quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Paisagem de porcelana

Paisagem de porcelana

As experiências e artefatos da exogenia contam já com uma fortuna crítica significativa cujo campo conceitual articula-se, essencialmente, em torno de dois epistemes. O primeiro, de cunho antropo-sociológico, tende a privilegiar as categorias espaciais  que,  no seu sentido geográfico ( literatura de i/emigração), econômico (literatura brazuca, american-brazilian literature) e social (literatura da diáspora) direcionam os presupostos críticos.  O “deslocamento” torna-se neste caso a  principal chave analítica em função da qual é constatado o valor documental dos textos com o intuito de legitimá-los e/ou inscrevê-los no campo e no cânone literário nacional. Face a esta vertente neonaturalista, um segundo núcleo conceitual confere à experiência do deslocamento extra-territorial uma profundidade poético-discursiva, como sugerem os conceitos de escrita fronteiriça,  diglossia, literatura portunhol, escrita migrante etc.  Ao retomarem a hipótese de Edward Saïd segundo a qual a cultura ocidental seria, em larga medida, “obra de exilados, emigrantes, refugiados”  a exogenia passa a desempenhar  a função de fundadora de uma certa modernidade estética. É neste sentido que podemos compreender o posicionamento de Marthe Robert para quem o nascimento do romance moderno europeu estaria vinculado à tradição inaugurada por Dom Quixote e Robinson Crusoé, narrativas que, segundo a crítica, expõe o sujeito à ruptura das origens e a diferentes formas de deambulação exógena : errância, fuga e viagem iniciática. É através desta clave que podemos ler o belíssimo romance Paisagem de porcelana da escritora Claudia Nina, uma das convidadas da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien  que acontece em Paris durante os dias 21 e 31 de Março de 2016.

Leonardo Tonus


Sneeuw

Fui a Utrecht no começo de um dezembro sem rosto. Precisava dividir com Peter a aflição do desconhecimento; o assombro de não saber onde estava meu reflexo tinha de ser dividido mesmo que com uma pessoa sem a menor ideia de qual diagnóstico me dar. Eu buscava algum antídoto contra aquela maldição; quanto mais me desesperava em agonia silenciosa, mais meu rosto fugia de mim.
Não tinha ninguém além de Peter que me parecesse real. Os holandeses viviam em uma dimensão que não era a minha - eu não conseguia entrar na realidade deles. Não pertencia à Holanda na mesma proporção que a Holanda ignorava a minha presença, não seria naquele momento que a situação iria se modificar, quando eu havia perdido o que mais me qualificava diante de mim: a cara com que vim ao mundo.
As ruas estavam modestamente enfeitadas para o Sinta Klass – um enfeite aqui outro ali, tudo sem brilho, uma decoração tão opaca quanto a minha figura no cenário que não me aceitava. Segui em frente, pisando com força as botas de guerra nas pedras avermelhadas, na esperança de que uma delas me engolisse e daí eu despencaria sem fazer esforço, indo parar em algum buraco no mais dentro daquela terra - um vulcão submerso seria a surpresa. Em vez de jorrar no alto da colina, o vulcão espalharia lava pelas ruas e inundaria os pés de quem passava despercebido. Qualquer situação me parecia menos trágica do que a fantasmagórica sensação que eu experimentava. Um vulcão gravado no dentro das águas submersas.
 E se eu me reconhecesse no rosto de algum estranho? Aí seria o fim de tudo ou um começo de vida mais decente, quem sabe? Se eu me reconhecesse no rosto de uma holandesa típica, veria a minha cara sem precisar de espelhos, e veria também o quanto poderia ser feliz no pescoço de alguém que sabia apertar as tarraxas certas.
Saí da Cetraal Station de Utrecht em direção ao prédio do departamento onde Peter trabalhava, localizado na parte medieval da cidade tão linda. Casas renascentistas, velhice de pedra, vários canais menores, pequenos veios, mais estreitos que os de Amsterdã, talvez mais podres. Atravessei uma das pontes. Olhei para cima e vi mais enfeites. Todos igualmente opacos, e eu sem serventia para o cenário. Segui.
Alguns canais afundam-se até cinco metros abaixo do nível das ruas para evitar inundações. Em uma das ruas esmirradas, a calçada era tão estreita que mal cabiam meus pés de bota - por um triz não fui escavar as águas. Oudegracht. Não dava para ficar olhando para cima à cata de enfeites, era melhor prestar atenção nos passos e decidir se queria mesmo afundá-los em algum vulcão submerso ou se chegaria inteira até Peter. Não era uma questão de escolha: eu estava apenas seguindo um fluxo, e o máximo que conseguia era me manter de pé e dar passos em uma linha reta da estação até a praça e depois fazer uma pequena curva à direita para então seguir outra linha reta e alcançar o prédio. Decorei o percurso.
Utrecht é uma cidade romântica para quem tem um par ou imagina que este passeia por perto. Há uma quantidade enorme de estudantes, muitos bares. E igrejas. A torre gótica, de 1300 e alguma coisa, é a mais alta da Holanda – a Domtoren. A famosa torre venceu o furacão no século XVII, que destruiu a nave central. Li isso no guia e não serviu para nada – eu só queria saber onde está um rosto. Todo o meu conhecimento técnico a respeito do país veio do guia turístico, mas nada serviu de fato para me ajudar a entrar na dimensão em que os holandeses vivem. Não estava escrito em página nenhuma, por exemplo, como fazer para não morrer afogada na chuva ou como desvendar a engenharia dos diques para construí-los na alma a fim de que a chuva de fora não encharcasse por dentro. Isto sim seria de muita utilidade.
Cheguei ao prédio do departamento e lá estava Peter sentado à frente do computador, que, por sua vez, ficava de frente para uma janela que nunca se abria nem mesmo nos poucos dias em que o verão se lembrava de dar as caras. Nevava pingos. O chão recebia os pingos um por um, sem rejeição, e aquele pingado de neve fazia o manto do inverno só por instantes; logo depois o pingo se desfazia em água e, gota por gota, ensopava a rua. Quando encontrei Peter, estava ensopada; o rosto suava ao contrário, porque os poros não molhavam por dentro e sim de fora – não era suor, era o pingo da neve gelada que meu corpo recebia com raiva.
Peter me chamou para perto da janela à guisa de um olá. Achei que fosse alguma coisa importantíssima, uma revelação, um assassinato, um dragão branco vestido de Papai Noel, mas não. Era a neve que pingava. Sneeuw - neve em holandês. 
New – ele disse - new.
E continuou:
Minha de filha de cinco anos come a letra esse. E fala new em vez de sneeuw. Ela come os primeiros esses de todas as palavras.
Peter falou com alegria estendida ao máximo - uma grande corda puxada de uma extremidade à outra. Aquele era um de seus momentos de maior intensidade, eu nunca antes tinha presenciado tamanha alegria. Ver a neve cair e falar dos feitos linguísticos da filha ao mesmo tempo. Esperei que depois desta informação viesse outra para justificar o contentamento, mas depois percebi que tudo era aquilo só. E aquilo só era muito, uma quase exaltação da vida. Eu não alcançava a altura.
 Não conseguia compreender a alegria suprema de se ter uma vida que consistia em: ter uma filha de 5 anos que engole os esses das palavras e, em um dia de neve pingada, estar em um escritório com uma janela-nunca-aberta, de frente para a neve que pingava e lembrar da filha que come os esses das palavras. Realmente, a neve pingando era (deveria ser) um lindo bom dia se eu realmente existisse naquele cenário. Ouvi com atenção o comentário sobre a neve e a filha e, em resposta, disse algumas coisas que não acrescentaram nada ao momento. Por fim, quando não havia mais assunto diante da neve que pingava nem da filha que engolia os esses, falei:
Peter, estou mal.


Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest).



Sneeuw
(traduction Stéphane Chao)

Je suis allé à Utrecht au début de décembre, privé de mon visage. Il fallait que je partage avec Peter ma détresse devant l’inconnu, mon désarroi d’avoir perdu mon reflet, même s’il n’avait pas la moindre idée du diagnostic à me donner. Je cherchais un antidote contre cette malédiction ;  plus je m’abîmais dans une agonie silencieuse,  plus mon visage m’échappait.
         Hormis Peter, personne ne me semblait réel. Les Hollandais vivaient dans une dimension qui n’était pas la mienne – je n’arrivais pas à entrer dans leur monde. J’étais exclue de la Hollande de la même manière que la Hollande ignorait ma présence. La situation n’allait-elle pas se renverser, dès lors que j’avais perdu ce qui me caractérisait le plus vis-à-vis de moi-même : le visage avec lequel j’étais venu au monde.
         Les rues étaient chichement décorées pour la Sinta Klaas – quelques fioritures çà et là, sans le moindre éclat, une ornementation aussi opaque que mon visage dans le décor qui ne m’acceptait pas. J’ai continué à fouler pesamment les pavés rougeâtres avec mes bottes de guerre, dans l’espoir que l’un d’eux m’avale et que je dégringole sans effort jusque dans un trou quelconque au plus profond de la Terre – un volcan englouti, ce serait la surprise.  Au lieu de jaillir du haut d’une colline, le volcan répandrait de la lave dans les rues et inonderait les pieds de celui qui passait inaperçu. N’importe quelle situation me semblait moins tragique que la sensation fantasmagorique que j’expérimentais. Un volcan englouti au fond des eaux.
         Et si je me reconnaissais dans le visage d’un étranger ? Ce serait alors la fin de tout ou le début d’une vie plus digne, qui sait ? Si je me reconnaissais dans le visage d’une hollandaise typique, je verrais mon visage sans avoir besoin d’un miroir, et je verrais également combien je pourrais être heureuse, la tête vissée sur le cou de quelqu’un sachant serrer correctement les bons boulons.
         Je suis sorti de la Centraal Station de Utrecht en direction de l’immeuble du département, où Peter travaillait, situé dans la partie médiévale de cette ville si belle. Maisons datant de la Renaissance, vieilles pierres, innombrables petits canaux, ruelles étroites, plus encore que celles d’Amsterdam, peut-être plus pourries. J’ai traversé un des ponts. J’ai levé les yeux et j’ai vu encore d’autres décorations. Toutes invariablement opaques et moi en porte-à-faux dans ce décor. J’ai continué à marcher.
         Certains canaux sont à cinq mètres au-dessous du niveau des rues pour éviter les inondations. Dans l’une des rues chétives, le trottoir était si étroit qu’il y avait à peine assez de place pour mes pieds bottés – il s’en est fallu d’un cheveu pour que je ne tombe à l’eau. Oudegracht. Je ne pouvais pas marcher la tête en l’air pour chercher les décorations, il valait mieux faire attention à ses pieds et décider si je voulais vraiment tomber dans quelque volcan englouti ou si je voulais arriver entière jusqu’à Peter. Ce n’était pas un choix : je ne faisais que suivre le sens du courant, et le mieux que je pouvais faire, c’était me tenir debout et mettre un pied devant l’autre en ligne droite de la gare à la place, puis prendre le virage à droite pour ensuite continuer tout droit et atteindre l’immeuble. J’ai appris l’itinéraire par cœur.
         Utrecht est une ville romantique pour quiconque a un compagnon ou imagine que celui-ci se promène dans les environs. Il y a une multitude d’étudiants, nombre de bars. Et des églises. La tour gothique, datant de 1300 et quelques, est la plus haute de Hollande – la Domtorren.  Cette célèbre tour a vaincu l’ouragan du XVIème siècle, qui a détruit la nef centrale.  Je l’ai lu dans un guide et cela m’a été inutile – je voulais seulement savoir où était mon visage. Toute ma connaissance technique de ce pays provenait d’un guide touristique, mais elle ne m’a servi à rien pour essayer d’entrer dans la dimension où les Hollandais vivent. Par exemple, il n’était écrit nulle part comment il fallait faire pour ne pas mourir noyé sous la pluie ou pour percer à jour l’ingénierie des digues afin de les construire dans son âme de manière à ce que la pluie du dehors ne détrempe pas l’intérieur.  
         Je suis arrivé à l’immeuble de l’appartement et Peter se trouvait là assis devant un ordinateur placé devant une fenêtre qui ne daignait jamais s’ouvrir, même pendant les rares jours où l’été se rappelaient à notre souvenir. Il neigeait des flocons. Le sol les recevait les uns après les autres, sans réticence, et ce saupoudrage ne formait un manteau hivernal que par instant ; il fondait tout de suite et, flocon après flocon, la rue était délavée. Lorsque j’ai retrouvé Peter, j’étais trempée ; mon visage suait à rebours, mes pores me mouillaient de l’extérieur vers l’intérieur  – ce n’était pas de la sueur, mais des gouttes de neige gelée, que mon corps recevait avec colère.
         Peter m’a fait signe de m’approcher de la fenêtre en guise de salut. Je pensais qu’il avait quelque chose d‘extrêmement important à me dire, une révélation, un assassinat, un dragon blanc déguisé en père noël : que nenni. C’était les flocons de neige qui tombaient. Sneeuw – neige en hollandais.
         New – dit-il – new.
         Et il a poursuivi :
         Ma fille de cinq ans mange la lettre S. Elle dit new au lieu de sneeuw. Elle mange les premier S de tous les mots.
         Peter a dit cela avec une joie qu’il a prolongée au maximum – une grande corde tirée d’une extrémité à une autre. C’était pour lui un moment d’intensité maximale, je ne l’avais jamais vu avant dans une telle joie. Voir la neige tomber et parler des problèmes linguistiques de sa fille en même temps. J’espérais que, après cette information, il en viendrait une autre pour justifier son contentement, mais je me suis aperçue ensuite que c’était tout. Et c’était déjà beaucoup, quasiment une exaltation de la vie. Je n’atteignais pas ces hauteurs.
         Je ne pouvais pas comprendre une telle existence, dont la joie suprême consistait à avoir une fille de 5 ans avalant les S et à se trouver dans son bureau, un jour de neige,  devant une fenêtre jamais ouverte, à regarder tomber les flocons et à se souvenir de sa fille qui mange les S. La pluie de flacons aurait réellement constitué (ou auraient dû constituer) un splendide « bonjour », si j’existais réellement dans ce décor. J’ai écouté avec attention son commentaire sur la neige et sur sa fille et en guise de réponse, j’ai dit quelque chose qui n’a rien apporté sur le moment. Finalement, une fois épuisé le sujet des flocons de neige et de sa fille qui avalait les S,  j’ai dit :
         Peter, je me sens mal.

