sábado, 3 de dezembro de 2016

A literatura é um exercício de alteridade

©Amanda Gracioli
A literatura é um exercício de alteridade
Por Natalia Borges Polesso

O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Não sei se é só comigo ou se isso é recorrente com outros escritores, mas eu me sinto muito distante de saber como funciona mesmo o mercado editorial. Pra mim é um mistério. Só posso falar como consumidora. Desconheço seu funcionamento, suas preferências, seus agentes, mas conheço alguns editores, lutadores que admiro e respeito muito. Gente que aposta e que faz um trabalho essencial. E dentro disso, o que noto é a proliferação de publicações e iniciativas.  O esforço dessas editoras pequenas e médias ecoa nas prateleiras, nos veículos de comunicação e em prêmios literários. Isso é algo pra celebrar. Tenho visto também, muitas iniciativas que correm paralelas ao mercado e acho salutar. Zines, edições caseiras, cartoneiras, literatura independente e de boa qualidade transbordando em feirinhas paralelas, festas, saraus, eventos em livrarias-resistências. Torço, portanto, pela diversificação. Mas essa só funciona, só pode ser vista e contabilizada se olharmos atentamente tanto o conjunto do mercado quanto os pequenos movimentos que correm em suas margens.

Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Quero a literatura espalhada em grandes e pequenas feiras e que essas recebam sempre atenção e que não se monopolize seu status. Toda feira ou festa literária é importante porque celebra a literatura, porque a aproxima do leitor. Quanto ao meu interesse pessoal, quero conhecer mais gente que escreve, quero saber mais sobre o que me interessa, quero curadorias pensantes para debates e eventos. Quero sim selfies e fotos e todo tipo de registro, porque isso é possível apenas agora e qual é o problema?  Quero livros e mais livros e poesia falada e slams e repentes. Quero histórias dos outros, minhas, tuas, nossas circulando pelo mundo pra que ele seja menos monotemático, menos careta, menos triste, menos injusto.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Depende do aparato que se tem disponível em termos práticos de divulgação. Isso precisa ser pensado de maneira que o personagem principal, o livro, esteja no centro dessa lógica. Que ele circule e consiga cumprir sua função no mundo. Além disso, é preciso que se discuta de qual maneira o autor será mais valorizado. A gente quer viver de literatura, se dedicar a ela, seja com ficção, poesia ou pesquisa, mas tá difícil, hein.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Os dois. Seria maravilhoso haver uma maior interação desses dois mundos que, às vezes, se distanciam tanto. Tenho dois livros publicados via edital de fomento à cultura (Financiarte), não sei se eu teria conseguido publicar sem a ajuda do edital. Debater sobre políticas públicas, torná-las mais visíveis, ensinar mesmo – didaticamente – como escrever um projeto, como se inscrever num edital, parece bobo, mas não é. Um monte de gente vem me perguntar como se faz. Aí entra também a figura do produtor cultural, uma figura relativamente nova no campo, mas essencial para este tipo de interação. Acho que precisamos aprender a aproveitar mais os editais para realizar saraus, oficinas, residências, ciclos de bate-papos, há uma infinidade de projetos possíveis.



Ler o quê? como? Para quê?
Ler de tudo. Em papel, e-book, blog, risco de carvão. Cada um sabe o seu “pra quê?”

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea: um espaço de exclusão?
Esta é uma questão difícil, tem a ver com o modo de olhar o mundo e o lugar de onde olhamos o mundo. Por isso é muito importante ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura, tanto a produção quanto a leitura, é um exercício de alteridade. Escrever é tentar engendrar um ponto de vista. Ler é entrar na experiência dos personagens e narradores, ou mesmo na experiência estética da poesia. Ou seja, teríamos tudo para que a literatura contemporânea brasileira não fosse um espaço de exclusão. Mas há mecanismos que extrapolam o prazer do exercício da leitura. Aí é que precisamos estar atentos (e fortes). E é aí que precisamos dar crédito a pesquisas como as da professora Regina Dalcastagnè, que divulga uma miríade de escritores e pesquisadores, ou jornalistas como a Priscila Pasko, que toca o blog Veredas, dedicado a escritoras.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Começo a tentar elaborar uma resposta como quem monta um quebra-cabeça: todo intelectual é um agitador, mas nem todo agitador é um intelectual, nem todo profissional das letras é um intelectual, mas todo profissional das letras causa certa agitação no campo da compreensão humana, nem todo agitador é um profissional das letras, isso é, por vezes, um problema, porque a agitação se perde na incapacidade de comunicação, a comunicação não é item exclusivo do escritor, nem do agitador, nem do profissional das letras, aliás, essa é a chave: capacidade de comunicar. Então, que bicho é esse autor? Para ousar uns rabiscos a cerca do assunto, posso falar de uma experiência pessoal que, além de me envolver, envolve meu grupo de amigos físicos e virtuais, por assim dizer. Confesso que essa é uma zona desfocada da imagem da minha pessoa a da dos meus amigos-autores. Sou uma agitadora das letras, escrevo e questiono. Tento no meu pequeno ambiente, nesta cidade do interior que se pensa maior do que realmente é, criar um pequeno caos poético. Tento expressar a minha tentativa de compreensão criando uns eventos e participando de outros, dentro do que me permite a vida de doutoranda-profissional-das-letras-na-academia, e nesses eventos realmente discutir qual é o nosso papel no cenário. Não chegamos a muitas conclusões ainda, mas o debate é sempre excitante (e necessário).

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente
Acho que o espaço da literatura é um espaço de fricção. Tem que causar atrito, pequenas rupturas.

Xxx


Natalia Borges Polesso é escritora e tem participação em diversas antologias nacionais e internacionais, sendo a mais recente Olhar Paris, lançada em 2016, pela editora Nós. Em 2013, publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (contos), vencedor do prêmio Açorianos de Literatura e em 2015 publicou Coração a corda (poesia) e Amora (contos), vencedor dos prêmios AGEs, Açorianos e de dois Jabutis - melhor livro de contos e escolha do leitor 2016. A autora é formada em Letras (UCS), tem mestrado em Letras, Cultura e Regionalidade (UCS) e atualmente é doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS. Participou da 2° edição do Printemps Littéraire Brésilien.



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