segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Todas por uma


Todas por uma

Por Claudia Nina
        

         Porque a verdade era um relance. A frase está em um dos contos referenciais de Clarice Lispector: “Feliz aniversário”, de Laços de família. Estavam por obrigação na festa da senhora – “a mãe de todos” -  que completava 89 anos. Cada qual amargava a seu modo, com algum disfarce, a má vontade quanto ao compromisso diante do bolo aceso. Com raros diálogos, as pessoas quase não se falam. Mas o narrador, este, sabe de tudo. Especialista em mudez, conhece o significado secreto do punho fechado sobre a mesa – “mudo e severo sobre a mesa”. De tudo o que sabe, compartilha, porque “é preciso que se saiba”. Os relances montam o jogo de olhares dos personagens. Escondem pensamentos (azedos) que vão muito além das cenas, como nas reflexões da aniversariante: “O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade. O rancor roncava no seu peito vazio”.
         “Truth was a glimpse”. A tradução para o inglês da frase foi pinçada pelo suplemento literário do New York Times em 2015, quando elegeu Clarice Lispector à categoria de gênio escondido do século 20 na resenha sobre The complete stories (tradução de Katrina Dodson, lançada nos EUA e no Reino Unido). O livro entrou na lista dos 100 melhores livros de 2015 feita pelo jornal. Todos os contos, reunião de 85 narrativas curtas, chegou ao Brasil um ano depois pela Rocco, com organização e prefácio de Benjamin Moser, americano, biógrafo de Clarice e responsável pela edição do volume em inglês. A frase em questão não é só uma linha de impacto - poderia servir de epígrafe à obra. Não é à toa que o NYT tenha lhe dado ênfase; um “relance” é algo peculiar a Clarice. Interessante que tal percepção tenha sido captada por um olhar estrangeiro com a devida importância.
Ler Clarice Lispector é um aprendizado para a percepção de relances, assim como em toda e qualquer boa literatura. A “verdade” à qual a autora se refere no conto não é uma assertiva absoluta e inalcançável, mas a verdade íntima da existência de um minuto, um segundo, que não se repetirá. Como nas cenas, inclusive as minúsculas, que povoam o aniversário da matriarca – quem perdeu, não viveu. Nem viverá.
Em geral, as pessoas vão de um extremo ao outro: cultiva-se uma histeria coletiva, com repetição de frases na internet (que Clarice não escreveu) ou o pavor pela escritora supostamente difícil. Na realidade, falta muitíssimo para que a excepcional autora de A hora da estrela (obra que primeiro caiu nas graças do biógrafo) seja absorvida.


Por isso, o trabalho de Benjamin Moser é maior do que se pode imaginar. Tanto a biografia Clarice, (CosacNaify) quanto este volume de contos multiplica o alcance com sua presença física, atuante em vários espaços para onde é chamado; quase um “sacerdócio”. Ele começou a estudar a vida de Clarice Lispector na faculdade e acabou devorando a ficção. Não parou mais. Com habilidade e entusiasmo, consegue despertar curiosidade pela leitura e desejo de conhecer de perto a trajetória biográfica singular da autora, que nasceu na Ucrânia em 1920, mas partiu bem pequena com a família para o Nordeste, onde passou a infância.
Os relances de Clarice espalham-se por textos que precisam ser conhecidos também fora dos ambientes acadêmicos, para além das teses universitárias. Moser busca os despossuídos, não os iniciados. Tirar de Clarice a aura de escritora inacessível, levar a leitura de suas obras a lugares imprevistos. A seara é gigantesca, há um trabalho imenso pela frente. Quanto desafio. Quem sabe ele seja capaz de operar alguns milagres.
O entusiasmo de Moser é bastante clariceano. Isso porque, nos textos da autora, especialmente nos contos, existe uma fé oculta nas pequenas alegrias do cotidiano, “apesar de”. Apesar dos entraves - dor, morte, pobreza ou abandono – um amor desmedido, meio divino, pelo delicado essencial da vida surge quando menos se espera, como a esperança-inseto que de repente aparece na casa, e as crianças se alvoroçam, no conto “Uma esperança”. A visita é o ponto de partida para reflexões: “Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la”.
 Os contos são a melhor porta de entrada para este mundo necessário. Um motivo e tanto para celebrar uma edição que reúna todos os trabalhos em um mesmo volume. Com uma produção gigantesca, foi nos contos que Clarice mais se superou ao criar um projeto estético genial, seja pela diversidade dos temas abordados, seja no exercício de uma linguagem exótica e em permanente transformação, capaz de surpreender o leitor nas construções de sentido e na justaposição incomum das palavras. Sem serem, em um primeiro momento, inacessíveis, como talvez os romances mais densos e pedregosos, a exemplo de A paixão segundo GH, A maçã no escuro, O lustre ou A cidade sitiada.
Um leitor de 11 anos, por exemplo, pode perfeitamente ler o belíssimo “Restos do carnaval”, em Felicidade Clandestina, e chorar de emoção. O conto é escrito por um “eu” que remonta à infância da própria autora no Recife, entrelaçando ficção e realidade de forma absolutamente impossível de se detectar o que é real e o que é invenção. Escreve, “de coração escuro”, lembrando a mãe doente (referência biográfica), no milagroso carnaval que lhe permitiu fantasiar-se com as sobras de papel crepom rosa do figurino da amiga. Qualquer leitor independente é capaz de impactar-se com os instantes de alegria roubada do assombro de ter uma mãe doente em casa, em um momento que era para ser feliz - só que não. Sensibilidade a partir de relances. A leitura de Clarice é mais do que um desafio intelectual, é uma experiência emocional inusitada. Eis um trecho do belíssimo conto, repleto de um agridoce que é bem a marca destes textos reunidos em Felicidade clandestina, publicado pela primeira vez em 1971:
“Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. (...) fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava. Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina”.

