sábado, 5 de novembro de 2016

Literatura brasileira hoje e mundo em desordem

Literatura brasileira hoje e mundo em desordem

Godofredo de Oliveira Neto

A primeira coisa a ser considerada é que o prazer estético não constitui o  único prazer trazido pela obra de arte. A busca de um sentido perdido provoca a criatividade. E vai haver uma sinergia inevitável entre o autor e o leitor. O escritor busca a autonomia  do seu texto, sim, mas num diálogo - nem sempre exitoso -  com a sociedade. Daí a procura de leitores via grandes  editoras,  mídia, feiras  e por aí afora. Na medida em que se vive uma civilização do caos e do improvável, a literatura luta por uma ordem desordenando ainda mais esse caos. É a sua paradoxal resistência ao caótico. A centena de jovens escritores e a centena de novas editoras, movimento potencializado por também centenas de feiras literárias explicam isso, particularmente no Brasil, onde a improvisação e a desordem estão muito presentes. O processo de globalização ocorrido, metonimicamente, com a queda do muro de Berlim, vai expor as entranhas da relação do ávido escritor com a arte e com o mercado livreiro. O processo de mundialização e o consequente desejo de enfraquecimento das linhas demarcatórias  entre os países, trazendo a reboque a debilitação do conceito de identidade, e a aplaudida (por muitos, não por mim) vitória do sujeito, acabam por se manifestar no processo narrativo (escrevi posfácio nessa direção no livro " O Pós- Pós Moderno"), na conceituação do chamado Pós-Modernismo. Aspectos que evidenciam essa mudança  são, entre outros, o esmaecimento dos traços fronteiriços entre os gêneros literários, as escritas de si, o surgimento do conceito de economia do livro, com capas chamativas, e a superexposição do autor como parceiro fundamental para a venda da obra-objeto. Tal ficção passou a ganhar notoriedade a partir dos anos 90 no Brasil ao usufruir das diversas ferramentas de publicação e de divulgação na web.  Deu-se, então,  uma dessacralização da literatura. A fixação do conceito de  categorias literárias, que trouxera autonomia à arte literária, definha e perde nitidez, junto com o conceito de modelos canônicos. Fala-se de literatura pós-autônomas ( Florencia Garramuño ). Clarice Lispector, prenunciando com genialidade o pós-modernismo na literatura brasileira, já refletia, em Água Viva , sobre essa questão do definhamento das fronteiras entre os gêneros- " Tentei classificar o livro: notas? pensamentos? Fragmentos autobiográficos? Cheguei à conclusão que é tudo isso junto". Reflexões de Clarice que vão  prefaciar dezenas de romances brasileiros dos anos 80. Essa dessacralização da literatura, às vezes algo cabotina, também teve o apoio de Ana Cristina César, uma das poetas mais emblemáticas dos anos 70/80: " A literatura ficou associada a uma coisa que te dá prestígio, a um artifício para você conquistar pessoas(...) acho isso ridículo". A cena  literária passa  a se caracterizar por uma massificação de escritores, pela  democratização criativa usada e abusada por todos, com diversidade de escrituras ( o que é genial e digno de aplausos), mas pela consolidação do individiualismo, pelo umbiguismo autobiográfico, e pelo descaso, às vezes absoluto, com a tradição - " não preciso ler poetas do passado para ser poeta", ouvia-se pelos corredores das universidades e em alguns encontros literários. A classe média, a urbe e os fragmentos comunitários da cidade devoradora são escolhidos como temas e as ansiedades individuais trazidas à frente da cena. O roteiro cinematográfico também sai fortalecido A violência e a competição desenfreada são moedas correntes. Mas houve, sim,  uma abertura sadia para mais segmentos sociais e para novos experimentos de linguagem e de estilo. Contudo, alguns acontecimentos parecem confluir para uma mudança radical do ponto de vista de homens e mulheres em relação a si mesmos e ao mundo  ( como escrevi no pósfácio já citado). Disso resultará uma nova relação com a arte e com o mercado? A literatura voltará a ser vista em mãos de passageiros do metrô, dos ônibus urbanos, das barcas Rio-Niterói, dos frequentadores das pérgulas das piscinas? O cânone voltará a ter força para escritores também fora dos muros das universidades?  A fragmentação do texto e do sujeito, tão tipicamente pós-moderna, perde força. Tal tendência vai continuar? Veremos. Mas daí é outro capítulo e outro texto.

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Godofredo de Oliveira Neto nasceu em Blumenau, Santa Catarina. É autor de 11 romances, entre os quais Menino oculto, detentor de uma das estatuetas do Prêmio Jabuti 2006, publicado na França pela Editions Envolume ( L'Enfant Caché). O romance foi elogiado pelo jornal Le Monde - "relembra a arte de Almodóvar", pelo Figaro -" coup de coeur" - e recebeu o selo" Le choix des libraires" da França, 2015. O autor morou vários anos em Paris, cenário do seu romance Amores exilados.  " Amours exilées" acaba de ser publicado pela mesma editora parisiense Envolume. Seu romance  O bruxo do Contestado ( 1966) lançou o escritor na cena literária brasileira. O romance Ana e a margem do rio, que aborda a cultura indígena da Amazônia, recebeu o título de Altamente Recomendado pela FNLIJ- Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Marcelino,  outro dos seus romances com grande repercussão, ambientado nos anos 40 no Brasil e protagonizado por um jovem cafuzo, está sendo traduzido para o francês. Godofredo de Oliveira Neto é professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou da segunda edição do Printemps Littéraire Brésilien em em 2016 publicou o romance O grito. 

Um comentário:

  1. Todos os livros de Godofredo deveriam ser traduzidos para o francês. Ele é um excelente escritor e possui uma visão critica e lucida da sociedade atual, seja no Brasil ou no exterior. Parabéns Godofredo.

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