terça-feira, 21 de junho de 2016

Um copo meio cheio



A litetura brasileira contemporânea:

um copo meio cheio

Como você vê a situação da literatura brasileira no mercado internacional ? Vivemos realmente uma fase execpcional  do processo de internacionalização ?

Como todo objeto de estudo a situação da literatura brasileira no mercado internacional submete-se a uma dupla interpretação. Utilizemos para sua análise uma metáfora bastante usual : a imagem do copo d’água sobre a mesa. Ao enchê-lo de água até a sua metade, estará o copo meio cheio ou meio vazio ? Evidentemente, tudo dependerá do ponto de vista empregado. A literatura brasileira no exterior, e mais particularmente na França, é este copo com a água até a sua metade. Se levarmos em conta o processo de fomento à exportação da cultura e da literatura no seu conjunto, quer seja através de políticas públicas ou privadas, não há de se negar o seu avanço. A participação do país nas grandes feiras e grandes eventos literários internacionais permitiu um aumento exponencial do livro no mercado internacional. Mas não escondamos o sol com a peneira. Qual a contribuição deste processo na formação de leitores ? Retomo aqui a afirmação da escritora e professora de literatura Suzana Vargas segundo a qual « eventos literários ajudam a popularizar livros, mas não formam leitores ». Hoje podemos encontrar nas gôndolas das principais livrarias francesas uma grande variedade de autores brasileiros traduzidos. Esta presença física faz com que livreiros, editores, agentes literários e escritores possam sobreviver (sim escritores também necessitam pagar suas contas de luz !). Mas, e o leitor ? Quem são os leitores da literatura brasileira na França ? Qual é a sua importância? Quantos novos leitores da nossa literatura o processo de internacionalização empreendido pelo governo brasileiro ou por instituições privadas foi capaz de criar ? A quem cabe esta função? Aos editores? Aos escritores? Aos organismos de promoção?  Sim e não. E aqui entra a atuação de uma das peças fundamentais  do campo literário muitas vezes esquecida: a figura do professor. Lembro-me de um encontro  que tive com a escritora brasileira Maria Valéria Rezende em Paris (ou em João Pessoa) durante o qual livrava-me a um dos esportes mais praticados pelo corpo docente: reclamar do nível dos estudantes  e do seu pouco interesse pela literatura. A resposta da amiga e escritora às minhas queixas foi lapidar: « Vanitas vanitatum omnia vanitas  (Vaidade das vaidade e tudo é vaidade). Esqueça sua vaidade e pense no dom de seus alunos e na sua responsabilidade enquanto pedagogo, de o fazer emergir! » Pois bem, alguns meses depois deste encontro, eu precisava realizar para o Salão do Livro de Paris de 2013 traduções de trechos das obras dos autores brasileiros participantes e que seriam lidas durante suas apresentações. Propus o trabalho à minha classe do 2° ano de letras cujo desafio foi aceito justamente pela estudante de que há poucos meses me queixava e que pensava em abandonar o curso. O resultado do trabalho foi excepcional. A estudante passou a se interessar por literatura, a lê-la e hoje está concluindo  o seu mestrado de tradução.  Do mesmo modo, na última edição do “Printemps Littéraire” em Paris, qual não foi minha surpresa ao deparar-me com estudantes do 1° ano de letras pedindo-me os livros de Jessé Andarilho, de Henrique Rodrigues ou do Felipe Munhoz. Gostaram dos autores, tomaram um café com eles, realizaram selfies, conversaram  e agora queriam descobri-los literariamente. Não sei quantos novos leitores o conjunto do processo de internacionalização da literatura brasileira foi capaz de criar. O que sei é que e minha prática de sala de aula durante os eventos organizados em Paris, fez surgir um, cinco  ou trinta novos leitores. E isto é-me suficiente. O copo d’água da literatura brasileira no exterior ainda me parece um pouco vazio. Os caminhos a serem trilhados ainda são enormes. No entanto, sinto-me grato por poder participar ativa e cotidianamente deste processo.

Como você analisa o campo literário nacional contemporâneo?

Vejo-o hoje pouco apto ao risco. Os anos 90 constituiram, em minha opinião, um verdadeiro divisor de águas para a literatura brasileira e o campo literário. A cultura de massa, a multiplicação dos canais de difusão, a pluralização dos atores do campo literário, a professionalização dos autores, o impacto da internet. Eis alguns, dentre tantos outros elementos que em poucos anos minaram uma estrutra desgatada e hierarquizada. Desde então já quase 30 anos se passaram. Multiplicamo-nos. Enriquecemos. Empobrecemos. Envelhecemos. Surgiram as dores nas costas. E, naturalmente, passamos a procurar poltronas mais confortáveis. A establização do campo literário e de seus atores é natural. Em tempos de crise seu afunilamento é quantitativo. Em épocas de expansão econômica, ele é qualitativo. A participação institucional e a extensão cada vez mais ampla dos investidores econômicos no âmbito da criação e da difusão artística intensificou o processo de padronização do campo literário. O movimento de internacionalização, as grandes festas e os prêmios literários constituem uma prova tangível deste processo. Quais são hoje os espaços que o campo literário reserva ao risco? Efetuar a travessia transatlântica a nado parece-me hoje muito mais fácil do que assegurar visibilidade a romancistas nordestinos, a contistas de Roraima, a dramaturgos da periferia  ou a poetisas negras. Do mesmo modo, o que se congratula hoje nos grandes eventos ou sistemas de recompensa ? Autores confirmados, carreiras, escritores de renome. Os espaços do risco restringiram-se ou estão a desaparecer.

