terça-feira, 15 de março de 2016

J'aime lire et j'ai un tas de livres.



Angelo Abu, Teiniagua
J'aime lire et j'ai un tas de livres.

Era uma vez um padre e um rei narra a história de amor entre Daniel e seu avô. O menino, que adora ouvir as histórias do avô, está triste porque ele deixou de contá-las. Daniel, inconformado, faz de tudo para que o avô volte a contar as aventuras que tanto o encantam (pescarias, índios e tesouros), casos engraçados (dia em que o barco pegou fogo e pularam ratos para todos os lados)  e lendas (Negrinho do Pastoreio, Sepé Tiaraju, princesa moura encantada que mora na barranca do rio). O desfecho, repleto de ternura, reserva uma surpresa aos leitores.  Era uma vez um padre e um rei  da jornalista, escritora e advogada Mariza Baur tem ilustrações da artista Aline Daka e projeto gráfico do arquiteto e professor de design Airton Cattani. que o editou pela Editora Marcavisual.



Il était une fois un prêtre et un roi...

Il était une fois un prêtre et un roi... et le reste, je n'en sais plus, dit-il, mon grand-père.

Et voilà, on dirait qu'il va raconter une histoire, mais ne la raconte pas. Juju, ma petite sœur, quand elle entend ce couplet, elle applaudit de joie. Elle ne comprend pas que grand-père ne nous raconte plus ses belles histoires. Mais elle n'a que trois ans. Moi, je vais avoir 10 ans le mois prochain. J'aime lire et j'ai un tas de livres.

Ce que j'aime surtout c'est d'écouter ses histoires. Alors je lui demande :
    - Eh bien, grand-père ! Raconte-moi une vraie histoire. Celle du fleuve Uruguay. Ou, alors, celle sur les indiens et les gaudérios. Raconte-les, grand-père !
Il sourit d'un sourire triste et me promet :
     - Je te les raconterai l’'un de ces jours mon garçon. L'un de ces jours...

Grand-père est très chouette. Je l'aime vraiment. C'est la personne que j'aime le plus au monde. J'adore passer mes journées avec lui. Si j'ai des doutes, il m'aide dans mes devoirs. Et en plus, il cuisine un riz carreteiro tellement délicieux ! Meilleur que celui de ma mère.

C’est grand-père qui m'a appris à ne pas avoir peur de brebis aux gueules noires et à monter à cheval. Aujourd'hui je sais déjà harnacher presque tous les chevaux de la ferme, sauf Tordilho Éclair. C’est grand-père qui m'a appris aussi à aimer le football. Les jours de matchs de notre équipe nous y allons ensemble les supporter.

La seule chose qui m'attriste c’est qu'il s'est arrêté de me raconter des histoires. Il me le promet, promet mais il ne le fait pas.

Grand-père connaît tellement d’histoires. Quelques-unes drôles, d'autres qui en font pleurer, comme celle du Negrinho do Pastoreio. Il me fait de la peine ce Negrinho, dévoré tout entier par des fourmis ! Il me fait tellement de la peine. L’histoire de Teiniaguá, la princesse mauresque enchantée qui habitait les fondrières du fleuve Uruguay, me fascine. Et il y a aussi celle de l'indien Sepé Tiaraju, si courageux. Comme il s'est battu pour défendre la terre des Missions. Sans parler des histoires que grand-père racontait aux adultes par téléphone. Quelle aventure ! Je feignais de ne rien entendre, mais je tout écoutais. Quand il s'en apercevait, il se dépêchait de raccrocher :
  -Maintenant, je ne peux plus parler. J’ai quelqu’un en culotte courte à mes côtés !

              Negrinho do Pastoreio de João Mottini
Era uma vez um padre e um rei...

...e o resto não sei, diz meu avô. 

Agora é assim, parece que ele vai contar uma história, mas não conta. Juju, minha irmã pequena, quando escuta este versinho, bate palmas de alegria.  Não entende que história, que é bom, o avô não conta mais. Também, ela só tem três anos...

Eu vou fazer dez no mês que vem. Gosto de ler e tenho um bocado de livros meus. Gosto mais ainda de ouvir histórias. Aí eu peço:

- Puxa, vô! Conta uma história de verdade. Aquelas do Rio Uruguai. Ou, então, de índios e gaudérios. Conta vô!
Ele sorri um sorriso triste e me promete:
- Um dia desses, meu neto, eu conto. Um dia desses...

O avô é trilegal. Gosto dele de verdade. É a pessoa de quem mais gosto no mundo. Adoro passar o dia com ele. Se tenho dúvidas, me ajuda na lição de casa. E cozinha um arroz de carreteiro tão bom! Melhor que o da minha mãe.

Foi o avô que me ensinou a não ter medo das ovelhas de cara negra e a montar num cavalo que era bem manso. Hoje já encilho quase todos os cavalos da estância, menos o tordilho Relâmpago. Foi o avô que me fez amar o futebol. Nos dias de jogos do nosso time, vamos ao estádio e lá torcemos juntos. A única coisa que me deixa triste é que ele parou de contar histórias. Promete, promete e não conta.