Claudia Nina est journaliste et docteur ès lettres par l’Université de Utrecht (en Hollande) où elle a soutenu une thèse sur Clarice Lispector, publiée aux  éditions de la PUC-RS ( A palavra usurpada, 2003). Elle a enseigné la théorie littéraire en tant que professeur invité à l’Uerj et cette expérience lui servira de base pour la rédaction de son second livre A Literatura nos jornais : critique littéraire des rodapés às resenhas (Summus 2007). En 2011 elle publie A barca dos Feiosos son premier ouvrage pour enfants, illustré par Zeca Cintra. Ce texte qui a pour thème la diversité humaine a été présenté par la Fondation Getúlio Vargas à l’occasion du “Publishing Management- O negócio do livro”. Par la suite, elle pulie aux éditions DSOP son second ouvrage pour enfants, Nina e a lamparina, illustré par Cecilia Murgel ; une  biographie de l’écrivain José Cândido de Carvalho (ABC de José Candido de Carvalho) aux éditions José Olympio et les romans Esquecer-te de mim (Babel, 2011) et Paisagem de porcelana (Rocco,2014).Ses dernières parutions pour jeunesse sont :  A misteriosa mansão do misterioso senhor Lam (Viera  et Lent 2015) et A repolheira ( Aletria 2015). Claudia Nina a collaboré à l’anthologie Vou te contar (Rocco) avec la nouvelle «Na solidão da noite » et écrit pour la Revista Seleções (Reader Digest).

Resenha

Final dos anos 1990. Uma brasileira de 25 anos decide colocar a mochila nas costas e se aventurar em uma cidade do exterior; escolhe Amsterdã, na Holanda. Tudo o que tem é a matrícula num curso selecionado ao acaso e uma quantia irrisória de dinheiro. O que encontra é um país sem montanhas, oprimido pelo monótono céu baixo e pelo frio atordoante. Um lugar que espera apenas respostas binárias – “sim” ou “não” –, onde as refeições se revezam entre sopa de ervilha e sanduíche de arenque, e onde a viajante se torna cada vez mais invisível. Uma terra na qual cartografia e memória se unem para compor uma armadilha poderosa, criando uma história que se reinventa a cada parágrafo.

Paisagem de porcelana, o aguardado segundo romance de Claudia Nina, é um road book às avessas. O ímpeto da aventura, em vez de atiçar a viagem por estradas e paisagens exóticas, desencadeia um perturbador processo de introspecção e imobilidade. A trajetória da jovem protagonista, narrada em primeira pessoa, descreve de forma lírica e delicada uma investida na névoa: a história de terror e solidão cujos contornos a memória – ou será a loucura? – tratou de embaralhar.

Exercendo o estilo original que já havia demonstrado em Esquecer-te de mim, no limiar da prosa poética, Claudia Nina descreve o momento-limite, a crise absoluta, o esfacelamento. O ponto em que a vertigem da perda amorosa e da solidão se converte mesmo em degradação física – a consciência do corpo desgarrando-se de si.

Encurralada pela paisagem de estranhas amplidões, a jovem viajante – cujo nome só será revelado a certa altura do romance – mantém seu tênue contato com o mundo por meio de apenas três pessoas. Yasuko é a vizinha japonesa de quem se torna cúmplice cotidiana, mas de quem se perde por completo. Peter é o professor afetuoso, porém distante na geografia. Ernest, filho de paquistaneses, é o namorado, mas também a personificação da tragédia: é ele que encarna, pouco a pouco, os olhos de fera do javali. É ele que a ameaça e a leva mais para perto do abismo. É ele que, pouco a pouco, enlouquece.

Ou será que é a protagonista-viajante quem vai, dia a dia, enlouquecendo? Tudo é movediço em Paisagem de porcelana. Não frágil – instável, isso sim. Transtornado pelas reviravoltas e desmentidos de uma narrativa que parece emergir como fluxo, em que “os episódios vêm em golfadas” e a narradora assume, já nas primeiras linhas, que “a memória não tem detector de mentiras”. Tudo é inconstante, exceto aquela tarde de janeiro na estação de Amsterdã, em 1998, começo e fim de uma viagem perturbadora pelos labirintos da angústia e do medo


Fonte : http://www.rocco.com.br


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

CUMBE !

Cumbe !

