade, mas essa é uma expectativa posterior e alheia ao fazer artístico, à qual o autor não deve se curvar. Ao autor (comprometido com o fazer artístico) compete ver, ouvir e imaginar apenas e tão-somente para importunar, desestabilizar.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Eu sou um autor e um intelectual. Os outros bichos ficam nas jaulas vizinhas. Nós não nos misturamos.


Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
É indiscutível que o consenso tem sobrepujado a fricção. Na literatura contemporânea, o limite é a não-literatura travestida de literatura; o desafio é alocar cada qual em seu devido lugar. Já o desafio da literatura contemporânea é o de sempre: superar-se; seu limite: render-se perante o desafio.

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Antonio Salvador é autor de A Condessa de Picaçurova, vencedor do 17o. Prêmio Nascente de Literatura, concedido pela USP, além de finalista do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, em 2012, e do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013. É autor do livro ensaístico Três Vinténs para a Cultura, publicado em 2014. Co-roteirista do documentário CtrlV – Video Control, lançado em 2011, acerca o impacto da indústria hollywoodiana sobre a produção audiovisual dos países periféricos. Participou da coordenação de institutos internacionais, como o DiverCult, desenvolvido na Espanha, e é membro-fundador da RAIA – Rede Audiovisual Ibero-Americana. Autor do espetáculo teatral Experimento com bola de demolição sobre objetos de uso diário, com encenação do Coletivo de Areia, que circulou pelo Estado de São Paulo em 2016 e tem reestreia prevista para 2017. Paralelamente, dedica-se à carreira acadêmica na Humboldt-Universität zu Berlin. Mora em Berlim. Homem-Número, seu segundo romance, será publicado em 2017.