segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Mas você trabalha em quê?



Mas você trabalha em quê?

Por Claudia Nina

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
A diversidade é, sem dúvida, uma das marcas da contemporaneidade literária – e não apenas no Brasil, acredito. Nesta diversidade, incluem-se não só as diferentes linguagens, temas e gêneros, como também diferentes qualidades.  Muita porcaria tem sido editada. Sempre me pergunto por que motivo. É claro que podemos pensar que qualquer pessoa tem o direito de publicar qualquer coisa. Mas não deveria. Acho que falta critério – tanto por parte de quem escreve quanto por parte de quem edita. Aliás, alguns autores são tão afoitos que não esperam por uma editora – publicam por si mesmos, sem que um outro olhar participe da história daquela obra, o que para mim é fundamental. Além disso, há vários outros peixes podres neste mar: vende-se mais o que é produzido em grande escala, obedecendo a uma demanda? O que começou primeiro? Como se trabalha a leitura de qualidade no Brasil? Por um lado, temos os livros que não são boa literatura (não inovam, estão cheios de erros e de clichês) vendendo milhões; por outro, autores despreparados que se acham prontos para a publicação e insistem em acontecer não importa como. No meio disso tudo, estão os autores que já alcançaram uma certa qualidade literária, uma porcentagem pequena, tentando sobreviver e fazer com que os editores tenham tempo de ler suas obras – o que é difícil, pois estão sobrecarregados, na tentativa de encontrar alguma coisa de valor nas pilhas de originais diários. Bom, soma-se a isso a inexistência de um público leitor; não há política de incentivo à leitura que dê conta do atraso. Ou seja: um caos. Contudo, sou otimista. Acho que o número de excelentes autores crescerá cada vez mais, e a literatura contemporânea brasileira (para a qual acendo uma vela diariamente, tem autores incríveis despontando todos os anos), irá brilhar em um cenário mais gratificante. Não custa sonhar. Cansa menos.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Simplesmente adoro as festas literárias. A Flip, por exemplo, é um evento incrível. Adoro. E adoro cada vez mais. Não só por conta da programação oficial, mas especialmente por conta do entorno, das casas culturais que se abrem na cidade e que oferecem ótima programação gratuita. É só chegar, puxar uma cadeira e participar. Sei que é um trabalho lento. Não é de uma Flip para a outra que o número de leitores no Brasil irá se multiplicar, mas é uma iniciativa que precisa ser louvada, assim como as feiras e festas menores que se espalham pelo país. Não vejo problema algum nos selfies. Não são coisas excludentes em relação ao amor pelos livros. Pode-se querer tirar 300 selfies e ser apaixonado por literatura, atuante, bom leitor. A gente não pode achar que uma coisa exclui a outra. E tudo demanda tempo. Provavelmente, o mundo cultural e literário que queremos para o Brasil ainda demore alguns séculos...

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Temos vários entraves quanto à exportação do livro brasileiro. A língua, por exemplo. O intercâmbio entre autores e tradutores é essencial. Contudo, para que funcione, é preciso que haja agentes literários a fim de processarem a intersecção, incluindo aí a oferta do produto no mercado internacional. A meu ver, existem poucos agentes no Brasil. Há ótimos profissionais que estão absolutamente sobrecarregados. Falta gente boa para engrossar a atuação. Mas acredito que este não seja nosso maior desafio. Nosso maior desafio é ser lido pelos leitores da nossa língua. Não somos. Vai demorar muito até que venhamos a ser.

© Anouk Kruithof, Enclosed Content Chatting Away In The Colour Invisibility, 2009

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Políticas de leitura, saraus literários e tudo mais que houver nessa vida. Acho que nenhuma estratégia deve ser descartada. O cenário ainda é tosco, cruel, em termos de leitura. Observo as pessoas com as quais convivo diariamente. É um preconceito medonho dizer que as classes mais pobres são as que leem menos de forma generalizada. Tudo bem, as coisas ficam mais impossíveis quando não se tem acesso à cultura, certo, não sobra dinheiro para a compra de livros que são caros para os padrões nacionais, certo, e todo esse blá blá blá óbvio. Porém, gostaria de entender por que motivo pessoas que têm um ótimo salário, viajam anualmente para o exterior, comem nos melhores restaurantes e se vestem com as melhores grifes não leem. E não leem mesmo! Porque se tivéssemos uma classe dominante leitora, nosso país não estaria em situação tão precária. A literatura nos humaniza. É fato.

Ler o quê? como? Para quê?
Porque o mundo com a literatura é mais humano. A leitura não só faz com que a gente articule melhor as ideias, para que não sejamos manipulados por conceitos alheios como faz com que a gente entenda nossas falhas, nossos subterrâneos. Um mergulho literário transforma o que temos como horizonte de sonhos: o mundo simplesmente material, com seus desgastes, suas agruras, maldades, fica menor. Se aquele profissional liberal que gasta fortunas decorando uma casa nova, com banheira de pé dourado, por exemplo, mas nenhum livro na estante, soubesse o que está perdendo... Enfim, não estou generalizando. É apenas um caso real que utilizo como exemplo. A revolução literária será lenta. Ainda está por vir. Nas escolas, a leitura deveria dar mais ênfase ao prazer. Minhas filhas sempre preferem os livros que não são de obrigação. Muitas vezes, a forma como os livros são adotados é ultrapassada, chata. E, então, desde cedo, a literatura fica relacionada a uma atividade de obrigação. Alguns trabalhos escolares são chatérrimos. Muitos livros de obrigação também. Então, há que se criar novas formas de interação entre a criança e o livro. Uma iniciativa muito bacana que tem ocorrido cada vez com mais frequência é a participação dos autores nas escolas para que os alunos conheçam o rosto e a voz por trás das histórias. Isso faz com que a literatura ganhe uma tridimensionalidade fundamental.