São tantas as histórias que o avô conhece. Umas engraçadas, outras fazem chorar, como a lenda do Negrinho do Pastoreio. Coitado do Negrinho!  todo comido pelas formigas. Eu morria de dó.  A história da Teiniaguá, a princesa moura encantada que mora nas barrancas do Rio Uruguai, me deixava fascinado. E também a história do índio Sepé Tiaraju. Tão Valente! como lutou para defender a Terra das Missões. E os casos que o avô contava para os adultos por telefone? Cada aventura! Eu fingia que não ouvia nada, mas estava ouvindo tudo.

Quando ele percebia, apressava-se em desligar:
- Agora não posso falar, apareceu um calça-curta ao meu lado.


Era uma vez um padre e um rei.. de Mariza Baur. Ilustrações de Aline Daka e projeto gráfico de Airton Cattani. Editora Marcavisual, 2015.



Mariza Baur. Jornalista, escritora, advogada e procuradora do Ministério Público. Estudou Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco – Universidade de São Paulo (USP) e Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Foi diretora da UBE – União Brasileira de Escritores. É autora do livro infantojuvenil Era uma vez um padre e um rei...      (Editora Marca Visual, 2014). Prepara-se para lançar o livro Paris Férias Verão Beijos (prosa poética).Tem contos, crônicas e poesias publicados em diversas antologias. Recebeu prêmios literários no Brasil e na Itália. Vive e trabalha em São Paulo. Contato: mpbaur@uol.com.br


Mariza Baur est journaliste, avocate et Procureur de la République. Diplômée de Droit par l’Université de São Paulo et de journalisme par la Faculté de Communication Sociale Cásper Líbero  elle a dirigé l’UBE – Union Brésilienne des Ecrivains. Plusieurs de ses nouvelles, chroniques et poèmes ont été publiés dans des anthologies au Brésil et à l’étranger pour lesquelles elle a reçu de nombreux prix. Elle est également l’auteur de Era uma vez um padre e um rei, publié en 2014 aux éditions Marca Visual. Mariza Baur vit et travaille à São Paulo. Contact : mpbaur@uol.com.br



Mariza Baur participera aux activités du Printemps Littéraire Brésilien jeudi 18 mars au Centre Clignancourt de l’Université Paris-Sorbonne. Consultez le programme en cliquant sur : Printemps Littéraire Brésilien

Mariz Baur participará das atividades do Printemps Littéraire Brésilien na próxima quinta-feira no Centre Clignancour da Université Paris-Sorbonne. Consultem o programa clicando em : Printemps Littéraire Brésilien

Consultez le facebook de l’écrivain : https://www.facebook.com/eraumavezumpadreeumrei/

sábado, 12 de março de 2016

Cabeça de Mulher Olhando a Neve

Cabeça de Mulher Olhando a Neve


A grande novidade literária, o grande susto, o prazer imediato e misterioso que todo leitor espera de um livro – e há quanto tempo! – está finalmente aqui nesta coleção de contos, Cabeça de mulher olhando a neve, de Jéferson Assumção. Grande novidade sim, como uma paisagem nevada no sertão do nordeste. E essa grande novidade é apenas algo simples e natural, porém raro, como um autor com a fantasia em estado puro. Esta é a marca e a maldição dos que nascem com o impulso da criação ordenada e desordenada, dos que tensionam a corda que une a ordem racional e o universo do arbítrio e do sonho, dos que edificam uma humanidade que não distingue razão e desejo, prazer e trabalho, dos que carregam a marca dos loucos, dos assinalados, dos surrealistas. Surrealismo, por que não? Ele independe de datas, de tempos históricos, de conjunturas econômicas. Brota, simplesmente.
Jéferson Assumção, filósofo de formação e convicção, deixou-se arrebatar pela fantasia em estado puro e foi criando um atrás do outro estes contos que nos desconcertam, fascinam, nos assustam e depois nos fazem pensar. Cada conto deste livro é uma peça única e rara. O leitor desde a primeira página fica tomado pelo poder surrealista e vai lê-las e relê-las e cada vez que as ler terá a impressão de que estará lendo outro conto, outra história, outra fábula, com outra moral e outra intenção. Não há mágica maior no ofício literário. Celebremos esta conquista de Jéferson, vamos nos deixar levar pela fantasia que está impressa nestas páginas e talvez então também sejamos abençoados pelo mistério.”

Tabajara Ruas



Cabeça de Mulher Olhando a Neve

Saturno no laranjal

Nosso pai era um exímio descascador de laranjas. Com velocidade e precisão, ele deslizava a faca afiada entre o amarelo da casca e o branco do bagaço, sem nunca feri-las ao ponto de aparecer alguma parte da polpa. O que nos encantava era como se formava uma espiral comprida, que ia descendo de sua mão a cada volta da lâmina afiada e que só terminava quando a tampinha da outra ponta também estava feita. A casca, então, despencava, dali, inteira para a grama. A gente se acotovelava pra chegar primeiro e era sempre eu, o mais velho, que as pegava antes, para brincar. Pareciam, à minha imaginação, pequenos móbiles ou baralhos de mágico que se abriam em sanfoninhas perfumadas.