No final de março tem lançamento do livro Cumbe em Paris, França. O lançamento faz parte do evento Printemps Littéraire Brésilien sediado na Universidade de Sorbonne entre os dias 21 e 31 de março. A ideia do evento, já na 3.ª edição, é promover o encontro de escritores, ilustradores, quadrinistas, dramturgos e poetas brasileiros com alunos  inscritos no curso de potuguês da universidade . A organização e curadoria é de Leonardo Tonus, coordenador do Departamento de Estudos Lusófonos da Sorbonne, que terá a ajuda de Simone Paulino e Verônica Lessa. Os cerca de 30 convidados falarão em diversos espaços da cidade.  Não percam a batalha de quadrinhos entre Marcelo D’Salete e Marcello Quintanilha durante o evento.

Publicado pela editora Veneta, Cumbe traz uma narrativa com o ponto de vista do negro escravo. “Tentei desviar dos estereótipos de representação do negro na mídia e explorar outras possibilidades”, explica Marcelo em entrevista à Revista O Grito!. O trabalho ainda é marcado por uma pesquisa sobre a cultura banto, que trouxe à HQ o linguajar do período e até um glossário. Ao mesmo tempo em que traz novas compreensões sobre um dos períodos mais violentos de nossa história, a HQ também tem um lado muito pessoal e autoral. “Não é um tratado ou teoria sobre a escravidão, é uma tentativa de visualizar o que pode ter sido esse período a partir de um certo ponto de vista, considerando as possibilidades da linguagem dos quadrinhos”. Leia, a seguir,  a entrevista de Marcelo D’Salete para a Revista O Grito em 22 de outubro de 2014.


Precisamos de muito mais para combater uma prática de exclusão de séculos no Brasil.

Como surgiu a ideia de fazer Cumbe?
O livro Cumbe surgiu de pesquisas sobre o Brasil colonial e sobre a escravidão. Percebi que existem poucas HQs sobre esse período a partir da perspectiva dos grupos negros que estavam aqui. Depois de uma intensa leitura sobre escravidão e sobre cultura banto, surgiu a ideia das quatro histórias que compõem o álbum. Os povos bantos que vieram da região do Congo e Angola foram os mais presentes naquele momento, por isso busquei mostrar algo dessa cultura nas narrativas.

Seu trabalho sempre foi marcado por uma preocupação social e também sobre a trajetória dos afro-descendentes no Brasil? Esta sempre foi sua inquietação? Como é tratar desse assunto como arte?
Minhas histórias desenvolveram um contorno próprio e preocupações sociais e etnicorraciais tornaram-se um elemento importante em cada uma delas. De certo modo, é um tema que considero ausente dos trabalhos que lia anos atrás. Essas preocupações vieram a partir de músicas de rap, filmes do cinema novo, da boca do lixo paulista, do realismo italiano e de alguns quadrinhos europeus, brasileiros e americanos. Tratar de histórias negras nesses quadrinhos, de racismo e outros fatores, foi uma forma de mergulhar em um universo de possibilidades novas, mas também difícil e espinhoso. Para isso, tentei desviar dos estereótipos de representação do negro na mídia e explorar outras possibilidades.

A distância social entre brancos e negros ainda continua imensa. Muitos jovens negros são mortos na periferia. Suas histórias sempre tiveram um tom urbano, com detalhes de ruas, ambientações em cidades brasileiras. Em Cumbe somos transportados para um outro momento. Como foi construir esse novo cenário?
Foi um novo aprendizado sobre desenho. No meu caso, estava muito confortável desenhar prédios, ruas e postes. Desenhar Cumbe foi quase reaprender a traçar do zero. No início fiquei inseguro, mas depois consegui entrar no clima das histórias. A pesquisa de imagens foi essencial. Vi muitas obras do Eckhout, Franz Post, Rugendas, Debret e assisti a muitos filmes com temas históricos.

Uma das coisas mais legais de Cumbe é a preocupação com a linguagem dos escravos na época. Como foi fazer essa pesquisa?
Esse foi um dos pontos mais difíceis. O Allan da Rosa, escritor, poeta e pedagogo, me ajudou a compreender melhor as possibilidades de usar esses termos de origem banto nas histórias. Tentei usar as palavras sem que isso afetasse a fluência da leitura. A cultura de origem banto aparece principalmente em nosso português. Palavras como marimbondo, quindim, moleque, lambança, malungo, cafuné e outras estão presentes em nossa língua por causa dessa influência banto. Além disso, tentei trazer elementos próprios desse universo também nas lendas. Por exemplo, o monstro quibungo, espécie de bicho papão angolano, aparece em relatos de lendas do início do século no nordeste.

Você comentou que Cumbe é parte de um processo artístico seu, de encontrar a história dos povos brasileiros. Quais seus próximos passos nesse sentido?
Minha intenção não é exatamente encontrar “a” história brasileira, mas apresentar narrativas sobre nosso contexto social e histórico. Procuro realizar leituras singulares sobre esses fatos. Cumbe não é um tratado ou teoria sobre a escravidão, é uma tentativa de visualizar o que pode ter sido esse período a partir de um certo ponto de vista, considerando as possibilidades da linguagem dos quadrinhos. Tenho muito interesse em elaborar novas histórias sobre conflitos em grandes cidades e também sobre momentos históricos especiais no Brasil. No momento, estou comprometido em realizar uma narrativa sobre o Quilombo dos Palmares, um dos principais pontos de resistência do Brasil colonial. Não pretendo contar a história definitiva de Palmares, mas elaborar uma narrativa interessante e pessoal sobre este momento.

Muito se discute hoje sobre o atual momento social do Brasil. Uma leitura otimista diz que nunca vivemos uma justiça social como agora. Por outro lado, temos números bem ruins sobre a juventude negra, com alta mortalidade, além do déficit salarial, racismo, etc. Qual sua visão sobre o atual momento do país?
Ao que parece, houve avanços nas últimas décadas, mas retrocesso em diversas outras. A distância social entre brancos e negros ainda continua imensa. Muitos jovens negros são mortos na periferia. Além disso, tivemos casos extremamente graves de violência e morte de homens e mulheres negros, a Cláudia, o Amarildo, o camelô morto brutalmente pela polícia paulista. Há novos discursos conservadores tomando espaço na mídia e política, contra as religiões afro etc. Esse conflito já existia antes, mas agora está presente de modo mais direto. Isso pode ser positivo, pois sempre os grupos negros organizados lidaram com a falsa ideia de democracia racial, onde falar de racismo era tabu. Contra esses discursos conservadores precisamos de mais instrumentos sociais efetivos para combater o racismo e a discriminação. Os jovens negros não podem ficar marginalizados e fora das universidades. As políticas de inclusão deste grupo nas universidades federais, como cotas, são importantes nesse sentido. No âmbito do ensino básico, a Lei 10639 e 11645 é outro fato relevante para introduzir história e cultura negra e indígena nas escolas. Infelizmente, isso ainda é pouco, precisamos de muito mais para combater uma prática de exclusão de séculos no Brasil.