Na apresentação ao volume, Benjamin Moser enfatiza a descoberta do pioneirismo, não só no Brasil como no mundo: Clarice Lispector seria a primeira escritora de que se tem registro a produzir, durante a vida inteira, obras que capturam todas as fases de uma mulher da classe média, burguesa, ocidental, casada, com filhos, da juventude à velhice. Um trabalho que, dos 19 aos 56 anos, não foi interrompido por nada - casamento, filhos, exílio não a fizeram parar. Enfrentou inclusive a doença e a dificuldade financeira, foi até os últimos momentos escrevendo, não sucumbiu ao suicídio ou às drogas – “O terrível dever é ir até o fim”, como a própria um dia escreveu.
Todos os contos permite uma leitura em perspectiva que revela o quanto Clarice evoluiu em sua própria história literária. Estão lá os primeiros contos publicados antes dos 20 anos, como “O triunfo”, “Obsessão” “Cartas a Hermengardo” entre outros, nos quais, página por página, Clarice se aproxima assustadoramente de si mesma. Na corda estendida, que vai dos primeiros aos últimos textos, equilibra-se o tempo das personagens, desde jovens indóceis e desafiadoras, passando pelas donas de casa em busca de seus pontos “F” (que quase nunca as levam ao marido, mas alhures, às fugas), alcançando as mulheres maduras e solitárias, até as senhoras idosas, como a aniversariante de 89 anos.
Nas histórias iniciais, sobressaem-se mulheres às voltas com seus primeiros sustos, mergulhadas em imaginárias horas perigosas: como escapar à rotina, ao tédio e a elas mesmas? Neste sentido, “A fuga”’ é um texto emblemático e antecipa alguns contos de Laços de família, como “Amor” e “A imitação da rosa”: “Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma – primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam”.
O estranhamento e a capacidade de escrever nas entrelinhas, subtraindo obviedades, são traços marcantes, desafiadores. De repente, o leitor se surpreende com Clarice sendo Clarice. Como nas últimas linhas de “Cartas a Hermengardo”: “E se não puderes seguir meu conselho, porque mais ávida que tudo é sempre a vida, se não puderes seguir meus conselhos e todos os programas que inventamos para nos melhorar, chupa umas pastilhas de hortelã. São tão frescas”.


