quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Para onde tudo vai?

Para onde tudo vai?
Por Luiz Biajoni

Tenho acompanhado os textos que discutem as questões levantadas pelo professor Leonardo Tonus aqui e achado tudo muito interessante. Meu pitaco talvez seja divergente do que a maioria apontou – e creio que isso possa ser bom para continuar & estimular o debate.

Os principais pontos do professor questionam são: 1) diversificação X homogeneização; 2) mercado X qualidade;  3) como incentivar a leitura; 4) o lugar do autor no cena. Entendo que os outros pontos são convergentes para esses.
O que acho é que essas questões são intrínsecas do fazer literário desde sempre – elas sempre estiveram aí, sempre estarão e não há respostas para elas: apenas o fazer contínuo de todas as partes implicadas: o autor, que escreve, dentro de suas possibilidades e a partir da sua visão artística & de mundo; a editora que avalia e publica, levando em conta os aspectos que convém a ela (qualidade, mercado, arte); os mecanismos satélites da relação autor-editora-leitor realizam suas feiras, saraus,  discutem políticas públicas; e a mídia explora aspectos que lhe interessam, um evento ou outro que seja mais expressivo, um autor ou outro que seja mais simpático ou menos, mais midiático ou comunicativo. Neste quadro, temos a autopublicação através de ferramentas virtuais, mas a autopublicação também sempre existiu, e com os mesmos resultados: uns se dão bem, outros não – ao final, como acontece no sistema tradicional.

Não quero ser o chato que diz que a discussão é inútil, mas recentemente li três livros que recomendo e que reforçam que essa gangorra de tensão e distensão “mercado X qualidade” e todo o resto neste entorno é o que move a literatura desde que ela, bem, “virou mercado”, ou melhor, expandiu seus domínios através das técnicas de produção industriais, lá pelos meados do século XVIII.


O primeiro livro é As Origens do Sexo, de Faramerz Dabhoiwala, que fala, em sua parte final, sobre como o aparecimento do jornal impresso fez com que as pessoas se interessassem por detalhes da vida privada de gente conhecida, por mexericos, e isso resultou em uma onda de livros que exploravam justamente isso, a biografia de pessoas conhecidas ou não, com detalhes “secretos”. Santos e putas eram os alvos preferidos, as pessoas gostam de grandes sofrimentos ou grandes diversões. Os livros eram vendidos como se as histórias fossem reais, embora a grande maioria fosse apenas ficção – e da pior qualidade literária. Até que aparecia alguém que levava aquele lixo para um degrau acima, gerando algo com qualidade literária – ainda que continuasse tendo apelo popular. 



Foi o que aconteceu com Daniel Dafoe e seu Moll Flanders e, depois, com Oscar Wilde que, dândi, tinha o apelo midiático que comentei acima. Se você observar os meandros do início do mercado literário vai ver tudo o que há hoje: jornalistas sendo pagos para falar bem de livros (hoje temos youtubers), feiras com autores que são sensação (a obra da maioria não se sustentou, escritores mais discretos tiveram mais sucesso depois de sua morte – mas, afinal, quem quer sucesso depois da morte?); autoficção, jornalismo literário, simulação da realidade (Conan Doyle foi chamado para ajudar a polícia a esclarecer crimes, ora veja) tudo isso já existia no começo do “negócio”, que foi se construindo a partir dessas relações.


Outro livro é a biografia de Max Perkins, um editor de gênios, de A. Scott Berg, livro vencedor do National Book Award, que conta a história desse cara que descobriu F. Scott Fitzgerald e editou Hemingway, entre outros. Sua atuação foi especialmente importante entre 1919 e 1939 e quando vemos suas dúvidas, inquietações e as posturas que tomou... vemos que não é nada diferente do que temos hoje! As avaliações para lançar o primeiro romance de Fitzgerald, por exemplo, tiveram como principal ponto as questões de mercado. Depois de lançado, uma onda de novos autores apareceu pelo caminho aberto – muitos foram lançados e esquecidos, outros surfaram midiaticamente por um período, alguns ainda estão com seus livros aí. Eventos literários aconteciam e resenhas elogiosas e maldosas, defendendo um ou outro interesse, também. A Scribner, editora onde Perkins trabalhava, editava o panteão americano e tinha medo da diversificação – apenas depois de muita lapidação Este Lado do Paraíso foi lançado; a jogada foi ousada. Perkins teve que acionar seus contatos para que o livro tivesse boas análises nos jornais e revistas e boas vendas (não foi Best-seller instantâneo). Também de olho no mercado, houve ajustes na “apresentação” de escritores como Fitzgerald e Hemingway para o público.