Você está otimista em relação às eleições deste ano?
Em São Paulo, temos um governo estadual preocupado apenas com segurança, os índices sobre educação são péssimos, os salários dos professores são muito baixos e é comum turmas com mais de 40 alunos nas salas. Bem, estamos muito longe de uma educação pública de qualidade. A educação pública, um fator que pode colaborar para mudar índices de desigualdade a longo prazo, é propositalmente relegada ao esquecimento. Os principais candidatos estão preocupados em manter as coisas como estão e em favorecer os mesmos de sempre. Os índices sobre desigualdade mudaram pouco nesses anos. Enfim, não há motivos para estar otimista. Creio que as eleições são uma parte do processo, mas a ação e cobrança da população é fundamental se queremos mudar as coisas.

Cumbe está saindo com uma edição bem bonita da Veneta. Como avalia o atual momento do mercado dos quadrinhos?
Temos bons artistas produzindo e publicando novas obras. Este ano, em especial, há lançamentos de peso como Tungstênio, do Quintanilha, O fim do Mundo, do Ducci, Revolta, do Caliman, entre outros. Há muitas pessoas produzindo e diversos eventos de HQ em todo país. É difícil acompanhar tudo. Creio que estamos em um bom momento de produção e de novas formas de apoio (governo, Catarse etc.). Cumbe, por exemplo, foi selecionado pelo ProaC de São Paulo, um programa de apoio à cultura. Não tenho uma visão muito detalhada do mercado de quadrinhos, mas considero que temos avanços. Por outro lado, ainda sinto que precisamos reafirmar os quadrinhos não como leitura apenas para crianças, mas como veículo com potencial para tratar de temas complexos e adultos.

Para encerrar, uma pergunta subjetiva. Você consegue descrever a lembrança mais remota de querer fazer quadrinhos?
Ler quadrinhos era algo comum em minha infância. A vontade de querer fazer quadrinhos surgiu a partir de uma antiga lousa na casa da minha mãe em São Mateus, zona leste de SP. Meu irmão, Marcos, e eu costumávamos desenhar bastante nessa lousa. O desenho era muitas vezes copiado dos quadrinhos das bancas. A lousa e os desenhos tornaram-se um elemento de ligação entre nós. Creio que dessa interação nasceu meu interesse pelo desenho e pelos quadrinhos.

Entrevista de outubro 2014.




Marcelo d´Salete é professor, ilustrador e autor de histórias em quadrinhos. Estudou design gráfico no Colégio Carlos de Campos, é graduado em artes plásticas e mestre em história da arte pela Universidade de São Paulo. Publicou diversas histórias em quadrinhos na revista Front, Graffiti, Quadreca, Suda Mery k! (Argentina), Contos Bizarros, +Soma eStripburger (Eslovênia). Algumas dessas contando com a parceria dos roteiristas Kiko Dinucci, Eddy Gomez e Bruno Azevêdo. Ele também ilustrou os livros infantis Ai de tí, Tietê de Rogério Andrade Barbosa; Duas Casas de Claudia Dragonetti; E Assim Surgiu o Maracanã de Sandra Pina; Zagaia e Da Cabula de Allan Santos da Rosa; As descobertas de Paulinho na Metrópole de Marina Torres;Olho Mágico de Tiago Melo; A Rainha da Bateria de Martinho da Vila; e diversos outros.Participou da exposição Consecuencias do Injuve na Espanha, 2002; da exposição de originais da revista Front no FIQ em Minas Gerais, 2003; e da exposição Ilustrando em Revista, Editora Abril. Expos no 7º Festival Internacional de Banda Desenhada e Animação - Luanda Cartoon de 2010 e em Amadora BD, exposição Seis esquinas de inquietação, 2013. Publicou o álbum Noite Luz (livro de 112 páginas, editora Via Lettera, 2008) com seis histórias em quadrinhos de sua autoria. Esse mesmo livro foi publicado na Argentina pela editora Ex-Abrupto.  Lançou o álbum de quadrinhos Encruzilhada (124 páginas) em julho de 2011 pela editora Leya (selo Barba Negra). Cumbe (168 páginas, editora Veneta, 2014) é o seu terceiro livro de histórias em quadrinhos, agora sobre o período colonial no Brasil.

Assistam à apresentação em vídeo do livro Cumbe, com a música Man Feriman, álbum MetaL MetaL, de Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Thiago França, Marcelo Cabral, Sergio Machado e Samba Sam.

Cumbe ! https://www.youtube.com/watch?v=QZRkxjP7lP8


Fonte : Website do autor : http://www.dsalete.art.br/

CUMBE !

Le Brésil a été l’un des principaux pays pratiquant l’esclavage, jusqu’à son abrogation en 1888. En provenance d’Angola et du Mozambique, les esclaves étaient essentiellement affectés à l’exploitation de la canne à sucre ou des mines d’or, mais aussi pour les taches ménagères dans le cas des femmes. Certains esclaves se révoltaient, prenaient les armes et se réfugiaient dans la jungle pour créer des communautés, appelées quilombos, ou cumbe, où ils vivaient en autarcie. À travers quatre nouvelles, en partie inspirées d’événements historiques, le dessinateur brésilien Marcelo d’Salete raconte des histoires d’esclaves marrons au 17e siècle, des hommes, femmes et enfants confrontés à leurs tortionnaires et décidés à se libérer du joug de l’esclavage à tout prix,..Dans la première histoire, intitulée Calunga, un jeune esclave tente de convaincre sa compagne de s’enfuir avec lui. Dans Sumidouro (Le Puit), une femme est prise entre deux feux ; violée par son maître et jalousée par la femme de celui-ci. Dans la nouvelle Cumbe, un groupe d’esclaves marrons fomente une rébellion. La dernière histoire, Malungo, est consacrée à des quilombolas qui reviennent dans une plantation pour se venger d’exactions. Troisième livre d’un auteur au trait affirmé, Cumbe retrace avec poésie et sensibilité un pan de l’histoire du Brésil encore méconnu. Cumbe de Marcelo D’Salete (Traduit du portugais par Christine Zonzon et Marie ZéniNé) est publié aux éditions Ҫà et Là.

