domingo, 31 de julho de 2016

Da vida das formigas

Da vida das formigas


Eu também sempre me interessei por formigas e por sua organização social. Foi Marujo quem me iniciou ao mundo dessas trabalhadoras subterrâneas. Sentados nos degraus da padaria. Ou da mercearia da Dona Tereza.  Observávamos juntos.  O árduo caminhar das saúvas. Estivadoras terrestres, dizia Marujo. Que nos relatava suas aventuras. E a vida das saúvas. Eu sentia dó delas. Imaginando o peso das folhas sob suas frágeis costas. Diariamente. Incansavelmente. Em fila indiana. Sem qualquer possibilidade de deviância.  Saúvas não se rebelam. Não transgridem. Atuam em função da comunidade. Claro que isto não impedia o meu sádico espírito infantil de atuar.  Atormentando-as. Obstruindo suas passagens. Roubando-lhes as folhas. Esmagando-as, até. Iniciando-me assim à minha triste e inútil condição humana  Mas Marujo alertava. Silêncio. Ouçam o que elas têm a nos dizer. Naquela época havia um imenso formigueiro no zoológico de São Paulo. Onde podíamos contemplar a vida doméstica das formigas. Não a de Marujo. Que não tinha casa. Nem nome. Marujo era Marujo. Simplesmente. Morava num barraco colado ao muro de nossa casa. Minha mãe ofertava-lhe diariamente um prato de comida. Por cima do muro. E Marujo agradecia. Silencioso. Em seu terno escuro. Marujo era negro. E tinha o olhos mareados de álcool. O companheiro da criançada do bairro. Ninguém o menospreza. Diziam que fora rico. Que tinha estudo. E que se jogora na bebida por desgosto amoroso. Marujo amara. E amava suas saúvas. E nos amava. Um dia Marujo sumiu. Abandonou o bairro. O seu barraco. E o meu cotidiano. Hoje já não quase saúvas em São Paulo. Nem Marujos. Talvez tenham fugido juntos. Singrando os mares. Em busca de novos formigueiros. Como os de Ovídio Poli Junior no conto « La Abuela ou Da vida das formigas » que transcrevemos abaixo

Leonardo Tonus


La Abuela ou Da vida das formigas

Ovídio Poli Junior

Este espelho de três faces é, até agora, o único em que podemos buscar uma imagem de nosso destino. Por pequenos que sejam, os atores destes dramas têm seu peso e importância, pois sabemos perfeitamente que no infinito, que a todos nós contém, o tamanho carece de importância e o que se desenvolve no céu obedece às mesmas leis que ocorrem numa gota d’água.
(Maurice Maeterlinck)

As formigas possuem uma organização social bastante complexa. Dedicadas ao trabalho e à edificação da própria espécie, não passam o dia tecendo conjecturas. Nisso eu pensava enquanto o carro em que estávamos deixava para trás um após outro, nos trechos mais íngremes da estrada, os caminhões mais pesados e menos potentes. A caravana cuspia atrás de si uma densa nuvem de fuligem e os motoristas deixavam a porta entreaberta para engolir o vento, tal o calor que o esforço dos motores devia produzir no interior das cabines. Estávamos confortáveis dentro do carro devido à brisa que entrava pelo quebra-vento. Nos outros automóveis, que andavam sempre à esquerda e pareciam deslizar sobre a pista, o tempo e as imagens deviam ser diferentes.

Meu interesse pelas formigas era antigo. Eu as via desde pequeno habitando o chão do quintal em longas fileiras e às vezes entrando pela casa em pequenas trilhas. Eu passava os dias a vasculhar nos livros algo que pudesse estabelecer uma comparação entre os homens e aqueles minúsculos seres e me perguntando se os movimentos coordenados das antenas e das patas não seriam reveladores de uma intenção ou de algo muito diferente daquilo que na escola os professores chamavam de instinto. E dizer isso era tudo e ao mesmo tempo nada — pois as formigas continuavam a povoar o meu pensamento fosse quando eu me distraía nas aulas ou quando me debruçava sobre os livros. De onde vinha aquela agitação febril que as fazia carregar plantas e folhas para armazenar no formigueiro? De onde aquela determinação cega em percorrer longas distâncias e depois voltar em romaria para dentro das colônias?

Mais tarde vim a saber que alguns pensadores formularam a tese de que a desigualdade entre os homens teria origem natural e inata — sendo portanto semelhante à hierarquia que há entre as formigas e as abelhas. Na época não cheguei a nenhuma conclusão, mas nunca pude admitir que coisa parecida pudesse ocorrer entre os homens.

Mas isso foi noutro tempo e agora os caminhões seguiam guinchando os motores sobre a pista enquanto meu tio ia ao volante — a essa altura um pouco zonzo da cerveja que tomávamos a cada parada. A mulher que ia ao lado quase nada dizia, apenas se ocupava em contemplar o vazio através da janela e em fazer um comentário breve sobre uma coisa ou outra.

— É bonito aqui... — dizia ao passarmos diante de uma fileira de pinheiros ou por uma paisagem bovina.
Minha tia aprendera a ficar em silêncio até mesmo durante as tempestuosas crises do marido. Espreitando os seus hábitos, desenvolvera a técnica das observações vagas, que consistia em dizer rapidamente alguma coisa entre as pausas de sua respiração. Houve um tempo em que não podia abrir a boca. Se desandasse a falar, a situação piorava. Com o passar dos anos, no entanto, o marido foi ficando cada vez mais furioso com aquele mutismo, até que passou a interpretá-lo como uma espécie de escárnio e ela teve então que retomar a sua loquacidade moribunda.

O silêncio era uma virtude cultivada em segredo pelas mulheres da família. Era pelo silêncio que elas sustentavam a nostalgia romanesca daquele seu matriarcado impotente. Minha avó, que eu me lembre, nunca chegou a dizer palavra: apenas dirigia os olhos azuis de criança em nossa direção. Nos dias de Natal, deixava para cada um dos netos uma nota dobrada dentro de um envelope branco. Talvez o poder abstrato das cédulas substituísse o das palavras ou quem sabe a imagem fugidia daquilo que poderiam comprar se impusesse em nossa fantasia com mais força do que os presentes deixados em torno da árvore e que uma vez abertos exerciam somente a atração do que é idêntico a si mesmo. O fato é que toda aquela fauna de brinquedos desapareceu rapidamente da nossa memória, ao passo que os pequenos envelopes brancos permaneceram com seu fascínio misterioso.