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Para mim o grande desafio na literatura é o da profissionalização do autor. Imagine o dia em que ele poderá se apresentar como autor e não precisará esperar pela pergunta que vem depois: mas você trabalha em quê? Como se escrever não fosse um trabalho como qualquer outro. Talvez não seja mesmo. É altamente viciante – poucos trabalhos o são. Contudo, acredito que um dia poderemos completar simplesmente com uma pequena palavra as fichas dos hotéis – o que faço da vida? Sou autor. E que isso baste. Porque isso é imensidão.

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Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest). Em 2016 participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien et foi finalista do Prêmio Rio de literatura. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O mundo da literatura ainda é uma bolha


O mundo da literatura ainda é uma bolha


Por Micheliny Verunschk

O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Creio que vivemos um momento ímpar nesse tal mercado. Se por um lado as grandes editoras dominam as prateleiras das pequenas, médias e grandes livrarias, por outro lado as editoras independentes e os autores estão conseguindo se não reinventar a roda, ao menos fazê-la girar sob outra música. Acredito nesse movimento, uma configuração que aproxima pessoas, autores, leitores e editores, e que coloca os livros para circular fora dos espaços tradicionais (sem, contudo, excluir esses espaços).

Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Por um lado, tenho tido a sorte de participar de feiras e festas para além das “selfies”, por assim dizer. Ou seja, tenho tido a alegria de falar em livros, política, movimentos sociais e questões de gênero nesses espaços, apesar de a cada temporada o mercado apostar em nichos e propostas tão “espetaculares” quanto vazias, sejam os livros de colorir ou os youtubers. Por outro lado, vejo com preocupação eventos tradicionais do gênero serem extintos por falta de apoio e mesmo grandes eventos terem um público reduzido apesar dos frágeis anteparos que as ações de marketing, que colocam youtubers e Bruna Surfistinha na conta da literatura, representam. É espantoso que num país de dimensões continentais como o Brasil o “mundo da literatura” (chamemos assim) seja ainda uma bolha. Aliás, é espantoso e não é, porque se observarmos bem o fato de a literatura ser relegada a planos inferiores é sintomático.  O adoecimento da nossa sociedade, o perigoso flerte com o fascismo, a crença generalizada em religiões vorazes e centradas no individualismo e na meritocracia são coisas que têm muito a ver com o desprezo pela leitura.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro? 
As duas coisas, só que precedidas por um fortalecimento do livro aqui dentro. Quando se fala em internacionalização se agregam dados subjetivos que vão de glamour e sucesso à possibilidade de se ser lido para além dos limites do nosso mercado tão encolhido quanto excludente. Quando se fala em exportação do livro, se fala em negócios, em abertura de mercado, sobretudo em países lusófonos. É a lógica do santo de casa que não faz milagre, ou que precisa fazer fora para ter algum reconhecimento de fato. Mas se falarmos em fortalecimento do livro, da leitura e dos autores aqui dentro desse país gigantesco e por isso mesmo cheio de possibilidades, falamos de um outro tipo de abertura. Anos atrás, baseados nos dados de alguma pesquisa, dizíamos que o Brasil tinha cerca de mil autores e mil leitores, um pouco mais, um pouco menos. E mais, que os mil leitores eram os mesmos mil autores. Brincadeiras à parte, penso que devemos fortalecer nossas bases.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Políticas públicas de leitura, sem dúvida, pois são elas que formarão público. E não falo apenas do leitor infanto-juvenil. É preciso banir o analfabetismo funcional. Os últimos acontecimentos políticos escancaram uma realidade feia e nela o escândalo de termos políticos, juristas e outros graduados (e pós-graduados) verdadeiramente analfabetos.

Ler o quê? como? Para quê?
Primeiro, ler de tudo até para formar um referencial. Ler de tudo sem, entretanto, nivelar. Misturar os gibis, as graphics novels, as bulas de remédio, com os clássicos. A formação do leitor é um trabalho de sedução, daí a importância (muitas vezes posta de lado) à literatura infanto-juvenil, para mim o gênero mais difícil de se trabalhar criativamente. Por outro lado ter em mente de que formar o leitor é também e principalmente formar um crítico.

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Não, não acredito nisso. Penso que nunca vivemos um momento como este em que os tantos outros dialogam, debatem, entram em embates. Entretanto penso que precisamos pensar numa espécie de maioridade, na qual, por exemplo a poesia, não seja relegada ao cantinho da sala.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Ser alguém que escreve, que conta histórias, que luta com as palavras aquela luta mais vã, parafraseando Drummond. O resto é contingência social e de mercado que exige que vendamos o nosso peixe. Aliás, na minha experiência tem sido bem isso, sou alguém que trabalha com as palavras e que vez por outra vai fazer seu pregão na feira.

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Construir uma obra é o grande desafio, especialmente quando se precisa disputar tempo com os limites da sobrevivência. Construir uma obra, penso, é dar um salto no escuro, no escuro que é o futuro. Eu, por exemplo, a cada dia penso nisso, em construir uma obra para quem sabe, daqui a cinquenta ou cem anos, se o meteoro não chegar até lá, ser ainda lida. Isso sim seria sucesso. Ser lido agora pode ser um desafio ou um limite, visto que a pergunta de Alegria, Alegria é cada vez mais pertinente: quem lê tanta notícia? No caso específico de autoras mulheres, ainda há a questão do espanto de que mulheres possam escrever e escrever bem para além das etiquetas e estereótipos.

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Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010) e b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014), entre outros. Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro Geografia Íntima do Deserto. Publica em 2014 seu primeiro romance Nossa Teresa -vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015, e em 2016 Aqui, no coração do inferno, também pela Patuá. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

No vácuo da literatura


Políticas públicas de leitura ou saraus literários?