@Rafael Roncato

 Né en 1979, Marcelo d’Salete est auteur de bandes dessinées, illustrateur et enseignant. Il a suivi des études de design graphique à l’université de Sao Paulo, il a un diplôme en beaux-arts et est titulaire d’une maîtrise en histoire de l’art. Il a illustré de nombreux livres jeunesse et participé à plusieurs anthologies et revues de bande dessinée, dont Front, Graffiti, Suda Mery K  ! (Argentine) et Stripburger (Slovénie). Son travail a été présenté dans plusieurs expositions au Brésil, en Argentine et en Espagne. Cumbe, publié en 2014 au Brésil est son troisième livre, après deux autres recueils d’histoires courtes Noite Luz (Lumière de Nuit, 2008) et Encruzilhada (Carrefour, 2011). Marcelo d’Salete habite à Sao Paulo

Téléchargez un extrait de l’album en cliquant sur le lien ci-dessus :




Bientôt le programme complet du Printemps Littéraire Brésilien 2016 sur : https://www.facebook.com/printempslitterairebresilien/

Em Breve o programa completo do Printemps Littéraire Brésilien no link :





segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Fiel em Paris

Jessé Andarilho

Jessé Andarilho, autor do livro "Fiel", é um dos convidados da Primavera Literária Brasileira, que selecionou 30 autores para participar de encontro de escritores, ilustradores e quadrinistas brasileiros com alunos de português da Universidade de Sorbonne em março.

Nascido no Rio de Janeiro em 1981, no bairro do Lins, Jessé foi criado em Antares, conjunto habitacional popular criado no início da década de 70 na Zona Oeste da cidade, para receber moradores de favelas removidas da Zona Sul.

"Fiel" narra a vertiginosa ascensão e a queda de um menino no tráfico carioca e foi escrito pelo celular nos momentos em que Jessé estava no trem indo e vindo do trabalho.

A vertiginosa ascensão e a queda de um menino no tráfico carioca

“A vida de Fiel não é fácil. Quando a chapa esquenta, é ele quem segura o rojão e fica no olho do furacão, pois o patrão está longe. O livro retrata fielmente a realidade vivida em muitas favelas do Brasil.  A escrita é interna, vinda de um cara que viveu ali, bem de perto, e só não se afundou na criminalidade porque foi resgatado pela arte” – MV Bill, rapper e escritor

Na linha de sucessão de escritores como Ferréz e MV Bill, surge Fiel, de Jessé Andarilho. Baseado em histórias reais que conteceram com o autor, seus amigos e conhecidos, o primeiro romance do carioca de 33 anos conta a vertiginosa ascensão e a queda de um menino no tráfico carioca. Fala também, com propriedade, da vida de centenas de jovens das periferias, favelas e comunidades das grandes metrópoles. Com mais um diferencial curioso: foi todo escrito pelo autor nas teclas de um celular para ocupar o tempo que passava dentro do trem a caminho de casa para o trabalho e vice-versa, muitas vezes em pé.

Nascido no Rio de Janeiro em 1981, no bairro do Lins, Jessé foi criado em Antares, conjunto habitacional popular criado no início da década de 1970 na Zona Oeste da cidade, para receber moradores de favelas removidas da Zona Sul. Seu interesse pela literatura e pela escrita começou por acaso, quando ganhou de presente o livro Zona de Guerra, de Marcos Lopes. Saiu dizendo para todo mundo que tinha muitas histórias como as do livro para contar. Até que ouviu de um amigo: “Tem história melhor que a do cara, então vai lá e escreve!”. Jessé não pensou duas vezes e começou a escrever. Assim nasceu o Fiel e também o codinome Andarilho.

“Este frenético romance é prova cabal de que a capacidade criativa e empreendedora do povo carioca chegou à literatura, depois de passagens exitosas pela música, pelo teatro e pelo cinema”, escreve o jornalista e também escritor Julio Ludemir. “Também é emblemático desses tempos que um cara que se autodenomina Andarilho tenha narrado o mundo que o cerca viajando de trem, que é um símbolo do apartheid carioca, que mantém a quase totalidade da sociedade aprisionada em guetos controlados ora pela milícia, ora pelo tráfico. Jessé rompeu os grilhões do gueto para produzir um livro que nos liberta a todos”, continua Ludemir.



Breve o programa do Printemps Littéraire Brésilien 2016 no facebook

https://www.facebook.com/printempslitterairebresilien/


Fonte : Editora Objetiva



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Printemps Littéraire Brésilien -2016


Printemps Littéraire Brésilien 
2016

Consultem o programa e cliquem no link abaixo

Programa Printemps Littéraire Brésilien


Em sua terceira edição em 2016, a Universidade da Sorbonne sedia em Paris, de 21 a 31 de março, o Printemps Littéraire Brésilien que visa levar a literatura brasileira contemporânea a espaços de ensino do português na França, sob a curadoria de Leonardo Tonus, coordenador do Departamento de Estudos Lusófonos na Universidade. O evento contará com a presença de mais de 30 romancistas, ilustradores, quadrinistas, poetas, cineastas, fotógrafos, dramaturgos e contistas, com atividades realizadas dentro e fora da Universidade, para discutir a literatura infantil e juvenil brasileira e suas potencialidades. O Printemps Littéraire Brésilien inscreve-se numa perspectiva pedagógica e se estende aos campos da promoção e divulgação da cultura brasileira. Trata-se de um encontro inicialmente idealizado para promover a ampliação da formação dos estudantes da universidade (franceses, alguns ainda iniciantes na língua portuguesa; brasileiros ou portugueses em intercâmbio), mas que já se consolidou também como um importante espaço de discussão literária, potencializando leituras e enriquecedoras experiências culturais em torno da língua portuguesa.

Dentre as novidades desta 3ª . edição, o evento terá uma organização tripartida realizada conjuntamente com Simone Paulino (escritora e editora da “Nós”) e Verônica Lessa (jornalista, editora e promotora de eventos culturais) e pela primeira vez desde a sua criação o evento internacionaliza-se. Encontros paralelos acontecerão na Universidade de Leiden (Holanda), organizado pela professora Sara Brandellero; em Berlim, em espaços institucionais e culturais, sob a responsabilidade de Antonio Salvador (escritor e professor) e Luciana Rangel (jornalista e criadora do Círculo Literário de Berlim), atualmente residentes na Alemanha, e durante a Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, graças à atuação de Verônica Lessa e do escritor Roberto Parmeggiani.

