segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Uma erótica da leitura


Ler o quê? Como? Para quê?
Por Leonardo Villa-Forte

Torna-se cada vez menos frequente um momento em que não estejamos lendo. Lemos emails, mensagens, comentários, placas de direção, nomes de lojas, preços de produtos, pixos nos muros, correspondências e a multa que lamentavelmente chega em nossa casa. Entre uma coisa e outra, de acordo com a fatia de tempo permitida pelo cotidiano de cada um, lemos livros também.

Está claro que o impresso hoje não é o veículo único para a leitura. Ainda assim, a “vida literária oficial” (prêmios, resenhas, matérias, cursos, concursos) gira em torno deste objeto. Tal “vida literária” é, obviamente, um ganho inestimável, principalmente num país em que a valorização do livro como veículo para leitura ainda está se construindo. A inserção do livro no dia-a-dia brasileiro me parece uma meta que toda secretaria de cultura, entre outros agentes, deveria ter. Faz pouco tempo vi um vídeo do discurso do Julian Fúks na entrega do Jabuti e achei curioso como o mise-en-scène, não do autor, mas do Prêmio, lembra muito o de um evento como o Oscar. Suspeito ser uma tática de guerra: fazer a literatura disputar o campo dos eventos (geralmente concentrado em categorias como esportes, música e audiovisual) apropriando-se dos códigos desses eventos, mas colocando a literatura (ou o autor?, é outra questão) no centro. Se isso fizer com que as pessoas leiam mais livros de literatura contemporânea brasileira – além de ajudar o autor a sobreviver e continuar trabalhando em sua arte – vale muito. Uma medida que poderia ser interessante em eventos, prêmios, festivais e etc, seria incluir mais a leitura dentro dos eventos, assim como nos eventos de cinema nós vemos trailers/trechos dos filmes, se me permitem um pitaco. Ou realizar eventos com leitores no palco, não em oposição, mas em acréscimo aos eventos com autores. Mas bem, voltemos à pergunta: Ler o quê?



A audição pode ser o sentido mais traiçoeiro, pois é impossível fechar os ouvidos, mas ultimamente tem sido tão difícil fechar os olhos e fazer uma escolha consciente do que iremos ler… Somos atravessados de maneira incessante por leituras que não pedimos ou não decidimos de livre e espontânea vontade que chegassem aos nossos olhos. Demandas de trabalho, demandas de atualização sobre “o que está acontecendo”, postagens e compartilhamentos nas redes sociais, notícias.... Colocando tudo isso de lado, eu diria que o primeiro critério, a meu ver, para decidir o que ler é o prazer. É um critério subjetivo, então não tenho como responder objetivamente à questão sobre “o quê” ler. As minhas preferências passam por dois critérios: como já dito, primeiro, o critério do prazer. Ler o texto que você sente que está caminhando junto com você (mesmo que ele, em termos de conteúdo ou forma, esteja à sua frente, mas nunca atrás). Gosto de pensar que essa sensação do junto – de não estarmos sozinhos quando se lê determinado livro – se dá por uma espécie de fio invísivel que as linhas do texto lançam ao nosso peito, e, por vezes, tocam nossa pele e retornam ao livro sem nos causar dano, mas em outras, elas nos perfuram e causam uma dor gostosa que é a de um novo alfinete no coração. E quando falo de “leitura que caminha junto” não estou falando apenas de seguirmos como observadores passivos de um enredo, mas de um sensação de que aquele texto ou obra te toca, diz respeito a você ou aos seus gostos, ou à sua curiosidade (te apresenta algo ao qual você adere). Tenho interesse pela abordagem que Susan Sontag propõe como “uma erótica da arte”. O prazer do texto, de estarmos juntos aos seu corpo, antes da construção de interpretações. Antes, e não em oposição a. Isso pode estar na leitura de um romance, num livro de contos, poesia, num ensaio, numa graphic novel, numa coleções de entrevistas, num artigo que nos lança novas questões ou nos esclarece outras…

E aí entra a segunda razão para ler: a leitura que traz algum conhecimento ou contextualização ao qual ainda não temos acesso. Podem inclusive alterar o nosso prazer – dirigir as nossas leituras para novos terrenos. Mas é claro que essas definições (prazer/conhecimento) são estanques. Na realidade, os dois “motivos” muitas vezes chegam misturados, como nas minhas leituras recentes de Atmosferas urbanas, de Armando Silva e The faith of graffitti, com texto de Norman Mailer – que me mostraram a cena de arte urbana da Colômbia, e como ela, desde os anos 1980, é predominantemente textual; e como a Polícia, a Prefeitura e a população de Nova York tratou violentamente o início do graffiti nos anos 1970 em suas ruas e metrôs. Os dois “motivos” estiveram juntos também nas minhas leituras de Submissão, do Michel Houllebecq e dos quadrinhos da série Um árabe do futuro, do Riad Sattouf, uma dupla que me deu noção maior da tensão entre Oriente Médio e Europa. Assim como nos contos de O tradutor cleptomaníaco, livrinho gracioso, que vem da tradição do leste de pequenos causos ligados a pessoas comuns, e, com humor fino, trabalha em cima da nossa relação problemática com o dinheiro e a aquisição.