De tal maneira era feito aquilo que nós, que nunca conseguíamos nem uma coisa nem outra, ou seja, nem retirar a casca intacta nem fazê-lo sem esfolar – e consequentemente sangrar – a laranja aqui e ali, ficávamos de boca aberta com a habilidade dele. Nosso pai fazia isso em silêncio. Uma, três, cinco vezes. Depois, se esticava todo e puxava um galho para baixo para pegar as mais maduras. Nós três ficávamos ansiosos querendo saber para quem ele daria, primeiro, a laranja tão habilmente descascada. Mas ele sempre nos desapontava. Não digo que apenas no começo ele tenha gerado esse sentimento e que depois a gente tenha se acostumado. Nós sentávamos a uma pequena distância a vê-lo comendo, sozinho, cada uma daquelas laranjas. Com a já referida habilidade, nosso pai chupava-as inteiras e jogava fora os bagaços intactos, como se fossem cabeças de crianças murchas.


Jogos infantis

Era a época da neve, e depois dos seis meses de seca as nuvens pesadas não paravam de derramar carregamentos enormes de chuva solidificada por cima do Plano Piloto. Quem via de cima, de avião, como era o meu caso, se surpreendia com a beleza formada pelos desenhos dos fios pontilhados dos postes de luz na superfície branca, as geométricas formas que nasciam deste contraste e que somente serviam para ressaltar o cartesianismo dos seus construtores. Tudo branco, límpido, como as ideias claras e distintas dos arquitetos, planejadores e políticos que fazem nossa capital ser o que é.

Há décadas que venho a Brasília, vindo do Recife, e sempre tento evitar a época da neve, em que o trânsito se torna infernal devido ao acúmulo de gelo cor de barro vermelho nas largas avenidas. Me incomoda sobretudo ver como sofre o povo, apesar de hoje as pessoas já terem se adaptado ao clima desde a fundação de BSB por JK. Mas o frio me leva sempre a pensar nos pioneiros, nos candangos vindos do Nordeste em busca de melhorar de vida, e tendo que trocar o distante sertão, onde a seca perdura e sempre nevou pouco.

Aquele era o meu caso, a recolher a última e demorada mala na esteira rolante já quase deserta, a recomeçar tudo, do nada, a vida vazia como um guardanapo de boteco sem coisa alguma escrita. Atravessando a faixa de pedestres, em busca de um táxi, meu paletó em segundos ficou pontilhado do branco da neve espessa tão característica do nosso Cerrado. Tive arrepios na nuca já desacostumada.

Sempre nevou pouco no Nordeste, mas das poucas vezes foi muito. Uma vez em Caruaru, quando criança, com meu pai e meus irmãos, visitamos a feira, caminhamos pelos labirintos de coisas para vender, comemos churrasco de bode e tiramos fotos como cangaceiros, com aqueles lindos capotes de couro. Criado em Recife, mas filho e neto de pernambucanos do sertão, lembro das histórias da vida no interior em épocas passadas, das brigas de família, dos assassinatos por um ou dois bodes roubados ou por uma pulaçãozinha de cerca que não deveria ter maiores consequências – também a alegria dos sertanejos quando, depois de uma longa estiagem, finalmente, vinha a neve.

Eu lembro bem do mato seco e frio, fechando meus olhos em dois riscos, com a dolorida lembrança da mulher e os filhos que eu deixei por, segundo Marisa, pura infantilidade – não esqueço das cabras só com a cabeça de fora, nos campos brancos de minha infância.

Da janela do carro eu vi se aproximar a casa baixa da pensão na W3 com seu telhado quase sucumbindo ao acúmulo de gelo... Paguei o táxi, puxei as malas fazendo um trilho no branco até a porta que abriu em uma fresta.

 Em Caruaru, também estivemos na casa de mestre Vitalino e nos emocionamos com a simplicidade com que ele produzia seus bonecos só com neve. Tinha uma romazeira no pátio, mas ela estava seca, toda branca, e do forno de barro do Mestre só o que se podia enxergar era a parte de cima da cúpula arredondada. O resto o gelo tinha coberto tudo, dos calanguinhos às galinhas, duras, mortas, que encontramos a um canto do galpão, como se tivessem tentado se esconder. Sei que lá, de vez em quando a neve volta, só que nunca mais com tanta força, como quando antes fazíamos bolinhas pra acertar na cabeça dos mandacarus com seus braços espinhentos abertos pra nós. Sim, como o mundo está mudado! Agora que neva pouco é que vemos. O sertão sob a neve é um lugar que precisa ser conhecido por todo o brasileiro, pela força que ela tem em arrasar toda aquela riqueza com sua miséria, com sua tristeza branca.

Jéferson Assumção. Cabeça de Mulher Olhando a Neve. Edições BesouroBox



Jéferson Assunção participará do Printemps Littéraire Brésilien 2016 com uma palestra na Universidade da Sorbone na próxima quarta-feira dia 17 de Março às 11h30 em torno de seu último romance Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído. Uma sessão de autógrafos é também prevista durante o Salão do livro de Paris no sábado dia 19 de Março às 16h00.

Consultem a programação completa do Printemps Littéraire Brésilien 2016 clicando no link : Printemps Littéraire Brésilien 2016.