Os homens da família falavam muito e sempre alto — com exceção do tio Bermiro, que quase nunca aparecia e vez ou outra era encontrado na sarjeta consumido pela tristeza e entorpecido pelo álcool. Havia também o tio paralítico, na verdade com parte do corpo adormecido por um derrame. Passava os dias em uma cadeira de balanço e nela estava preso há anos, lutando contra as amarras que lhe embaraçavam a língua. Por vezes, era possível vê-lo esboçar um movimento quase imperceptível com o tronco e balbuciar as suas palavras no ar.

— Olhem, que lindo...
Era minha tia quem falara, aproveitando a hora em que o marido trocava de marcha para ultrapassar um caminhão que se arrastava intrépido e sôfrego sobre a pista. O caminhão transportava uma carga descomunal de galinhas e pela exaustão das aves dentro dos caixotes e também pela poeira que se havia acumulado na traseira era de se ver que estavam bem longe de casa. Eu olhava a silhueta baça e dourada dos meus tios contra a luz que atravessava o para-brisa e voltei a pensar nas formigas. Algumas espécies, segundo os livros de entomologia, chegavam a caminhar distâncias imensas e podiam carregar um peso muitas vezes maior do que o do próprio corpo.

Paramos novamente em um restaurante à beira da estrada para esticar as pernas e tirar a água do joelho (como meu tio fazia questão de dizer). Uma balconista bela e sonolenta veio nos atender e apoiados num balcão metálico tomamos outra cerveja. Comemos três coxinhas e falamos um pouco entre um copo e outro — coisas de ocasião, próprias de um tio e de um sobrinho que se haviam distanciado e só agora se davam conta do quanto o antigo vínculo havia apodrecido. Dizer tio seria quase obscenidade: apenas um rosto franzino escondido por detrás de uma barba anacrônica de pelos ruivos cravados fundo nos sulcos da face e cultivada ao longo dos anos de acordo com as exigências da profissão — já que eu pensava que de algum modo era necessário manter uma certa dignidade quando se passava os dias desbastando calos e tratando unhas encravadas de pessoas anônimas. Anos depois, quando minha mãe foi obrigada a exercer o mesmo ofício, examinei a questão sob outro ângulo e cheguei à estúpida conclusão de que a dignidade pode ser cultivada de várias formas — inclusive sob a capa da humilhação.

Passamos por um corredor coberto de samambaias e pequenos vasos de cerâmica, ouvimos o crepitar de uma caixa registradora e caminhamos em silêncio em direção ao carro. Um pouco abaixo da porta, rente ao pneu dianteiro, uma chusma de formigas se precipitava em torno de uma lata de refrigerante que algum motorista deixara cair sobre o chão de paralelepípedo antes de enfrentar o calor da estrada.

Gastamos um pouco mais de borracha rodando sobre o asfalto e deitamos poeira sobre a vegetação ao enveredarmos por estradas de terra e caminhos vicinais. Quando chegamos ao cemitério fui ao encontro de meu pai, que tentava inutilmente atar as duas pontas de sua existência. Ao vê-lo cambaleante e dividido entre suportar a dor da perda e não deixar desabar o filho foi que me dei conta da terrível notícia. A abelha-mestra havia morrido.

Não cheguei a ver seus olhos: parei a poucos metros do esquife, o suficiente para perceber a imobilidade impassível da morte com seu silêncio pétreo e mineral, a frieza glacial e a palidez atroz daquele rosto de cera. Um pouco abaixo do caixão, que fora colocado em uma espécie de maca suspensa sobre rodilhas, centenas de formigas caminhavam em várias direções. Os livros diziam que as abelhas se comunicavam por meio de movimentos e do olfato e eu ponderava que não devia ser muito diferente com os insetos terrestres. Por certo aquele exército que ali estava tinha vindo de muito longe, contornando os obstáculos e abrindo caminho pelo gramado da necrópole. As formigas estavam excitadas e traçavam no chão pequenos círculos que se tocavam em vários pontos e por vezes formavam cruel espiral, atraídas pelo cheiro de éter ou pelos odores da morte que o engenho humano tentava em vão dissipar.

Estavam lá os tios e tias e toda a vasta parentada mas não consigo rever os seus rostos pois tudo era turvo e o lugar estava coberto por um negrume denso e leitoso. Lembro-me apenas do tio mais velho que articulava empréstimos bancários informais entre os irmãos. Vivia sempre ocupado com as cotações e chegou suado e esbaforido ao enterro — em tempo porém de assinar o livro de condolências e de verter uma ou outra lágrima.

Não consigo determinar com exatidão em que circunstâncias os nossos encontros familiares foram se tornando mais escassos. Mas os livros estavam certos: morta a rainha, toda a colônia se extingue. Pelo menos era assim com a maioria das espécies. O fato é que nada restou daquelas cerimônias ruidosas em que todos se abraçavam e os pratos velhos eram atirados à rua ao bater da meia-noite. Como que percebendo a excitação que havia no interior da casa e escondidas sob a folhagem da velha árvore coberta de flores brancas as cigarras faziam um barulho estridente e contínuo. No dia seguinte alguns mendigos vinham espreitar o portão — do qual guardavam respeitosa distância como a querer demonstrar que a sua presença ali era apenas transitória.

A cada ano, por essa época, as famílias do bairro davam início a uma nova ofensiva de filantropia. As sobras da ceia eram colocadas com cuidado em pratos de papelão zelosamente cobertos com guardanapos de papel e envoltos em folhas de alumínio. Vestidos de terno e aparentando alguma distinção, aqueles homens que vinham corvejar a casa eram em tudo diferentes dos mendigos da capital: recebiam a oferta com uma humildade solene e iam embora depois de fazer uma breve reverência — mas ainda assim submetidos à consciência do outro e ao olhar comum e inevitável que os reduzia à condição real de suas vestes.

Talvez isso não ocorresse apenas com os mendigos — pois logo após a morte da matriarca a sala que antes abrigara a nossa algaravia de criança foi cortada ao meio e deu lugar a dois aposentos, num dos quais passou a funcionar uma alfaiataria. Sob a luz escassa do velho lustre de cristal todos puderam ver pedaços de giz colorido, réguas de madeira e tesouras de vários tamanhos repousando sobre os tecidos, o papel manilha e os moldes. Pelas mãos da filha mais velha — que aos poucos se libertava dos cuidados junto ao marido moribundo — uma decadente família que prosperara com o pequeno comércio de café voltava agora ao ofício artesanal.

Estávamos em Campinas, nos estertores do regime militar. Por essa época, em vários cantos do país, imensas e ordeiras colunas tomavam as ruas e marchavam sobre o asfalto. Como formigas atacando uma colônia de cupins, apareceram de todas as direções, fizeram algum barulho e voltaram depois para os seus montinhos de terra.

