domingo, 20 de novembro de 2016

O mercado editorial, antes de ser “editorial” é mercado

O mercado editorial, antes de ser “editorial” é mercado

Por Antonio Salvador


O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
O mercado editorial, antes de ser “editorial” é mercado. Seria ingênuo esperar do mercado aquilo que ele não se propõe a oferecer: ações humanizantes. Desse modo, diversificação é palavra que definitivamente passa longe das vontades do mercado. O mercado quer o produto que dá certo, isto é, o que vende. Esse produto será produzido e pasteurizado à exaustão, com nomes e etiquetas diferentes, mas, essencialmente, é o mesmo produto. O resto é mero curto-circuito.


Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Quanto às feiras, o que se percebe é muita gritaria, atropelo, vendedores simpáticos oferecendo peixe estragado, gente fuçando uma montanha de maçãs, na esperança de encontrar uma que preste... Nas festas, como não poderia deixar de ser, cordialidade premeditada, embriaguez, alguma coisinha para comer, mas que não necessariamente sacia, fumaça, muita fumaça, e torpor. Esse é o futuro de qualquer feira e de qualquer festa.


Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Tentativas de internacionalização da literatura brasileira houve diversas. A Feira de Frankfurt de 2013, em que o Brasil foi homenageado, é dos exemplos mais recentes. Eu estive lá e considero que o evento, combinado com as bolsas de tradução da Biblioteca Nacional, foram importantes para a inserção de uma parcela da literatura brasileira contemporânea no mercado internacional. Nada disso, porém, pode ser chamado propriamente de “internacionalização”; também não é um fracasso total - há, no mínimo, maior comercialização de direitos autorais.
Mas se quisermos mesmo pensar os rumos da internacionalização da literatura brasileira, ela não tem ocorrido no âmbito dessas feiras de negócios. Há movimentos recentes mais eficazes, cujo sumidouro são os próprios artistas e intelectuais do setor. A Primavera Literária Brasileira (Printemps Littéraire Brésilien), por exemplo, nascida em Paris e expandida para diversas cidades da Europa, tem se consolidado como o maior evento literário brasileiro fora do Brasil e, sem dúvida, o mais importante. Circulam livros, autores, leitores, a língua portuguesa circula. A iniciativas como essa, em que a literatura pulsa por si mesma, sem a participação de atravessadores comerciais, dá-se genuinamente o nome de internacionalização.


Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Ambas devem coexistir e de maneira alguma são excludentes entre si. As ações propaladas pelo Estado brasileiro (políticas públicas) e pela sociedade civil (saraus literários) combinam-se muito bem. É um equívoco considerar que o Estado deva concentrar o monopólio dos canais de expressão da literatura. O Estado não é nem deve ser encorajado a usurpar o espaço do fazer cultural como se fosse centro nevrálgico desse fazer. Mais uma vez, cito a Primavera Literária como pulsão orgânica da sociedade civil que tem engendrado não só a internacionalização da literatura brasileira, mas, por meios indiretos, uma espécie de política para apoio à leitura – eventos como a Primavera são, por excelência, movimentos políticos.


Ler o quê? como? Para quê?
Grande parte dos autores contemporâneos aprendeu a repetir a máxima de que a literatura não serve para nada ou não tem obrigação de servir para algo. Eu me oponho frontalmente a essa ideia. A literatura, assim como as demais formas de expressão artística, tem um papel crucial na transformação da pessoa humana e, consequentemente, da sociedade. Evidente que a literatura não ocupa mais o espaço que ocupou no século XIX, mas essa derrocada não tem relação com a palavra, e sim com o aparecimento de outras formas de mídia, das quais o livro é uma das mais antigas. Desse modo, o livro, o texto e, antes, a palavra como canal de implosão da ordem posta continuam e continuarão tendo impacto social. É para isso que se lê; “como” e “o quê”, parece-me, decorrem diretamente do “para quê”.


Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea: um espaço de exclusão?
A literatura não é espaço de exclusão nem de inclusão. Vejo a literatura como o espaço da iconoclastia, da ruptura de paradigmas, da transcendência do sabido e consabido. Claro que é compreensível e até legítimo esperar do texto literário certa democratização, no sentido de conferir voz e representatividade ao todo da sociedade, mas essa é uma expectativa posterior e alheia ao fazer artístico, à qual o autor não deve se curvar. Ao autor (comprometido com o fazer artístico) compete ver, ouvir e imaginar apenas e tão-somente para importunar, desestabilizar.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Eu sou um autor e um intelectual. Os outros bichos ficam nas jaulas vizinhas. Nós não nos misturamos.


Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
É indiscutível que o consenso tem sobrepujado a fricção. Na literatura contemporânea, o limite é a não-literatura travestida de literatura; o desafio é alocar cada qual em seu devido lugar. Já o desafio da literatura contemporânea é o de sempre: superar-se; seu limite: render-se perante o desafio.

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Antonio Salvador é autor de A Condessa de Picaçurova, vencedor do 17o. Prêmio Nascente de Literatura, concedido pela USP, além de finalista do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, em 2012, e do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013. É autor do livro ensaístico Três Vinténs para a Cultura, publicado em 2014. Co-roteirista do documentário CtrlV – Video Control, lançado em 2011, acerca o impacto da indústria hollywoodiana sobre a produção audiovisual dos países periféricos. Participou da coordenação de institutos internacionais, como o DiverCult, desenvolvido na Espanha, e é membro-fundador da RAIA – Rede Audiovisual Ibero-Americana. Autor do espetáculo teatral Experimento com bola de demolição sobre objetos de uso diário, com encenação do Coletivo de Areia, que circulou pelo Estado de São Paulo em 2016 e tem reestreia prevista para 2017. Paralelamente, dedica-se à carreira acadêmica na Humboldt-Universität zu Berlin. Mora em Berlim. Homem-Número, seu segundo romance, será publicado em 2017.

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