Jéferson Assumção nasceu em Santa Maria-RS, em 1970. Tem mais de 20 livros publicados, entre eles A Vaca Azul é Ninja em Uma Vida Entre Aspas (Libretos, 2014), A Ilustração Vital (Bestiário, 2013), Homem-massa (Bestiário, 2012) e Máquina de Destruir Leitores (Sulina, 2000). Foi secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul (2011-2014), secretário municipal de Cultura de Canoas-RS (2009-2010), Assessor, Coordenador-geral e Diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura (2005-2008 e 2015). Atualmente faz Pós-doutorado em Literatura no Programa de Pós-graduação em Literatura da Universidade de Brasília (Póslit-UnB). É Doutor em Humanidades e Ciências Sociais – Filosofia, pela Universidade de León (Espanha), com a tese A Ilustração Vital: O Raciovitalismo de Ortega y Gasset como via para o Desenvolvimento de uma Sociedade Leitora. Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário La Salle (Canoas-RS), tem Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Filosofia também pela Universidade de León. Coordenou a campanha Mosaico de Livros - Biblioteca Social Mundial entre 2001 e 2004. Como repórter especial, gestor cultural e ativista, já atuou em mais de 30 países, tais como Índia, Quênia, Marrocos, Senegal, Tunísia, diversos países sul-americanos e europeus, Japão, Cuba, República Dominicana e Costa Rica. Mora em Brasília - DF. É vocalista e guitarra-base da banda Gorda.


Né à Santa Maria (Rio Grande do Sul) en 1970, Jéferson Assunção a publié plus d’une vingtaine d’ouvrages, parmi lesquels : Cabeça de mulher olhando a neve (Besouro Box, 2015), A vaca azul é ninja em uma vida entre aspas (Libretos, 2014), A ilustração vital (Bestiário/Fundación Ortega y Gasset, Cátedra Unesco de Leitura - PUC - Rio, 2013), Homem-massa (Bestiário/Fundación Ortega y Gasset, 2012) et Máquina de destruir leitores (Sulina, 2000). Titulaire d'un doctorat en Humanités, Sciences Sociales et Philosophie, par l'Université de Léon (Espagne), il est actuellement en stage postdoctoral à l'Université de Brasilia (UnB). Entre 2009 et 2010, il a été Secrétaire de la culture de la ville de Canoas, puis, Secrétaire Adjoint de la culture de l’Etat de Rio Grande du Sud (2011-2014). Nommé Coordinateur Général et Directeur du Programme du Livre, de la lecture, de la littérature et des bibliothèques du Ministère de la culture (de 2005 à 2009 et en 2015), il a été l'un des organisateurs du Plan National du Livre, de Lecture et de Littérature (PNLL).


quinta-feira, 10 de março de 2016

L’abîme de l’art

L’abîme de l’art

Katia Gerlach appartient à la famille restreinte des écrivains pour qui l’essence de la littérature ne s’accomplit pas dans une imitation du monde dit “réel”, mais dans la sphère raréfiée du langage. Selon elle, le dire et la recherche inlassable de l’expression, sont aussi importantes, sinon davantage, que ce qui est dit : c’est l’aventure suprême, la traversée de l’abîme sur un fil de fer. Dans la mesure où l’auteure passe son temps à flirter avec l’absurde et rejette le réalisme, le lecteur cherchera en vain des histoires au sens traditionnel ou même la tessiture psychologique d’un personnage. De la même manière, il n’y a pas de chutes surprenantes, voire pas de chute du tout. Les scènes se succèdent comme dans un rêve ou un délire, comme à la manière des surréalistes. Le goût pour l’insolite et l’aberration transforme l’ensemble des récits en une espèce de Grand Guignol, qui met en scène des pantins désarticulés, caricatures qui nous font rire et réfléchir. Selon Kátia, la littérature est un jeu et un artifice assaisonnés avec un humour fin et une ironie dissimulée. Même lorsqu’elle critique les moeurs et les engouements de la société contemporaine, la manie de la chirurgie esthétique par exemple, elle ne le fait pas au moyen d’un discours logique, mais d’un récit décrivant une situation comique voire grotesque. Les flux de conscience se déploient par à-coups. Contraint de remplir lacunes et omissions volontaires, le lecteur se voit placé dans la situation éminemment inconfortable de co-écrivain. Les allusions littéraires inscrites en filigrane peuvent facilement échapper au lecteur peu attentif. Kátia a pris son temps, elle fait son entrée sur la scène littéraire avec un texte longuement mûri doué d’une voix propre. Refusant la facilité, elle mise sur la compétence du lecteur. Celui-ci peut accepter de voir le monde à travers le verre déformant qu’elle lui propose, ou il peut le refuser, mais en aucun cas, il ne pourra dire qu’il n’a pas été mis au défi.

Rubem Mauro Machado

Collisions bestiales
(particul)ières

Traduction : Stéphane Chao

Depuis le boson de Higgs, les gens et les bêtes entrent en collision. Les histoires naissent entre deux grosses cuisses ensanglantées et maternelles.

