segunda-feira, 30 de maio de 2016

A arte de contar

A arte de contar

Escrever hoje literatura é se jogar de um trampolim de cinquenta metros de altura com os olhos vendados sem saber o que nos espera no chão, afirma um dos personagens do romance Sérgio Y, vai à América do escritor Alexandre Vidal Porto.

De fato e como sugere o crítica brasileira Regina Dalcastagnè : “O espaço da ficção contemporânea hoje é tão ou mais perigoso que o da realidade”.  Segundo a critica, a literatura  contemporânea « ja não busca consolar ninguém, nem estabelecer verdades ou dar lições de moral ». No espaço ficional  contemporâneo « os heróis valorosos,  os gesto magnâmicos,  as palavras eloquentes desapareceram ». Mesmo as vãs instâncias narrativas que outrora controlavam e tudo comandam sumiram. Hoje o espaço da ficção contemporânea é um espaço traiçoeiro que impõe novas formas de habitabilidade às suas personagens, às suas  vozes autorais e ao próprio leitor.


É a partir destes espaços perigosos, imprevisíveis, incertos, labirínticos e estrábicos que os narradores e as personagens dos romances de Claudia Nina, João Guilhoto e Alexandre Vidal Porto observam o mundo a seu redor. É a partir destes espaços que suas personagens e seus narradores se entrechocando uns com os outros, tropeçam e caem pelos caminhos inseguros que percorrem. É através dos percursos labirinticos que trilham, a partir dos lugares efêmeros em que se inserem e de onde falam que eles reafirmam a imprevisibildiade do mundo e as armadilhas dos discursos. É a partir destes espaços, enfim, que eles  nos leva a optar por escolhas sempre incertas e imprevíseis.

Estas e outras questões foram debatidas no encontro realizado com os escritores Claudia Nina, Alexandre Vidal Porto e João Guilhoto  no âmbito da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien em Paris.



Ouçam o debate gravado no dia 24 de março na Fondation Calouste Gulbenkian em Paris cliquando no link abaixo :




L’art de raconter
Com Claudia Nina, Alexandre Vidal Porto  e João Gilhoto
Moderação : Leonardo Tonus, Nicolle Ortiz, Vicente Cusin (Université Paris-Sorbonne) e Simone Paulino ( Editora Nós)



Alexandre Vidal Porto nasceu em São Paulo, em 1965. É diplomata de carreira e mestre em direito pela Universidade de Harvard. Estreiou na literatura com o romance Matias na cidade, publicado pela editora Record, em 2005. Foi blogueiro da revista Bravo!, da Editora Abril, e atualmente é colunista do jornal Folha de São Paulo. Recentemente, teve dois contos incluídos na Antologia de Prosa Contemporânea Brasileira, organizada pela Universidad Autónoma de México (no prelo). Seu segundo romance, Sergio Y, vai à América, publicado em 2014 (Companhia das Letras) foi vencedor do Prêmio Paraná de Literatura. Ativista de direitos humanos, viveu em Nova York, Cidade do México e Tóquio. Atualmente, mora em São Paulo.


Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest). Paisagem de porcelana é finalista do Prêmio Rio de Janeiro de 2016.


João Guilhoto nasceu em Lisboa em 1987 e viveu grande parte da sua juventude na cidade de Lamego. Em 2009 começou a trabalhar como jornalista. Passou pelo jornal Público como estagiário e mais tarde colaborou com outras publicações portuguesas. Lançou os seus primeiros textos literários nas revistas LER e Cult. Depois de uma série de viagens realizadas pela Europa, decidiu mudar-se para a Alemanha. Em 2015 lançou o seu primeiro livro, O livro das aproximações pela Editora Nós, no Brasil.




quinta-feira, 26 de maio de 2016

solidões da memória



solidões da memória


rizoma
    
           vestígios de pegadas nas areias, / restos d´ossos roídos e d´espinhas
                            António Barahona


a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia

vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio

(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
- revivências)

a memória da infância
é a memória possível
(e só à poesia cabe recriar)

insubordinação
(sob o signo de beauvoir)