Henrique Rodrigues e Leonardo Tonus
 (Printemps Littéraire Brésilien et Salon du Livre de Paris - 2016) 

Por falar em risco, como você vê iniciativas como o Prêmio Sesc de Literatura, que é voltado exclusivamente para autores inéditos e fora do mainstream literário?

Há anos acompanho o prêmio SESC de literatura. Leio com frequência seus laureados. Observo a  inserção de seus autores no campo literário nacional. Podemos não compartilhar pessoalmente certas escolhas. Todavia não podemos deixar de constatar o espaço de risco que este prêmio ainda ocupa no âmbito da cena literária nacional. E isso parece-me fundamental. Quantos são os prêmios literários que ainda hoje contemplam inéditos ? Quantos são os prêmios literários  capazes  ainda de surpreender o leitor e a crítica? Aí encontra-se, em minha opinião, o elemento diferencial deste prêmio. Luisa Geisler, Rafael Gallo, Sheyla Smanioto, Lúcia Bettencourt, e tantos outros, são autores capazes de nos surpreender. Neles observo uma profunda inquitação sobre contemporaneidade sem nunca esquecer dois elementos para mim fundamantais no processo de escrita:  a qualidade estética e o prazer da leitura. São autores que muito me surpreenderam e que sobretudo,  se me permitir a nota pessoal,  me causaram boas noites de insônia. 


Por que um “Outono Literário” no Brasil ?

Neste ano levei o Printemps Littéraire Brésilien a diversas cidades da Europa, uma experiência bastante gratificante e enriquecedora. Nada mais natural do que desdobrá-lo ao Brasil, sobretudo no contexto atual de indagações que o país atravessa.  

De  que maneira o « Outono Literário » será capaz de trazer uma  « nova maneira de pensar e fazer literatura » ?

Como diria minha colega e pesquisadora Regina Dalcastagnè da Universidade de Brasília, na pós-contemporaneidade já não há mais espaço para heróis valorosos ou gestos magnâmicos. Não tenho a pretensão de reestruturar o campo literário brasileiro. E talvez nem o queira. Pelo contrário, sempre busquei pensá-lo criticamente. Grande parte do público que hoje frequenta as feiras e festas literárias não compra livros ou sequer os lê. Sua presença responde antes às dinâmicas do processo de espetacularização e fetichização do qual escritores e leitores participam ativamente. Isto se traduz, na melhor das hipótese, pela presença física do público nos debates realizados, ou, na pior delas, pelos selfies que pululam nas redes sociais.  Mas será que ainda é possível escapar deste processo ?   A questão, em minha opinião, não se coloca em termos de uma recusa ou negação da espetacularização, mas antes de um posicionamento crítico através do reconhecimento de suas engrenagens, da reciclagem de suas ferramentas  e da inserção ativa de seus atores. Assistir a encontros com escritores dentro do âmbito de um festival literário é importante. Realizar selfies com escritores é divertido. Quem não gosta de os fazer?  Participar ativamente da realização destes encontros parece-me, no entanto, fundamental. É este espaço que busco com o Printemps Littéraire e o seu desdobramento « outonal » no Brasil. Uma atuação  colaborativa e participativa do conjunto dos atores do livro: escritores, editores, livreiros, agentes, bibliotecários e leitores.

Simone Pauline e Leonardo Tonus
( Printemps Littéraire Brésilien:Salon du Livre de Paris 2016)

Não haveria uma contradição ao afirmar  o aspecto inclusivo de ambos os eventos e o processo de seleção dos autores convidados ?

Toda e qualquer seleção implica exclusão. Desde 2005 quando comecei a realizar encontros com escritores brasileiros na Sorbonne minha preocupação sempre foi a de abrir  as portas da instituição em que trabalho à diversidade literária brasileira. Já tive a honra e o prazer de receber em minha sala de aula os acadêmicos Ana Maria Machado e  Antonio Carlos Secchin, bem como o quadrinista Marcelo D’Salete, a ilustradora Lúcia Hiratsuka, a poetisa Alice Sant’Anna, os romancistas João Almino, Rodrigo Ciríaco, Ferrez, Márcio de Souza, Luiz Ruffato, Adriana Lisboa, Claudia Nina, Ana Paula Maia, Daniel Munduruku, entre tantos outros.  Ou seja, homens e mulheres;  poetas, contistas, ilustradores, quadrinistas, dramaturgos, romancistas ; paulistas, cariocas, capixabas, amazonenses e tantos outros; jovens autores e autores confirmados; autores e autoras das mais diversas editoras brasileiras e  das mais diversas origens etnoculturais. Isso é diversidade.  Essa é a multiplicidade da literatura brasileira contemporânea. Para os eventos que organizo não há seleção. Há  pelo contrário inclusão através de convites que respondam a uma preocupação pedagógica, realizados coletivamente e do qual participo enquanto (e desculpem-me aqui pelo anglicismo) « conductor ». A metáfora musical parece-me  adequada.Aos maestros cabem a coordenação  e a direção de atividades musicais realizadas em grupo de maneira coesa e coerente.  O Printemps Littéraire e o Outono Literário constituem para mim esta orquestra ou coro composto de naipes e músicos diversos atuando coletivamente.  O toque dos tímpanos no final de uma sinfonia é tão importante quanto o solo de um violinista spalla. Sem o monótono bordão dos baixos, as piruetas das sopronos numa peça coral são impossíveis. Sem regente não há osquestra, como também há coro sem cantores. O meu « ensemble musical » é múltiplo e variado e dele quero que todos participem para que juntos possamos repensar o campo literário, romper as barreiras que o caracterizam, criar novos leitores em Paris, em Berlim, em Bruxelas ou na favela do Areião em São Bernardo do Campo, e finalmente trazer a literatura brasileira para espaços onde tradicionamente ela não chega.  Para que juntos possamos simplesmente atuar como cidadãos côncios e  intervinientes. Utópico? Sim. Mas  utopia também é postura crítica. Ela nos permite nos situarmos no mundo e melhor o compreender


Entrevista realizada por Henriques Rodrigues com o professor Leonardo Tonus.
Rio de Janeiro-Paris, 10 de Junho de 2016.