Note épistolaire

Admirable J. Cortázar:

Je souffre de céphalées intermittentes et j’allume mes rêves au moyen d’une tête d’allumette. Le fluide de l’antalgique dernière génération inonde mon sang. Dans ces rêveries pleines de vices, je dialogue avec les maîtres universels et les morts historiques, parmi lesquels toi-même (si tu me permets ce tutoiement). Dans ce jeu de marelle, je prie Mada de m’aider à faire adhérer personnages et bêtes à leur rôle et de susciter l’engouement de quelques lecteurs.
J’écris un manifeste pour la résistance (ma langue se tient sur le piédestal de l’extinction). Exilé comme je le suis, à l’instar de l’admirable J. Cortázar qui l’a été à Paris, ou Bolaño, dans les campings espagnols en été, je ne fais que changer de ville. Ce continent qui est le tien, le sien, le mien continue à dériver en direction de futurs, que l’on aperçoit à travers un œil entrouvert comme la porte de Magritte.
Je mesure combien la mégalomanie est stupide (les séances chez le psy ne révèlent pas l’ampleur de mon ambitieuse imagination, ha!) et mon visage hargneux s’accorde avec le cadre général des choses.
Je suis un crétin, comme tout le monde sur cette planète qui sombrera dans l’obscurité dès que Dieu appuiera sur l’interrupteur de son doigt furibond.
Je vous embrasse,

Un Inconnu

Bête en tête

Les tours de la rue Cent, à un demi-métro de la place du Temps.

Dans la lunette bleue

Anuschka plante des graines en sachet dans un vase en argile rougeâtre et fragile, les mains caressent la terre, accomplissant un rituel printanier pendant un mois d’automne. Du balcon à la rue : quelques empans tortueux qu’on descend en cordée pouce après pouce. Les sourcils d’Anuschka se rapprochent sous l’effort intellectuel pour jauger les sensations que procurerait un saut vertical depuis le balcon suspendu. Les doigts d’Anuschka flagellent les racines, que ce soit des feuilles de persil et de chèvrefeuille ou des vestiges d’oxygène et de photosynthèse. La naine ne manifeste guère l’envie de sortir de l’appartement ou du périmètre des tours. Il lui faut semer les graines et attendre la floraison.
Depuis un point au-dessous, à travers une lunette bleue, nous voyons le corps rapetissé d’Anuschka sur un balcon entouré de grilles rouillées. Les rideaux voltigent comme s’ils n’appartenaient pas à cet appartement. Les objets accumulés dans les recoins du balcon oseront prendre leur envol si la girouette accélère. Les ordures se répandent au gré des micro-organismes qui recouvrent la patine et remplissent de détritus les camions matinaux. Les éboueurs courent avec leurs poubelles. Ils dansent ! De l’autre côté, Anuschka admire les mouvements désinhibés de ces corps libres et entiers accrochés au flanc du camion.
Anuschka fait frémir ses lèvres carmin. Bien nourrie, elle court dans les couloirs sales de l’appartement, et le verre de la lunette bleue ne rassasie plus les vautours. Frustrée, la naine piétine le sol en linoléum de la cuisine. Le petit patron était un radin dans le genre du père Goriot. Plus Juarez serrait son sceptre, plus Anuschka concevait du ressentiment à l’égard du nain perché, qu’elle servait docilement. Une cuisine en marbre, une illusion. Quant à leur degré d’intimité, sont-ils frères, amants ou bibelots du tsar? Personne ne le savait, hormis un directeur de cirque, le docteur Moskowitz. Juarez et Anuschka dialoguaient habituellement sur ce ton :
— Tu es une incapable Anuschka!
— Petit patron, ne t’énerve pas, c’est mauvais pour ton cœur. Je viens de râper des carottes pour ta salade de caillé, raisins secs et poulet.
— Je n’ai cure de tes attentions, petite poucette. Pour le cœur, j’ai mes aspirines. Ce que je te demande, c’est de ne pas perturber mon régime par un excès de carotènes, regarde comme les paumes de mes mains ont jauni.
— Les carottes étaient en promotion au marché ; elles avaient pleins de feuilles, que j’ai utilisées pour la soupe du dîner.
— C’est bien, Anuschka. Je reviens pour le dîner, après avoir fait les comptes de la journée. Ce malchanceux d’Ezéquiel ne s’avoue jamais vaincu. En voilà un autre qui me tape sur les nerfs, comme toi. Il fera peut-être sauter la banque le jour où le vent de la chance aura tourné, et il gagnera alors au jeu!
Pendant leur jeunesse, Juarez et Anuschka avaient échoué à entrer dans la compagnie de cirque et la déception les côtoyait comme une troisième personne à la chair molle et au sang coagulé. Juarez rendait naturellement sa compagne responsable des lettres de refus adressés par le puissant Moskowitz. Juarez se plaignait d’Anuschka par habitude. Son absence de lignage et son nez vulgaire avaient diminué de moitié leurs chances professionnelles, il n’y avait pas d’autres explications. Juarez trouvait que tout objet, en présence d’Anuschka, perdait de sa valeur, y compris lui-même. La carafe en cristal tchèque qui devenait fragile entre le pouce et l’index de la naine semblait dans ces mains être faite dans un verre vulgaire. Consciente du regard qui la scrutait, Anuschka déversait eau et larmes dans le verre du petit patron et retenait sa respiration pour être plus concentrée sur sa tâche. Malgré ses bras courts et raides, Anuschka s’étirait pour plaire au grincheux, humble comme un chien.

Regardez le "Booktrailer" du roman en cliquant sur : Collisions Bestiales




Kátia Gerlach sera présente au Printemps Littéraire Brésilien 2016. 
Consultez la programmation en cliquant sur : Printemps Littéraire Brésilien2016

terça-feira, 8 de março de 2016

Programme du Printemps Littéraire 2016

A primavera está chegando !

