terça-feira, 22 de novembro de 2016

Festas literárias, Rock'n Rio ou Free Jazz?

Festas literárias, Rock'n Rio ou Free Jazz? 

Por Rodrigo Casarin


O Brasil viu crescer o número de eventos literários no país principalmente após a criação da Flip, em 2003. Em determinado momento, levantamentos apontavam que tínhamos mais de 300 iniciativas do tipo, algo surpreendente para um país onde poucos são leitores (e isso é fato). De 2014 para cá, no entanto, a situação financeira degringolou e, claro, a derrocada impactou imediatamente na área cultural e, por consequência, alguns encontros do tipo começaram a sumir do mapa (um exemplo lamentável foi a Jornada de Passo Fundo, pioneira no assunto, que, pelo que prometem, felizmente retornará no ano que vem).

Eventos já solidificados deverão sobreviver por um bom tempo ainda, em todo caso. Não creio que a Flip ou as Bienais do Rio e São Paulo acabarão em um futuro próximo. E é principalmente sobre esse último que eu gostaria de me ater.

Fiz uma crítica sobre ele em minha página no Uol que gerou bastante discussão. 


Nela, lamentava principalmente o excesso de youtubers na programação do principal palco montado no Anhembi. Muitos alegaram que aquela era uma forma de atrair um público jovem para a leitura; com o livro da Kéfera descobririam o maravilhoso universo da literatura. Tenho lá minhas dúvidas se essa suposição é realmente válida, mas, considerando que seja (e entendendo que por trás desse discurso está a necessidade de promover o que mais se está vendendo no momento), questiono: por que, ao menos, não se colocou alguém que pudesse tirar aquele púbico da zona de conforto para dividir o palco com os youtubers?

source : UOL


E esse tipo de desperdício não vem de hoje. No passado já perdemos excelentes oportunidades de apresentar aos fãs de best sellers autores menos conhecidos, mas de notória qualidade. Em 2014, por exemplo, Eric Novello poderia tranquilamente ter sido parceiro de mesa de Cassandra Clare e, na de Harlen Coben, por que não um Mario Prata? Se um Dan Brown aparecesse por aqui, que aproveitassem para colar nele o Marcos Peres.

Hoje, felizmente, não faltam escritores nacionais fazendo um trabalho que pode servir de ponte entre os nomes mais conhecidos e a literatura local relegada a um nicho minúsculo. Falo de gente como Henrique Rodrigues, Thiago Tizzot e Maria Clara Matos, para ficar só em alguns, que possui uma prosa que pode realizar a mediação (e essa é a palavra-chave disso tudo) entre o tipo de literatura que hoje atrai os jovens (ou supostamente atrai os jovens) e aquela produzida a exaustão por aqui, mas que atinge, quando muitos, seus mil leitores.

Claro que isso é só a ponto de uma infinidade de questões que precisamos solucionar para que primeiro o Brasil seja um país de leitores e, depois, de bons leitores (que podem, claro, ler o que quiser, mas que tenham referências suficientes para tomar com propriedade suas decisões). E existe o outro lado da moeda, eventos como a Flip também precisam se esforçar para que se tornem interessantes a um público diferente daqueles 20 mil de sempre que vão até Paraty (o que rolou quando trouxeram Neil Gaiman deveria ter sido um bom aprendizado de caminho a seguir). É preciso apostar mais na bermuda e chinelo do que no blazer.

Há um censo comum de que Bienal é Rock'n Rio e Flip é Free Jazz. Enquanto os eventos literários ainda existem, precisamos colocar um tanto de Jazz nesse Rock e um tanto de Rock nesse Jazz.

xxx





Rodrigo Casarin é jornalista, especialista em jornalismo literário e edita o blog de livros Página Cinco (paginacinco.blogosfera.uol.com.br), do Uol. Além disso, colabora ou já colaborou com veículos como Valor Econômico, Carta Capital, Rascunho, Suplemento Literário Pernambuco, Revista Continente e Revista da Cultura, na maior parte das vezes com textos que, de alguma formam, tratam da literatura e do mercado editorial. Ocasionalmente também escreve sobre cerveja. 

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