terça-feira, 1 de novembro de 2016

Ler para exercer a liberdade

Ler para exercer a liberdade

Andréa del Fuego

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literarias no Brasil?
As feiras vieram para ficar, elas aliam entretenimento, turismo, encontros fortuitos que não só visam um autógrafo pós bate-papo de um autor. Um evento literário rende a sensação pós-teatro, de que o que foi dito é efêmero, mas algo universal foi consumido, foi digerido. Troca-se o livro pela presença do autor e isso de alguma maneira já vale para conversas esclarecidas de salão. Há essa borbulha superficial, mas também um fortalecimento do sistema literário geral com a visibilidade de editoras e agentes do mercado, não só a visibilidade dos autores no palco. Há troca de conhecimento, conflito entre conhecimentos, questões que se levantam com a literatura como comportamento, economia, política, saberes. Um evento literário é uma grande revista a céu aberto.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
As duas coisas vão juntas. A literatura não vai se internacionalizar se não houver o livro físico e para isso há que se criar interesse, toda aquela conversa da qual todo autor ou a maioria não faz a menor ideia de como se faz. Cresceu a exigência sobre o autor, mas sempre alguém colhe mais frutos sobre os livros do que o próprio que agora precisa se expor cada mais nos eventos que ajudam na internacionalização da literatura. Internacionalizar requer algo mais que o livro, requer essa presença do autor de alguma forma. A polêmica sobre Elena Ferrante, por exemplo, ilustra a questão da presença.Mas nem sempre a opinião pessoal acompanha a obra, nem mesmo a desenvoltura de palco ou a eloquência são do mesmo calibre da obra.

Políticas públicas  de leitura ou saraus literários?
Uma boa política pública de leitura fomenta saraus, bolsas de escrita, de tradução, de crítica, dá o gatilho a todo ecossistema da leitura.  Por outro lado, os saraus muitas vezes nasce de forma espontânea, com o genuíno desejo de celebrar a literatura, de ouvir a própria voz repetir os autores estimados. O Slam Poetry, introduzido no Brasil por Roberta Estrela D’Alva, por exemplo, são embates de poesia onde cada autor tem três minutos para dizer a que veio sem acompanhamento musical ou teatral, o evento cresce, multiplica e ganha cada vez mais espaço, dando nova energia e significado ao sarau propriamente. O microfone está aberto por aí, procurando frestas.

Ler o quê? como? Para quê?
Ler para exercer a liberdade, o que pode excluir toda pressão acadêmica, cultural, política.

Ver, ouvir e imaginar o outro.  A literatura brasileira  contemporânea : um espaço de exclusão?
Não é mais exclusão, potencialmente porque as barreiras de publicação e difusão estão disponíveis, muda-se a escala, claro. O autor de um livro artesanal com cem exemplares pode não alcançar a Feira de Frankfurt, mas a obra vêm à luz, encontra leitores e uma auto-afirmação para continuar sua produção.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Não tenho certeza sobre o profissionalismo, tenho dúvidas, o que seria um profissional das letras? Um perito, um idôneo, um entendido, um capacitado para a literatura? O livro atual nunca se beneficia do livro anterior na medida em que cada livro é único num caminho novo cheio de problemas novos, há sim uma sucessão de experiências de escrita, mas que não leva espontaneamente ao céu da perfeição, estamos sempre à deriva em alguma escala. Porém, é claro que há uma experiência sólida adquirida, mas esta no que se refere ao saber lidar com esse pêndulo criativo. Um agitador das letras há que ter um talento paralelo e muitas vezes até anterior ao literário, que é a empatia, uma generosidade para fazer pontes que não se encontra facilmente. Marcelino Freire é um exemplo desse duplo talento. A figura do intelectual das letras também me faz pensar que não é um achado fácil, gosto sempre de lembrar a melhor definição do eu-autor de Evandro Affonso Ferreira: “sou passarinho, não sou ornitólogo”. E, claro, há a questão da sobrevivência que se beneficia de uma demanda atual pelas oficinas, debates, feiras, um recente e cambaleante interesse estrangeiro em direitos autorais, há todo um ecossistema literário e, nesse ponto, há sim um campo de trabalho que vai se aperfeiçoando, ligando mercado e a fragilidade que é a decisão de escrever.

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da  literatura brasileira recente.
O desafio é não deixar de escrever, não deixar dissolver uma plataforma de leitura e troca por meio de iniciativas públicas, privadas e amorosas. O limite é assumir que se escreve de algum lugar, e este lugar, ainda que o autor se mude para o Alasca, será sempre o Brasil.

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Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora do romance Os Malaquias (vencedor do Prêmio José Saramagos) publicado na Alemanha, Itália, França, Israel, Romênia, Suécia, Portugal e Argentina. Seu último romance, As Miniaturas, foi publicado na Argentina e na França. Autora também da trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu, dos juvenis Sociedade da Caveira de Cristal, Quase caio e Irmãs de pelúcia. Ganhou o prêmio Literatura Para Todos do Ministério da Educação com a novela Sofia, o cobrador e o motorista. Integra as antologias: Geração Zero Zero, Popcorn Unterm Zuckerhut (Alemanha), Other Carnivals: New Stories (Inglaterra), Brésil 25 (França) entre outras. É formada em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP).

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