Mais de 30 romancistas, ilustradores, quadrinistas, poetas, cineastas e fotógrafos participação de atividades na Universidade da Sorbonne, mas também em outros locais de pretígio em Paris, Leiden, Berlim e Bolonha.

Consultem a programação online cliquando no link abaixo



Le printemps arrive !

Plus de 30 romanciers, illustrateurs, auteurs de bandes dessinées, poètes, cinéastes, photographes sont attendus pour participer à des activités au sein de l’Université Paris-Sorbonne, mais aussi dans d’autres lieux prestigieux à Paris, à Leiden, à Berlin et à Bologne.


Consultez dès à présent le programme sur le lien ci-dessous !

sexta-feira, 4 de março de 2016

Mentiras

Mentiras

Mentiras, romance de estreia de Felipe Franco Munhoz, chega às livrarias brasileiras O aniversário de um ano sempre tem uma simbologia especial. A Editora Nós, pouco depois da comemoração de seu primeiro ano de existência, entrega agora ao público seu sétimo lançamento, o intrigante romance Mentiras, a esperada estreia de Felipe Franco Munhoz, uma voz única na literatura brasileira contemporânea.

“Trazer o livro do Felipe à luz, sobretudo nesse momento de apatia e retração do mercado editorial brasileiro, é de certa forma reafirmar nossa fé na literatura contemporânea. É preciso que o novo surja, sempre, e essa é uma das diretrizes da Nós, dar vida e voz a quem ainda não foi lido”, assegura Simone Paulino, diretora editorial da Nós.

No livro, assim como Virgílio conduziu Dante na Divina Comédia, Felipe estabelece um diálogo imaginário com a figura de seu homônimo Philip Roth, com a intenção manifesta de tecer o livro-travesseiro de sua vida. O desejo expresso e impresso do autor é fazer “diálogos que realmente pareçam diálogos”, ou seja, que a sua obra e a de Roth sejam entrelaçadas e reverberem em todos os níveis. Alusões diretas e veladas à extensa obra de Roth irão pontuar todo o livro. Muito além de desenovelar os prazeres e os desencontros de que só o amor é capaz, seja com a católica Thaís ou a judia Marina, Felipe nos enreda em uma transmutação constante entre personagens, autores e nós, leitores, para que possamos nos “redespir”, “descircuncidar” nossa alma.



Philip Roth não é somente o alter ego ou o duplo de Felipe, um personagem-autor com quem ele “conversa” nas tardes de um café imaginário. Ele é também um leitor dentro do lúdico work in progress do livro. A própria estrutura de Mentiras, assentada unicamente em diálogos, evoca a quebra da quarta parede utilizada na dramaturgia moderna. Como escreve o renomado poeta e tradutor Paulo Henriques Brito na quarta capa do livro: “Belo trabalho de metaficção.” Em outros termos, a engenhosa fluidez formal do livro, perpassada de fina auto-ironia e eruditas discussões estéticas, envolve completamente o leitor, pois ele também é parte da construção do romance. O invulgar objetivo do romance é plasmar identidades, técnica empregada em romances de Roth. Logo no início do romance Felipe expõe seu projeto artístico: “(...) trocar a minha solidão pela sua; habitá-lo, Philip, você que, por enquanto, em nada se parece comigo; desaparecer dentro de você (...)”. E, como desde James Joyce, nossas contradições e nosso “indissolúvel caos” devem ser expostos com algum grau de invenção e transgressão da linguagem, o autor faz diversas experimentações, como o uso de frases entrecortadas à maneira da linguagem oral, capítulos gráficos ou mesmo palavras decompostas ou entremeadas por pontuação hesitante. Ao final da leitura, enlevados pelo poder encantatório de uma prosa impregnada de malícia, o impacto do romance ainda é amplificado por um epílogo genial que reafirma e sintetiza o credo artístico do autor: “O que faço, meu ofício, é forjar; na metáfora da forja, da ferraria, nos dois sentidos que o verbo transitivo admite.” Mentiras é um culto divertissement, como diriam os franceses, perfeitamente acessível a qualquer leitor. Uma equação que poucos escritores conseguem resolver.

Felipe Franco Munhoz faz parte da delegação da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien que vai acontecer em Paris entre os dias 21 e 31 de Março. Ele lança o seu livro hoje, sexta-feira 4 de Março às 18h30 na Livraria da Vila, em São Paulo.

Sexta-feira dia 4 de Março às 18h30 - Livraria Da Vila.
Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo

Um pouco de leitura
Mentiras – trecho do romance

- Você passa as tardes comigo neste café, as noites no apartamento dela. Quando escreve?
– O tempo todo.
– E pretende chegar? Em um romance longo?
– Ainda não sei. Caso demore, quer algum animal
para lhe fazer companhia? – Não.
– Cachorros? Um aquário?
– Não.
Você já teve bichinhos de estimação? Dois gatos. Por alguns dias.
Quais eram os nomes?
A e B.
[risos] A e B. Não deu certo.
Não. Felipe, você e Thaís fazem sexo
religiosamente.
– Religiosamente. Dou início ao diálogo após o
último suspiro de prazer.
– Pós-coito.
[risos] Pós-coito.
É isso? O possível romance longo. Sexo,
bichinhos de estimação, literatura. E falas contidas. Nenhum background para Thaís.
        Estou. Ainda estou elaborando, rascunhando em guardanapos no café da manhã, tentando        
encontrar a cor do fio. Para então começar o travesseiro.
                 – Preste mais atenção no que já está acontecendo. E o passado é fundamental. Foram citados Faulkner, Joyce, Steinbeck, Melville, darei minha contribuição: pense em F. Scott Fitzgerald. O que é que Scott Fitzgerald falou? Assim seguimos adiante, barcos contra a corrente, arrastados sem trégua rumo
ao passado.
                – A formação.
                – É importante. Dê mais atenção ao detalhe.
                À imensidão do detalhe, à forc
̧a do detalhe, ao peso do detalhe.
               – Certo.
               – Mais atenc
̧ão ao cenário.
              