Leonardo Tonus faz parte da programação oficial do SESC na FLIP 2016.

Publicada (parcialmente) no site do SESC : Literatura Brasileira Contemporânea



domingo, 19 de junho de 2016

Reler é urgente !




Reler é urgente !
Leonardo Tonus

Tenho uma relação bastante peculiar com meus livros. Relação evocada já em outros textos. Fala-se na obsessão dos autores. Esquece-se a obsessão dos leitores. Ou melhor. A da leitura. Meus livros são obsessivos. Exigem de mim atitudes. Aqui, um olhar descuidado. Por vezes um maneira blasé de os folhear. Acolá, o corpo jogado no sofá. Leitura ensonada. Leitura extremada. Leitura incomodada. Meus livros são obsessivos. E exigem  de mim posturas. E sobretudo, compostura. Um livro a cada espaço de meu apartamento. Meus livros-sapateiras. Livros-cozinha. Romances-sala. Poemas-ducha. Entre bocejos e zonas do incorforto. Entre lágrimas e dores nas costas. Entre o arrepio do desejo e o soco no estômago. Livros claros. Textos sonoros. Romances sujos. Desesterro de Sheyla Smanioto. O livro me arrasta pelas lamas da Vila Marta. E seca minha goela em Villaboinha. Que de boinha, essa vila não tem nada ! Uma cachorra roendo os ossos de suas próprias patas. Mulheres em dor. Pois ser mulher é morar de favor nesse mundo, diz a autora. E Tonho. O monstro inonimável. No estupro inoniável. Sheyla Smanioto. Autora com nome complicado. Desesterro. Título complicado de livro. Complicando o nomear. Do desespero. Que se desenterra. Do desterro. Que nos desespera. Do desenterro. Que me desterra. Para fora dos espaços. Dos tempos. Das vozes narrativas. Do exílio geográfico à linguagem em exílio. Do monólogo ao discurso narrrativizado. De Maria a Penha. A Fatima. A Cida. A todas que são Marias. Pobres. Carcomidas. Fodidas. Nem Scarlett se safa com seu nomezinho de atriz.  Também ela é Maria pelo anátema da avó. E entre o ir e vir das histórias. E entre o ir o vir de minhas leituras. Desesterro. Um livro que se lê. E se relê. E que se volta a ler. A reler para não ler por todos os lugares a mesma história de sempre, como dizia Roland Barthes. Reler para aventurar-se por outros territórios. Releituras desterritorializando-nos. Desesterro. Desesterritorializou-me. Tragicamente. No sentido comum do termo, chamamos  de trágico uma situação marcada pela presença da morte. Designa-se por trágico o momento em que o homem se vê na obrigação de enfrentar uma crise incomensurável onde o impossível e o necessário se unem. O trágico manifesta-se na tragédia. Mas não só.  E nem só na morte do herói que já não há. Enfrentar um crise. Dizer uma crise. Berrar a crise. Eis o que desencadeia o trágico. O nosso momento trágico. O sentimento trágico. A minha leitura trágica. E também esta trágica crônica que não é. Desculpe Sheyla, não tenho tempo. Preciso voltar a Desesterro. Discutir a condição das mulheres é urgente, diz a autora. (Re) ler Desesterro também é urgente.



Sheyla Smanioto nasceu em Diadema (SP). É formada em Estudos Literários, com mestrado em Teoria Literária, ambos pela Unicamp. É autora do livro de poemas Dentro e folha (Dulcineia Catadora, 2012), do curta Osso da fala (premiado pelo Rumos Itaú Cultural, 2013) e da peça No ponto cego (vencedora do IV Concurso Jovens Dramaturgos, 2014). Desesterro é seu romance de estreia, vencedor do prêmio Sesc de Literatura 2015.



Sheyla Smanioto participará da 1° edição do Outono Literário Brasileiro que acontece em São Paulo nos dias 24, 25 e 26  de Junho. 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Nossa Teresa

Nossa Teresa
vida e morte de uma santa suicida
Micheliny Verunschk

 Nunca, em outros tempos, se alardeara com tanta veemência a existência de santos suicidas, pois pela tradição daqueles que costumam ou julgam saber das ordens e mandos de Deus, ou como quer que ele seja nomeado pelas várias religiões que infestam o mundo como uma praga do próprio Criador, o jardim celestial fecha terminantemente seus portões com travas, ferrolhos, cadeados, grossas correntes a todo homem ou mulher que, em gesto de insana profanação, atenta contra o que é de menos seu, contra o que lhes é dado apenas por empréstimo, o bem mais precioso, a vida. Nenhuma misericórdia! Gritam os pregoeiros da palavra e vontade divinas. E quando isto proclamam, saiba-se que nenhuma piedade concederão aos que injuriam a carne com a morte escolhida, prerrogativa do mesmo Deus, senhor que a uns acolhe e a outros não e que, cioso de suas tarefas, quer sempre definir a hora, o local e os meios, desconsiderando, é claro, essa tolice com que tantos se enganam, essa bobagem de livre-arbítrio que só tem a serventia de enganar a humanidade a propósito da falta de pulso sobre seu próprio destino. Pensam os arautos do Senhor que num mundo em que reinasse o livre-arbítrio de fato, Deus não teria mais qualquer utilidade. Num mundo em que homens e mulheres pudessem, sem culpas ou danações, se apoderar de suas vidas e mortes, Deus seria condenado ao vazio, como um velho que esclerosa e vai sendo despido, graciosamente, e aos poucos, do respeito grave com que era considerado quando em uso da razão.