         Quando todos os contos da autora são dispostos assim, em um grande tabuleiro, lado a lado, fica mais evidente observar a força com que Clarice mergulha no universo feminino. A legião estrangeira (1964), por exemplo, reúne dois textos que estão seguramente entre seus melhores trabalhos: “Os desastres de Sofia” e “Viagem a Petrópolis”. Entre uma personagem e outra, cabe uma existência inteira. (Vale lembrar que este primoroso livro de contos não foi tão celebrado quanto deveria à época, talvez porque tenha surgido simultaneamente ao romance A paixão segundo GH, também de 1964. Duas obras essenciais, que precisam ser saboreadas sem pressa).
Em “Desastres de Sofia”, Clarice recorre mais uma vez a um “eu” que poderia ser confundido com ela mesma – ou não, mas isso não importa – para contar as aventuras da menina às voltas com um professor por quem desenvolve uma exasperada forma de amor. Ela o odeia na mesma medida que elabora um cuidadoso jogo de sedução, do alto de seus 9 anos de idade, humilhada por não ser uma flor e torturada por uma infância eterna.
Até o dia em que o professor oferece o desafio de escrever uma redação a partir de uma história que ele conta. A menina ouve com desdém, preparando-se para escrever “com suas palavras” um texto que subvertesse a mensagem contida na ideia da composição proposta. Experimenta as estratégias da conquista secreta com sofrimento e insegurança. Afinal, ela “não sabia como existir” na frente dele. Novamente aqui, a poética dos “relances” monta a estratégia das cenas:
         “É que na falta de jeito de amá-lo e no gosto de persegui-lo, eu também o acossava com o olhar: a tudo o que ele dizia eu respondia com um simples olhar direto, do qual ninguém em sã consciência poderia me acusar. (...) E conseguia sempre o mesmo resultado: com perturbação ele evitava meus olhos, começando a gaguejar. O que me enchia de um poder que me amaldiçoava”.
         No mesmo livro, alguns contos à frente, o frescor apaga-se por completo. Entra-se no mundo de Mocinha, “uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo”. Assim começa o impactante “Viagem a Petrópolis”.  A forma como apresenta a perambulação da personagem por um espaço que a acolha é desconcertante. O narrador sabe de tudo e partilha os assombros. Conhece as reminiscências muito íntimas, como o remorso que a velha sentia quando se lembrava dos gritos que dava com a filha Maria Rosa, falecida ainda jovem: “Lembrou-se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar”.
Só no mundo, marido e filho igualmente mortos, este último atropelado. Uma profunda piedade por aquela senhora-sequilha agiganta-se à medida que ela caminha de uma rejeição à outra, pois ninguém da família a quer. A solução fatal acontece como um espanto. A velhinha é revolucionária quando decide abandonar-se ao abandono: “A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu”.
         Nos contos tardios, Clarice Lispector se aproximou da primeira pessoa de forma diferente; não é mais o “eu” da infância, como nas histórias de Felicidade clandestina, mas o “eu” fragmentado, movediço, dos escritos não coesos que rumam sem desfecho, como no texto “É para lá que eu vou”, no qual a definição de conto entra em pânico. Clarice, é preciso lembrar, não acreditava em gêneros, o que fica mais evidente em seus em textos-experimentos. Mas é preciso igualmente que se saiba: a estrutura sempre esteve a ponto do colapso, pois, mesmo nos contos do início, já se poderia prever abalos sísmicos no interior dos parágrafos. Basta ler com cuidado. Pedaços do futuro cintilam em textos como “História interrompida”: “(...) por isso que a vida se resumia num monte de cacos: uns brilhantes, outros baços, uns alegres, outros com um ‘pedaço de hora perdida’, sem significação, uns vermelhos e completos, outros brancos, mas já espedaçados”.
         Os contos cronologicamente distantes e agora dispostos lado a lado facilitam ainda o jogo do reconhecimento entre situações e temas que se repetem na obra como um todo. Além de ampliar a devoção de quem já é iniciado. Inevitável: Clarice ganha na releitura, pois o estranhamento inaugural não se esvai quando se lê, por exemplo, um conto como “O búfalo” pela quinta vez. E o que dizer de “O ovo e a galinha”, um dos textos mais enigmáticos da autora, sempre e cada vez mais caleidoscópio, que entrou na categoria de conto só por falta de opção? Talvez aí esteja um pouco do mistério que envolve a escrita da autora: a qualidade de ser absolutamente inesgotável em si mesma.


         O culto às frases pode ser também parte do jogo da leitura. Por que não? Clarice sabia cravar impacto em poucas palavras, o que explica a facilidade das citações. Mas é bom contextualizar as frases, para que se cultive a sede em buscar a fonte. “Ao mesmo tempo que imaginário – era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas”. Eis o mundo de Clarice Lispector a ser descoberto.
(A citação está no conto “Amor”, de Laços de família).

TRECHO
“Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso. Mas não tinha uma palavra sequer a dizer. De porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranquila como num trem. Que já partira”.  (Do conto “A imitação da rosa”).

Texto publicado no Jornal Rascunho.


XXX




Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest). Em 2016 participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien et foi finalista do Prêmio Rio de literatura. 

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