terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ler é se contrapor ao ódio

Ler é se contrapor ao ódio

Por Krishna Monteiro

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?

Em andanças pelo exterior, ao entrar em livrarias, um de meus maiores e mais recentes prazeres é ver autores como Clarice Lispector e Raduan Nassar em posições de destaque. Bem editados, despertando interesse de leitores de outras línguas que não a minha. Considerados, merecidamente, “clássicos modernos”, como dizem inscrições nas capas de seus livros.
Muitos representantes da riquíssima produção literária brasileira poderiam estar ao lado deles. Os de nosso cânone, como Graciliano, Guimarães Rosa, Drummond. Mas também contemporâneos. Lendo a mais recente safra de escritores nacionais e comparando-a com o que é produzido pela mesma geração em outros países, noto uma afinidade de temas, de inquietações. Um “campo simbólico” que – se bem explorado – poderia certamente resultar em maior impacto global de nossas letras.
Para que isso ocorra, penso que a internacionalização da literatura e a exportação do livro brasileiro devam caminhar lado a lado. Devem ser objeto de políticas públicas específicas, beneficiando-se, no caso da exportação do livro e do autor nacional, do diálogo com agentes literários, jornalistas, editores, acadêmicos. Estímulos já existentes, como bolsas de tradução, poderiam ser complementados por ações inspiradas nas políticas culturais de países como México e França, que, em livrarias no exterior, patrocinam espaços para obras de seus autores.
A exportação do livro, por sua vez, deveria amparar-se no quadro mais amplo de  internacionalização de nossa literatura, por meio de mais leitorados, da criação de centros culturais, da concessão de bolsas de estudo para pesquisadores estrangeiros com interesse no Brasil. Da formação – em síntese – de um público leitor para além de nossas fronteiras. E quando falo em formar um público de leitores no exterior, parto do pressuposto de que também é urgente criá-lo dentro do Brasil, democratizando o acesso à cultura e extinguindo nossa escandalosa desigualdade social.
Por fim, um fenômeno tem chamado minha atenção: o surgimento, em vários países, de editoras independentes, produzindo a baixos custos, dando espaço a gêneros e formas estéticas ousadas. Em meus momentos mais otimistas, penso que talvez – a exemplo do ocorrido com movimentos culturais no campo da música – estejamos presenciando os primeiros passos de uma rede mundial de pequenos editores, intercambiando grandes textos e ideias.  

Ler o quê? como? Para quê?

Numa época como a nossa, marcada cada vez mais pela intolerância e autoritarismo, ler é um ato de fé. É acreditar que a experiência do homem sobre a terra é feita de uma miríade de possíveis enredos e desenlaces, não podendo ser regulamentada por nenhuma religião, nenhum credo político. Ler, nos tempos do cólera por que passa o mundo, é criar vínculos com autores como Dante, Thomas More, que também se defrontaram com a barbárie e nem por isso deixaram de acreditar em valores humanistas; de professá-los por meio de sua literatura. Ler é colocar sob perspectiva nossos medos e decepções. É se contrapor ao ódio. É acender uma vela – ainda que pequena – na escuridão.   

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Krishna Monteiro nasceu em 1973, no Paraná. Graduou-se em economia e fez mestrado em ciências políticas na Universidade Estadual de Campinas. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo, em 2008 ingressou na carreira diplomática. Trabalhou como vice-chefe de missão da embaixada brasileira no Sudão, como cônsul adjunto do Brasil em Londres e na embaixada do Brasil na Índia, onde encontra-se atualmente. Foi editor de textos literários da revista Juca-diplomacia e humanidades, publicada pelo Itamaraty, e ajudou a criar o blog Jovens Diplomatas. Em 2015, estreou como escritor com o livro O que não existe mais (Tordesilhas Livros), que será lançado na França pela Editions Le lampadaire e é finalista do Prêmio Jabuti – 2016, na categoria Contos e Crônicas. Participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien.



 



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