Se amortece, ou mesmo se oculta, o fato de que o lendário Sansão optou pelo suicídio quando arrastou as colunas do templo precipitando para a morte milhares de filisteus, gente como eu, como você, que se reunia em Dagon para louvar e festejar e fazer compras ou passear com as crianças como qualquer pessoa que nesse mesmo instante caminha pelas ruas ou se deixe estar nos templos de Ashdod. Se esconde, sob o patronato da Odontologia, o suicídio sagrado da egípcia Santa Apolônia, que ardeu numa pira por vontade própria a ter que abjurar. Deixa-se em segredo a real exigência feita à Santa Margarida Alacoque quando a ela foi dito Hoje procuro uma vítima para o meu Coração, que cumpra minhas vontades e se sacrifique como hóstia, ordem à qual ela prontamente acatou gravando à lâmina quente de faca virgem o nome do Crucificado no peito para, em seguida, sangrar até morrer. Tenta se esconder até mesmo o que é mais óbvio, o suicídio de Jesus, em Jerusalém, durante aquela longínqua Páscoa de que até hoje se tem notícia. Glorifica-se a morte coletiva dos guerreiros de Massada, dos quarenta mártires de Sebástia, dos 2200 kamikazes do 25 de outubro de 1944, dos bassidijis do Irã, ao mesmo tempo em que os suicidas individuais, aqueles que morrem de frustração, solidão, falta de fé e de objetivos, aqueles que morrem por desesperança ou simplesmente por desejarem dignidade no último suspiro, são relegados a alas discriminantes ainda em tantos cemitérios. Exalta-se o suicídio pelo amor de Deus ou pelo amor da guerra, que são os dois quase a mesma coisa, e colocam-se armas, dentes e línguas em riste contra a morte escolhida ou assistida. Prega-se a vida enquanto sutilmente cultua-se a morte. Mas esses são volteios que nem sempre interessam ao leitor, sempre ávido pelo fato, sempre curioso e apressado pelo entendimento do fim, pelo termo da cena.

Ora, se nunca se anunciara com tal fervor a existência de santos suicidas é que nunca antes se oferecera o patronato de um desses santos aos próprios suicidas. Nunca existira um alguém a quem se interceder por essas almas. Alguém que soubesse na carne e no espírito os caminhos e descaminhos que levam ao ato extremo. E é a história desse santo, sua vida e morte, seu polêmico percurso, que aqui se vai relatar. Melhor dizendo, dessa santa, porque cabe às mulheres desde sempre, de Pandora à Eva, a faísca da subversão, a quebra de valores, a assumida falta de pudores e um extremo gosto pela transgressão. Advirto, porém, que não me venha tomar o leitor como um panfletário, um vulgar levantador de bandeiras. Tão somente conto histórias das quais apenas ouvi falar ou que, quando muito, tive discreta, quase despercebida participação. Sou um velho que muito já viu e viveu e que nem sempre consegue escolher ou esconder simpatias e antipatias. Mas garanto que apenas dou conta do que todos dizem ou sabem, embora às vezes finjam que não disseram ou soubessem. E é esse o meu ofício de narrar. Poderia ser outro, mas é esse e dele me agrado.



Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010) e b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro Geografia Íntima do Deserto. Publica em 2014 seu primeiro romance Nossa Teresa -vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Micheliny Verunschk participará da 1° edição do Outono Literário Brasileiro que acontece em São Paulos nos dias 24, 25 e 26 de Junho.





terça-feira, 14 de junho de 2016

Literatura Angolana


photo : Ana Brigida
Entrevista com José Luís Mendonça

Os grandes poetas trazem para a poesia a alma dos seus povos

Por Japone Arijuane[i]

José Luís Mendonça é um escultor de palavras, conhecedor da sua realidade e das outras, sua escrita ultrapassou o tempo e tempestades mantendo a originalidade própria. Este poeta angolano nascido em Golungo-Alto, na província do Cuanza Norte, há 24 de Novembro de 1955, consegue aliar a literatura e o bom jornalismo de forma e conteúdo galanteador. Mendonça é um daqueles angolanos, como diz seu patrício Lopito Feijó, também poeta; que estudou Direito em linhas tortas. Integrou na "novíssima geração", expressão escolhida para designar o conjunto de jovens que começaram a despertar, no início dos anos 80, para o que é literário, membro da União de Escritores Angolanos desde 1984, hoje para além de ter uma excursão pela UNESCO, na França, dirige uma prestigiada publicação de cultura, “Cultura Jornal angolano de arte e letras”. É com esta autoridade literária que estivemos a conversar poeticamente dos nossos fantasmas comuns, conheça-os!

JA: A literatura, como definiu Fernando Pessoa, “é a maneira mais agradável de ignorar a vida”. Encarrando o “ignorar” como a forma de fugir do real e inventar um mundo a partir da ficção que possa ser justo à nossa maneira, e olhando para as nossas sociedades (PALOP) hoje, a literatura que produzimos consegue criar esse mundo oposto daquele que vivemos?

JLM: Consegue sempre. Sem fugir do real não há literatura, mas sim mero recorte do real, texto informativo ou jornalístico, ou mero relatório de polícia.

JA: Nietzsche um filósofo que dispensa descrições disse que “os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno”. O que dizer dos nossos leitores, quem são e se existem, o que tiram dos nossos livros?