                      Eu cumpro os meus
                          limites,
                          não cumprindo as regras
                                              Maria Teresa Horta

campesinas
as saias longas
largas escuras
a roupa debaixo
dispensavam

bastava
(gesto imperceptível)
um leve dobrar dos
joelhos
:
mijar  em pé
sobre a terra
receptiva
subverter o mito
do eterno feminino
(o segundo sexo
em
igualdade de condições)





ilha     
             Em sal espuma e concha regressada
               à praia inicial da minha vida
                              Sophia de Mello Breyner Andresen



a ilha, nem
ilha era (o mar
nesga
ao lado e à frente)

a ilha, não
tinha fim nem
começo, rosário
de sal ao pescoço

a ilha, o espaço
do jardim, calcetado
de seixos e
ervas de permeio

a ilha, o curto
caminho de casa
à escola
visconde cacongo

a ilha, o longo
percurso da escola
à casa
(fortificada ilha)



educação eletiva

   Alguém te contempla
   Desde antes do tempo começar
                                              Murilo Mendes

a tia

(sempre haverá uma tia, na
vida de todos os seres viventes
não qualquer tia
mas aquela, para além do sangue,
                a eleita
      antes mesmo de o ser
aquela que contempla
   e enxerga o escuro
        aquela que sabe
da dor e da fome
e, garras à mostra
    afugenta intrusos
                acode
agasalha
          acalenta
afinidade eletiva
antes mesmo de
    qualquer começo)

sim, a tia
como esquecer?


marinhas

      Mas, se vamos despertando
         Cala a voz, e há só o mar
                    Fernando Pessoa


havia manhãs
em que, ao abrir da janela
era só o mar e o mar
                          o mar
                          o mar
                          o mar
aqui e além, barcos
quebravam em dois
o azul
inauguravam o branco
desenhavam a espuma

e não havia palavras
só as ondas
     as ondas
     as ondas
    
via, ouvia
            calava


tempo polido

Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
            Uma pedra de nascença, entranha a alma.
                                                 João Cabral de Melo Neto


pelas calçadas do funchal
(em pedra e arte calcetadas)
passaram meus ancestrais
pés descalços / solas gastas
corpos descuidados
a polir o (seu) tempo
sem atinar com ele
na paisagem entranhados

solas novas na pedra gasta
em cuidados, agora percorro eu
as marcas esquecidas, indícios
da pedra primeira
da pedra pedra
fundadora


bagagem
 
      de lado a lado
        a casa é uma viagem
                 Irene Lucília Andrade


haveria de ser grande e bonito
o baú encomendado ao tio
madeira coberta por folhas de flandres
tachas reluzentes e batique florido
(abrigar os pertences
resistir às intempéries atlânticas
e, por fim, servir de móvel
no destino novo)

ali, na austeridade da arca
a casa
reduzida ao essencial


chegada
  
       Para a frente era só o inavegável
        Sob o clamor de um sol inabitável
                                       Sophia de Mello Breyner Andresen


onze foram os dias
enjoo,  sarna e tédio
terceira classe
paquete santa maria

da terra prometida
primeiro, o recife
amarelos inaugurais

aos emigrantes, o
delimitado espaço
do porto, aos turistas
a cidade  (entre)vista
do cais

(aos que vinham
para o trabalho
ver o trabalho
era  o limite)

via-se
:
corpos gingantes, a estiva
torsos negros azuis suados

e o cheiro despudorado
do abacaxi a anular o resto

 (o brasil tinha cheiro
e era de ananás)

Dalila Teles Veras
Poemas do livro solidões da memória, Alpharrabio Edições/Dobra editorial, 2015


Dalila Teles Veras nasceu no Funchal, Ilha da Madeira, Portugal. Há 43 anos vive em Santo André, SP. Autora de cerca de duas dezenas de livros, nos gêneros poesia, crônica e ensaio, dos quais destacam-se À Janela dos Dias – poesia (quase) toda, 2002, Retratos falhados, 2008 e Estranhas formas de vida, 2013.
Desde 1992, dirige a Alpharrabio Livraria e Editora, em Santo André (SP), referência cultural na região do Grande ABC. Coordena, desde 2007, o Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC e integra, já no segundo mandato, como membro titular para representação da Comunidade, o Comitê de Extensão Universitária, ligado à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFABC – Universidade Federal do Grande ABC.

