sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ler é mais importante que escrever


Ler é mais importante que escrever

Por Marcelo Maluf

A palavra literária só resistirá ao tempo se houver leitores. O texto só tomará corpo, na alma e na mente de cada leitor, se for lido. E como disse Tzvetan Todorov: “O leitor, por sua vez, procura nos livros o que possa dar sentido à existência”. Mas para que existam leitores se faz necessário dar acesso pleno à alfabetização, para que o leitor possa ter amplo domínio da leitura e capacidade de compreensão de todos os tipos de textos. Havendo isso, o leitor nasce e o escritor se faz. Afinal de contas, como sempre digo, temos sede e fome de fabulação.

Sem a consciência de que não há nada maior do que o leitor, nós do meio literário, de toda cadeia do livro, ficaremos sempre isolados, presos em nosso microcosmo. Sem prestar essa reverência à leitura, definharemos. A minha causa tem um nome: o leitor. O leitor que fomos, somos e o que seremos. Estar em contato íntimo com ele. Esse é o maior desafio da literatura brasileira contemporânea: se aproximar do leitor, valorizar os professores, os mediadores de leitura, os bibliotecários, e não apenas os críticos, jornalistas e acadêmicos. Possibilitando a todos o mesmo lugar de importância.

O que, talvez, precisássemos compreender, não só no campo das ideias, mas no da prática, é a interdependência que existe entre prosadores, poetas e seus leitores. A liberdade de ler e não ler, escrever e não escrever é de todos. Trata-se de uma escolha. Mas o fato é que vivemos ainda hoje, uma crise da leitura, fruto da crise do pensamento, das violações de direitos básicos, das injustiças sociais, do desencorajamento de ser o que se é, da devastação da educação e da cultura. Além de um cenário editorial dominado, brutalmente, pelos fenômenos de mercado. A verdade é que se lê muito pouco os autores brasileiros contemporâneos. E é aí que nos encontramos como criadores. Flutuando. Buscando um processo criativo, autêntico, livre e profundo. Mas sim, a nossa relação com o cenário descrito acima é de uma dependência mútua. Fazemos parte. Por isso, ir ao encontro do leitor: provocá-lo e convidá-lo para dançar se faz necessário todos os dias. Nas feiras, nos clubes de leitura, nas escolas, nas bienais, na casa do vizinho, no bar, na rua, nas bibliotecas, no ônibus, nos trens, nos asilos, nas prisões, nos saraus, enfim, estar presente no mundo. Participar. Cada qual encontrará o seu melhor jeito. Cada qual saberá o seu caminho. Ter a consciência de que o processo será longo e cheio de obstáculos. E exatamente por isso, persistir.

Mas, ler o quê?
Ler o universo e ler o umbigo, o fato, a poesia, a revista encardida e a bula de remédio, a prosa, ler o prato vazio e o copo de uísque na beira da piscina. Ler o tarô, os clássicos, os contemporâneos, os filósofos, os modernos, os místicos, os poetas, os cordelistas, os silêncios, os gritos, a paisagem, os mitos, os contos de fadas, as fábulas, as parábolas e os santos.

Como ler?
Ler com coragem e liberdade. Não esperar nada. Esperançar tudo. Ler sem regras, por paixão, ler sentado no sofá ou deitado no chão. Em voz alta. Ao pé do ouvido. Em volta da fogueira. Ler aquilo que dá prazer, que encanta, sonha, enoja, causa angústia, ódio e fome de viver. Ler sem pressa. Sempre. Ler é coisa eterna. Ler é o contrário de velocidade. Nunca é pra ontem. É lentidão, exige o tempo estendido, sem a violação do ágil modo de ser das redes sociais. Ler é fracassar em grande estilo.
No entanto, um livro não pode nada sozinho. Sozinho ele não anda e as palavras não se iluminam na página. Sem o leitor, o livro é palha úmida que não pega fogo.  E mesmo que exista o leitor, tudo dependerá de quem lê. Rubião, Clarice, Adélia e Raduan, podem dar o tiro e, mesmo assim, a bala sair pela culatra. Mas esse é outro passo.

Ler para quê?
Para se perder e se achar, para ser no mundo, para conhecer a vida de seres e lugares imaginários, para reconhecer a verdade e a mentira da ficção, para encarar uma jornada, seja ela mítica, simbólica ou realista. Para capturar a sabedoria da palavra poética e o seu mistério, para aprender a sonhar e concretizar os sonhos. Para realizar o contato entre a linguagem e a nossa existência.

XXX


Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Mestre em Artes pela Unesp. Escreveu o livro de contos Esquece tudo agora (Terracota, 2012) e o infantil As mil e uma histórias de Manuela (Autêntica, 2013), entre outros. Em 2015, publicou o romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório),  livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos.


5 comentários:

  1. Gostei da bela reflexão de Marcelo Maluf, sobretudo no que se refere à necessidade da educação. Ela faz muita falta ao Brasil. Abraço e muito sucesso. Cordialmente, William.

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  2. Leio e viajo, é tudo que ainda fazemos sem dever.

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