JLM. Só se pode falar com propriedade dos leitores, com base num inquérito. Na falta deste, pode-se aferir sobre os leitores, analisando o sistema de ensino, a realidade académica, principalmente na disciplina de Língua Portuguesa e, também, analisando o discurso da nossa imprensa. O primeiro, o sistema de ensino, diz-nos que já pouca juventude lê. O que se escreve nas nossas universidades, salvo raras excepções, é lastimável. Há alunos da universidade que nem sabem copiar certas palavras já escritas nos enunciados ou no quadro da sala de aula. Analisando o segundo, os média, verificamos que não existe o que há em Portugal, por exemplo, que é um conjunto de jornalistas especializados na crítica dos livros, ainda que uma simples resenha ou resumo. A Leya, de Portugal, antes de lançar uma obra, envia uns 50 exemplares para toda a imprensa, para jornalistas que geralmente fazem as tais resenhas ou análises, mesmo que não muito profundas (estas cabem aos académicos). Ora, estes jornalistas estão sempre a ler as obras que saem. Nós não temos este tipo de cidadãos. Somos paupérrimos, neste domínio. Em Angola e Moçambique lê-se muito pouco. Por isso, é difícil dizer que os leitores tiram dos nossos livros. Muitos cidadãos interpelam-me na rua e me cumprimentam “ah, o senhor é o escritor...”, mas é porque me vêm na televisão. Não porque me leram. Uma solução para este mal, é reformatar os nossos professores, obrigando-os a ler, para depois serem capazes de transmitir esse gosto pela leitura aos alunos.


JA: “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante” disse Carlos Drummond de Andrade. José Luís Mendoça enquanto poeta, conhecedor da realidade dos países que falam português, o que é que temos colocado nas nossas estantes?

JLM: Eu, nas minhas estantes tenho tantos livros, de tantos domínios do saber, que poderia abrir o meu escritório para uma biblioteca pública. Porque os livros que tenho em casa e no escritório não estão lá apenas para evitar espaços vazios. Por isso é que nunca empresto livros. Estou sempre a precisar de os ler, ainda que sejam rever certas passagens quando produzo ensaios, ou por mera saudade de um livro.

JA: “Subsaarianos somos/sujeitos subentendidos/subespécies do submundo/subalimentados somos
surtos de subepidemias/sumariamente submortos/do subdólar somos/subdesenvolvidos assuntos de um sul subserviente”. Falemos da poesia, da sua poesia… acha que os angolanos entendem o seu lirismo, o seu amor a terra, o seu amor à mulher angolana e dessa África que exercemos como uma tarefa árdua?

JLM: Os que lêm e relêm as minhas obras, entendem certamente. Um poema, dada a sua densidade, deve ser lido várias vezes, até dele se extrair a luz íntima. Mas, como o disse atrás, somos pouco lidos, até pelos estudantes, é uma pena.

JA: Uma vez, em Maputo, disse que os jovens moçambicanos não estavam a entender a poesia de José Craveirinha, o que suponho que se referia ao nativismo, a questão de exaltar a terra. Os novos escritores angolanos entendem seus antecessores?

JLM: O que eu quis dizer é que os jovens moçambicanos não lêm José Craveirinha. E, se não lêm, não entendem nada. Isso nota-se na poesia que escrevem. O mesmo se passa em Angola. Quase nenhum jovem escritor analisa profundamente a poesia de Agostinho Neto, ou de Arlindo Barbeitos. Em resultado dessa lacuna, o que escrevem, em poesia, é oco como um boneco de palha. Não tem vida africana. É só palavras e quase todas iguais, tudo muito abstracto. José Craveirinha, Agostinho Neto e Arlindo Barbeitos, ou Mário António ensinaram-nos que a poesia deve expressar o ritmo emoção do homem africano e da terra africana. Aliás, os poetas portugueses, belgas, suecos e americanos ou russos, fazem isso mesmo. Os grandes poetas trazem para a poesia a alma dos seus povos, mas eu noto que há alguns poetas da nova geração, tanto em Angola como em Moçambique a fazer um esforço de telurização da poesia. É digno de nota esse esforço. Por exemplo, em Angola, o Kardo Bestilo, procura esse caminho do retorno às origens. Precisam é de ler muito mais. Falta-lhes o arcaboiço da Cultura Literária e da Cultura Geral. Camões sabia tanto de Geografia e de História e de Filosofia e Religiões, que era uma coisa espantosa.


JA: Como é que estabelece o diálogo entre as gerações na literatura angolana, se é que existe esse diálogo?

JLM: O diálogo é exíguo, porque as jovens gerações furtam-se a esse diálogo. Furtam-se como? Não indo beber às fontes dos precursores. E como é que não vão? Vou dar um exemplo. Se um jovem escritor moçambicano quiser estabelecer um diálogo com José Craveirinha, como é que vai realizar esse diálogo? Craveirinha já morreu. Por isso, a única forma de diálogo possível é o jovem adquirir a obra de Craveirinha e FALAR com Craveirinha, através de Karingana Wa Karingana, ou Xigubo. O mesmo se passa com os escritores vivos. Um escritor, como eu, que trabalha arduamente, não pode ficar o dia inteiro a receber jovens escritores para falar com eles. Os jovens escritores devem falar comigo, lendo os meus livros, ou indo às palestras que profiro na União dos Escritores Angolanos ou noutros fóruns. Eventualmente, recebo jovens na minha casa ou no gabinete, mas o número dos que me vêm procurar é enorme e já não tenho tempo para analisar as suas obras. É materialmente impossível. E a maior decepção que colho é que as recomendações que dou aos jovens para ler certas obras em profundidade não são acatadas. Os jovens continuam a vir com a mesma obra incipiente meio corrigida, em vez de ler bastante...

JA: Francisco Noa, um professor conhecido e reconhecido nas lides leitarias, uma vez defendeu a ideia segundo a qual a poesia poderia ser terapêutica. Olhando para os fantasmas, os males que os nossos países atravessem, acha que a poesia, a literatura no geral, é parte da solução?