Conheça o Alpharrábio no site : http://blog.alpharrabio.com.br/








quarta-feira, 25 de maio de 2016

Eu detesto resenhas literárias

Eu detesto resenhas literárias
Leonardo Tonus


Eu não suporto resenhas literárias. Eu não gosto de resenhas literárias. Eu detesto resenhas literárias. Nunca as leio. Maçã digerida que fica entalada na garganta. Também não leio sinopses de filmes. Pois busco sempre o espanto. Na morte de Gelsomina. No beijo em Casablanca.  Na queda de King-kong. A kiss is still a kiss ? Not really. Tá, mas você esqueceu Machado. Machado, o quê ? A historiazinha do mortinho abandonado ?  Tá.  E não tá.  Já pensou nos vermes ?  Esqueceu os vermes ! Ninguém pensa nos vermes. Ninguém pensa em vermes. E no entanto.  Croc, croc. O dedão do melancólico é devorado. Croc, croc. Seu corpo escarafunchado. Croc, croc.  Os vermes e seus dentinhos afiados cocegam os pés do defuntinho.  ( empresto aqui o neologismo ao meu amigo Roberto Parmeggiani). Seu nariz. Suas orelhas. E os falsos sistemas de pensamento. Croc, croc. Humanitismos. Evolucionismos. Croc, croc. Naturalismos. Desenvolvimentismos. Positivismos. Croc, croc. Dizem que alguns destes voltaram a estar na moda. Croc, croc. Mas os vermes também. Croc, croc. Os vermes de Machado são o abismo de Machado. Toda experiência artística é abismal. Ou deve ser. Sartreano convito (ou quase) busco o espanto da angústia. Sou um ser-para-morte.  Sempre.  Nas artes. Em sala de aula. Na descoberta do outro. Nos jantares com meus amigos. Meus jantares também são abismais. Ou eram. O espanto desapareceu nos inquéritos preliminares. Vegetariano ? Carnívoro ? Alérgico?  Felizmente pouparam-nos as sobremesas.  Atirar-se no precipício da primeira colherada de uma baba de moça. De uma tarte tatin. De um mousse de maracujá.  Ou das primeiras linhas de um romance de capa amarela.  Mas dele não falarei. Pois não gosto de resenhas. Eu nunca as leio. Eu não suporto resenhas. Não comentarei  a busca de Samuel pelo pai desaparecido.  Seu sofrimento.  Fome e sede durante  mais de dezesseis dias de caminhada pelo sertão. O destino trágico de Maiirinha. Sua dignidade.  A cabeça decepada do santo. O pícaro Francisco. Meio trickster. Meio malandro. A denúncia dos sistemas de opressão. As derivas do fanatismo. O horrores do clientelismo. Uma estrutura romanesca tradicional cujo ritmo, no entanto, nos empurra precipício abaixo. Com estômago virado. Rindo das piruetas de suas personagens. De nossas cambalhotas. E chorando com  grito sufocado do protagonista.  E o espanto face a um real quase mágico.  Quase e absurdo.  No romance também há angústia. A eterna e prazerosa angústia do proceso de leitura. Pela certeza de saber que iremos nos espatifar. E nos espatifamos. Felizes como tomates. Espanto.  Afetividades. Angustia. Dor.  Abismo. E os vermes da Cabeça do santo de Socorro Acioli.  Mas dela não falarei. Seu livro não comentarei. Suas personagens não descreverei. Pois eu não gosto de resenhas literárias. Eu não suporto resenhas literárias. Eu destesto resenhas literárias. 

Leia um trecho do romance A cabeça do santo de Socorro Acioli, clicando aqui : 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Autoria negra

III JORNADA LITERÁRIA DE AUTORIA NEGRA: PERCURSOS CONTEMPORÂNEOS

Universidade de Brasília, 1º de junho de 2016.
Auditório do Instituto de Letras – Campus Darcy Ribeiro.