Certo. Obrigado.
              
Posso fazer uma pergunta básica? Por que Thaís? – Ela é simpática.
              
Boa de cama?
              
Cada vez melhor. [risos] Religiosamente.
               – E quando ela menstruar?
               – Qual é o problema?
              
O que você vai fazer? Suprimir os diálogos?
               – Philip. O que vou fazer? Esse tipo de detalhe,
               que interfere na privacidade, eu prefiro deixar de fora, entende?



Felipe Franco Munhoz nasceu em São Paulo, em 1990. É graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Paraná. Em 2010, recebeu uma Bolsa Funarte de Criação Literária para escrever – em tempo integral – o romance Mentiras, inspirado na obra de Philip Roth. A convite da Philip Roth Society, Franco Munhoz leu trechos do romance durante as comemorações de 80 anos de autor, em Newark. Seus primeiros textos de ficção foram publicados em diversos veículos, como Gazeta do Povo, Rascunho, Cândido e The Huffington Post. É coordenador do site Antessala das Letras.

Né à São Paulo en 1990, Felipe Franco Munhoz est diplômé en Communication Sociale par l’Université Fédérale du Paraná. En 2010, il a reçu une bourse de la Funarte pour son roman Mentiras  (Editora Nós, 2016), inspiré de l’œuvre de Philip Roth. A l’invitation de la Philip Roth Society, Franco Munhoz a lu quelques passages de son roman lors de la commémoration des 80 ans de Philip Roth à Newark, en mars 2013. Il a déjà publié des nouvelles dans divers journaux et revues littéraires au Brésil et à l’étranger, tels que Gazeta do Povo, Rascunho, Cândido et The Huffington Post. Membre de l’APCA (Association Paulista de Critiques d’Art) pour de la littérature, il est également le concepteur du site Antessala das Letras.






Mais informações no site da Editora Nós


Consultem a resenha publicada no Jornal Estado de São Paulo sobre o romance Mentiras de Felipe Franco Munhoz. 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Manifesto do Arvoresser

               Planeta ©Maurício Vieira
Manifesto do Arvoresser

Maurício Vieira

Reza o velho adágio que uma imagem vale mil palavras.  Ora, Millôr Fernandes já desafiava qualquer um a tentar dizer isso sem palavras.   Entretanto, hoje Millôr ficaria estarrecido ao constatar que cada vez mais, as palavras viraram imagem.  A imagem atualmente domina a atenção de todos.  Ela é rápida em transmitir ideias e seduz.  A palavra escrita é lenta, pois é a morada da ideia, onde ela é gestada, alimentada, onde ela se fortalece, até poder ganhar mundo. A imagem é sua montaria, através da qual ela se propaga com maior rapidez.  Hoje estamos fascinados com a montaria, com sua velocidade, e esquecemos da morada.  Eu diria que a quantidade avassaladora de imagem produzidas e reproduzidas pela mídia e por nós mesmos, nas diversas telas, no celular e nas redes sociais, nos deixa desnorteados.  Nossa bússola foi desmagnetizada pelo brilho das imagens.  Consumimos, produzimos, desejamos e cultuamos imagens a todo instante, desde o despertar até a hora de dormir, num permanente estado de alerta.  Vocês devem certamente conhecer a sigla FOMO, que em inglês significa Fear of Missing Out, ou o medo de perder o que se passa, e que se passa a todo momento. 

Mulheres Deitadas na Relva ©Maurício Vieira

A poesia, logo ela, tão completa, criadora de música, de ritmo, de imagem, de estrutura, perde seu espaço, pois ela tem outro ritmo que o da imagem.  Que lugar tem a poesia no mundo das imagens onipresentes, estas montarias tão velozes que fazem até mesmo que a ideia se perca?  Que lugar tem a poesia num mundo onde as mensagens entre os telemóveis usam cada vez mais abreviações e imagens de rostinhos amarelos felizes ou tristes, onde essencialmente até a palavra escrita se transforma em imagem?  Que lugar tem a poesia num mundo em que cada imagem é notícia?  Afinal, hoje, mais do que nunca, já não basta a palavra: é necessário ver para crer.  Como colocou num poema William Carlos Williams, numa livre tradução minha, “não há notícia alguma no poema, mas as pessoas morrem miseravelmente todos os dias por falta daquilo que há no poema.” 

