quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Procuram-se leitores!



Procuram-se leitores!

Escritor busca pessoas interessadas em ler seu último livro.
Dispensa-se aventureiros de redes sociais.
Quero relacionamento sério.

Por Javier Arancibia Contreras

A brincadeira acima em tom de anúncio de jornal é só uma maneira de tentar deixar a discussão sobre a leitura no Brasil mais leve e menos modorrenta. Muitas vezes essa barreira sisuda que se faz na literatura, em geral, atrapalha o relacionamento com o leitor.

É um paradoxo. Ao mesmo tempo em que atualmente vemos acontecer o extremo oposto com web celebridades e seus milhões de seguidores assumindo os postos dos escritores na lista dos mais vendidos com a transcrição em livro do que é dito por eles na internet, dificultar o debate numa retórica de chá da tarde do clube dos intelectuais não parece ser a melhor forma de ajudar o Brasil – um país de números medíocres em quase tudo  -  a sair do fundo do poço numa questão que é a pedra fundamental para o avanço de uma sociedade: a leitura (de todos os tipos, formatos e gêneros).

Isso me leva às questões propostas pelo blog para este texto:
Ler o quê? Como? Para quê?

À parte de nossos eternos problemas sociais e econômicos que transformam as pautas Educação e Cultura em infinitas utopias, acho que a questão é mais dura do que imaginamos: parece mesmo que não gostamos mais de ler livros ou, sendo otimista, diversificamos nosso olhar com as novas tecnologias e, com isso, estamos lendo menos.

Todas as pesquisas nos últimos anos apontam que não conseguimos formar uma porcentagem desejável de leitores, mesmo que o acesso aos livros hoje seja muito melhor que num passado recente. Mas também não é só isso. Aparentemente, muitos leitores de outrora se adaptaram aos novos tempos. Outro dia, um amigo, inteligente, politizado, antenado culturalmente, disse que não lia um livro fazia tempo. Quanto?, eu perguntei. Uns dois ou três anos, respondeu e se justificou: hoje em dia tem muito estímulo: internet, netflix, redes sociais. Jornais, revistas, artigos científicos e livros, então, nem pensar. Esses canais parecem começar a se transformar em coisas do passado.

Esse é um ponto fundamental na discussão. Excesso de plataformas de informação “mastigada” estariam nos deixando preguiçosos? Nesse mundo veloz, dinâmico e minimalista no qual um texto com três parágrafos é chamado de “textão” na internet, há espaço para narrativas longas? A primeira coisa que vem à mente é: não, não tem espaço. Mas como é que então um sujeito consegue acompanhar por seis anos ou mais séries norte-americanas de sucesso? Pior: esperar um ano ansioso pela próxima temporada? E o fenômeno Game of Thrones que, antes do sucesso na TV, foi best-seller nas livrarias do mundo todo, mesmo com aquelas calhamaços intimidadores de cerca de mil páginas cada? Outro paradoxo? A dúvida é: os aficionados pela saga estarão esperando mais o novo livro (prometido há três ou quatro anos e atrasado devido ao comprometimento do autor com a série que já ultrapassou a história no livro) ou a nova temporada? Tenho minhas dúvidas. Talvez estejamos realmente migrando para uma era de ouro da imagem e não das palavras, mesmo que sejam as palavras as responsáveis por gerar as imagens. É como dizer: ok, ainda gostamos de histórias, mas facilitem a nossa vida. Entretanto não quero teorizar sobre isso. Só levantar a questão.

Outro fato diz respeito aos que não foram atingidos pela necessidade de aprender, pelo prazer da descoberta e pela construção do seu próprio saber. A verdade é que se não temos uma base sólida de leitura e informação desde o início de nossa formação intelectual, limita-se a capacidade de interagir e argumentar. Essa parcela de pessoas que não sabe a diferença entre “mas” e “mais” está sendo educada com a leitura de mensagens de whatsap e posts do facebook. Nessa nova era virtual somos todos cientistas, analistas políticos, críticos ferozes da sociedade, sabedores de tudo um pouco ao simples passar de olhos pelas redes sociais. E sem ler nenhum livro ou artigo específico sobre qualquer assunto.

Outros, por imposição da mídia, da moda e por um status no círculo de amizades, acabarão comprando um livro ou outro, o que é bom para movimentar o mercado. Ontem, por exemplo, estavam colorindo desenhos, lendo narrativas pornô-soft e hoje estão lendo livros de youtubers e influenciadores digitais (li essa denominação tosca na minibiografia de uma orelha de um livro desses). Nada contra a internet e sua fantástica capacidade de informação. Tudo contra essa banalização do livro pelo mercado editorial que, diga-se, precisa sobreviver. Mas a que custo? Hoje têm surgido “escritores” na esteira do número de seguidores que eles têm na internet. Faça as contas: se o sujeito tem, sei lá, 50 mil seguidores e 20% deles comprarem o livro, ele já será um best-seller brasileiro. Rubem Fonseca e J.D. Salinger, hoje, estariam ferrados.

Tudo isso para dizer que, antes de qualquer coisa, amigo, ler é bom demais. Livro é arte. Livro é jornalismo. Livro é história. Livro é fantasia. Ou tudo isso junto e misturado. E não adianta falar que livro é caro e que não tem tempo. Isso já virou clichê do clichê. Bibliotecas, sebos e livrarias ainda estão aí. Você pode ler os maiores clássicos da literatura de graça na internet. Tudo domínio público. E tem o ônibus, o metrô e a cama antes de dormir, os melhores lugares para ler para quem usa a desculpa do tempo. Largue esse smartphone, se socialize menos nas redes e curta seu mundo particular. Como os próprios livros. Um depende do outro. Um livro não se faz sem um leitor e vice-versa.

XXX



De origem chilena, Javier Arancibia Contreras nasceu no Brasil em 1976. Ex-repórter policial, escreveu o livro-reportagem Plínio Marcos – a crônica dos que não têm voz (Boitempo, 2002) e os romances Imóbile (7letras, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e O dia em que eu deveria ter morrido (Terceiro Nome, 2010). Em 2012, foi escolhido pela revista inglesa Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. O original de Soy loco por ti, América (Companhia das Letras, 2016) foi um dos cinco finalistas do Prêmio Internacional Leya, no qual concorreu com 361 livros de catorze países.



3 comentários:

  1. Parabéns amigo Javier Contreras, seu texto revela o panorama da literatura fast food. Fico feliz por ter em casa uma adolescente que lê (e muito). Hábito que procuro incentivar sempre.
    Parabéns pelos livros. Bom ver um ex-colega de redação fazendo sucesso como escritor.
    Um abraço,
    Nilton Valentim

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  2. Soco no estômago da mediocridade! Texto iluminado!

    Luiz Carlos Freitas

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