Entre o racismo estrutural e a permanência do discurso da “democracia racial”, as populações negras buscam construir formas de falar de si e do mundo. Nas últimas duas décadas, verificou-se um aumento de visibilidade da representação negra na sociedade brasileira – seja nos meios de comunicação de massa, seja nas artes, na música e na literatura, seja no campo acadêmico – e seu caráter “marginal” diante das formas de expressão dominantes vem sendo fortemente questionado. A III Jornada Literária de Autoria Negra: Percursos Contemporâneos propõe um espaço de diálogo entre a universidade e escritoras e escritores negros para tratar dos problemas da perspectiva, da linguagem, do gênero, da edição e da recepção desta produção.


PROGRAMAÇÃO

8h30 – Abertura do evento
Apresentação de Cristiane Sobral e Meimei Bastos

9h – Lugares e impasses do literário
Allan da Rosa e Mel Adún, com mediação de Regina Dalcastagnè

10h30 – Coletivos e editoras: os Cadernos Negros e a Ogum’s
Esmeralda Ribeiro e Guellwaar Adún, com mediação de Igor Ximenes Graciano

Intervalo

14h30 – Quando mulheres escrevem
Miriam Alves e Lívia Natália, com mediação de Anderson da Mata

16h – Trajetórias poéticas e políticas
Eliane Marques e Cuti, com mediação de Pedro Mandagará

18h – Encerramento
Apresentação de Ricardo Aleixo

18h30 – Lançamento de livros
Cadernos Negros, volume 38; Pré-catálogo da editora Ogum’s; Bará: na trilha do vento, de Miriam Alves;
Pretumel de chama e gozo: antologia da poesia negro-brasileira erótica, de Cuti (org.); Impossível como nunca ter tido um rosto, de Ricardo Aleixo; Correntezas e outros estudos marinhos, de Lívia Natália; E se alguém o pano, de Eliane Marques; Desinteiro, de Guellwaar Adún; A lua cheia de vento, de Mel Adún; Maju: a princesa do tempo e Resiliência, de Aciomar de Oliveira; Polifonias marginais, de Lucía Tennina, Mário Medeiros, Érica Peçanha e Ingrid Hapke    


EQUIPE

Coordenação: Regina Dalcastagnè

Comissão organizadora: Anderson Luís Nunes da Mata, Pedro Mandagará

Comissão de apoio: Adélia Mathias, Aline Teixeira, Andressa Marques, Calila das Mercês, Carina Lobato, Dalva Martins, Maria Aparecida Cruz de Oliveira, Pollianna Freire

Comissão de divulgação: Aline Teixeira, Graziele Frederico, Lúcia Tormin Mollo, Paula Queiroz Dutra


Monitoria: Isadora Dias, Raysa Soares, Waldson Souza, Daniel Rocha

segunda-feira, 23 de maio de 2016

As certezas e as palavras

As certezas e as palavras

 Carlos Henrique Schroeder

Se excluirmos a morte, ao nascermos, duas outras certezas nos acompanharão: a de que seremos filhos frustrados, num determinado momento, e pais inseguros, em outro.