Por Jéferson Assumção

Os dois juntos. Políticas públicas de leitura são mais abrangentes e estruturantes e os saraus, mais concretos e vivos. Nos círculos de uma ainda triste comédia, vemos no nível mais real e concreto os vivos saraus, feiras do livro, festas literárias, festivais, malas do livro, bibliotecas itinerantes etc. No entanto, se essas ações estiverem isoladas, como geralmente ocorre, esta mesma vitalidade tem mais dificuldades em se manter. Se de fato queremos o Brasil como uma sociedade leitora precisamos ir além das ações, realizadas mais com a vontade do que com as condições necessárias. Elas são belos exemplos do cuidado e da atenção existentes nessas comunidades, mas estão no frágil nível do alcance da sociedade civil ou do cidadão comum auto-organizado e que toma para si a responsabilidade que deveria ser de todos (do Estado, do mercado e da sociedade civil). A começar pelos governos.

É preciso pensar que projetos são conjuntos de ações (saraus, festas, feiras etc); programas são conjuntos de projetos; políticas, conjuntos de programas e finalmente planos são conjuntos de políticas. É uma arquitetura complexa mas necessária para se enfrentar a desafiadora realidade dos baixos índices de leitura e a pouca valorização do livro e da literatura no Brasil. A qualidade das políticas públicas é fundamental para uma maior efetividade das ações, entre elas os importantíssimos saraus.

Para ampliar o impacto das ações, é preciso pressionar os governos para que desenvolvam os Planos de Livro e Leitura, nacionais, estaduais e municipais, articulando cultura e educação, estado e sociedade. Ocorre que o esforço de construção de políticas públicas para o setor sofre com o que o professor Albino Rubim, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), chama de o mal das políticas públicas de cultura no Brasil: a tríade “descontinuidade”, “ausência” e “autoritarismo”. Os saraus e demais eventos do tipo são uma espécie de resposta à ausência e ao autoritarismo, mas salvo belíssimas exceções boa parte sofre com a constante ameaça da descontinuidade.

Em nosso país, a desatenção à área do livro e da leitura tem uma história de séculos, primeiro com a interdição (Portugal proibia que se fizesse livros no Brasil até 1808, o que efetivamente só começou a acontecer no século XX, com a criação do MEC em 1937, atrasando em quase meio milênio a relação do brasileiro com o livro). No vácuo, nossas elites desenvolveram (e apenas para si, em pequenos enclaves de ilustração) uma relação ornamental, ostentatória e de distinção (como diz Renato Ortiz) com relação às letras e às artes e um desprezo, para não dizer vergonha, em relação à diversidade cultural brasileira que perdura até hoje. Este histórico afetou, claro, o desenvolvimento do livro e da leitura de tal forma que o analfabetismo absoluto no Brasil chega em 2016 a cerca de 8% da população com mais de 15 anos.

Conforme o “The World Factbook” de 2015, da agência americana CIA a taxa de alfabetização da população brasileira com mais de 15 anos é de 92,6%; semelhante à da Bolívia, de 91,2%; menor que a do Paraguai, 93,9%; Equador, 94,5%; Peru, 94,5%; Colômbia, 94,7%; México, 95,1%; Venezuela 96,3%; Chile 97,5%, e incomparavelmente atrás da Argentina 98,1%, Uruguai, 98,5% e Cuba 99,8%. Não por acaso, as diferenças entre a América espanhola e a portuguesa refletem a importância da leitura e a taxa de alfabetização na península ibérica: a alfabetização em Portugal é de 95,7%; na Espanha, 98,1%. Na Europa do norte e Estados Unidos, os índices de alfabetização são de 99% e 100% há muitas décadas[1].

O quadro mostra um Brasil ainda bastante atrasado em termos de índices de leitura em comparação aos nossos vizinhos. Por isso, a importância de todo o tipo de ação que possa ajudar a revertê-lo. Os saraus são potentes ações muitas vezes levadas aos trancos pelas comunidades no deserto deixado pela falta de atenção governamental em todos os níveis. São manifestação da enorme capacidade inventiva do povo brasileiro diante do desinteresse arcaico em se propiciar a inclusão da população no mundo das letras, o desenvolvimento do espírito crítico e da "perigosa" criatividade.

Sarau dos Mesquiteiros com Rodrigo Ciriaco


E o mercado?

O mercado pouco tem feito como contrapartida à grande desoneração fiscal do livro promovida em 2004 e quase nada investiu do que poupou com os cerca de 9% de retirada de PIS, Cofins e outros impostos dos custos de produção do livro. O apoio das empresas privadas a ações mais estruturantes no seu próprio setor é bem menor que o que elas vêm lucrando desde 2004 sem esses impostos. Sem falar que os preços dos livros não baixaram, como se esperava com a ação de desoneração. Esses recursos em um Fundo Setorial do Livro e Leitura poderiam ser destinados aos saraus existentes e a novas iniciativas.

Consluindo, deve-se aplaudir e estimular os saraus cada vez mais, mas é preciso ir muito além. Leitores, estudantes, escritores, professores e comunidade leitora em geral necessitam pressionar governantes e parlamentares das três esferas por uma maior atenção ao setor. Só assim poderemos aumentar o pequeno financiamento (baixo e decadente há anos), aumentar a participação e a promover um maior planejamento da área. Um dos principais gargalos é a frágil institucionalidade para políticas de livro (por que, por exemplo, no Ministério da Cultura, há uma Agência Nacional de Cinema–Ancine, uma Secretaria do Audiovisual, um Fundo Setorial do Audiovisual e nada parecido na área do livro?). É preciso retomar a importância do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), dos planos estaduais e municipais porque eles são instrumentos de gestão, formulação política e participação social imprescindíveis para o desenvolvimento do livro, leitura e literatura. Todas as áreas da vida pública são planejadas dessa forma e a do livro precisa também do mesmo esforço, o que não vem ocorrendo na intensidade e profundidade que as ações de leitura e o nosso país como um todo necessitam.

