segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O que fica quando uma festa acaba?

O que fica quando uma festa acaba?

Por Rafael Gallo

Passei muito tempo olhando para as perguntas do questionário, pensando no que poderia responder. Escrevi, apaguei e reescrevi meus pensamentos várias vezes, percebendo, inclusive, que eles se alteravam sensivelmente conforme o dia. Acho que, dado o estado das coisas, qualquer escritor brasileiro atual que leve a sério seu trabalho - e o cenário no qual ele se insere - já refletiu muitas vezes sobre esses mesmos temas. Mais do que isso, já deve ter variado bastante dentro do espectro de sentimentos que essas questões suscitam. Em alguns dias estamos mais otimistas, olhando para as flores que rompem o asfalto; em outros, acordamos com o espírito punk-adorniano atacado, achando tudo um horror, uma grande fábrica de mentiras mercantilistas que precisa ser combatida.

Um exemplo, entre as questões colocadas: a literatura brasileira contemporânea é um espaço de exclusão? Poderia dizer que em certo grau sim, porque todos os espaços são, de alguma forma, de exclusão. E talvez poderíamos aqui focar no número de autores que não recebem atenção, nos muitos que não tiveram oportunidade de se fazerem conhecidos (e nós não tivemos oportunidade de conhecê-los, o que pode ser mais triste), nas dezenas de escritores do nível, talvez, de um Rubem Fonseca, dos quais nunca saberemos nada, sequer a existência. Dos muitos perfis que perdem representação, como os negros, os indígenas, os habitantes de regiões chamadas periféricas, etc. etc., porque não correspondem aos padrões da moda, do mercado. Por outro lado, e se não existisse esse mercado? Nenhuma dessas feiras e festas? Nenhuma das políticas públicas, dos incentivos à literatura? Nenhum dos saraus ou dos concursos literários? Nenhuma editora como grande negócio, que possibilite certos trânsitos? Por certo, a exclusão seria ainda maior (perderíamos até os autores que estão no mainstream e fazem algo interessante), o mundo seria um lugar ainda menos agradável e esperançoso. Eis o lado mais otimista, vendo que o copo não está cheio nem pela metade, mas tem algo ali, ao menos. E que, sim, tantos as políticas públicas quanto as editoras comerciais, tanto os saraus nas ruas quanto as grandes festas literárias têm seu valor.


Por outro lado, claro que, especialmente no caso dos ambientes mais mercadológicos, me assusta a ideia de substituição. Ou seja, ao usarmos sempre o discurso de que as festas, bienais, os best-sellers, as selfies e o interesse pela pessoa do escritor (não pelo livro necessariamente) permitem um mínimo de circulação da literatura, é preciso estar atento para o fato de que essas coisas - justamente elas que em tese disseminam a literatura – podem ter como efeito colateral a supervalorização dos elementos periféricos ao livro, ao ponto de eles dominarem o centro e deixarem o livro de fora. Uma total inversão de valores. Quando uma pessoa vai a um evento, simpatiza com o escritor – por tê-lo visto falar coisas bonitinhas/engraçadas/comoventes em uma hora e meia – e compra seu livro, estamos ganhando mesmo um leitor? Essa pessoa vai mesmo ler o livro do autor que o autografou para ela? Que fez a selfie junto? Ou será que esse conjunto de experiências – ver o bate-papo, comprar o livro, pegar um autógrafo e tirar uma selfie com o autor – já não proporciona ao consumidor a sensação de ter tido a experiência completa? De ser isso o que significa participar da literatura? Se tendo feito tudo isso, ele já é um leitor (e privilegiado, afinal teve contato pessoalmente com o autor), então ele já não precisa fazer mais nada, sequer... ler o livro. Como disse Clarice Lispector, o problema da mentira é que ela cria uma nova verdade em seu lugar.

