quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Escrever no Brasil é se desdobrar

Escrever no Brasil é se desdobrar
por Alex Sens


Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?

O melhor. As feiras e festas literárias produzem não só o interesse pela leitura, mas a aproximação necessária entre autor e leitor. São eventos assim que acabam com o estigma da torre de marfim, que aproximam leitores, que fomentam interesses e criam mais canais de valorização da cultura, seja ela de massa ou não. A tecnologia pode vir bem associada a isso, basta usá-la da forma correta. Embora as feiras também possam assumir o papel do que chamo de “fertilizante de egos”, elas são extremamente necessárias e bem-vindas quando bem-organizadas e inclusivas.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?

As duas coisas já vêm acontecendo, muitas vezes juntas. Internacionalizar a literatura para criar um público leitor maior ou para atingir um público diferente não são as únicas opções. É preciso, antes, valorizar mais o material nacional e não compará-lo com o mercado estrangeiro. Toda cultura é única e sua literatura reflete muito isso. Exportar o livro brasileiro é dar voz, reconhecimento e valor ao trabalho do escritor nacional, não apenas uma estratégia comercial. Além de apresentar ao mundo um outro olhar, uma outra interpretação da vida.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?

Tudo isso, desde que bem-feito, desde que organizado. Mas é necessário também observar o conteúdo, não fomentar a leitura com mais do mesmo, não empurrar o que já foi requentado, mas criar uma receita nova e servir algo original.

Ler o quê? Como? Para quê?

Leitura é liberdade, não um cubo fechado. Ler sempre mais e arriscar, entregar-se ao desconhecido e não temer jamais um novo tipo de linguagem, uma nova cultura ou um novo gênero. Ler para expandir o próprio centro e descentralizar a própria história.

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea: um espaço de exclusão?

Talvez um espaço pouco explorado. As editoras e livrarias investem monstruosamente na literatura estrangeira. O contemporâneo literário é espelho de uma máquina de fazer dinheiro. É preciso incluir mais a literatura brasileira, colocá-la em destaque, discutir sobre o que ela fala, o que ela traz, o que revela, dar oportunidade aos novos, a quem não está nas “panelinhas”, nos círculos fechados. Abrir os círculos e fazê-los girar. No entanto, com novas formas de publicação, de propaganda, de distribuição, a exclusão tem sido dissolvida. Cada autor consegue a visibilidade que lhe é possível, mas consegue. O leitor também precisa agir, e isso acontece quando ele se interessa e lê. É preciso deixar a zona de conforto e descontruir o preconceito literário.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.

Escrever no Brasil é se desdobrar. Foi-se o tempo em que o escritor ficava em seu escritório, na companhia de um gato, vendo a chuva cair pela janela enquanto as palavras lhe saltavam da boca em brados musicais para a lapidação de uma frase perfeita. Foi-se o tempo da misantropia. Hoje se faz necessário o movimento, a agitação cultural, o envolvimento com o processo. Mas ainda prevalece — deve prevalecer como marcado a fogo — a escrita. Ela é sempre mais importante, ela sempre vem antes. O escritor que subestima a importância da escrita para se tornar celebridade não faz literatura, mas um espetáculo efêmero, cuja obra será esquecida e cujos aplausos não deixarão ecos.

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Alex Sens é escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. É autor do romance O frágil toque dos mutilados, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e semifinalista do Prêmio Oceanos 2016.

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