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Jéferson Assumção faz pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Escritor, com mais de 20 livros publicados. Recentemente publicou Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído (BesouroBox),  Cabeça de mulher olhando a neve (BesouroBox) e A Vaca Azul é Ninja em uma vida entre aspas (Libretos). Foi secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul de 2011 a 2014, secretário municipal de Cultura de Canoas 2009-2010, Coordenador-geral e Diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (2005-2009 e 2015), um dos articuladores do Plano Nacional de Livro, Leitura e Literatura (PNLL). É doutor em Humanidades e Ciências Sociais – Filosofia, pela Universidade de León (Espanha). Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário La Salle (Canoas-RS).

domingo, 23 de outubro de 2016

Somos todos agitados


Somos todos agitados

Por Jorge Ialanji Filholini


Em uma palestra, o mediador perguntou para o autor em destaque da mesa se ele era um agitador cultural. Rindo e certeiro respondeu - o que parecia já ser a milésima vez que a pergunta era feita a ele - não se considerar um agitador, mas um agitado cultural.

Gosto desta definição para abrir minha resposta. O autor é um agitado. Inquieto. Em vibração. Com o nervo saltando da epiderme. O autor contemporâneo demoliu a torre de marfim há muito tempo. Chutou para longe a escada que o levava ao pedestal. Ainda bem!

A nova configuração intelectual não é ficar apenas trancado no escritório com livros cobrindo a mesa. Vai além. O intelectual, o autor e o profissional das letras querem saber quem é que escreve no mesmo período que eles. Quem está na mesma geração produzindo. Qual o escritor ou escritora que está formando uma poesia, colocou o ponto final em mais um conto, virou o capítulo de outro romance.  Estão atentos e participam de ocupações, saraus, intervenções, eventos literários independentes, conhecem novos leitores. Acolhem debates e opiniões. Estão nas ruas. Comprando e construindo zines, colando lambe-lambe. Penduram seus escritos nas praças, metrôs e ônibus. Estão subindo, na plataforma virtual, seus vídeos com performances poéticas.

Conheço muitos autores que são agitados literários. O poeta-botequim de Felipe Pauluk. Diego Moraes e seus versos irônicos no cotidiano do amor do século XXI, ao lado do escritor Roberto Menezes, organiza, todo ano, a Flipobre, com mesas literárias realizadas por meio do Youtube. A literatura de resistência de Débora Arruda, Pedro Bomba e Allan Jones, que a duras batalhas disputam suas vozes com os barulhos dos carros no Sarau Debaixo, em Aracaju, realizado embaixo de um viaduto. As performances e experimentações literárias de Herbert de Oliveira e Adriana Abreu, em Aracaju, com o Grupo Tatamirô de Poesia, na declamação de textos poéticos, sejam eles escritos na forma de prosa ou verso em suas múltiplas manifestações verbovocovisuais. Em Porto Velho com o arretado e militante dos versos Elizeu Braga, no espaço Arigóca, pertinho do Rio Madeira, celebrando a diversidade com intervenções urbanas, intromissões poéticas, narrativas da memoria e mosaico de oralidade.

O autor contemporâneo está sempre em alerta, fora e dentro da internet. Entre um gole e outro das cervejas dos botecos. As configurações estão nas produções, editorações, divulgações e educações. Os blogues e sites culturais independentes que expandem os escritos atuais. Podem-se encontrar com Aline Bei e Juliana Ferreira no OitavaArte, com publicações diárias das poesias independentes. No Cidadão Cultura, que apresenta a literatura de Cuiabá. Encontra-se no batente de três poetas – Aristides de Oliveira, Demétrios Galvão e Thiago E. – na editoração da primorosa revista cultural Acrobata, publicada em Teresina, Piauí. A produção em Porto Alegre da FestiPoa. Evento produzido com luta por Fernando Ramos e companheiros. As zines desenvolvidas e divulgadas de mãos em mãos por Nicolas Nardi. Nas conversas das literaturas marginais realizadas por Ferréz na Fábrica de Cultura de São Paulo. As declamações de Luiza Romão, Victor Rodrigues, Anna Zêpa, Maria Rezende e Roberta Estrela D’Alva. Os saraus, que celebram a literatura como quem come escondidinho de carne seca. Aquele delicioso sabor poético da Cooperifa, Binho, A Plenos Pulmões, duBurro, Parada Poética e Suburbano, organizados pelos guerreiros Sergio Vaz, Binho, Pézão, Daniel Minchoni e Sinhá, Renan Inquérito e Alessandro Buzo. Sempre No empoderamento do Slam das Minas. Em Salvador, saudando a cultura afro-brasileira, pelo poeta e professor Nelson Maca no Sarau Bem Black. Um país imenso para o grupo Estados de Poesia, projeto colaborativo idealizado em parceria com poetas, coletivos, saraus e movimentos literários da cena contemporânea que possibilita o encontro de artistas de diferentes localidades, sob o intento de promover o intercâmbio cultural entre os estados.

