quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Vejo a língua como o maior limite


Vejo a língua como o maior limite

Por Jacques Fux

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
Sempre me questiono em relação ao mercado editorial contemporâneo: qual o sentido de continuar publicando ‘altas literaturas’? As vendas são poucas, muito poucas, enquanto a venda dos livros de youtubers, instagrammers e outras celebridades é gigantesca. Claro que acredito na literatura de qualidade, no amor pelo conhecimento e pelas letras, mas o mercado é cruel. A crise, tanto econômica quanto literária, está grave, e só aumentando. Então, como conciliar isso? Como buscar alternativas para que a literatura brasileira contemporânea não seja esquecida? Como escritor, penso dia e noite em como divulgar e vender meus livros. Acho que eles poderiam ser lidos por muitos, e por isso busco formas diferentes e contemporâneas para alcançar esses milhões de leitores (que leem os youtubers e instagrammers) por aí. Ainda tenho que fé que eles possam se interessar pela Literatura.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Espero que as festas e feiras literárias continuem existindo! Elas são importantes para motivar o público a conhecer os livros dos autores que participam desses eventos. Claro, muitos vão assistir as mesas das celebridades e best-sellers, mas eles podem acabar esbarrando em algum autor, descobrindo algum outro livro, se apaixonando por alguma obra. O autor tem que fazer um trabalho de formiguinha, tem que despertar o interesse pelo seu trabalho em cada um dos leitores que encontra. É uma guerra constante e, nessas feiras, temos que ir para a batalha!

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Ainda não tive nenhum livro traduzido e publicado no exterior (apesar de já ter minhas obras estudadas no curso de mestrado e doutorado em literatura da Boston University, e de ter uma dissertação escrita na Alemanha sobre meu primeiro livro), mas sonho com isso. Claro, traduzir é só um começo de um longo caminho e de outra guerra. Acho interessante a internacionalização, a quebra de fronteiras, e acho que todos temos que lutar para conhecer o maior número de escritores possíveis. 

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Acho interessante os dois. São formas de atingir o público leitor! De buscar um por um. De lutar pela leitura e pelos livros. Cada livro que vendo, cada comentário que leio, cada novo leitor é preciosíssimo! 

Ler o quê? como? Para quê?
Ler literatura! Ler os antigos, os clássicos, os contemporâneos. Ler para compreender o mundo, as pessoas, os sentimentos, as angústias, os medos, os diferentes povos e culturas. Ler para se encantar, para se desiludir, para rir, chorar, para ler mais e mais, e sempre. Para se perder nas páginas infinitas das grandes obras, e também das obras esquecidas, das nunca lidas, das nunca imaginadas. Ler para continuar lendo, para passar o tempo, para criar tempo, para inventariar o mundo, para ser leve, rápido, exato, visível, múltiplo, consistente... e também para não ser nada disso.

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Não. Um espaço de inclusão. Inclusão de novas vozes, de novas mídias, de novos gêneros, anseios, sonhos. Há muita gente escrevendo em redes sociais. Muitos tentando publicar. E vamos todos seguindo nessa luta!

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Acho que o escritor tem que ser tudo hoje em dia. Tem que escrever, escrever bem, trabalhar muito na busca pela palavra correta, pela música perfeita, pelo olhar distinto. Depois que o livro for publicado, ele não pode mais viver naquele romantismo de esperar que o livro ‘vingue’ sozinho. Que alguém o leia e que o descubra. Estatisticamente é muito improvável que isso aconteça. São milhões de livros publicados. Então, acho que o autor tem que se dedicar a mostrar as qualidades de seus livros. Ele tem que ser um acrobata, um artista, um comediante, um erudito, um intelectual, um agitador, e também um maldito!

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Gostei do termo ‘fricção’. Não sei se queria dizer ‘ficção’, ou ‘fricção’ mesmo. Brinco que meu romance Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor, que muitos o classificam como ‘autoficção’, seria na verdade uma ‘autofricção’!
Acho que os desafios são muitos. Vender, ser lido, escrever com cada vez mais qualidade literária. E mesmo com todo empenho, dedicação, amor e paixão, há o imponderável. O contingente. O fator sorte. Mas, mesmo assim, temos que tentar.
Limites: vejo a língua como o maior limite. Se eu pudesse escrever literatura em outra língua, talvez pudesse tentar novos horizontes, novos concursos, novas editoras. Impossibilitado, aguardo pelas traduções que são caras e difíceis de conseguir. Mais uma guerra!

Xxx



Jacques Fux é formado em Matemática, mestre em Ciência da Computação e doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Université de Lille 3. Em 2012 ganhou o Prêmio Capes pela melhor tese do Brasil em Letras/Linguística. Já viveu em Israel, França, Argentina e Estados Unidos. Foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 com seu primeiro romance, Antiterapias.



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