JLM: Como será parte da solução, se não somos lidos pela população? Actualmente, os nossos livros são editados em tiragens de 400 ou mil exemplares. Para um país de 24 milhões de habitantes, quem nos lê? E a venda desses livros demora bastante. Por isso tenho aconselhado os jovens escritores a superarem os grandes mestres, antes de lançarem obra no mercado, porque o mercado, a nível mundial, está saturadíssimo. Agora, a Literatura pode ser parte da solução no sentido em que cultiva o espírito e um homem culto é mais democrata do que um homem sem conhecimento livresco. Para isso, é preciso dar-lhes a beber palavras dos livros. Poesia ou prosa.

JA: Há sempre um livro que mudou as nossas vidas, um livro que nos levou a querer escrever, ou mesmo um livro que gostaríamos que fôssemos nós a escrever, fale do seu.

JLM: O livro que mudou a minha vida, que eu gostaria de ter escrito é a Bíblia Sagrada, não pelo seu conteúdo divino, mas pela sua beleza literária, a sua arrumação formal, o seu imaginário criador. Li-a aos nove anos e fiquei deslumbrado. Depois li outras obras, como Os Nus e os Mortos, de Norman Mailler, Karingana Wa Karingana, de Craveirinha, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, e tantos outros, que me marcaram profundamente. Há um livro em particular, que é Zorba, o Grego, que me deixou uma marca tão profunda que um dia quero morrer de pé, a ver o mar de uma janela, como morreu o marinheiro Zorba.



JA: Olhando para a literatura moçambicana, que bem a conhece, em particular a dos jovens que começam a mostrar sinais de um provável compromisso literário, alguns destes publicados no jornal que dirige, que dizer destes jovens? E como tem sido o movimento similar em Angola?

JLM: A literatura dos jovens moçambicanos é muito entusiasta, tem imagens fortes e expressa a intenção de inovar a poesia do vosso país. Da prosa conheço ainda pouco. O conselho que vos dou é o mesmo de sempre. Leiam e releiam Luís Bernardo Honwana, Craveirinha, Mia Couto, leiam e releiam os grandes, não uma, mas cem vezes, até nunca se cansarem. Depois leiam outras coisas, é fundamental terem uma Cultura geral e terem Competência Linguística: esta, só se adquire lendo muito.

JA: Angola vive um momento que alguns classificam como o fim de uma era política, refiro-me a questões ligadas com democracia, o exercício da liberdade de impressa, objectivamente dos tão propalados “jovens activistas angolanos”. Que análise faz desse processo?

JLM: Ainda é cedo para uma análise histórica, que é o meu domínio preferido, ainda há que esperar que a poeira assente e se veja o resultado desse activismo político, na sua dialéctica com a força dos poderes estabelecidos e a dinâmica do consumismo luandense e internacional e a crise que o caracteriza. A modalidade do poder das independências africanas, no geral, é muito sui generis, muito peculiar, muito controversa. A democracia na Europa só surgiu mil anos depois de se erguerem as primeiras universidades. Em Angola, a Universidade surgiu no final dos anos 70. Na tão propalada maior democracia do mundo (os EUA), ainda se assassinava Martin Luther King em plena década de 60. E hoje, ainda se mata um negro nos EUA, por dá cá aquela palha. Quer dizer, a minha análise da coisa política advém da análise do mundo, na sua globalidade. Por exemplo, mesmo que eu não concorde com o sistema vigente em Angola, se as coisas mudarem bruscamente, há, no nosso seio, sementes germinantes de outras situações que podem ser mais amargas do que o que se vive hoje. Sementes com casca de tribalismo, racismo, revanchismo e outros ismos perigosos. Por isso, é que falta tempo para se analisar o que se está a passar em Angola e não só: há elementos guardados na planilha do processo histórico que muita gente não descortina, no caso, “os jovens activistas”. Mas, de momento, uma coisa eu recomendo ao poder: que dê espaço a esses jovens para produzirem, não só um projecto de revolta político-social, mas que se lhes dê a oportunidade de trabalharem para uma mudança social a nível local, comunitário, que eles possam provar que se pode fazer algo de plausível pelas comunidades. Não sei se isto é possível, é apenas uma ideia, eu próprio gostaria e tenho feito certo trabalho invisível no bairro onde moro, por exemplo, já plantei seis árvores no espaço de um ano, é um largo absolutamente seco, sem sombra, então eu plantei seis acácias e mais uma moringa, tenho tratado das árvores, elas estão a crescer, criei um projecto de plantação de mil árvores em Luanda, o projecto chama-se Uma Criança, Uma Árvore, mas hoje em dia os projectos que não contêm milhões de dólares mão são sequer ouvidos, e até as crianças estão apegadas aos telefones android, que falar de árvore a um jovem luandense é aparecer como um “gajo maluco”, as pessoas querem é ver um cidadão com dinheiro e carro enorme, é uma maka que estamos os com ela, por isso é que os “jovens activistas” também estão isolados, a situação não é assim tão linear como a analisa a imprensa internacional. Há outras nuances do problema africano. Mas é preciso ouvir os intelectuais africanos, no país e na diáspora, e não ignorá-los ou conotá-los como “inimigos”. Nós somos parte da solução pacífica.



XXXX


O resto é poesia

Do verso é preciso
respirar a manhã

vertical
passeá-lo

inteiramente nu
sobre a consciência

o resto é
poesia



Espuma do mar

Te sinto chegar como espuma
Do mar num domingo à tarde.

Despertas a intensidade do meu voo
Sobre as asas abertas do teu sexo.

Fracturas a humana equação
da intimidade do verão.

Me lambes como quem
Lambe um prato de feijão de óleo palma.