O nosso pequeno formigueiro continuou a existir por algum tempo e da antiga casa preservou-se apenas a estrutura. O papel de parede foi trocado e deu lugar a estampas coloridas. As calhas e telhas foram substituídas e a sala ficou desafeiçoada com os inúmeros quefazeres que se somaram à vida econômica da família. Os mendigos não usam mais ternos rotos e já não se quebram pratos velhos como naqueles dias.

Quanto à velha árvore, foi cortada tão logo chegou o inverno. O chão de terra onde ela fincara suas raízes foi coberto por ladrilhos brancos e por falta de abrigo as cigarras foram ressoar os pulmões em outro lugar. O tio doente foi definhando aos poucos e quando um certo dia viram que ele não se movia na cadeira houve uma certa consternação na casa — que nunca mais foi a mesma sem a presença silenciosa e terna de minha avó de olhos azuis que as formigas levaram.

( Da antologia de contos, "Sobre homens e Bestas")




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Ovídio Poli Junior foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa/Radio France Internationale (Paris) e teve destaque em concursos e prêmios literários brasileiros: Paranavaí, Paulo Leminski, Luiz Vilela, FLIPORTO, Unicamp 40 anos e Newton Sampaio. É graduado em Filosofia (USP), mestre em Educação (USP) e doutor em Literatura Brasileira (USP). Publicou O caso do cavalo probo (narrativa satírica), Sobre homens & bestas (contos) e, para crianças, A rebelião dos peixes. Participou da FLIPORTO (PE), do Fórum das Letras de Ouro Preto (MG), da FLIMAR (AL), da Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC), da FLAP (AP), do Festlatino (PE), da Flipinha (programação infantil da FLIP) , da FLIST (RJ) e da Ciranda Literária de Macaé (RJ). É curador da Off Flip das Letras e do Prêmio Off Flip de Literatura em Paraty e editor do Selo Off Flip. Ministra oficinas, cursos e palestras na área de literatura, é colaborador do jornal Rascunho e presta assessoria e consultoria a eventos literários, além de atuar como mediador em mesas de debate.



terça-feira, 26 de julho de 2016

Vamos jogar chutebol ?



Vamos jogar chutebol ?

Leonardo Tonus

Quando pensamos em alfabetização não podemos esquecer dos pressupostos apresentados por Emília Ferreiro e seus colaboradores na década de 80. Foi ela quem produziu uma verdadeira revolução conceitual na alfabetização, desmontando explicações que havíamos construído ao longo de décadas para justificar o fracasso escolar de crianças brasileiras na fase inicial da alfabetização.

Se antes o foco de atenção estava centrado na figura do professor que ensina, desde o trabalhos desenvolvidos pela educadora este passou a ser no aluno que aprende. Suas idéias mudaram radicalmente as perguntas que orientavam os estudos sobre a aquisição da leitura e da escrita na alfabetização. Emília Ferreiro coloca a criança como ser capaz, mesmo muito pequena, de criar hipóteses, de testá-las e de criar sistemas interpretativos na busca de compreender o universo que a cerca : este mundo feito de coisas grandes e pequenas que nos revela o mais recente livro de Henrique Rodrigues, Palavras pequenas.



O livro conta a historia de Léo, que, como este que vos escreve, adorava ver os detalhes do mundo : sua casa, seu bairro, os objetos que o cercavam, os adultos e os amiguinhos com os quais convivia.  Mais do que observar, o Léo de Henrique Rodrigues gostava mesmo era de aprender o nome de tudo e de criar palavras.  O desenho animado ficava, é claro, mais divertido na tevelisão, assim como o chutebol que ele jogava com seus amiguinhos desmagrecidos. O Léo de Palavras pequenas ( e este vosso redator já bem mais grandinho) achava estranho o fato de palavras pequenas designarem coisas grandes, e vice-versa. A jabuticaba miudinha ter um nomão desse tamanho, era um absurdo ! Tava tudo errado ! Por isso ele (e eu) reinventa tudinho de acordo com o que considerava correto.

Ao abordar essa poética natural das crianças, especialmente durante a fase de alfabetização, Palavras pequenas  trata da fascinação das crianças pelas descobertas e do sentido das coisas do mundo. Um livro pequeno que  dissimula grandes coisas. E que mostra como foi errando que Léo um dia cresceu e virou Leonardo. E que foi sempre errando que este Leonardo ( o Tonus, como alguns costumam me chamar ) descresceu e virou para sempre Léo. O erro não é fonte para castigo, mas suporte para (des)crescimentos.

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Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro. Formado em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), cursou especialização em Jornalismo Cultural (Uerj), mestrado e doutorado em Literatura na PUC-Rio. Trabalha no Sesc Nacional, como assessor técnico em literatura, coordenando projetos de incentivo à leitura e circulação de manifestações literárias. É autor de vários livros infantis e juvenis, além do livro de poemas A musa diluída e do romance O próximo da fila.



Anabella Lopez nasceu em Buenos Aires. É formada em design gráfico na Universidade de Buenos Aires, onde também lecionou por vários anos. Foi professora da Sótano Blanco, primeira escola de ilustração de Buenos Aires. Desde 2009 trabalha exclusivamente como ilustradora e autora de livros, publicados na Argentina, Brasil, México, Estados Unidos, Canadá, França e nos Emirados Árabes. Suas ilustrações já foram expostas na Argentina, Brasil e Itália. Foi vencedora do Jabuti de 2015 com o livro A força da palmeira, na categoria de Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil. É autora de mais de vinte títulos e alguns dos seus trabalhos já foram animados para a TV pública argentina.