O autor contemporâneo também encontra espaço nas editoras independentes. Nas mil mãos e olhos de Eduardo Lacerda e a Editora Patuá. Em Léa e Zé Renato com a 11 Editora, carregam a valise cheia de livros debaixo dos braços para espalharem os autores do interior de São Paulo. Está na Malha Fina Cartonera. Um brinde a  Vanderley Mendonça e seu selo Demônio Negro. Está na NÓS, com Simone Paulino. Na barraquinha transportada de feira em feira por Bruno Azevêdo com a Pitomba – livros e discos. No suor e na fumaça de uma equipe que sempre deu o sangue para que todo ano possa ser realizada a Balada Literária, tendo à frente o incansável Marcelino Freire.

O profissional de letras não é mais aquele isolado em sua sala acadêmica. Admirando o diploma amarelado pendurado na parede. Está agitando além dos muros do ensino superior. Encontra-se na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) com o “Projeto L&R” – Literatura e Realidade -, sob a coordenação da professora Rejane Rocha e equipe de estudantes, tendo como objetivo oferecer cursos modulares de literatura brasileira moderna a alunos de Ensino Médio, de modo a enfrentar o desafio de ensinar literatura fora dos padrões impostos pelas escolas, pelos materiais didáticos, pelos vestibulares, de maneira interdisciplinar e conectada à realidade dos alunos. Na resistência contra a Escola Sem Partido. E ainda em São Carlos, um salve para o Slam das Quebradas, da Casa Hip Hop, nos saraus, nas rodas de conversas dos Leitores Livres, nas performances do Poeta em Queda, nas intimidades poéticas de Matheus Torres e na imagem literária de Yuri Batáglia Espósito.

Acredito nestes agitados no cenário literário contemporâneo brasileiro. Estarmos sempre em movimento. Alertas. Confraternizados. A literatura tem que estar cada vez mais conectada. Este é o cenário. Há tantos nomes, tantos escritos. Tantos agitados culturais.
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Jorge Ialanji Filholini nasceu na cidade de São Paulo, em 1988, mas reside há mais de 20 anos em São Carlos, interior do estado. Editor do site cultural “Livre Opinião – Ideias em Debate” (www.livreopiniao. com). É um dos curadores do Festival Gaveta Livre, evento literário e teatral realizado em São Carlos. Fez parte, ao lado do escritor Marcelino Freire, do projeto Quebras (www.quebras.com.br), como produtor e assistente de multimídia. Participou da antologia, lançada em novembro de 2015, com textos e fotografias que desenvolveu durante a sua viagem pelo projeto. Lançou, em 2016, o livro de contos Somos mais limpos pela manhã, pelo selo Demônio Negro.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Viva todos que tiveram as vozes embargadas!

Viva as periferias, as mulheres e todos que tiveram as vozes embargadas, historicamente !

Por Henrique Rodrigues

O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Venho acompanhando esse mercado há uns 20 anos, desde que entrei na faculdade de Letras, ainda no século passado, com trabalhos de fim de curso datilografados na máquina de escrever. Acompanhei o início dos blogs, da autopublicação, do medo e esperança que a internet trouxe, inclusive das apostas furadas em torno da ascensão do livro digital e o suposto declínio do impresso. Nesse balaio todo algumas questões antigas se mantiveram, como a preferência pelos livros impressos, inclusive pelos mais jovens, o que é positivo. Mas em outros aspectos pouca coisa mudou, como a implantação de uma cultura de valorização da literatura de qualidade. A regra do marketing em torno de best-sellers, a prevalência dos títulos internacionais em lugar do autor brasileiro, a pouca valorização moral e financeira do autor nacional em meio a esse mercado são as mesmas. Os segmentos que estão na moda, moda essa que sempre muda a cada dois anos ou menos (a bola da vez são livros de youtubers, mas não garanto se ainda será quando este texto for divulgado), recebem tratamento vip das editoras por venderem mais, fazem entrar algum rapidamente nesses tempos de crise. Sim, as editoras investem na divulgação do que já vende. Parece que os termos divulgação e marketing não se aplicam a uma literatura mais elaborada, não casa. As editoras pequenas furam esse bloqueio de forma fantástica. Mas apenas no varejo, pois os livros delas não conseguem ser bem distribuídos e o alcance acaba sendo bem pequeno, de nichos. Então vivemos um paradoxo mesmo da diversidade literária e mais acessos a canais de publicação com uma uniformidade do que se entende por livro bom no senso comum. Basta entrar numa livraria menos criteriosa, como as grandes redes, tirar uma foto da vitrine e voltar um ano depois. Serão muitos do mesmo. Acredito que apenas uma forte, regular e sistemática campanha de formação de leitores de literatura possa contribuir para uma democratização real dos livros, que são objetos ainda não valorados em boa parte da nossa população. E isso ainda levaria muitos anos para mudar. O chamado mercado (mandachuvas do marketing, donos das grandes redes de livrarias ou editoras?) tem suas regras próprias, e uma das mais fortes dela é não fazer juízo de conteúdo. Então, em termos de qualidade literária com formação de leitores, não podemos esperar muito dele.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Como trabalho diretamente com isso no Sesc e também sou autor que participa de vários eventos literários pelo país, vejo essa questão por duas perspectivas. Acho que é hora de se fazer um balanço do modelo de evento literário que a Flip trouxe e, felizmente, inspirou centenas de outros pelo país. Ao trazer a figura do autor para o centro do evento literário, o formato contribuiu para desmistificar a figura do sujeito que escreve como alguém superior ou cercado de aura. Paralelamente, as redes sociais permitiram uma aproximação dos autores com os leitores. Surgiu inclusive uma geração de escritores primeiramente conhecidos pelas comunidades virtuais e que depois caíram na estrada, alguns até contratados pelas grandes editoras. Mas apenas esses mais novos, de segmentos que atingem os leitores mais jovens (o leitor-fã) conseguiram fazer uma ponte entre os eventos e a leitura propriamente dita. Em boa parte de eventos literários, a galera até se interessa na hora pelo papo com o autor, mas por incrível que pareça em muitos nem precisa ter livro. Há um interesse quase fetichista pela rotina, “processo criativo”, do autor, e nem tanto pelo que ele de fato escreve. A ideia do escritor pode ser mais interessante que o livro dele.
Num evento em que compareçam 50 ou 100 pessoas para ouvir e conversar com um autor, não se pode precisar ou mesmo estimar quantos de fato irão ler o livro dele. Seja comprando ou pegando em bibliotecas. Uma das soluções pode ser o trabalho pedagógico prévio, em que as obras são trabalhadas em escolas ou clubes de leitura e culminam com a passagem do autor. A Jornada Literária de Passo Fundo fez um belo trabalho nessa linha. Acredito que os livros devam voltar a ser protagonistas das feiras e festas literárias, e os autores chegam para o fim de um cliclo formativo.  