Boca a boca, semente a semente, laranja sem gomos
Plurimaturada a tua língua
Por detrás dos joelhos rói
A cartilagem da minha alma:
Viro ninguém numa paragem de candongeiro.

Boca sem gomos, laranja a laranja
O coaxar dos sapos nos teus olhos rasos de água
E o colidir da chuva contra o insecto
Branco »cor de vinho« da tua palavra
Bebem dessa construção.

Subpoesia

Subsaarianos somos
sujeitos subentendidos
subespécies do submundo

subalimentados somos
surtos de subepidemias
sumariamente submortos

do subdólar somos
subdesenvolvidos assuntos
de um sul subserviente

[i] Japone Arijuane é Poeta, Jornalista moçambicano, ensaísta, autor do livro “Dentro da Pedra ou metamorfose do silêncio”, distinguido melhor livro lançado em Moçambique em 2014, ano da sua edição, pelo CEMD (Circulo de Escritores Moçambicanos na Diáspora) com sede em Lisboa, é membro fundador do Movimento Literário KUPHALUXA, dirigiu e editou a revista Literatas.

domingo, 12 de junho de 2016

Rebentar





Dizem que ler é situar-se no âmbito da halucinação. Percepção patológica de fatos. De sensações e sentimentos na ausência de qualquer estímulo. De seres que não existem. De objetos que também não existem.  Livros são objetos que não existem.  Eu sou um objeto que não existe. Ou que só existe através dos livros. A evanescência de um revelando a concretude  do outro. Daquilo que em sua forma material existe. Daquilo que é considerado no objeto que existe. E de que se faz parte. Não abstraído.  Nele ou por ele passando a existir. Existir pelos livros. Eu existo em meus livros. Eu só existo em meus livros. Meus livros-poltronas. Que me acolhem no desespero das madrugadas. Meus livros-carambolas. Levemente acidulados. Que saciam minha sede. Meus livros-dor. Que me cortam. E me ferem. E que a cada palavra. Me atiram. Contra uma muralha. Ou pelo  precipício da angústia. Rebentar de Rafael Gallo. Um livro-dor. Terebrante. Que perfura os ouvidos em sua palavra-dor.  A palavra-dor do filho desaparecido.  Da morte cotidiana do filho desaparecido.  E de seus pais. « Habitando esse vão: morrendo vida afora, vivendo adentro de uma morte que não se consuma ».
Leonardo Tonus



Rebentar

Conforme Ângela dá meia-volta, seus passos ressoam o ruído dos grãos de areia espalhados pelo concreto contra seus sapatos. Ela deixa a plataforma do píer, dando as costas para o mar. Atravessa a faixa da orla, em direção à trilha que leva ao descampado onde deixara o carro estacionado. Com o rosto inclinado para o chão, observa suas pegadas anteriores marcadas na areia, cada uma delas se desmanchando sob o peso de seus passos seguindo agora no sentido oposto.
Ainda restam sombras de dúvidas quanto à sua decisão de encerramento. Embora tivesse refletido muito a respeito de sua renúncia e soubesse o peso de sua escolha, Ângela pressente também que esse novo caminho diante de si pode se revelar, ao fim, como apenas mais um entre tantos outros rumos iniciados, interrompidos, desfeitos e refeitos sem nenhuma mudança efetiva em sua trajetória como mãe de um filho desaparecido. Dali a não muito tempo poderia estar, por exemplo, novamente sentada em um avião, voando em direção a qualquer canto do país de onde se anunciasse a hipótese de alguém, ou um cadáver, ser passível de identificação com Felipe. Por essa e tantas outras razões, sabia que não poderia tomar sua decisão pela renúncia de forma leviana; não se permitiria fazer algo assim pela metade, com a perspectiva de voltar atrás a qualquer momento. Se quisesse de fato se desprender da esperança de reencontrar seu menino, teria de ser resoluta a ponto de não restar nada que a colocasse novamente nessa trilha de uma maternidade à espera de restauração.
Um filho desaparecido é um filho que morre todos os dias. Nem mesmo nas mitologias mais cruéis há tragédia equivalente; essa dor nenhum deus teve de suportar. Cada noite que cai desaba sobre os pais com o peso renovado da notícia: você perdeu sua criança e ela está em algum lugar nessa escuridão afora, desprotegida de seu lar. Essa mensagem silenciosa se impregna nas paredes da casa, nos vãos entre os azulejos, nos ponteiros dos relógios e nas páginas dos calendários, nos retratos da família, no chão que se pisa. É um luto com uma diferença fundamental: alguém que não é reencontrado nunca se perde em definitivo. Há sempre uma nova possibilidade, uma nova tecnologia de rastreamento, uma nova pista sobre seu paradeiro, uma nova esperança. Se o filho morre todos os dias, sua ressurreição também é constante e dolorosamente insubstancial. Tantos renascimentos possíveis, iminentes, abortados em uma série sem fim de fracassos nas buscas.
Na verdade, não há infinitas mortes nem infinitas vidas, nunca houve: o que resta, no lugar da criança desaparecida, é uma anulação constante entre vida e morte — polos opostos de um mesmo vazio sem contornos. Os pais e o filho para sempre habitando esse vão: morrendo vida afora, vivendo adentro de uma morte que não se consuma.



Rafael Gallo é paulista, autor de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti, ambos na categoria Contos. Em 2015 lançou Rebentar, seu primeiro romance, também pela Editora Record. Tem ainda contos publicados em diversas revistas e antologias, como a Machado de Assis Magazine, que publicou tradução do conto « Réveillon » para o espanhol.




sexta-feira, 10 de junho de 2016

Esquema de A.

Esquema de A.