Cássio sabia disso e coçava a cabeça quando essas certezas o afligiam, certeiras, e mesmo com as insistentes reprovações de Sarah, o incerto Cássio coçava e coçava, e por entre seus finos cabelos, se bem perscrutássemos, as feridas existiam. Cássio também tinha a certeza de que não choraria no enterro de seu pai. Não me surpreendo. Nunca o vi chorar nesses quinze anos em que o conheço, nem uma lágrima, sequer um brilho etéreo nos olhos, apenas um campo vasto e esverdeado nas pupilas. Ele se culpa por não nutrir nenhum sentimento, nenhum mesmo, pelo pai; nem amor, nem ódio, eu não entendo e ele não consegue me explicar. Ele acha que não sabe educar os filhos, mas eu lhe digo, e quem sabe? Quando me mostrou sua coleção de tampas de caneta, pensei que nada mais pudesse me surpreender nele, mas Sarah, sua esposa, me confidenciou algo. Cássio tem fixação por uma palavra da qual eu nem sabia o significado, mas descobri: afinal, era o sétimo verbete da terceira coluna da página 2.072 do Dicionário Houaiss. Segundo Sarah, ele se diverte criando historietas com a palavra “opróbrio”. Pelo que eu sabia, Cássio era um ágrafo e suas obras completas poderiam se resumir a suas assinaturas no talão de cheques. Também não me lembro de Cássio ter lido um livro sequer na vida, e fiquei ainda mais surpreso quando certo dia Sarah me entregou uma de suas histórias num guardanapo: "Há na palavra opróbrio algo de indecente, até mesmo de pornográfico, talvez seja a exposição indecorosa das três letras o, sugerindo um casal e o filho assassinado com uma facada nas costas, ou ainda um casal e seu filho punk. Não consigo vislumbrar nada em prol desta palavra, tampouco brio, em duas sílabas espremidas entre vogais, sufocadas, reticentes, impróprias. Dentre as palavras com oito letras, ela é, sem sombra de dúvida, a mais perigosa. Esconde em suas letras a simbologia do assassinato: o p matou o r com a ajuda do o e uma faca aguda, e ainda com a ajuda de b jogaram o corpo no rio. Reparem que este é um momento revelador da língua portuguesa, talvez até o Holanda e o Houassis possam se levantar de seus túmulos; afinal, não é sempre que descobrimos que um substantivo masculino é, na verdade, um substantivo maldito, e que esconde um caso de amor entre duas palavras do mesmo sexo, e vizinhas: p e r".

Disse para Sarah que isso tinha um nome: - Obra-prima?, perguntou. - Esquizofrenia!, disse eu. Não levamos a sério meu diagnóstico. Afinal, ele havia me ensinado uma palavra nova. Nunca cheguei a comentar isso com ele, nem poderia. Mas gostaria, pois estava ficando chateado por, toda vez que conversava com Cássio, ele retomar o assunto das certezas. E eu tinha que engolir em seco minhas duas certezas, que não podiam ser compartilhadas. A primeira, de que ele era um corno; a segunda, de que o terceiro filho dele, de apenas dois anos, era na verdade meu filho. Ele me ensinou uma palavra, mas fui eu quem ensinou a Sarah o último verbete da terceira coluna da página 2.079 do Dicionário Houaiss: orgasmo. A verdade dói mais do que as palavras. Ambas são mortais. E prefiro, muitas vezes, me abster dessas armas, pois se amo o cheiro que emana dentre as pernas de Sarah, amo sobretudo a mim, e também a Cássio, meu primeiro, e talvez único amigo. E se algum dia meu telefone tocar e uma voz gritar inúmeras vezes a palavra opróbrio, só restará aos meus pulsos o beijo frio da lâmina de barbear.




Carlos Henrique Schroeder é autor da coletânea de contos As certezas e as palavras (Editora da Casa, 2010), vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional. Seu romance As fantasias eletivas (Record, 2014) integra as listas de vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina e da Associação Catarinense e Ensino. Seu último livro é  História da chuva (Record, 2015). Tem contos traduzidos para o inglês, alemão, espanhol e islandês.

Consultem o site do escritor : 