Henrique Rodrigues e Leonardo Tonus (Salon du Livre de Paris 2016)

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
A literatura produzida no Brasil sequer é conhecida aqui. Acho engraçado que alguns autores parecem almejar publicação internacional quando a intranacional nem se concretizou direito. Há autores e livros de grande qualidade que merecem ser lidos fora, mas deveríamos priorizar a formação de uma base de leitores. Se não valorizamos aqui a própria produção, com a publicação e divulgação maciça de autores internacionais, como podemos esperar que tenhamos fora algum espaço de reconhecimento? Naturalmente, não podemos desperdiçar leitores em lugar nenhum do mundo, mas há um trabalho grande a ser feito aqui ainda. Por outro lado, se o leitor brasileiro valorizar mais determinado livro porque ele teve publicação e espaço fora, pode ser positivo, ainda que tenha um efeito casa de ferreiro...

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Os dois! Infelizmente não temos hoje no país nenhum programa de política pública de leitura em vigor. É uma vergonha que tantas ações de porte que foram na raiz do problema, como o Proler da década de 1990, tenham sido esvaziados. Há alguns anos o Governo tentou trazer o eficiente modelo de agentes de leitura de volta, mas naufragou na doença da descontinuidade. Há campanhas eficientes, como a Paixão de Ler, no Rio, outras também pontuais, mas a questão da leitura não pode ser feita com ação eventual, e sim com atividades de base regular, que aparecem menos mas dão resultado efetivo. São como o saneamento básico da leitura. Não temos ainda. As ações que surgem como iniciativas de Ongs ou mesmo apaixonados por leitura, como os saraus, são extremamente benéficas para se divulgar as manifestações orais e multiplicar a ideia da leitura. Ainda que em alguns pareça um tipo de karaokê literário, com produção ruim e por vezes banalizante, o saldo é positivo. Os eventos de batalha de poesia (slam) estão chegando pra valer nas capitais especialmente, atraindo muitos jovens que têm muito a dizer, especialmente de periferias. Somaria a essas atividades os clubes de leitura. Se em cada bairro do país houvesse uma biblioteca ou outro espaço com clubes de leitura, para as pessoas discutirem livros e compartilharem ideias, teríamos uma revolução silenciosa.

Ler o quê? como? Para quê?
Ler inicialmente o que dá prazer, que faz a cuca ficar inquieta, e depois ler outra coisa parecida. E depois outra coisa que não se parece, para não ficar monotemático. Ler e trocar ideias com outros sobre o que leu, compartilhar o entusiasmo com outros. Postar o que leu e de que gostou. Reservar um tempinho do dia para ler, que é o exercício da mente e do espírito. Porque a leitura não serve para nada e ao mesmo tempo serve para tudo. Não podemos nos esquecer dos Direitos do Leitor, do Pennac, claro.


Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Não podemos pensar a produção contemporânea dissociando-a dos tempos em que vivemos. O paradoxo da vida aberta provocada pelas redes sociais e os isolamentos dos indivíduos propiciam uma literatura que trabalhe essas tensões. A exclusão do outro é também a exclusão de si mesmo. Mas também vejo que se reflete certa crise da classe média. O branco classe média da Zona Sul (no caso do Rio, mas a lógica pode ser aplicada em qualquer grande centro urbano) sempre esteve à frente da produção literária e parece que isso está chegando a uma estagnação. Mas há sempre histórias para serem contadas se houver um olhar inclusivo, tanto de temáticas (livros sobre escritores em crise até quando?) quanto da pluralidade de vozes (viva as periferias, as mulheres e todos que tiveram as vozes embargadas historicamente).

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Com a internet, o autor entrou mais em cena no meio literário. E com isso muitos passaram também para o outro lado do balcão. Daí muitos se tornarem o próprio divulgador, agente, blogueiro, editor, curador de eventos literários. De todo modo, há algum tempo os escritores eram em sua maioria jornalistas ou professores universitários, para pagar o feijão com arroz, já que a literatura mesmo não paga o cafezinho. E o profissional que vive da palavra e gravita em torno da literatura pode desempenhar outras atividades. Há ainda um grupo que consegue viver relativamente bem apenas dando palestras e oficinas, que são serviços ligados à atividade literária. Por outro lado, toda essa exposição não pode fazer com que se esqueça do principal da atividade do escritor, que é ler, ler muito, e escrever.



Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Conforme disse anteriormente, o maior desafio hoje é de educação para a leitura literária no pais. Sem uma base maior de leitores, de pessoas que vejam na (boa) literatura um bem cultural do seu cotidiano, vamos ainda ter índices vergonhosos. Temos ¾ de analfabetos funcionais entre os indivíduos economicamente ativos no Brasil. E, como escritor, “agitado” cultural e alguém que vem das classes menos favorecidas, preciso contribuir, fazer minha parte para melhorar esse quadro. E abrir espaço para os demais.

