terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sou movido pelo recolhimento e pela agitação

Sou movido pelo recolhimento e pela agitação

Por Michel Yakini

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Pelo que acompanhei da Flip e da Bienal de SP em 2016, esses eventos foram marcados pela contestação, pois são festividades que não contemplam a diversidade literária do país e que se renderam facilmente ao fenômeno dos youtubers e suas selfies. Porém isso não me surpreendeu, porque essas feiras e bienais são pautadas pelo mercado, ou seja, pelo que está sendo mais vendido e/ou representa a hegemonia da arte literária. O que me preocupa é a tendência de que mais vale uma foto em alta resolução do que um texto bem escrito, já que isso convence muitos pseudo-leitores e tem sido o lema de muitos escritores também pra não ser invisível.
Por outro lado, sinto que respiro com as feiras que surgiram por caminhos alternativos, como a Felizs (Feira Literária da Zona Sul) organizada pelo Sarau do Binho e a Flict (Feira Literária da Cidade Tiradentes), que são realizadas nas periferias de São Paulo, mas que apresentam uma programação extensa de discussões e espetáculos com base na promoção do livro e da leitura, mesclando nomes conhecidos com autorias mais jovens sem apelar pras "ondas do momento" e que tem atraído um bom público, fortalecido os editoriais independentes e trançado de forma coerente as encruzilhadas entre escrita, leitura e poesia falada.



Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Uma ação não exclui a outra, pelo contrário. Os saraus em São Paulo, por exemplo, surgiram pela ausência de politicas de incentivo a leitura e produção cultural nas quebradas da cidade e depois que se tornaram reconhecidos surgiram programas e leis de incentivo direcionadas a esse segmento. Até porque, os saraus literários antecipam várias metas do Plano Nacional de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, como: incentivo a leitura, promoção da arte literária, acesso a publicações, ou seja, realizam há anos aquilo que a principal politica pública voltada a literatura no país não conseguiu colocar em prática.

Ler o quê? como? Para quê?
Quando começamos a organizar o Sarau Elo da Corrente, em Pirituba, disponibilizamos alguns livros para empréstimos em uma estante no bar do Santista, onde acontece o sarau, a comunidade começou a fazer doações para a estante e nem todos os livros que chegaram eram do nosso apreço. Algumas pessoas começaram a ler os livros de auto-ajuda que chegaram por doação, por exemplo, e aí conversamos se os livros deviam ser retirados da estante ou não e chegamos a conclusão que não, porque o mais importante era que as pessoas estavam lendo, que encontravam no bar tanto os livros canônicos, os de publicação independente, como os best-sellers e lendo qualquer um já estava fazendo valer nossa intenção de incentivo a leitura e de participação comunitária, seja doando ou emprestando um livro. Outro efeito é que a mesma pessoa que lia os livros de auto-ajuda, lia de tudo um pouco, porque também queria ler o livro do autor do bairro ou de um clássico que ouviu alguém recitar no sarau.




Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Me sinto um profissional das letras, porque sou editor, revisor e organizo um selo editorial, sou agitador porque faço e participo atividades literárias com frequência e intelectual porque estudo, escrevo e comento livros, assuntos do cotidiano e da crítica literária. Uma ação trançada com a outra, pois se não organizasse um selo editorial, provavelmente não teria publicado nenhum livro, se não fizesse e participasse de atividades literárias meu trabalho e dos autores que publicamos não seria distribuído em nenhum lugar. Sinto prazer e quero continuar fazendo tudo isso, mas sei o quanto essa entrega em várias facetas da literatura faz com que eu não consiga me dedicar de forma mais exclusiva a leitura e escrita, mas se eu só ler e escrever fico invisível.
Nos últimos anos me dediquei a escrever um romance e sei o quanto essa entrega me prejudicou a ponto de ficar brigando com o tempo para terminar a obra. Não havia condições financeiras e nem de contexto para que eu ficasse exclusivamente escrevendo como fazem muitos romancistas, que se refugiam em um lugar fora do seu cotidiano, são acompanhados por um agente literário e depois tem um plano de publicação e divulgação do seu livro. Ao mesmo tempo não quero ser esse tipo de escritor que não tem contato com o seu potencial leitor, que não vive e não respira a narrativa da vida, creio que pode haver um equilíbrio, pois minha produção literária é movida tanto pelo recolhimento como pela agitação.

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Michel Yakini é escritor e produtor cultural, atuante no movimento de literatura das periferias de São Paulo e colunista da revista Palavra Comum (Galícia – Espanha) e do Jornal Brasil de Fato. Participou de atividades literárias  em Cuba, Argentina, México, França, Alemanha, Espanha, Chile e Paraguai. Desenvolve formações, cursos, oficinas, palestras nas áreas de literatura e apresenta recitais de poesia. Publicou Desencontros (contos, 2007), Acorde um verso (poesia, 2012) e Crônicas de um Peladeiro (crônicas, 2014). Atualmente prepara a publicação de seu primeiro romance, ainda sem editora.

2 comentários:

  1. Que legal Michel akini. É bom ver pessoas engajadas nesse ofício de escrever e levar a palavra pelos saraus e afins. (parabéns) Eu sou poeta de gaveta e fiz um blog há pouco, quando puder, dá uma espiada lá.

    abelgoncalvespoeta.blogspot.com.br

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    1. Salve Abel, satisfação por ler e comentar, vou visitar seu blog ... Poesia sempre!

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