domingo, 24 de julho de 2016

Sidney Sheldon, churros e outros bichinhos

Sidney Sheldon, churros e outros bichinhos

Leonardo Tonus

Eu não tenho medo de fantasmas. Nem desses outros bichinhos maldosos. Com seus olhos esbugalhados.  Seu dentões. E babas cheias de sangue. Hoje eu não tenho medo.  Mas antes eu tinha. E muito. A Sessão Coruja e seus Freddys.  As Sextas-feiras 13 na sessão da madrugada.  As unhas do Zé do Caixão me davam arrepios na espinha. Sem falar da queda de Alice pelo buraco da televisão. Assistia a tudo. E à noite, enrolado debaixo das cobertas, sabia que as Suzy da minha irmã (prenúncio das botoxadas Barbies) viriam, uma hora ou outra, perfurar meus olhos. Em algum lugar debaixo do guarda-roupa havia sempre um vampiro sedento. Ou um zumbi esfomeado querendo se deleitar de minhas parcas carnes. Sim, eu tinha muito medo desses bichinhos maldosos. Que me davam muitos arrepios. Mas hoje não. Homem feito. Barbado. Cinquentão. Nem pensar ! Arrepiar-se ? Só com o rombo de minha conta bancária no final do mês. Com a minha calvície. Com os xenofóbos. Com os racistas. Com os sexistas. E com todos esses outros bichinhos maldosos. Que, hoje, por aí, pululam. Deles, eu tenho medo. E muito. Mas de fantasma, não ! Por isso encaro com tranquilidade o livro Fome de Márcio Benjamin.
O rostinho na capa todo ensangüentado já dá o tom certeiro. Um netinho do Freddy das sessões coruja.  Já conheço o universo de Márcio. E o seu terror sertanejo. Maldito Sertão. Bons contos. Escrita enxuta. Excelente trabalho de aclimatação de um gênero literário em voga. Gostei deles. Ouso confessar. Gostei. E muito ! Professores de literatura não gostam de livros de terrror. Eu, sim. De terror. De gibi. De bula de remédio. Curto a descorberta de um mapa rodoviário. E a leitura de uma Barsa. Mas doutos professores, não !  Só buscam coisas complicadas. Escrevem difícil. Falam enrolado ! 
Eu sou enrolado. Complicado. E difícil. E gosto de Rawet, de Clarice, da norueguesa Wassmo, de Adrinha Lisboa, de Elvira Vigna, de Paula Fabrio, de Marcelo Maluf, do Marcos Peres, da Claudia Nina, de Lucia Hiratsuka.  E de tantos outros. E do Papillon. E do sex drugs and rock and roll de um Sidney Sheldon. Pronto ! Declaro publicamente pelos telhados de Paris. E sem vergonha. Com 13 anos de idade li Um Estranho no Espelho. Gostei. E tive muitos arrepios com ele. Acho que li todos os Sheldon. Emprestados na biblioteca. Foi assim que tudo começou. Lá em São Bernardo do Campo. Onde tinha Dona Delmina.


Dona Delmina gostava das subordinadas. E eu, de suas concessivas. Os emboras de minha professora de português eram estupendos. Com Dona Delmina aprendi o poder das atenuações.  O valor das refutações. E a liberdade da escolha. Dona Delmina nunca foi revolucionária. Mas era de São Bernardo do Campo. O que já a tornava um pouco rebelde. Como nós. Que gostávamos daquela cidade feia. Cinzenta. Garoenta. Poluída.  São Bernardo da borda do Campo.  E sua Rodolândia. O frango com polenta. A Via Anchieta. As sessões pipoca na discoteca.  E a molecada pulando corda na rua. São Bernardo com seus teatros. Que hoje já não existem. Lá ouvi Tetê Espíndola. Ouvi Tarancón em minha fase bicho grilo. Lá vi uma azaleia. Passarinhos nos fios caídos. A Vila Euclides. Lá tinha operários. E greves.  E tinha livros. Lá também tinha muitos churros. Naquela época as pessoas se sentavam na pracinha do centro para comê-los. Meus churros em São Bernardo tinham recheio de operário e gosto de revolta. Tudo por causa de Dona Delmina.
Dona Delmina era esperta. Proclamou um dia.  Leiam 500 páginas e terão um A. 200, um B. Com 100 garantem um C. E eu naquele corpo macilento em que só espinhas teimavam crescer  descobri a biblioteca municipal. Sidney Sheldon. Stephen King. E muitos outros. Hoje sei o quão frágil é a liberade. Por isso assumo. E declaro. A todos. E à Dona Delmina. Li Fome de Márcio Benjamin. E gostei.


Na verdade, eu o devorei ontem à noite. Como seus zumbis.  Devorando os habitantes daquela pequena cidade. Um por um. Esfomeados. Por conta da pobreza do sertão. Claro que não vou contar a história do livro. Sem arrepios não há livro de terror que se preze.  E só os malvados contam o final das histórias em sua resenhas. Os malvados. E os doutos professores. Que também não comem churros. Em Paris, comi um. Não tinha gosto. Nem recheio de operários. 
Acabo de pesquisar a vida do Sheldon no google. E terminei Fome de Benjamin. Terminei rapidinho pois sei que eles virão. Aliás, já chegaram. Trouxeram as Susy de minha irmã. A Alice. O Zé do Caixão. O Freddy. E o carinha da serra elétrica. Mas reitero: de fantasmas e desses outros bichinhos maléficos, eu não tenho medo!
Ouvi passos. Alguém  arranhou a porta. Tem um cheiro de enxofre no quarto. Eita, to todo arrepiado !  


XXX

Um pouco de leitura

Fome

Andou pela cozinha meio sem vontade e se escorou na meia-porta bem pintada, olhando praquele nada sem fim, mesmo em frente.
E então.
Bem de longe.
Apertou a vista, machucada de sol.
Lá de longe.
Fez uma sombra com a mão e procurou entender.
Era gente?
De onde?
Cansados, se arrastando, tal e qual fosse a sua vaca véia, pouco antes de morrer.
Mas era gente sim, tanta gente.
Mas.
Não tão longe mais.
Descompassado, foi o coração que avisou.
Viram.
Se arrastavam mais não.
E Zefa quase riu ao se lembrar das histórias dos cangaceiros.
Cangaceiros. Ainda tinha?
Era mulher sertaneja sim, de fibra, de força, mas enfrentar tantos com facão de torar galinha? E vinham levar o quê, pela caridade?
Correu pra fechar a porta.
Mas quando deu fé, já tavam em cima.
Deu tempo não, foi colocar a tábua e o primeiro se jogar pra cima da madeira.
Batendo, gritando, gemendo.
Era gente?
Zefa correu pro canto da cozinha.
E já ouvia os gritos de bicho pela casa toda, por todo o descampado, vazio de tudo.
Quem ia ouvir?
Tantos, tantos.
Homem, mulher. Menino até.
Tantos que a porta pintada, mas velha, ainda tentou cumprir a obrigação até se partir em um creco doído.
No canto, Zefa não acreditou.
Era gente?
Loucos, loucos, minha Nossa Senhora, roupas rasgadas, fedendo como a peste.
Partiram foi pra cima.
Ingênua, ainda tentou oferecer a galinha.
Mas o primeiro logo lhe segurou pelas orelhas, e numa dentada mais que certeira, rasgou-lhe a garganta, partindo com os dentes o escapulário no meio do caminho.
Era gente aquilo?
Foi tão combinado, que quase se pode dizer que era uma procissão.
Mas foi nada. Blasfêmia até.
Garganta, braços, peitos.
O sangue lavando o chão.
Restos de galinha e de mulher espalhados pela cozinha.
Na mesa da pia, o rádio fazia coro praqueles dentes mastigando juntos.
Todos.
No cantinho, o coração de Jesus, mesmo aceso, não pôde fazer muito não.
Era fome.

