domingo, 4 de dezembro de 2016

Jingle Bells

Jingle Bells
Por Leonardo Tonus


Foi em 1992. A bolsa que recebia do governo francês mal cobria minhas despesas de alimentação. O inverno era rigoroso. Em Leipzig. Sob nevascas, a Alemanha reunificava-se. E apagava sua história. Às vésperas da euforia econômica brasileira. Às vésperas. Pois as coisas são sempre vésperas. Sempre, Clarice.  Perdoai-me lembrai-vos, porque quanto a mim também não me perdôo. A  clarividência. Em 1992. 

Meu primeiro adventus, sem Messias. Ela que não era religiosa. Nem tampouco eu. Sob a luz de velas, tomamos um chá. Partilhamos uma fatia de Christstollen. E compartilhamos nossos silêncios. Ambos amassados no terror. Que evitavara os cadáveres da Altstadt da Auhenheinerstraße onde até hoje reside. E os gritos de tantas outras mulheres.  Em 1945. Sob os escombros da Frauenkirche de Dresden. E de 1992. No cerco de Sarajevo. 

Ela que me alugava um quarto. Próximo ao Ring. Numa Leipzig ainda cinzenta. Cheirando à carvão. Com seu aquecimento de ladrilhos. Também à carvão. E que me obrigava a conservar as janelas abertas. Apesar do inverno rigoroso. Do golpe de estado de Fujimori no Peru. Do assassinado do escritor egípcio Farag Foda. Da abertura da Eurodisney em Paris. E do frio. Que me devorava as entranhas. Famintas. Dos meus vinte e cinco anos. Sob os berros dos protestos xenófobos que se espalhavam pelo país. Até o meu quarto. Com suas janelas verdes. Janelas do caos. Entreabertas. Até hoje. 

Às trincheiras de Verdum. Aos gritos de Sabra e Chatila. Às ruas de Alep. À selva de Callais. Aos golpes de estado. E aos olhos marejados. Daquela que também com suas mãos rugosas. Sob os escombros do que um dia fora carne, sangue e humanidade. Não implorava esmola. Mas ninava. Em plena rua Agusta às 14 horas de uma segunda-feira. Uma boneca de plástico. Oculta de Deus, Murilo. 

O mundo abria-se em sangue. 
E meu coração. 
Até hoje. 

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