                  Para o lume ©Maurício Vieira

A poesia na antiguidade se entrelaçava ao culto ancestral à natureza, pois reconhecíamos uma na outra.  Safo e Salomão cantavam as rosas e a primavera em louvor ao despertar do amor e do bem amado.  Até pouco tempo atrás, a poesia e a natureza compartilhavam a mesma morada.  Se a poesia, uma das companheiras de morada mais antigas da natureza, está esquecida nestes tempos de montarias velozes, o que dizer da natureza em si, a nossa morada como seres vivos?  Só nos lembramos dela quando ocorre algum desastre natural, como quem só lembra que tem teto quando surge uma goteira.  Se a poesia contém sabedoria, não poderia ser diferente a natureza.  As árvores sabem a hora de parar de crescer.  Sabem que o solo à volta não pode suportar mais do que um certo número de árvores e crescem até uma certa altura para não exaurir os nutrientes e a água.  O planeta se recobre de CO2, pois, com nossa velocidade imparável, nos distanciamos cada vez mais delas.  Antes cultuávamos estes sábios seres como divindades.  Depois passamos a cultuar um deus da criação, cujo plano divino dava às árvores forte simbologia.  Hoje cultuamos apenas o deus dinheiro, que não dá em árvore.
          Caminho de ferro ©Maurício Vieira
Vaclav Smil declara que o modelo econômico baseado no crescimento não é sustentável. Já Michael Baumgart é mais pessimista ao dizer que somente recompondo profundamente as cadeias de produção iremos conseguir estancar o ritmo avassalador de destruição do planeta.  Larry Fink, gestor da BlackRock, maior instituição financeira do planeta, propôs em carta a CEOs das maiores corporações do mundo que as gerissem para darem retorno a longo prazo.  Leonardo Boff colocou que  “teremos que viver uma sobriedade compartida e aprender a ser mais com menos,” pois "a modernidade nos fez esquecer que somos parte da natureza...”  Nós, diferente das árvores, já não sabemos a hora de parar de crescer.  Em resposta ao culto das montarias velozes, ganha corpo um novo culto à lentidão, às raízes e às moradas.  Foi Carl Honoré quem popularizou o termo Slow para diversas atividades humanas, desde a nutrição até a arte, que adotam este novo ritmo.  Até mesmo o Papa, guardião de um monoteísmo, salienta em sua encíclica “O Cuidado da Casa Comum,” que não estamos cuidando de nossa morada compartilhada.  Não deve ser por acaso que a introdução a seu texto tenha sido escrita por Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food.

Alguns de vocês certamente já assistiram ao filme “Wild”, com Reese Witherspoon.  Este filme comunica de forma veloz a experiência vivida e relatada pela escritora Cheryl Strayed em seu livro homônimo. Ao enfrentar traumas que estavam destruindo sua vida, a autora fez algo inusitado: ela desceu da montaria que a desnorteava, colocou uma mochila nas costas e percorreu sem pressa alguma uma trilha de 2000 km em meio a desertos, montanhas e florestas. O que ela deixava nos livros de visita ao longo da trilha?  Poemas.


              Beleza ©Maurício Vieira

As images aqui reproduzidas fazem parte da exposição  de fotografias « Especiaria Intocada » de Maurício Vieira Sobre Angola que acontecerá em Paris durante o Printemps Littéraire Brésilien 2016. Em breve no blog Etudes Lusophones a programação completa do evento.

Les images ici reproduites intègrent l’exposition de photographies de Maurício Vieira « Especiaria intocada » sur l'Angola qui aura lieu à Paris pendant le Printemps Littéraire Brésilien 2016. Bientôt le programme complet du festival sur le blog Etudes Lusophones



Nascido em Santo André, São Paulo aos 2 de janeiro de 1978. Estudou na Universidade de Chicago e na Universidade de Miami.  Viveu no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal, em Angola, e atualmente reside em França.  Autor dos livros de fotografia A Árvore e a Estrela (Pinakotheke, 2008), Angola Soul (Edição do Autor, 2011), e do livro de poesia Árvoressências (Editora de Cultura, 2014).  Realizou exposições no SESC em maio de 2015 e no Instituto Moreira Salles em julho de 2015.  Sua poesia figurou na exposição de pintura de Miguel da Franca em Luanda em dezembro de 2015.  Participou do evento literário Raias Poéticas em Portugal em outubro de 2015 e participará em maio da edição 2016 da Flipoços.  Edita a revista digital de poesia Arvoressências (www.arvoressencias.com), que em 2016 abrigará poemas de Nuno Moura, Luís Serguilha, João Rasteiro, e Abreu Paxe, entre outros poetas lusófonos contemporâneos, sob a temática Fleurs du Mal. 




Né à Santo André dans l’Etat de São Paulo en 1978, Maurício Vieira a étudié à l’Université de Chicago et à Miami. Il a séjourné au Portugal et en Angola et vit actuellement en France. Il est l’auteur des livres de photographies A Árvore e a Estrela (Pinakotheke, 2008) et Angola Soul (Edição do Autor, 2011). En 2015, il a exposé ses photographies au SESC et à l’Institut Moreira Salles. En 2014, il publie son premier recueil de poésies (Árvoressências, Editora de Cultura) et participe aux rencontres littéraires « Raias Poéticas » au Portugal.  Il sera présent à la prochaine l’édition de la Flipoços en mai 2016 et est l’éditeur de la revue online Arvoressências (www.arvoressencias.com) qui, en 2016, publiera des poètes lusophones contemporains tels que Nuno Moura, Luís Serguilha, João Rasteiro et Abreu Paxe. 




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