Marcio Benjamin na Sorbonne

Márcio Benjamin Costa Ribeiro, um natalense, do Estado do Rio Grande do Norte, tem 36 anos, trabalha como advogado, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Desde os treze anos é metido com lápis e papéis, tentando mostrar aos outros um pouco do que se passa em sua cabeça. Participante usual de antologias de terror (Noctâmbulos, Caminhos do Medo, pela Editora Andross), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje). Tenta tornar público seus contos exibidos com uma certa freqüência no site www.umanjopornografico.blogspot.com. Maldito Sertão é o seu primeiro livro, de contos que acaba de ser quadrinizado pelo coletivo K-Ótica. Lançado em 2012 pela Editora Jovens Escribas, foi considerado um dos melhores livros de 2012 e 2013 pelo Troféu Cultura Potiguar.  de ser quadrinizado pelo coletivo K-Ótica. Em 2016 lança o seu primeiro romance Fome, o qual narra as agruras de um grupo de pessoas as quais tentam sobreviver a um apocalipse zumbi em uma pequena cidade do sertão, sem qualquer contato externo. O autor participou da 3° edição do Printemps Littéraire onde apresentou no Salon du Livre de Paris e na Universidade da Sorbonne sua antologia de contos. Marcio Benjamin é também convidado da Flipipa de 2016. 




segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sonhos do vigário

Alice por Cristina Lucas

Sonhos do vigário
Marta Barcellos

Quando a pessoa sorri exageradamente, com aquele formato de rosto, a expressão se achata, como que esmagada por um vidro. A face fica enorme. Os franceses acreditam que sorrir com exagero é indício de vulgaridade ou subserviência, li, certa vez. Mas essa menina, claro que essa jovem não vai viajar para França, apesar da expressão arregalada dizendo que é o seu sonho, e que por isso está vendendo livros com a amiga no aeroporto.

Estou na Starbucks, e do mezanino diviso quase toda a ala B do terminal 2. A jovem demora a dizer o que quer de mim, quanto custa, como exatamente os livros vão financiar o sonho. Faz algum suspense, usa o sorriso para esticar a paciência do interlocutor, uma das mãos gesticula, rodando e rodando, enquanto a outra segura a sacola amassada, Boticário escrito por fora, os livros dentro.

Não estou em Paraty (“você gosta de poesia?”); hoje estou cercada de executivos a trabalho, apressados, e não de escritores, nem de candidatos a escritores. A moça quer me vender um livro. Não, não vou comprar, não consigo ser simpática, anos e anos fechando a cara pra pedinte, que dó desses meninos, mas no sinal perto da minha casa tem um magrelo que enfia o braço pra dentro da camiseta se fingindo de aleijado. Não compro não, não dou dinheiro não, querem que eu enlouqueça pensando uma, duas vezes, no mendigo que morreu de frio na madrugada?

Fecho a cara, levanto o vidro, uma vez foi o susto de ver o outro vidro brilhando, verde, caco afiado perto do meu rosto, e eu ainda tinha espinhas apesar de ter conseguido comprar o primeiro carro. Espanto, mas virou história, todo mundo contando o seu assalto, agora eu tinha o meu. Não deveria ter buzinado, arrancado, disseram, que perigo. Mas, no aeroporto, nenhum risco de estar sentada ali, filando o Wi-Fi da Starbucks, lendo a alta literatura, enquanto a menina de boca tão grande, olhos tão grandes, vem falar de sonhos achatados, que fisgam à moda antiga, o fishing do vigário, ela que nunca estará num avião para a França.

Imagina se vou cair, se nessas alturas do jogo, segundo tempo (o sol do meio dia já passou; não há catástrofe a caminho, ela já aconteceu), vou desaprender de fechar a cara, de não pensar na calçada gelada mesmo com papelão, de não grudar nas coisas necessárias para não distrair da distração da vida.

Merda, tudo por causa da suspensão da viagem. Maldito Santos Dumont (não o aeroporto), maldita invenção que me vicia em desgrudar do chão, embicar pro céu, me ver lá do alto, tão formiga, esperando algum desastre (aéreo, tsunami, enchente, terrorismo; não um mendigo solitário, faça-me o favor) revelar que estou viva, e que tudo é tão vivo na tragédia (não na rotina). Tudo isso para, segundos depois, morrer de novo, aterrissar e querer ser a mulher de tênis brancos e óculos ray-ban que balança a bolsa na dobra do braço (e não no ombro).

Ainda não aterrissei, veja bem. Estou em suspenso, no mezanino. A moça enxotada (“gosto de ler, mas não esse tipo de livro”) foi embora, e nunca saberei os detalhes do conto do vigário, o truque contado de mesa em mesa, com cuidado para não despertar a segurança (daí a bolsa amassada do Boticário). Ao menos não sou a mulher de tênis brancos, considero. Ela agora anda lá embaixo, com passos de aeroporto, e também precisa da suspensão. Na volta, não saberá o que fazer com a solidão nos intestinos, como se tivesse tido uma caganeira a bordo, e por isso repetirá aos amigos: fiz o Vietnã de bicicleta. A moça dos livros não vai viajar, nunca, mas a mulher dos tênis novos sim, e da próxima vez fará o Atacama, porque todo mundo já fez, e a sensação de estar deserto é indescritível, falará quando voltar, para preencher os espaços ocos no corpo despressurizado.

Preciso avisar à jovem, a que jamais viajará, da ilusão da viagem dos sonhos. Como foi a festa de debutante que sua mãe pagou em 12 prestações. Ela se alegrará com meu comentário, pois é justamente sobre sonhos e ilusões o livro dela, o que está vendendo, veja que coincidência, e são assim os outros disponíveis na livraria do aeroporto. Preciso também avisar à mulher dos tênis brancos que suspensão é ficar sem celular na viagem, descalça de todos os aplicativos que pregam a gente no chão. Suspensão é ficar observando o celular andar sozinho no mapa do iPhone perdido, e não ter coragem de prosseguir, de chegar em casa, e por isso fingir que está em trânsito na Starbucks, em vez de pegar o táxi. Suspensão é imaginar a pessoa que conseguiu se apossar de sua alma em outro país, outro mapa, e não querer aterrissar de volta ao planeta Terra. Poder ficar pairando, como um pontinho no mapa. Ser um pontinho. Como quando a pessoa morre de verdade e continua no perfil do Facebook, em estado memorial; estar e não estar.

Mas a mulher de tênis tinindo de branco detesta a ideia do pontinho (não quer morrer, só quer conhecer o deserto do Atacama, sua escritora doida!). Além disso, tem endocrinologista marcado para terça-feira.