Para além de atividades em sala de aula, serão organizados em Paris encontros, leituras, lançamentos, exposições e ateliês em espaços institucionais (Embaixada do Brasil na França, Fundação Gulbenkian, Maison du Brésil, Maison de l’Amérique Latine, Maison de la culture du Japon à Paris) e de ensino público (escolas primárias e de ensino médio). O estande do Brasil no Salon du Livre de Paris também receberá alguns autores para sessões de autógrafo.





Delegação oficial do Printemps Littéraire Brésilien de 2016


Lúcia Hiratsuka, Roger Mello, Roberto Parmeggiani,  Jessé Andarilho, Henrique Rodrigues, Marcello Quintanilha,  Paula Anacaona, Marcelo D’Salete, Claudia Nina, Lucrécia Zappi,  Lúcia Bettencourt, Paloma Vidal, Krishna Monteiro, Miguel Sanches Neto, Mário Araujo, Alexandre Vidal Porto, Godofredo de Oliveira Neto, Paula Fábrio, João Guilhoto, Andrea Nunes, Márcio Benjamin, Ieda de Oliveira, Felipe Franco Munhoz,  Maurício Vieira, Flávio Goldmann, Jéferson Assumção,  Susana Fuentes, Kátia Gerlach, Eunice Gutman, Mariza Baur, Patrícia Melo, Antonio Salvador, Camila Gonzatto, Caio Yurgel. 


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Um dedo de prosa com Michel Laub



Um dedo de prosa com Michel Laub

A solidão, a incomunicabilidade, os encontros e os desencontros entre os seres constituem alguns dos temas que percorrem o conjunto da produção romanesca de Michel Laub e mais particularmente  seus dois últimos romances (Diário da Queda e A maça envenedada) que integram uma trilogia acerca dos efeitos individuais das catástrofes históricas. Em Diário da queda o autor evoca as tribulações de um narrador face ao peso do seu passado e de suas heranças. Para além do trágico episódio da infância no qual um colega de classe sofre uma queda durante sua festa de aniversário, o romance propõe um mergulho angustiante pelos espaços labirínticos da memória individual e coletiva do narrador e de seus familiares. O romance evoca assim a  triste história, do avô, sobreviente do campo de Auschwitz, e do pai que sofre de Alzheimer. 
Assistam aos vídeos gravados em Paris durante o Salão do Livro de  2014 nos quais Michel Laub evoca seu percurso literário e comenta suas obras.


La solitude, l’incommunicabilité entre les hommes, les rapports entre mémoire collective et individuelle, voici quelques thématiques qui parcourent l’univers romanesque de Michel Laub et sa trilogie élaborée autour des catastrophes humaines.  Dans Journal de la chute l’auteur revisite, dans ce premier roman publié en France, trois de ces catastrophes – trois chutes – qui traversent la quête d’identité du narrateur : Celle du grand-père suicidaire, survivant d’Auschwitz et exilé au Brésil ; Celle de João, l’ami du narrateur, un jeune goy victime d’ostracisme devenu par la suite, porte-parole d’un discours antisémite ; enfin celle du narrateur et de sa plongée dans l’alcool et la dépression. 
Regardez les vidéos enregistrées pendant le Salon du livre de 2014 dans lesquelles l’auteur évoque son parcours littéraire et commente ses œuvres.

Cliquem nos links abaixo para assistir aos vídeos






Diário da queda

1.

Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve.

2.

Nos cadernos do meu avô não há qualquer menção a essa viagem. Não sei onde ele embarcou, se ele arrumou algum documento antes de sair, se tinha dinheiro ou alguma indicação sobre o que encontraria no Brasil. Não sei quantos dias durou a travessia, se ventou ou não, se houve uma tempestade de madrugada e se para ele fazia diferença que o navio fosse a pique e ele terminasse de maneira tão irônica, num turbilhão escuro de gelo e sem chance de figurar em nenhuma lembrança além de uma estatística — um dado que resumiria sua biografia, engolindo qualquer referência ao lugar onde foi criado e à escola onde estudou e a todos esses detalhes acontecidos no intervalo entre o nascimento e a idade em que teve um número tatuado no braço.

3.

Eu também não gostaria de falar desse tema. Se há uma coisa que o mundo não precisa é ouvir minhas considerações a respeito. O cinema já se encarregou disso. Os livros já se encarregaram disso. As testemunhas já narraram isso detalhe por detalhe, e há sessenta anos de reportagens e ensaios e análises, gerações de historiadores e filósofos e artistas que dedicaram suas vidas a acrescentar notas de pé de página a esse material, um esforço para renovar mais uma vez a opinião que o mundo tem sobre o assunto, a reação de qualquer pessoa à menção da palavra Auschwitz, então nem por um segundo me ocorreria repetir essas ideias se elas não fossem, em algum ponto, essenciais para que eu possa também falar do meu avô, e por consequência do meu pai, e por consequência de mim.

4.

Nos meses antes de completar treze anos eu estudei para fazer bar mitzvah. Duas vezes por semana eu ia à casa de um rabino. Éramos seis ou sete alunos, e cada um levava para casa uma fita com trechos da Torá gravados e cantados por ele. Na aula seguinte precisávamos saber tudo de cor, e até hoje sou capaz de entoar aquele mantra de quinze ou vinte minutos sem saber o significado de uma única palavra.

5.

O rabino vivia do salário da sinagoga e da contribuição das famílias. A mulher tinha morrido e ele não tinha filhos. Durante as aulas ele tomava chá com adoçante. Pouco depois do início pegava um dos alunos, em geral o que não havia estudado, e sentava ao lado dele, e falava com o rosto quase encostado no dele, e o fazia cantar de novo e de novo cada verso e sílaba, até que o aluno errasse pela segunda ou terceira vez e o rabino desse um soco na mesa e gritasse e ameaçasse que não faria o bar mitzvah de ninguém.

6.