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Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa “Oi Kabum!” Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. Participou de várias antologias literárias e é autor de 13 livros, entre os quais o romance O próximo da fila, inspirado no período em que foi atendente do McDonald´s. Foi um dos autores brasileiros selecionados para o Printemps Littéraire Brésilien em 2016, evento realizado na Universidade Sorbonne, na França. Website do autor : http://www.henriquerodrigues.net/


O extermínio do pensamento crítico.

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.

Por Paula Fábrio

Contra o esforço mercadológico de homogeneização sempre houve a força oposta (e natural) de diversificação, sobretudo por parte de quem escreve. No entanto, com o advento de tecnologias de publicação cada vez mais acessíveis (impressão digital em pequenas tiragens, livros eletrônicos, blogues, PDFs, plataformas como a da Amazon, entre outros), e de circulação mais democráticas (computadores, políticas públicas ou mesmo iniciativas da sociedade para saraus e encontros literários), além de canais de divulgação com grande poder de criar empatia, como as redes sociais, houve uma ruptura no mercado de livros. Se não pudermos chamar de ruptura, talvez possamos dizer que se trata de uma forte marcação de nichos.

De um lado, nas grandes lojas físicas, salvo exceções como a Blooks Livraria (SP e Rio), Livraria da Vila (Fradique Coutinho – SP), por exemplo, há o domínio de obras não relacionadas à literatura, em franca expansão nas prateleiras. Aliás, os únicos livros ligados à literatura, nesses casos, são obras de interesse comercial (algumas com qualidade literária, mas ainda estas são exceções). O mesmo fenômeno toma lugar nos jornais e revistas impressos de grande circulação. Esse raciocínio também vale para as bienais do livro e outros eventos que privilegiam números a serem apresentados para o sistema de captação de recursos, seja do governo ou de iniciativas particulares. Isto é, parece-me um derradeiro esforço do mercado de livros para perdurar diante de seu enfraquecimento com relação a outros apelos como séries de tevê, filmes comerciais, jogos de internet, a própria internet. Além do mais, esse esforço de subsistência do mercado livreiro também é comunhão, já de início um tiro no pé, com o projeto de globalização que parece tender (sob muitas máscaras e vernizes) a exterminar qualquer ideal de aprofundamento do pensamento crítico das pessoas. Dentre as principais estratégias consta a precarização das Ciências Humanas, vale lembrar. Em outras palavras, é como se nos dissessem: vamos faturar o máximo agora, neste imenso saldão, porque daqui a pouco não haverá nada disso e teremos de fazer outra coisa. O problema é que há centenas (milhares?) de pessoas que dependiam dessa renda para viver, balconistas, empacotadores, editores, assistentes, resenhistas etc etc. O que será feito delas? Quais profissões vão seguir? Os ricos, os que têm sobrenomes vão se ajeitar. Os gênios podem sobreviver. E nós, os médios?


Por outro lado, há a resistência. Literatura oral. Literatura impressa de alta qualidade. Às vezes, alguns editais contemplam produções nessa linha. Posso sugerir que alguns prêmios literários vêm laureando autores desconhecidos nos canais tradicionais, editoras pequenas. Alguns eventos que valorizam qualidade e diversidade também prestigiam essas ideias. Arrisco dizer mais: até curadorias de grandes eventos começam a farejar o óbvio, o público, que por sorte do destino ou por esforço próprio aprecia obras que vão além do espetáculo, esse público está insatisfeito e responde de modo favorável e entusiasmado às iniciativas plurais e inteligentes.

Talvez Marshall McLuhan tenha feito a mais acertada das previsões com sua aldeia global. Neste momento, tão sofrido para todos porque é o momento presente e nos parece de uma transição imensa, estamos apenas a ajeitar as cadeiras, e decidir (para quem ainda não decidiu) o que ler, escrever ou publicar, o que fazer da própria vida, afinal. Porém, com certeza, as pequenas aldeias já se visitam, suas fronteiras são nuançadas, há respeito mútuo e convivência, apesar e em virtude das discussões encetadas. Espero que as aldeias se preocupem cada vez mais com a formação de leitores, que se comprometam de modo enérgico com educação e cultura. Mas não nos esqueçamos, lá no meio, no meio do planeta, está o olho do furacão, nervoso, implodindo, a ser transformado em outra coisa. Esta coisa não sabemos o que será, sua forma em produto pode ser qualquer uma, no entanto estará vazia, sempre vazia.

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Paula Fábrio nasceu em São Paulo, em 1970. É mestre e doutoranda em Literatura pela USP. Seu novo romance, Um dia toparei comigo (Foz) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e agraciado com a bolsa ProAC. Seu primeiro livro, Desnorteio, venceu o Prêmio São Paulo em 2013, na categoria estreante. A autora participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien e é colunista da Revista Pessoa.








quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A literatura precisa circular

Entre selfies e livros
Por Marta Barcellos

Primeiro, foram os lançamentos com debates, no Rio e em São Paulo. Depois: Flipoços, Casa Sesc na Flip, Feria del Libro de Santa Cruz de la Sierra, Flipipa, Café Literário em Vitória, Biblioteca Parque e Escola Sesc no Rio, Projeto Aldeia em Aracaju, Semana Literária no Paraná, Tarrafa Literária em Santos. Pela frente, eventos literários em Maceió, Foz do Iguaçu e Manaus. Não foram poucas as vezes em que me atormentei: esse blá-blá-blá faz sentido?

Talvez tenha sido o impacto. O circuito que um escritor normalmente demora a frequentar, um ganhador do Prêmio Sesc de Literatura conquista da noite pro dia. O.k., nem tanto; não se trata de um dia acordar escritor, porque para ganhar o prêmio o tal iniciante sempre tem uma intensa – e discreta – trajetória de escrita. Mas, um telefonema (Marta, você ganhou o Prêmio Sesc) e pronto, acaba a discrição. De repente me vi catapultada ao tal circuito, antes de ter chance de naturalizá-lo como parte da vida de um escritor.