Do mezanino, vejo as duas se cruzarem. A moça dos livros sobre ilusões e a mulher de óculos ray-ban e tênis brancos. De um lado, as filas do check-in. Do outro, as portas automáticas que abrem e fecham, que abrem e fecham, que abrem e fecham.




Escritora e jornalista, Marta Barcellos foi a vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015, com o livro de contos Antes que seque, na segunda edição, pela editora Record. É carioca, formada em jornalismo pela UFRJ, com mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Tem dois contos publicados na coletânea Sábado na estação (Ed. Apicuri), organizada por Luiz Ruffato, e está escrevendo seu primeiro romance. Trabalhou 18 anos como repórter nos jornais Valor, Gazeta Mercantil e O Globo. Atualmente é colaboradora do caderno “EU&Fim de Semana”, do Valor, e colunista na Revista Capital Aberto e no site Digestivo Cultural.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Livrada na FLIP 2016

Livrada na FLIP 2016

Você já tomou uma livrada? Doeu? Você sabe com qual livro você apanhou? Ele era de literatura? Se for, saiba que você pode ter hematomas criados por grandes obras-primas. No blog do Livrada você encontra informações e opiniões sobre esse pequeno (ou grande) artefato potencialmente letal chamado livro. De livros para uma simples equimose a grandes opus para quebrar um fêmur.
Posts às segundas-feiras, sempre às nove da madrugada.

E nesta semana a Livrada de (em) Leonardo Tonus, professor de Literatura Brasileira na Universidade da Sorbonne. Cliquem no link abaixo para assistir ao vídeo.






Por mais agressivo, sério e impertinente que isso possa parecer, o blog Livrada! é uma brincadeira que Yuri Al’Hanati exerce de maneira livre para tentar oferecer uma abordagem nova sobre crítica literária. Que é Yuri ?



Yuri Al’Hanati, também conhecido como Raposão, Nego Dito, Sr. Livrada e o-genro-que-mamãe-queria, dependendo da ocasião, nasceu em Praia Brava e foi criado em Mambucaba, minúsculas prainhas entre os municípios de Angra dos Reis e Paraty (RJ), mas mora em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), trabalhou por três anos e meio no jornal Gazeta do Povo, onde passou pelas editorias de cultura, política e geral. Atualmente faz tirinhas diárias para o mesmo jornal, função que exerce desde julho de 2014. Publicou contos em publicações especializadas como Revista Arte e Letra: Estórias, Jandique, jornais Rascunho e O Relevo, e ainda integrou a seleção de novos autores no Livro dos Novos, publicado pela Travessa dos Editores. Guitarrista, baixista, saxofonista e trompetista de araque, largou o conservatório de música em Resende-RJ, onde estudou teoria musical, guitarra e voz para música de câmara, e toca em duas bandas bem malucas. Um absoluto merda em todos os esportes, se dedica à hatha yoga e, mais esporadicamente, quando o tempo permite, ao longboard. Como turista, gosta de visitar países esquisitos. Assiste bastante filme, come muita carne e bebe muito vinho tinto argentino.

Sigam-me e tomem uma Livrada nos links abaixo :






Ps : o texto de apresentação é descaradamente plagiado do blog Livrada. É porque o texto estava bom. O pessoal há de entender…senão, livrada neles.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Suíte de silêncios


Suíte de silêncios

Marilia Arnaud


Custava-me retornar para casa depois das aulas, dedos indicador e médio cruzados, olhos bem cerrados, sob buzinas estridentes e xingamentos de motoristas, esbarrando em postes, paredes e pessoas, sufocada de calor e esperança, na fantasia de que encontraria minha mãe no terraço, balançando-se na cadeira de palhinha, Pedrinho no colo e Leila deitada aos seus pés, aguardando por mim, desde que eu conseguisse chegar lá sem abrir os olhos uma única vez, se não fosse atropelada por nenhum automóvel, e, chegando, mais uma vez constatar que não, ela não voltara, não ainda, e me sentar à mesa e comer sem nenhuma fome debaixo de um silêncio difícil, partido apenas pela fala estridente de Pedrinho ou por um ganido de Leila, e novamente estar de frente à cadeira vazia e inútil, triste como sabem ser as coisas que um dia foram usadas por quem amamos.         
         Às vezes, contavam a Vó Quela sobre essa minha extravagância, e ela estrilava, sacudindo-me pelo braço, para com isso, menina mal-ouvida, qualquer dia desses acontece uma desgraça contigo e teu pai acaba de morrer de tanto desgosto. Jurava, choramingando, que não, que nunca mais tornaria a andar cega de fé, trombando nas pessoas pelas ruas e calçadas, mas logo tornava a fechar os olhos com força, atravessada de um querer que era um fogo me queimando por dentro, e de novo lá ia eu, a filha desorientada do Maestro Gaspar, dedos cruzados dentro dos bolsos da farda escolar, cabeça abaixada para ocultar os olhos fechados, certa de que, algum dia, em breve, muito breve, minha mãe estaria de volta para pôr fim à nossa dor e a de todas as coisas que teimavam em continuar existindo sem ela.
         À minha maneira, procurava me salvar. Não sei em que momento desisti. Creio que foi alguns meses depois que meu pai decidiu que eu deveria deixar de frequentar Madame Lapège e ter aulas de violino com o Professor Ramon. Foi quando passei a usar camisetas por baixo das blusas e vestidos, para disfarçar os seios de pitomba. Justamente nessa época começaram os constantes suores nas mãos, as espinhas purulentas no rosto, o odor repugnante nas axilas, a incômoda umidade no sexo, a mórbida mania de me lavar dezenas de vezes por dia.
Ah! E a sensação violenta de estar apagando, como se um monstro houvesse cravado suas presas em algum lugar do meu corpo e por ali me sorvesse todo o sangue.  
Foi assim, quase de repente, que passei a me sentir meio idiota ao andar pelas ruas daquela maneira, à mercê da incredulidade e zombaria das pessoas. Além disso, minha mãe tardava demais, uma demora que àquela altura me punha mais frustrada do que triste.
Ao mesmo tempo em que comecei a suspeitar de que seu retorno estava fora do alcance do meu desejo, por maior que fosse esse desejo, um pensamento, de início breve e sem consistência, foi tomando forma e ganhando espaço em minha mente, até que, constante e inequívoco como um objeto sólido, espedaçou minha confiança íntima, impondo-me a desconcertante certeza de que minha mãe nunca mais voltaria para nós, porque simplesmente não queria voltar, porque assim escolhera.
Então, arregalei os olhos, e tal uma borboleta noturna, espaventada com o alumbramento do mundo à minha volta, dei de cara com um tanto de gente e de coisas para serem vistas.
Nesse momento, descobri o prazer secreto de seguir pessoas e acabei tomando gosto pela coisa. Pessoas desconhecidas. Sempre preferi as brincadeiras solitárias, e aquela, de “detetive”, passou a ser a minha preferida.
Embora o meu “investigado do dia” fosse escolhido acidentalmente, sempre se tratava de alguém que, por algum motivo aparentemente desimportante, chamava-me a atenção. Uma maneira de andar, arrumar o cabelo, soprar a fumaça de um cigarro, segurar uma bolsa, postar-se diante de uma banca de revistas, enfim, qualquer gesto ou comportamento espontâneo que mantivessem meu interesse por mais de um minuto.
Espreitava-lhes os movimentos como se se tratassem de suspeitos de alguma ação abominável e secreta, e eu estivesse a ponto de testemunhar mais uma. E ainda que os seguisse a uma distância mínima, tão próxima que, às vezes, era possível sentir-lhes o cheiro de suor, de álcool, de perfume, nunca fui apanhada. Quem poderia suspeitar de que uma criança pudesse ter um hábito tão extravagante?
Algumas pessoas, pressentindo uma obstinada presença às suas costas, chegavam a virar-se e, ao deparar-se com uma garota de expressão frágil, nem um pouco ameaçadora na sua farda escolar, de imediato torciam-se para frente e continuavam no mesmo ritmo, seguros e indiferentes ao meu atento olhar. 
O que esperava com isso? Não sei dizer o quê. Provavelmente, nada. Creio que aquela forma de poder me excitava. Orgulhava-me da minha astúcia, da capacidade de ludibriar homens e mulheres, adultos, todos absolutamente reféns do meu olhar e da minha fantasia. E embora vez por outra me sobressaltasse com a possibilidade de ser descoberta por algum “seguido”, encantava-me agir por conta própria, transgredir, ser senhora do meu pequeno destino. 
Seguia-os durante horas, tentando adivinhar aonde estariam indo, imaginando como seriam suas vidas, e vê-los, por fim, desaparecer por trás de uma porta era como ser impedida de continuar assistindo ao filme em sua melhor parte.
Acontecia, às vezes, de ter de abandoná-los por conta do adiantado da hora ou porque pareciam ir a lugar nenhum, o que me deixava igualmente decepcionada.
Numa dessas tardes de “investigação”, enxerguei meu pai saindo de uma casa de muro baixo. Estávamos bem distantes do nosso bairro, sendo aquela uma zona de poucas residências e estabelecimentos comerciais. Recordo-me que havia muitas oficinas de carro, terrenos baldios cheios de lixo, cansanções e pés de araçá, botecos, galpões, ah!, e ipês floridos que, encandeados de sol, deitavam reflexos fulvos sobre todas as coisas. 