Mas o livro mais interessante desses três é A Hora Terna do Crepúsculo – Paris nos anos 1950, Nova York nos anos 1960: Memórias da era de ouro da publicação de livros, o memorial de Richard Seaver, que descobriu, editou e teve que lidar com gente como Beckett, Burroughs, Genet, Henry Miller, D.H. Lawrence, entre outros. Esse comprou briga grossa, enfrentando o estado & o mercado, editando o que considerava ser importante, arte e inovador – e pagando o preço pelas decisões. Foi através de Seaver que a caiu a censura americana a livros, com as publicações do Amante de Lady Chatterley e Trópico de Câncer. É um mito, o Seaver, e esse livro é lindamente escrito, mostrando que dominava a arte de contar histórias. Mas, ao mesmo tempo, ilustra minha tese de que esse jogo de mercado está posto desde sempre – e não há maneira de avançar se não for “jogando”.

Apesar de conhecer escritores que escolhem ir por um caminho mais comercial que outros e outros que preferem o fazer artístico em detrimento do sucesso comercial (sic), nem sempre se dão bem, sejam uns ou outros. Editoras com perfis X ou Y dependem mais de gestão e estratégia do que de bons livros (em quaisquer casos, artísticos ou comerciais) para sobreviver. O público leitor, esse monstro, vai sempre ser conduzido por um titereiro maluco que uma hora quer livros com muito sexo, outra hora quer livros com adolescentes morrendo, num outro momento quer heroínas feministas que matam os maridos. Não dá pra entender, é sério.

Essas dinâmicas não são muito diferentes no Brasil, muda um cenário apenas economicamente prejudicado.

Os governos ficam pensando em como estimular a leitura e não há muita saída: existem outras prioriades. Países que consomem mais livros são países mais ricos onde as pessoas podem gastar dinheiro com coisas inúteis. E são países onde os governos não precisam se preocupar muito com políticas públicas de leitura, já que as principais prioridades estão equacionadas.
Então, amigos, o resumo é que o jogo está aí para ser jogado. Você pode escolher ser uma peça nele e até mesmo adotar uma postura clara, definida. Se você será lido, publicado, amado, considerado, resenhado, estudado, etc... irá depender muito pouco de você mesmo, vai depender de como as outras peças serão movidas. Se sua qualidade for óbvia e inquestionável – o que pouco acontece – você fará parte do panteão. Espero que isso aconteça em vida.
Boa sorte.
xxx



Luiz Biajoni é autor de Elvis & Madona – Uma Novela Lilás, A Comédia Mundana e A Viagem de James Amaro, todos publicados pela Língua Geral.

3 comentários:

  1. Acrescento dois nomes que utilizaram folhetins para divulgar suas obras e cujos estilos foram influenciados diferentemente pelos conflitos citado por Biajoni : Alexandre Dumas e Honoré de Balzac. O primeiro, um bon vivant que aproveitou muito bem seu espaço na "imprensa burguesa". O segundo, um artista profícuo, obstinado e crítico dos mass media, por assim dizer, como bem retrata a obra "As Ilusões Perdidas". O artigo de Biajoni é daqueles que estimulam o debate e a pesquisa sem abrir mão de aspectos lúdicos. Quem disse que para ser articulista tem que ser chato?

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  2. Gostei muito do artigo e das referências bibliográficas ao encontro da temática. Muito elucidativo.

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