O rabino tinha unhas grandes e cheiro de vinagre. Era o único que fazia essa preparação na cidade, e era comum que na hora de ir embora esperássemos na cozinha enquanto ele tinha uma conversa com nossos pais, na qual dizia que éramos desinteressados, e indisciplinados, e ignorantes e agressivos, e no final do discurso ele pedia um pouco mais de dinheiro. Nessa hora era comum também que um dos alunos, sabendo que o rabino era diabético, que já tinha parado no hospital por conta disso, que tinha havido complicações e uma das pernas chegou a correr o risco de ser amputada, esse aluno se oferecia para pegar mais chá e em vez de adoçante botava açúcar na xícara.

7.

Praticamente todos os meus colegas fizeram bar mitzvah. A cerimônia era aos sábados de manhã. O aniversariante usava talid e era chamado para rezar junto com os adultos. Depois havia um almoço ou janta, em geral num hotel de luxo, e uma das coisas que meus colegas gostavam era de passar graxa nas maçanetas dos quartos. Outra era fazer xixi nas caixas de toalhas dos banheiros. Outra ainda, embora isso só tenha acontecido uma vez, na hora do parabéns, e naquele ano era comum jogar o aniversariante treze vezes para o alto, um grupo o segurando nas quedas, como numa rede de bombeiros — nesse dia a rede abriu na décima terceira queda e o aniversariante caiu de costas no chão.

Journal de la Chute
(traduction de Dominique Nédellec)

1. Mon grand- père n’aimait pas parler du passé. Ce qui n’a rien d’étonnant, du moins s’agissant de ce qui compte vraiment : le fait qu’il était juif, qu’il ait débarqué au Brésil à bord d’un de ces bateaux où les gens s’entassaient, le bétail pour qui l’histoire semble s’être arrêtée alors qu’ils avaient vingt ans, ou trente, ou quarante, peu importe, et ne reste plus ensuite qu’une sorte de souvenir qui va et vient et peut devenir une prison pire encore que celle par où tu es passé.

2. Dans les cahiers de mon grand- père, on ne trouve pas la moindre allusion à ce voyage. Je ne sais pas où il a embarqué, s’il s’était procuré des papiers avant de partir, s’il avait de l’argent ou une vague idée de ce qui l’attendait au Brésil. Je ne sais pas combien de jours a duré la traversée, si les vents ont été violents ou non, s’il y a eu une tempête à l’aube et si cela aurait changé quelque chose à ses yeux que le bateau sombre et qu’il disparaisse d’une manière si ironique, dans un tourbillon obscur et glacé, et sans aucune chance de laisser en souvenir de lui autre chose qu’une donnée 11 statistique –  qui à elle seule aurait résumé sa biographie, escamotant toute référence à l’endroit où il avait grandi, à l’école où il était allé et à tous ces menus événements survenus entre sa naissance et le jour où on lui avait tatoué un numéro sur le bras.

3. Moi non plus je ne tiens pas à parler de tout cela. S’il y a bien une chose dont le monde peut se passer, c’est d’entendre mes considérations sur la question. D’autres se sont déjà chargés de la traiter dans des films. D’autres encore dans des livres. Les témoins ont déjà livré des récits détaillés, et on dispose de soixante ans de reportages, d’essais et d’analyses, des générations d’historiens, de philosophes et d’artistes ont consacré leur vie à ajouter des notes de bas de page à cette masse de documents, s’efforçant de renouveler encore et toujours l’opinion générale sur le sujet, la réaction de tout un chacun au mot Auschwitz, alors je n’envisagerais pas une seconde de répéter ces idées si elles n’étaient pas, d’une certaine façon, essentielles pour que je puisse aussi parler de mon grand- père, et par conséquent de mon père, et par conséquent de moi.

4. Dans les mois qui ont précédé mon treizième anniversaire j’ai suivi des cours pour préparer ma bar- mitsva. Deux fois par semaine j’allais chez un rabbin. Nous étions six ou sept élèves, et chacun rapportait chez soi une cassette avec un enregistrement de passages de la Torah chantés par lui. Pour le cours suivant, il fallait qu’on sache tout par cœur, et aujourd’hui encore je suis capable d’entonner ce mantra long de quinze ou vingt minutes dont je ne comprends pas un traître mot.

5. Le rabbin vivait de son salaire de la synagogue complété par une contribution des familles. Sa femme était morte et il n’avait pas d’enfants. Pendant les cours, il buvait du thé auquel il ajoutait un édulcorant. À peine avait- on commencé qu’il choisissait un élève, en général celui qui n’avait pas étudié, il venait s’asseoir à ses côtés, s’adressait à lui en collant son visage au sien ou presque et lui faisait chanter et rechanter chaque vers et chaque syllabe, l’élève se trompait une deuxième fois, une troisième fois, alors le rabbin tapait du poing sur la table, se mettait à hurler et menaçait de ne célébrer la bar-mitsva de personne.

6. Le rabbin avait des ongles longs et une odeur de vinaigre. Il était le seul dans toute la ville à assurer cette préparation, et il arrivait fréquemment qu’au moment de partir on doive attendre dans la cuisine pendant qu’il avait une discussion avec nos parents, il leur disait qu’on ne s’intéressait à rien, qu’on était indisciplinés, ignorants et agressifs, et une fois son discours terminé il leur réclamait une rallonge. Il était tout aussi fréquent qu’un des élèves, sachant que le rabbin était diabétique, qu’il s’était déjà retrouvé à l’hôpital pour cette raison et que des complications s’en étaient suivies au point qu’on avait failli l’amputer d’une jambe, que cet élève, donc, se propose alors pour aller lui resservir un thé et qu’à la place de l’édulcorant il verse du sucre dans sa tasse.

7. Pratiquement tous mes camarades de classe faisaient leur bar- mitsva. La cérémonie avait lieu le samedi matin. Le garçon revêtait le talit et était appelé à venir prier aux côtés des adultes. Ensuite, il y avait un déjeuner ou un dîner, généralement dans un hôtel de luxe, et parmi les choses que mes camarades aimaient bien faire alors, il y en avait une qui consistait à enduire de cirage les poignées de porte des chambres. Une autre à pisser dans les paniers de serviettes des salles de bains. Une autre encore, bien que cela ne se soit produit qu’une seule fois  : au moment de souhaiter un joyeux anniversaire à l’intéressé, on avait l’habitude de le projeter en l’air à treize reprises et tout le groupe le rattrapait à chaque fois, comme avec un filet de pompiers –  seulement, ce jour- là, le groupe s’était écarté au moment de la treizième réception et le garçon était tombé sur le dos.