Temendo que me indagasse o que fazia ali, escondi-me atrás de um caminhão estacionado na rua e, para minha surpresa, vi quando uma mulher jovem, de cabelos ruivos e seios enormemente brancos espremidos em um baby doll cor-de-rosa choque, acenou-lhe da porta com um sorriso de rosto inteiro, que ele simplesmente ignorou, batendo o portão e afastando-se de cabeça curvada, as mãos metidas nos bolsos da calça.
O que meu pai estivera fazendo ali?
Há muitos anos, numa época em que eu sequer havia nascido, fora professor de piano e chegara a lecionar em casas de família. Por um instante, acreditei na possibilidade de ter retomado a antiga profissão, ideia que abandonei logo em seguida, ao pensar na mulher que o acompanhara até a porta.  
Não sei precisamente o quê, de novo ou ambíguo, intrigou-me naquela mulher, se o sorriso de dentes encavalados, o baby doll de cor berrante, o avantajado busto, ou tudo isso e mais alguma coisa que não estava à vista, uma intencionalidade que apanhei no ar.
O certo é que nos dias que se seguiram não consegui pensar em outra coisa que não fosse nela, sua imagem colando-se em meu espírito e aprisionando-me num estado de penosa impaciência.
Empenhei-me em espreitar meu pai, como se o motivo que o conduzira àquela casa e àquele sorriso pudesse se revelar em algum dos seus pausados gestos, no olhar sonambúlico, ou no grave silêncio.
Não conseguia despregar os olhos daquele que, sendo meu pai, era também o homem que eu surpreendera no meio da tarde visitando uma mulher que, definitivamente, não se harmonizava com a sua natureza altiva, seus modos nobres, com o seu sóbrio mundo, um outro que, escapando dele próprio, desconcertava-me ao me negar seu rosto.
Observava-o como nunca fizera antes, com a dissimulação, o ardor e o embaraço de quem examina um estranho, sondando, na expressão desarmada, qualquer coisa que me contasse sobre sua relação com a desconhecida, um sinal que me fizesse compreender o aparente absurdo daquela cena que me excluía, e de alguma forma me ameaçava, embora não me fosse possível afirmar por quê.
Enfim, uma suficiente resposta para uma pergunta que me queimava a boca, que me estrangulava, mas, cujas palavras, vagas, vacilantes ou difíceis, nunca conseguiria verbalizar.
Um dia, flagrou-me cravando nele um desses olhares inquisitivos, e eu, perplexa com o inesperado meio sorriso que vi surgir em seu rosto, e vexada com as minhas secretas suspeitas, lancei-me sobre meu pai num abraço impetuoso, a que nunca mais me atrevi.
Que tens, Duína?
Eu o proíbo, Pai, eu o proíbo, ouviu bem?, bradava meu coração cheio de pudor e de um outro sentimento que não sei determinar.   
Sim, estava mortalmente envergonhada da minha curiosidade e desconfiança, e naquele exato momento quis dizer-lhe que tinha as pernas fracas e o coração acelerado, mas não disse nada, sequer consegui encará-lo, escapulindo com a desculpa de precisar urgentemente ir ao banheiro.  
  