sábado, 21 de maio de 2016

Doce de leite


Doce de leite
Leonardo Tonus


« O senhor tem uma encomenda ». O carteiro, ontem, tocando em casa. Por aqui os carteiros ainda entregam a correspondência em mãos. Pelo menos, o meu carteiro entrega. Claro, isso quando ele não se engana de destinatário. Ele sempre se engana de destinatário. Todas as semanas. Todos os meses. Assim, soube que senhora idosa do 2° andar, tão recatada, assina uma revista sobre motos. As crianças do 3° andar ganharam no último mês um presentão da Rússia. O selo era russo. O nome do expeditor também. Alguém se lembrou do casal do 1° andar. Abraços das Antilhas. Saudades. Na semana passada encontrei a senhora do 2° andar no elevador. A da revista das motos. Vestia um tailleur. Sorri. E quase pedi que me levasse na garupa por suas estradas imaginárias. Desta vez, o meu carteiro acertou e a minha encomenda chegou. Envelope grande. Papel pardo. Brasil. Minhas encomendas sempre vêm do Brasil. Livros. São sempre livros. Acho que meus livros também já circularam pelo prédio. O senhor sisudo do 5° adorou o último da Elvira Vigna. Ele começa em Paris. A garota do 4° andar, com seus eternos fones de ouvido, chorou com o relato do Kucinski. Mas meus vizinhos não falam português. Sou eu que adoro Elvira e que chorei com o K. Assino o comprovante da encomenda registrada. E o ritual começa. Não rasgo o envelope. Busco uma faca. Sento no sofá. Apalpo a encomenda. O expeditor é brasileiro. O selo é brasileiro. A letra do expeditor brasileiro é redonda. Evitou as tradicionais garrafais, tão impessoais. A letra é afetiva. A encomenda é afetiva. Papel pardo é sempre afetivo. Sinto que lhe devo respeito e coloco o livro sobre meus joelhos. Abro delicadamente o envelope. Pequeno formato. Bela diagramação. A imagem da capa é de Jephan de Villiers. Ignorante que sou, não o conheço. Googlelizo o nome. Imagino o autor escolhendo essa imagem de um artista francês já sabendo que um seu livro um dia chegaria por aqui. Em minha casa. Em Paris. Obviamente que não. Mas os laços de afetividade já se estabeleceram. Eu. O livro. O autor. As palavras. E o meu carteiro. O meu carteiro é um subversivo. Talvez faça parte de uma gangue de carteiros subversivos espalhados pelo mundo. Talvez esteja criando um evento literário subversivo entre carteiros também subversivos. Durante esse evento os carteiros da gangue subversiva errariam propositalmente os seus destinatários. E receberíamos livros dos outros. Eu gostaria de receber uma antologia de poemas kurdos. O « Mentiras » chegaria ao Congo. O « Outros cantos » acabaria numa kashba da Argélia. Mas desta vez o meu carteiro acertou. Este livro tinha-me realmente como destinatário. Não o leio de imediato. Guardo-o para a noite. À minha cabeceira. Ao longo do dia, no entanto, passarei por lá para verificar sua adaptação. Coloquei-o ao lado do Drummond para que se sinta em casa e menos estrangeiro. O meu carteiro também faz isso. Troca propositalmente os destinatários das cartas. Ele quer que nos sintamos menos estrangeiros. Ou menos solitários. Suas correpondências trocadas têm gosto de doce de leite. Meus livros também. Daquele doce de leite que você guarda na geladeira e promete que não vai comer. Doce de leite. Doce ilusão. Pois a cada cinco minutos a geladeria está aberta. Uma colheradinha aqui. Mais outra lá. E outra. E outra. E lá se foram sua promessas. E lá se foi o doce de leite. Também não resisto ao meu livro doce de leite. Sérgio Tavares, é seu autor. Queda da própria altura , o título. Na segunda página leio : « os livros são uma necessidade, pois são chaves para a solidão ». Eles sempre foram a chave de minha solidão. A minha queda será vertiginosa. A primeira colheradinha. A segunda colheradinha. Uma outra. Mais uma. E outra. Outra. E…

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Il était une fois un indien

Il était une fois un indien

Les relations entre histoire et fiction sont constamment à réinterroger, même si la ligne de partage qui sépare une discipline dont la finalité est la connaissance des faits historiques et les œuvres d’imagination parait souvent établie. C’est le cas notamment du roman Mon cher cannibale de l’écrivain et académicien Antonio Torres où tout sonne un peu vrai et un peu faux. Basé sur des événements communs à l’histoire française, portugaise et brésilienne, ce récit évoque et réinvente le parcours de Cunhambebe, le premier grand chef Tupinamba qui s'est opposé aux forces colonisatrices portugaises.  De même, en se servant de l'histoire comme métaphore de l'écriture, il interroge l’écriture et la manière dont elle est indissociable du réseau d’interrogations épistémologiques, intellectuelles et culturelles du contexte dans lequel elle apparaît et dans lequel elle est lue.  