Meu espanto com o fenômeno do “escritor-celebridade” talvez tenha sido potencializado por outra especificidade do Prêmio Sesc: como o anúncio dos vencedores de se dá a partir de um manuscrito, avaliado pelos jurados, a edição, pela Record, demora alguns meses. Durante este intervalo, vivi a inusitada situação de escritora célebre sem livro publicado. Eu me constrangia, mas ninguém parecia ver problema nisso. Lembro-me de um dia ter desabafado a um amigo: sou o personagem, de fama súbita e inexplicável, vivido por Roberto Benigni no filme “Para Roma com amor”, de Woody Allen. Leopoldo, de vida comum e pacata, passa a ser perseguido por jornalistas e paparazzi interessados em saber como prefere suas torradas, se dorme de bruços, com que mão escova os dentes.

Menos, Marta, menos – recomendou meu amigo, providencialmente distante do mundo literário. Pois, é, a celebrização do escritor, como ficará claro mais à frente, é bem relativa.

Quando o “Antes que seque” finalmente foi lançado, e ganhou resenhas simpáticas, fiquei mais confortável. Mas se avizinhava a agenda de lançamentos e feiras literárias que os vencedores Sesc em geral cumprem, e flagrei-me envergonhada de participar de algo que desconfiava já ter criticado. Senti a necessidade de buscar um sentido nessa “turnê literária” que fosse além do se render à autopromoção, supostamente necessária e típica do nosso tempo.



O sentido, ainda o busco, admito. Mas posso compartilhar aqui algumas reflexões. A primeira veio a partir da visita que fiz a uma professora com a qual tive o privilégio de conviver durante o meu recente mestrado em Literatura na PUC-Rio. Marília Rothier Cardoso fora uma espécie de coorientadora informal, de mim e de uma legião de alunos/fãs. Cheguei com o livro recém-lançado e com a minha vergonha; eu iria participar de muitos eventos literários, confessei. Falei da dificuldade com o primeiro deles, a necessidade de construir uma narrativa sobre o próprio livro, e, mais estranho, sobre si próprio, isso tudo alimentando uma espetacularização da literatura que...

A professora Marília, no entanto, não deu a menor trela para minhas pseudo-justificativas de escritora-marqueteira-mas-vítima-da-situação. Apenas me interrompeu com algo como, Marta, o importante é a literatura circular. Acho que usou outra palavra, não literatura, talvez escrita, como uma tradução de “escritura”, porque aquela suspensão imediatamente me remeteu a Jacques Rancière e seu pensamento sobre a necessidade, política, de fazer a escrita circular.

A questão política me voltou à mente quando uma segunda pauta se impôs, nas entrevistas e nos debates. Uma pauta que ia além do próprio livro ou da própria vida: mulheres escritoras. Em poucos meses, várias escritoras haviam sido premiadas, uma coincidência que, como jornalista, achei natural tornar-se um “gancho”.  E, por que não, uma oportunidade. Alguns amigos homens – estes ligados à literatura – preocuparam-se que eu e Sheyla Smaniotio, minha dupla de Prêmio Sesc, ficássemos marcadas pela maldição do assunto “literatura feminina”, já tão desgastado. Dessa vez, quem não via problemas era eu, que me encontrava numa fase de intensas reflexões feministas.

Mas não era para escrever; era para falar. E uma das poucas certezas que sempre tive na vida foi a de que escrevo infinitamente melhor do que falo. Então era para treinar e falar. Além de vislumbrar a oportunidade de falar sobre feminismo – ao expor as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na literatura –, comecei a flertar com a ideia (eu procurava um “sentido”, lembre-se) de que o escritor podem estar sendo (re)convocado hoje a assumir, sim, um papel de intelectual. Diante da suposta missão, passei a me preparar, com leituras, para os temas das mesas. Foi assim, por exemplo, que quase decorei um ensaio de Virginia Woolf sobre “Mulheres e ficção”.



E também tirei selfies. Mais que isso, tirei selfies com pessoas da plateia que nunca lerão o meu livro. Pessoas simpáticas, afetuosas, sinceramente tocadas por aquele momento, digamos, supraliterário. Tive encontros com outros escritores que buscavam igualmente o seu lugar, o seu sentido, naquilo tudo. Trocamos piadas cúmplices sobre nossa estranha condição. De longe, eu observava o traquejo dos escritores realmente famosos, nem sempre tão escritores assim. A literatura precisa circular, do jeito que der, do jeito que dá, me convencia. Tento me convencer.

Foram muitos os encontros. Com ou sem selfies, há sempre os leitores visivelmente tocados pela literatura – ela, ali, aproximada (do que jeito que dá, do jeito que deu) da vida.

Outros encontros virão. Vai que, num desses, tateio o tal sentido, ainda que ofuscada pelas luzes dos refletores. Se não o sentido dos eventos com selfies e sem livros, o de minha própria busca.

XXX


Escritora e jornalista, Marta Barcellos foi a vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015, com o livro de contos Antes que seque, na segunda edição, pela editora Record. É carioca, formada em jornalismo pela UFRJ, com mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Tem dois contos publicados na coletânea Sábado na estação (Ed. Apicuri), organizada por Luiz Ruffato, e está escrevendo seu primeiro romance. Trabalhou 18 anos como repórter nos jornais Valor, Gazeta Mercantil e O Globo. Atualmente é colaboradora do caderno “EU&Fim de Semana”, do Valor, e colunista na Revista Capital Aberto e no site Digestivo Cultural.