      
Relutei algum tempo antes de voltar à casa daquela mulher.
Ainda que à época eu não soubesse que só há uma maneira de se pôr fim a uma obsessão, que é se atirando sobre ela e descobrindo-lhe o rosto, no preciso instante em que decidi ir até lá, experimentei uma espécie de abandono, como se finalmente alguém me pusesse nos braços depois de eu ter atravessado a pé quilômetros a fio de dunas escaldantes e amolados penhascos.  
Depois de haver me assegurado de que meu pai estava bem longe dali, e de esquadrinhar os arredores da casa sem enxergar nada que pudesse me fazer recuar, num impulso, puxei o ferrolho e empurrei o portão.
Permaneci imóvel por alguns instantes, tomada de uma sensação de pânico misturada a um sentimento de humilhação, e bastava pensar em meu pai para me dar conta de que não estava apenas cometendo uma grave travessura, mas, uma ação para lá de condenável.
No retângulo de terra crestada, que algum dia fora um pequeno jardim, uma vegetação rasteira engolira um resto de grama e antigos canteiros que poderiam, quem sabe, ter sido de papoulas. Já de frente para a porta do alpendre, onde a mulher se despedira do meu pai, ainda não sabia o que iria fazer ou falar se alguém surgisse e me perguntasse o que queria.
Na verdade, eu não sabia o que queria.
Fazia um calor úmido, pegajoso e sufocante. Lá dentro, uma voz feminina anasalada cantarolava, tentando acompanhar uma canção alegre que tocava em disco ou rádio. Com passos cautelosos, desviei-me da porta de entrada, onde uma espécie de chocalho tilintava vez em quando, e tomei um caminho lateral que desembocava diretamente nos fundos da casa.
Detive-me um pouco antes da janela escancarada, o coração desabalado, e fui me aproximando devagar, enquanto a voz feminina ia crescendo num timbre de falsete.
Pela fresta entre a parede e um dos lados da janela aberta em par, divisei a sala, pequena para as três mulheres. Uma delas, a gorducha que estava deitada em um sofá, de costas para a janela, parecia bem concentrada na leitura de uma revista. A outra, que se encontrava mais distante, sentada sobre uma imensa almofada e recostada à parede, pintava as unhas das mãos e mascava algo, acho que um chiclete, com ar entediado.
E ela, a ruiva, no meio da sala, cantava, improvisando ritmadamente uns passos de dança, enquanto ia arrastando uma vassoura pelo chão. 
Era miúda como uma menina, o que contrastava com o volume dos seios e com as curvas pronunciadas da cintura e dos quadris. Descalça e mal-amanhada, aquilo que talvez pudesse ser chamado de camisola lhe deixava à mostra umas coxas roliças e pálidas, que ela movia com graça e agilidade, como as moças que dançavam em programas de televisão. Quando o ritmo da canção acelerava, erguia os braços e rodopiava de olhos fechados, segurando a vassoura com as duas mãos sobre a cabeça, a voz elevando-se desafinada, sobrepondo-se à do rádio.
Depois, como se estivesse em um palco, exibindo-se para uma encantada plateia, voltava a bambolear-se e a contorcer-se, atirando a cabeça para trás, franzindo e revirando os olhos de um jeito que por certo faria sorrir qualquer pessoa que estivesse em meu lugar, mas não a mim, assaltada por um aturdimento que se confundia com um inexplicável desgosto.
Entrincheirada ali, eu a espiava num misto de fascínio e repulsa, enquanto as duas mulheres, entretidas em suas ocupações, sequer erguiam os olhos para a dançarina, como se ela não existisse, como se fosse uma alucinação minha.
Lamentavelmente, não era. A lembrança do meu pai deixando o interior daquela casa, a mulher lhe sorrindo à porta, a roupa que mal lhe cobria o corpo, os seios que não cabiam em minha imaginação e, por fim, o que se passava naquela sala e que eu vigiava com avidez, tudo aquilo era de uma singularidade como a que só experimentamos em sonho, ainda que se tratasse da coisa mais real que se revelava diante dos meus olhos, desde a noite em que vi meu pai chorando a partida da minha mãe.   
Em certo momento, a mulher que estava sentada na almofada desviou a vista das unhas para a janela, precisamente para a direção onde eu me encontrava, e como se houvesse escutado um chamado súbito, fez um gesto imperioso com a mão, mandando parar o que quer que fosse, a música ou a dança, ou as duas coisas.
A ruiva imobilizou-se e, virando-se, olhou também, a boca aberta, sem uma palavra. Em seguida, moveu a cabeça para frente, franzindo a testa e os olhos, hesitando. A gorda parou a leitura e disse algo num tom de voz abafado, que não pude compreender.
Não esperei que viessem até a janela e me descobrissem, ou que corressem para fora e me deitassem a mão. Esgueirei-me dali numa ligeireza de muitas pernas, o coração batendo na boca, sem olhar para trás nem uma vez. Só parei quando já estava bem longe e, mesmo assim, porque precisei vomitar. Nunca mais consegui comer panquecas de carne no molho de tomate.
Quando botei os pés em casa e dei com Leila espichada no jardim, sem latir nem mexer, sequer o rabo, o olhar enfiado em um lugar onde eu não chegava, deduzi logo que adoecera.


Mea culpa, mea maxima culpa - Irmã Francisca vivia repetindo que uma má ação acabava sempre com um castigo à altura, sendo aquela a maneira que Deus encontrara de puxar a orelha do filho desobediente, de chamá-lo de volta ao caminho da retidão.
Naquele momento, cheguei a desejar, do mais fundo do meu coração, que Deus me perdesse de vista. 
Leila recuperou-se e eu nunca mais voltei à casa das três mulheres. É verdade que ainda tornei aos seus arredores, mas apenas umas poucas vezes, em rondas que só me renderam mais culpa e ansiedade. Algum tempo depois, passei até mesmo a evitar o bairro, como se pudesse ser reconhecida e desmascarada por alguém.  



Marilia Arnaud é brasileira, nascida em Campina Grande (PB). Graduada em Direito (UFPB), exerce a função de analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba.
Publicou quatro livros de contos: Sentimento marginal (produção independente – 1987); A menina de Cipango (Prêmio José Vieira de Melo – Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba - 1994); Os campos noturnos do coração (Prêmio Novos Autores Paraibanos – Universidade Federal da Paraíba – 1996); O livro dos afetos (Editora 7letras, Rio de Janeiro/RJ, 2005).
Publicou um romance (Suíte de silêncios, Editora Rocco, Rio de Janeiro/RJ, 2012) e um infantil (Salomão, o elefante – Selo Off Flip, Paraty/RJ, 2013). Um novo romance será lançado em julho de 2015 (Liturgia do fim, Selo Tordesilhas, São Paulo/SP).
Participação em coletâneas: + 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Editora Record, Rio de Janeiro/RJ, 2005); Contos cruéis (as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea), Geração Editorial, São Paulo/SP, 2006); Quartas histórias (contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa), Editora Garamond, Rio de Janeiro/RJ, 2006; Capitu mandou flores (contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte), Geração Editorial, São Paulo/SP, 2008; 50 versões de amor e prazer (Geração Editorial, São Paulo/SP, 2012); Vou te contar (20 histórias ao som de Tom Jobim), Editora Rocco, 2014).