Réécoutez la présentation du roman Mon cher cannibale lors de la rencontre organisée à la Fondation Calouste Gulbenkian à Paris le 10 mai 2016.

Cliquez sur le lien :  Mon cher cannibale

Présentation du livre «Mon cher cannibale» par Leonardo Tonus (Maître de Conférence à l’Université de Paris-Sorbonne) et Dominique Stoenesco (traducteur de l’ouvrage) en présence de l'auteur Antônio Torres



Antônio Torres est né en 1940, à Junco, petite ville du sertao, à l'intérieur de l'état de Bahia (Brésil). À l'âge de 20 ans, il part pour Sao Paulo exercer le métier de journaliste, puis s'engage comme rédacteur publicitaire. Il est l'auteur d'une vingtaine d'ouvrages, dont onze romans, parmi lesquelles Cette terre (Métailié, 1984), son grand succès, traduit en français et en une dizaine d'autres langues. En 1998, il reçoit du gouvernement français la médaille de Chevalier des Arts et des Lettres et en 2013 il est élu à l'Académie Brésilienne des Lettres. Actuellement, il vit dans les environs de Rio de Janeiro. Par sa diversité thématique et stylistique, Antônio Torres est l'un des auteurs les plus originaux de la littérature brésilienne contemporaine.



Le cannibale et les chrétiens

Il était une fois un Indien. C’était dans les années 1500, au siècle des grandes navigations – et des grands Indiens.
Lorsque les Blancs, intrus au paradis, accostèrent sur ces rivages inconnus, ils ne savaient pas que ces Indiens existaient depuis 15 ou 20 mille ans, qu’ils étaient plus de 5 millions et que très peu allaient survivre pour raconter leur propre histoire.
Comme ils ne maîtrisaient pas l’écriture, il n’est resté de leur destin que des légendes. Le peu de choses que nous savons d’eux nous le devons aux récits souvent invraisemblables de ces Blancs, empreints d’exagération et de suspicion, un délire fou dont n’est pas exempt le narrateur qui vous parle (héritier du sang des premiers et des affabulations des seconds) et qui s’en va puiser aux sources d’antan, dans les vieux bouquins fleurant le romantisme tardif, pour s’exposer, torse nu, tel un néoromantique anachronique, aux piques de l’histoire officielle, cette vieille dame très digne, soumise ici aux retouches dictées par notre indignation.
Par ailleurs, il y a quelque chose de ludique dans cette entreprise. Le simple plaisir d’ajouter quelques histoires à d’autres histoires déjà contées.
Mais en vérité, c’est un héros dont la mémoire s’est perdue au fil du temps, malgré le territoire dans lequel il a inscrit sa légende.
(…)
Cet Indien s’appelait Cunhambebe.
Son nom d’abord. Il signifie « langue traînante », allusion à sa manière lente de parler, presque bégayante. Pour simplifier : homme au parler calme.
Ne l’imaginez pas seulement comme un bon sauvage édénique – et nu, par-dessus le marché, sans rien pour cacher ses parties honteuses, etc. – , seigneur de la jungle et des eaux, de la chasse et de la pêche, vivant au temps de la pierre taillée, en paix avec les hommes et la nature, un être contemplatif sous des millions d’étoiles, scrutant le ciel pour y deviner des signes de tempête.
C’était un guerrier.
Situons-le dans le temps : l’ère de la pierre polie. Et dans l’espace – une région paradisiaque que les Blancs baptisèrent Rio de Janeiro, ignorant ses anciens noms : Rio de Arrefens, Rio de Oriferis, Rio de Rama, Rio de Iaceo. Cunhambebe fut le seigneur de ces eaux de rêve et de fureur.
Il appartenait à la nation tupinamba, ce qui signifie fils du Père Suprême, peuple de Dieu ou, selon une version plus probable : Fils de la Terre.
Ce peuple tupinamba était issu de la grande famille tupi-guarani. Il occupait le littoral atlantique depuis l’embouchure de l’Amazone jusqu’au Rio de la Plata et il finit par s’établir à Rio de Janeiro, Bahia et Maranhão. Il y remplaça d’autres tribus, plusieurs siècles après que les premiers peuples indigènes eurent commencé à envahir par vagues le continent américain, depuis le Détroit de Béring, ou, selon une autre hypothèse, avant que des hommes venus d’Australie, de Tasmanie et de Nouvelle-Zélande eurent peuplé l’Amérique du Sud à partir de la Terre de Feu, où ils pénétrèrent en contournant les glaciers de l’Antarctique, les îles Shetland et le Cap Horn. Le Nouveau Monde des Blancs appartenait déjà à un vieux peuple.

