quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Feiras não formam leitores efetivos

Mercado Editorial Brasileiro  e a Literatura Contemporânea

Por Suzana Vargas

Sobre mercado editorial brasileiro jamais poderemos falar sem antes frisar que o Brasil é um país de não leitores e predominantemente de analfabetos funcionais. Dito isso, é preciso  ter consciência de que nossa luta deverá ser por aumentar nosso contingente de leitores e compradores de livros para que o mercado realmente exista.

Nos últimos 20 anos, presenciamos um falso aquecimento desse mercado com o governo comprando títulos aos milhares e distribuindo-os em escolas e bibliotecas. Esse títulos contemplavam não somente autores contemporâneos como clássicos nacionais e estrangeiros, ou seja : a seleção era muito bem pensada, a distribuição era realizada a contento mas o  grande problema é que faltavam leitores e principalmente professores aptos a trabalhar com os livros que, muitas vezes, ficavam engavetados/guardados nas caixas em que chegavam nas instituições.

Também nos últimos 15 anos presenciamos a multiplicação de feiras e eventos literários pelo país, ações maravilhosas, porém sempre serão ações de marketing , de divulgação de livros e autores. Não formam leitores efetivos. E devem/ precisam continuar a se multiplicar pelo bem da leitura.

Falta, na minha opinião, ações efetivas dentro das escolas - pois é lá que os leitores se formam. Ações efetivas como, por exemplo, interferir nos currículos escolares privilegiando a leitura em detrimento de outras matérias. Tratando a literatura de modo diferenciado, artístico, não só abolindo a historicização  do conhecimento literário (principalmente no ensino médio) como, inclusive, provas…Literatura é arte...ler é matéria artística, subjetiva. Cobrar conhecimentos muito técnicos  (estilos de época e quejandos) só afasta nosso alunado já tão desestimulado....

Não é simples, não é fácil e nem eu teria aqui espaço para tratar em detalhe do problema.

Vamos agora então olhar a questão dos autores nacionais que se multiplicaram  (saudavelmente) na exata dimensão em que as mídias sociais e a internet apareceram... Ótimo tudo isso, não fosse a mudança radical que trouxeram ao modo de tratar livro e leitura na contemporaneidade.

As editoras  - acompanhando a velocidade frenética dos novos tempos - lançam milhares de títulos que - na proporção de mais ou menos 20 para 01 são absorvidos pelo mercado. Resultado: tiragens baixas e rápido envelhecimento dos lançamentos. De um modo geral, nosso autor (novo ou não) precisa produzir mais livros para permanecer um tempo maior na mídia como novidade. Ou seja: temos mais novidades que novos livros. ´Nem preciso dizer que isso tudo afeta a qualidade da produção. Esse assunto é longo, complexo e não se esgota aqui com muitos 'prós ' e 'contras".

Com relação  à divulgação no exterior, devemos priorizar, sim, programas de traduções e eventos que se comprometam com autores já traduzidos. Creio que as antologias (a exemplo da Granta) seriam ótimas saídas para os novos ou os ainda não traduzidos.

Enfim, não são observações muito otimistas porque acredito mais em políticas públicas que intervenham diretamente no sistema escolar e acadêmico (para este último, mais leitura e menos teoria ou história literária). Mas essas ações só terão resultados palpáveis em 15/20 anos...Infelizmente não resultam em votos..

xxx


Suzana Vargas nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul. É mestre em teoria literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora da Fundação Biblioteca Nacional e especialista em leitura. Poeta, ensaísta e autora de literatura infantil e juvenil, tem vários livros publicados, entre eles Leitura: uma aprendizagem de prazer, Caderno de outono e outros poemas e O amor é vermelho. Em 1986, fundou a Estação das letras, um espaço dedicado a cursos ligados à literatura, no Rio de Janeiro, onde mora. Suzana tem se dedicado à divulgação e à dinamização das letras e  da cultura no Brasil. Idealizou e coordenou, por mais de dez anos, o projeto Rodas de Leitura, no Centro Cultural Banco do Brasil, do qual já participaram autores como Luis Fernando Verissimo, Jorge Amado, Gabriel García Márquez e Chico Buarque.

Sobre Suzana e seu livro Sem recreio, dizia resenha do jornal O Globo, em 1983: ''Traz-nos agora uma dicção reveladora do feminino que a coloca de imediato ao lado de uma Adélia Prado, uma Olga Savary, uma Lélia Coelho Frota e uma Consuelo Cunha Campos, entre as vozes poéticas mais ponderáveis da nova poesia brasileira escrita por mulheres''.