Victor Heringer


Ao final de seu décimo quinto ano de idade, Alexandr O., filho de russos, desistiu da cidade e foi viver na floresta. Coisas que Александр não conheceu: (1) as prostitutas da Vila Mimosa; (2) o tratado Da elegância como virtude intelectual (1956), de Horace Aliananga; (3) a dor das hérnias de disco.
O que Alexandr conheceu: Lena R.
Александр era analfabeto. Lena R. também. Ambos morreram virgens. Não se prometeram em casamento, ninguém sabe o porquê, já que se amavam e as famílias aprovavam. O que Alexandr foi fazer na floresta: uma fogueira. Com que propósito? Não deixar que se apagasse.
Alexandr alimentou o fogo. Subiu a floresta da Tijuca e sumiu lá dentro. Só levava um machado, que roubou do açougue do pai no Catete. Cortou árvores do parque nacional, ilegalmente, e acendeu a fogueira. Construiu um barraco de madeira. Calculou que envelheceria na mata.
Александр não fez a mínima ideia de quem foi Henry David Thoreau. Alimentava-se dos bichos da floresta e água da chuva e de coco. Assava os bichos na fogueira.
Viveu na mata até os 16 anos de idade sem ser incomodado. Quando os guardas florestais finalmente o encontraram, Alexandr foi preso. Morreu no caminho para a delegacia, 14 minutos antes do fogo.

XXX


Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. É colunista da Revista Pessoa e participará da 1° edição do Outono Literário Brasileiro no mês de junho em São Paulo




quarta-feira, 8 de junho de 2016

Palavras não são apenas palavras!

Palavras
Cristino Wapichana

Palavras não são apenas palavras!
Elas nunca vêm ao léu,
Todas tem sabor
E a maioria delas, cor.
Palavras não são apenas palavras!
Não são apenas junção.
Não se obrigam a função,
Estão além da razão.
Palavras não são apenas palavras!
Elas mudam os tempos,
Sufocam espaços,
Viajam ao vento.
Palavras não são apenas palavras!
São trávolas,
São trôpegas...
São trágicas...
São, traumáticas!
Palavras não são apenas palavras!
Ninguem, as retém!
Elas nos tornam reféns...
Algumas tolas
Outras ríspidas...
Algumas seduzem!
Outras, apenas conduzem...
Palavras não são apenas palavras!
São mais que a alma!
É mais que a vida!
É imagem!
É grito!
É sonho...
É, mito...
Palavras não são apenas palavras!
É começo e fim!
Se entronizam
E se eternizam...
Palavras não são apenas palavras!

XXX



Cristino Wapichana. Natural de Boa Vista Roraima, Cristino Wapichana é músico, compositor, escritor premiado e contador de histórias. Foi vencedor do 4° concurso Tamoio de literatura pela FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil 2007 com o Texto A Onça e o Fogo. Obteve a Menção Honrosa 2014 do concurso Tamoio e a Medalha da Paz – 2014 – Movimento União Cultural.Indicado ao Prêmio da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da Republica 2008 e 2014, pelos trabalhos relevantes em prol da cultura indígena brasileira, ganhou o Prêmio Litteratudo Monteiro Lobato – 2015 – Movimento União Cultural. Publicou, entre outros,  A Onça e o Fogo (Ed. Manole – 2009), Sapatos Trocados (Ed. Paulinas – 2014, selo altamente recomendável – FNLIJ 2015) e A Oncinha LiLI (Ed. Edebe – 2014). Em 2015 participou da 2° edição do Printemps Littéraire Brésilien na Sorbonne. E-mail: cristinowapichana@hotmail.com

Cristino Wapichana, Betty Mindlin, Leonardo Tonus, Daniel Munduruku, e Pascal Dibie


XXX



A ONÇA E O FOGO, ED. AMARILYS – 2009.
Este livro resgata uma bela história indígena do povo Wapichana, que narra, de maneira surpreendente e encantadora, o resultado do duelo travado entre a Onça e o Fogo, em um tempo fantástico, cheio de perigos e aventuras, como esta, que você esta prestes a descobrir.
Premiações:
Vencedor do concurso Tamoios FNLIJ 2008.
Vencedor do concurso Curumim FNLIJ 2011.
Idade sugerida: 06 à 09 anos.





SAPATOS TROCADOS: COMO O TATU GANHOU SUAS GRANDES GARRAS, ED. PAULINAS – 2014.

Sapatos trocados narra à saga de Kapaxi, um grande velocista e contador de histórias, que recebeu um par de sapatos mágicos de presente de Tuminkery (criador de todas as coisas), para atuar numa missão especial: a de mensageiro oficial do reino animal.  Kapaxi era cheio de alegria e muito adorado pelos pequeninos, que aguardavam suas visitas repentinas, para ouvirem suas belas histórias. Foi em uma das grandes festas dadas pelo Jabuti, que o animal teve seus sapatos trocados por engano, pelos de Aro, e a partir desse acontecimento, Kapaxi precisou adaptar-se a uma nova vida. Idade sugerida – 7 à 10 anos.
Premiações e participações:

Lançamento na Bienal de SP – 2014. 
Salão Internacional do livro de Frankfurt – Alemanha – 2014.
Salão Internacional do livro de Paris - 2015.
Feira do Livro Infantil de Bolonha – Itália – 2015.
Entrou no Catálogo de Bolonha – 2015, sendo um dos livros escolhidos para representar a literatura infantil brasileira do ano de 2014.
Ganhou o Selo “Altamente Recomendavel” FNLIJ – 2015.  Faz parte do acervo da FNLIJ.




A ONÇINHA LILI, ED. EDEBE - 2014.

Quer saber com vive um filhote de Onça?
A esperta Oncinha LILI irá te levar para a floresta onde mora com sua família.Vamos acompanhá-la?
Idade sugerida: de 02 à 05 anos.