Sei que, além disso tudo, há milhões de questões que dificultam o hábito da leitura no Brasil. Somos uma cultura com sérios problemas educacionais sob nossos pés e um sol tropical sobre nossas cabeças. Entre esse céu e essa terra, há muito mais do que poderia dizer minha vã filosofia. E então, o que fazer, diante de tantos problemas? Às vezes eu penso que poderíamos, talvez, em vez de culpar a tudo e a todos, em vez de usar a carta do “problema educacional” como condição incontornável (e nos paralisar diante disso), também pensar em pequenas coisas que possibilitem pequenas mudanças. Penso, por exemplo, na nossa própria responsabilidade como escritores e agentes do livro. Será que estamos mesmo trabalhando duro, para produzir uma literatura capaz de convencer leitores por sua própria qualidade? Será que estamos nos esforçando para disseminar o hábito da leitura? Ou estamos simplesmente levando as coisas meio em espírito de brincadeira, conforme o que for prazeroso para nós mesmos? Estamos mesmo tentando incentivar a leitura ou apenas passeando, deslumbrados com nosso próprio “sucesso”? 

Como faço a mediação de clubes de leitura, dou oficinas e faço palestras com uma certa frequência, eu percebo algo muito facilmente: se você dá livros bons para as pessoas lerem, elas aderem. Elas passam a gostar daquilo, porque é bom, porque foi apresentado de maneira adequada. É impressionante ver como a maioria, ainda que leitores “treinados”, não conhecem quase nada da literatura brasileira atual. Mas quando conhecem certos livros, se apaixonam, vão atrás de ler outras obras do mesmo autor. A ponte funciona. Se for bem construída, ela funciona. Então, por que não conseguimos fazer essas pontes com mais pessoas? Talvez começar a pensar nisso, tentar resolver melhor essa equação, seja um caminho. Apresentar bons livros para leitores, em um canal mais próximo, em vez de querer, por exemplo, transformar tudo em uma grande festa para o nosso clubinho de amigos.
Porque o Brasil tem uma espécie de sina, sempre repetida: ao longo da história, por um motivo ou outro, em determinados períodos temos um governo que ajuda a financiar certos aspectos da cultura, com alguma abundância. Mas aí a euforia toma conta, e deixamos de pensar em construir estruturas mais perenes, para simplesmente transformarmos tudo em um parquinho de diversões para os protagonistas. O que acontece poucos anos depois? Algum outro governo assume, e, por um motivo ou outro, decide que é melhor cortar esses financiamentos (afinal de contas, eles não deram muitos frutos, aparentemente, além de festejos para alguns).

E agora, José, a festa parece estar acabando. Mais uma vez. O pior é pensar que não aprendemos muita coisa. Afinal, acabamos de ter mais de 10 anos de bonança, e o que fizemos com isso? Criamos leitores? Criamos espaços e hábitos de leitura mais consistentes? Os índices mostram que não. Criamos, em grande parte, uma legião de escritores jovens, brancos, classe média, modelo exportação, fenômenos da internet. Temos mais escritores do que leitores, mais gente em cima do palco do que fora dele. De que nos serve isso? Acho que enquanto não aprendermos que precisamos construir relações mais sólidas entre possíveis leitores e os livros, vamos nos manter repetindo esses ciclos bipolares. Escrever bons livros, encorajar leituras que sejam estimulantes, ter relações mais honestas com os leitores, sermos menos egocentrados: acho que tudo isso pode ser um ponto de partida, para que a coisa fique melhor para todos. Para que nos tornemos mais do que essa festa que sempre acaba. Afinal, o que fica quando uma festa acaba?

XXX


Rafael Gallo é paulista, autor de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti, ambos na categoria Contos. Em 2015 lançou Rebentar, seu primeiro romance, também pela Editora Record, livro vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2016. Tem ainda contos publicados em diversas revistas e antologias, como a Desassossego (Ed. Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (Ed. Biblioteca Nacional, 2012), que publicou tradução do conto “Réveillon” para o espanhol.



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