Penso que a leitura por prazer está sempre nos trazendo algo que temos em nós e esquecemos ou não formulamos de modo compreensível para nós mesmos. Este é um ótimo motivo para ler: compreender melhor a si mesmo. No meu caso, leio interessado nessa conjugação: uma linguagem que me seduza e um abordagem, operação, procedimento, efeito ou conteúdo que amplie aquilo que chamam de “minha visão”. Ampliar “minha visão” não precisa ser conhecer mais do graffiti em Nova York ou entender as questões do Oriente Médio, mas pode ser – e no meu caso é mais frequente –  ler um romance satírico para entender como determinado autor construiu esse gênero na sua obra; ler uma autora e ver como ela trata um personagem esquizofrênico, ler para ver como foi tecida a voz do narrador-criança, ler tentando “desmontar” o roteiro do livro, conhecer novas linguagens que estão sendo experimentadas, descobrir como um escritor desenvolveu o fiapo mínimo de enredo do seu livro, entender como um feto poderia falar e o que ele falaria – pensando no recente Enclausurado do quase sempre excelente Ian McEwan. A curiosidade é um dos melhores motivo para ler. Arrisco dizer que não há curioso de verdade que não leia.

Eu poderia ainda dizer um terceiro motivo: ler para inspirar. Há trechos de Ó – que nunca li de cabo a rabo, pois para mim não é assim -, do Nuno Ramos, que colei num mural na porta da minha cozinha e desde então esses parágrafos ficam comigo como clarões no matagal. Só na porta da minha cozinha eu percebi a força daquilo (e isso mostra como é importante, em certos momentos, transgredir o “modo de usar” da obra e gerar um outro, imprevisto, mas que será o seu e fará ela ter significado para você). Há trechos de John Cage que iluminam e expandem a ideia de criação. A estética do Lourenço Mutarelli, que admiro muito, e é sempre uma paisagem no horizonte. Trechos de Julio Ramon Ribeyro que instalam a risada em meio às pequenas desgraças. A voz musical e sempre olhando pra frente de João Gilberto Noll. As liberdades maravilhosas que Sérgio Sant’Anna, Cesar Aira e Lydia Davis se dão, e, assim, nos dão. E os trechos de Beckett que me dão dor de barriga e secam minha saliva. Tudo isso é inspirador. Acho que, ao final, busco leituras que me permitam continuar desejando ler. E se me estimularem a escrever, podem ser um alfinete a mais no meu coração.



Já sobre a questão de como ler, sinto que cada livro sugere como devemos lê-lo, e tento estar aberto a isso: não encarar cada livro como mais um livro. Para mim, a leitura tem muito de excercício de flexibilidade. Não se entra num romanção como O mestre e a margarida – divertidíssimo – da mesma maneira que se entra nas curtas e diversas Prosas Apátridas ou nos poemas-ensaio de Um teste de resistores ou na lucidez inventiva de Uma literatura nos trópicos. São coisas bastante distintas, cuja única semelhança, além de serem textos, é estarem materializadas sob a mesma forma do códex. Faz parte da beleza o fato de que para descobrir como ajeitaremos o nosso corpo ao corpo do livro, e o nosso tempo ao tempo do livro, é preciso dar início a ele sem termos essas respostas de antemão. Só depois de algumas páginas intuiremos como podemos promover essa relação. Às vezes conseguiremos manter essa conjugação por mais tempo, às vezes por menos. Há livros que consigo ler no metrô e no ônibus e aqueles que só consigo ler em casa. Há livros que leio grifando ou rabiscando quase toda página e há livros em que o melhor é seguir sem se intrometer nas suas margens. Há livros que consigo ler enquanto leio outros, e livros os quais entendo que precisarei terminá-lo antes de começar a ler qualquer outra coisa. Poesia, por exemplo, prefiro ler aos poucos. Nunca leio um livro de poemas de uma ponta até a outra de uma vez só. Leio dois, três poemas, e eles me bastam. Fico com aquilo. Levo alguns dias até voltar ao mesmo livro e ler mais dois ou três.

Nunca terminei de ler o Folhas de relva, do Walt Whitman, pois toda vez que pego o livro meus olhos recaem sobre “Eu celebro a mim mesmo,/E o que eu assumo você vai assumir,/Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.” – os primeiros versos – e isso me assusta, me assombra, me comove, e não consigo seguir, de uma maneira que muito me alegra. Então de vez em quando eu pulo as primeiras páginas e vou para o meio do livro, e leio novos trechos dele, com certa satisfação triste por finalmente conseguir estar em contato com outras partes além do início hipnotizante.

xxx



Leonardo Villa-Forte é autor do romance O princípio de ver histórias em todo lugar (2015, editora Oito e Meio), do conto Agenda (2015, Megamíni/7Letras) e da coleção de contos O explicador (2014, editora Oito e Meio). Tem trechos, contos e ensaios publicados em jornais e revistas pelo Brasil, como nas revistas Pessoa, Arte & Letra, Rascunho oline, revista serrote, e traduzidos para sites e revistas em inglês e espanhol. Criou a intervenção urbana-literária Paginário e a série de colagens MixLit. Graduado em Psicologia pela UFRJ com intercâmbio em Salamanca, Espanha, é mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RJ.

Um comentário:

  1. Oiii,

    Como o seu texto diz tudo o que eu penso sobre ler. Acho que o primeiro passo realmente é ler por prazer, para viajar no tempo, no mundo, no conhecimento e depois da leitura ainda ficar com aquele texto passeando pela sua cabeça e emitindo sensações de amor, tristeza, raiva ou compreensão.

    Beijos

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