Sur la trace des disparus

Copacabana, 10 heures. Jour : mardi. Mois : novembre. Année : au seuil du sixième siècle après la découverte du Brésil.
Beaucoup d’eau a coulé sous les ponts de ces fleuves et de ces mers, se dit l’homme qui vient de quitter sa maison par un beau matin ensoleillé, laissant derrière lui les bouquins
de son labeur – des montagnes de livres, des milliers de pages épaisses – dans une quête insensée au parcours jalonné d’aventures, courant après des batailles perdues, des dates exactes, des noms justes, des mythes, des fables. À la recherche, surtout, de l’histoire de ceux qui habitaient cette terre lorsque les Blancs arrivèrent, une histoire ayant un commencement, un milieu et une fin. Jusqu’ici il n’a trouvé que des bouts, des fragments, toujours accompagnés de cette exaspérante incertitude : « vraisemblablement, cela se passa ainsi ». Vrai ? Faux ? Parfois on croirait presque que les Indiens n’ont jamais existé. Et s’ils n’étaient qu’un délire des Européens ? De simples personnages de leur fiction.
À ce stade de sa recherche sur l’extermination des Indiens, le narrateur de cette histoire se dit que tout cela n’est qu’un produit de plus de la convoitise humaine. Cependant, il y avait aussi le rêve derrière cette cupidité, qui rime avec stupidité. Et c’est de là qu’on aboutit à la fureur de la conquête.
– Mais tu deviens fou – lui dit sa femme. – Tu es obsédé. Tu en parles même pendant ton sommeil.

L’expédition

            Le car s’arrête aux chantiers navals de Verolme. C’est à ce moment-là que tu te souviens du chapitre « invasions ». Composé de quatre parties : un chantier naval d’origine hollandaise, un terminal maritime de la Petrobras, qui pour l’instant est encore une entreprise entièrement nationale, un port ouvert au monde et une centrale nucléaire sous licence allemande. Mais les caméras préfèrent filmer les riches domaines de la jet-set, dans les îles et les endroits difficilement visibles par celui qui voyage en car. Sur la route qui te menait en voiture de la montagne jusqu’à la mer, tu avais demandé au chauffeur et aux autres passagers :
–  Et les nouvelles invasions ?
– Ce sont celles des pauvres – ont-ils répondu. – Ceux qui viennent de tout le pays pour des emplois temporaires (chez Verolme, Petrobras, centrale nucléaire) et qui, à la fin de leurs contrats, décident de ne pas rentrer chez eux. Les offres d’emploi les attirent. Ils ne repartent plus, ils grossissent les favelas autour de la ville, sans savoir quoi faire de leurs vies. C’est une histoire semblable à celles des îles d’Angra, qui se répètent, se répètent, se répètent.
Mon cher Cannibale : tu ne maîtrisais pas l’écriture et tu n’as pas connu la roue. Tu étais loin d’imaginer les découvertes technologiques de ce monde. Tu as vécu à l’époque de la pierre polie, ce qui était déjà un progrès par rapport à la pierre taillée. Mais tu étais encore très peu de chose, à côté de ceux qui allaient faire trembler la planète.

Extraits de Mon cher cannibale d’Antônio Torres Éditions Pétra, mars 2015, traduction de Dominique Stoenesco.