Em Caderno de outono e outros poemas, de 1997, a poesia de Suzana Vargas se espraia e revela seu seguro controle de linguagem. A poeta, que trabalha e vive a poesia, escreve: "Entre a chuva e o resto de feijão / na vasilha / escrevo um verso". Em ‘Fio fátuo’, do mesmo livro, ela diz: "Não me confino mais / às curvas da cozinha / pois há muito / saí da casca dos tomates / e me cortei sozinha". Já em O amor é vermelho, de 2005, a poeta trata, com densidade e delicadeza, do sentimento que é o eixo de nossa vida, reafirmando com originalidade a tradição lírico-amorosa ocidental.

A Suzana ensaísta revela-se com força e competência em Leitura: Uma aprendizagem de prazer, que ganhou edição ampliada em 2010. Baseado em sua dissertação de mestrado em teoria literária e em sua rica experiência como escritora, professora e divulgadora da literatura, o livro aponta a leitura como peça fundamental na educação de jovens e adultos e sinaliza formas de difundi-la muito além da sala de aula.

Fonte : Agência Riff (http://www.agenciariff.com.br/site)


4 comentários:

  1. Não, feiras não formam leitores mesmo, sabe por que? Porque são sempre os mesmos convidados, sempre os mesmos curadores, que ficam convidando-se mutuamente. É sempre a mesma galera, o mesmo jabá das grandes editoras...

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  2. Amigos, sou um velho engenheiro civil e iniciante como autor literário. Meu avô fazia poemas narrativos, aprendi a fazê-los e sou um construtor de versos. A universidade daqui editou um livro meu nesse estilo e havendo boa receptividade, encomendou-me outro sobre história de nossa cidade e teve boa recepção. Agora uma irmandade, do Senhor Jesus dos Passos, de dois séculos e meio de existência pediu-me para fazer a história da saga marítima da imagem do Senhor Jesus ao porto da antiga Desterro. Fiz e sairá em abril, ocasião da procissão secular, patrimônio imaterial. Mas o que vejo é que o povo quer facilidade e as décimas ao gosto popular, atrai mais os leitores esporádicos. Vejo que o povão quer o mastigado - tv, audio, música popular etc. Sou pessimista com relação ao leitor tradicional - parece estar em extinção. Não só no Brasil, que poucos teve, mais em países mais tradicionalmente ligados à leitura - a juventude é da lei do menor esforço. Sinto muito como pretenso escritor. Abraços cordiais. Laerte Tavares (blogspot -http://silolirico.blogspot.com.br/ )

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  3. Excelente tema Suzana! Também já li que as pessoas no Brasil não são tão leitoras como se dizem. Quase que a maioria faz parte daquele arsenal consumista daquilo a mídia empurra. O que faz muitos dos públicos adquirirem, não pelo conteúdo, mas pela marketing lançado. Quanto a aquisição sabe-se que no nosso país se fosse aproveitado 20 pgs de cada livro adquirido, principalmente nas escolas públicas, seríamos lideres na qualidade da educação no mundo, porque o gasto com tais matérias, todos sabem, já enriqueceu muitos autores.

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  4. Um aspecto central dos dias de hoje é que o lugar da literatura se tornou ainda mais periférico dentro da própria indústria cultural. A literatura é hoje mais uma opção de entretenimento, e das menos atrativas, a competir com as demais mídias culturais. Cinema, séries, games e mesmo o conteúdo narrativo/midiático das redes sociais, tornaram-se tão ou mais portáteis quanto os livros em seu formato clássico, e muito mais atraentes. Não se trata de um fenômeno exclusivamente brasileiro, como já observado no artigo e nos comentários, mas sim de um efeito da Globalização, de uma estratégia de atualização do próprio Capitalismo. Políticas públicas para a leitura necessariamente teriam que levar essa nova situação histórica em consideração e isso significaria ir muito além da instalação de computadores, internet e wifi nas escolas de periferia. Também sou pessimista em relação ao futuro da literatura tradicional, mas tenho alguma esperança em relação a possíveis adaptações às demandas por narrativas ficcionais resultantes das novas mídias.

    Em tempo, o fechamento da Cosac para mim é o exemplo supremo de que a elite econômica passa longe da elite intelectual no Brasil. A riqueza financeira no Brasil foi incapaz de sustentar um projeto editorial mais pretensioso.

    O mecenato, pelo estado ou privado, sempre foi fundamental para a sobrevivência de formas artísticas de menor consumo. Se existe dinheiro esclarecido neste país, é preciso ir buscá-lo para que projetos de resistência cultural possam se manter e viabilizar, mesmo sabendo-se de seu parco retorno financeiro, mas potencial retorno intangível.

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