quinta-feira, 24 de novembro de 2016

É uma escolha ser um pop star.

Profissional das letras, agitador ou intelectual?

Por Paulo Emílio Azevedo

Acredito que esta questão traduz, de fato, uma experiência (talvez, ainda não seja uma experiência nos termos benjaminianos), mas que de qualquer forma está tal processo (sim processo, parece-me mais adequado) pautado na “perplexidade” e hibridismo das identidades. E o que seria isso? As configurações que se amparam na abertura de mercados e acúmulo de funções por parte do autor geram nesse que produz a “criação” uma infinidade de perguntas sobre os desafios aos quais ele e o próprio mercado decidem abraça-los. É importante, no entanto, situar que a ideia de “decidir” expressa a retomada de escolha por este autor/produtor/criador – portanto, não é uma imposição, necessariamente, como equivalência hermética, quando o autor somente encontraria como saída deixar “ser levado por”. Ao contrário, como ressaltado é uma escolha e é, justamente, aí que ele se depara com a perplexidade diante de tais desafios e ofertas. No atual cenário de sua contemporaneidade abrangente e efêmera precisará o autor ser muitos em um só e, tais funções anteriormente tão bem delimitadas em seus status, profissionais atuantes e ações confluem para um mesmo sujeito na sua práxis: estar nas redes sociais, dar entrevistas, escrever o livro, revisar o livro, ter receio sobre o livro (se o livro é necessário ou deveria se manter no diário), tomar coragem e publicar o livro, lançar o livro, sorrir no dia do lançamento confiando a isso verdade de sê-lo (e saber que os intelectuais podem sublimar a ortodoxia de ter que parecerem chatos, pois talvez esse status caiu. Será?), não fechar portas de modo algum (e daí talvez se tornar promíscuo. Será?), viajar, entrar em contato com as editoras, vasculhar sites em seis idiomas e inscrever-se nos editais, falar in box a todo instante e outras redes sociais, ler tendendo ao esgotamento, fazer postagens, passar por outro nas postagens com uso abusivo de sujeito indeterminado para não parecer ser a si próprio - aflito por ser descoberto no protagonismo maldito de uma “fama às avessas” (ser alguém que deve existir com glamour, mas sem parecer que é o mesmo em nenhum instante), ter que lidar com seu alter corpo, seu alter ego, sua alteridade ameaçada e imaginada como leviana. Mas, repito: é uma escolha ser um pop star.
Xxx




Paulo Emílio Azevedo é Professor, Doutor pela PUC-RJ em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014) – com este concorreu a final do Prêmio Rio Literário (2015) na categoria “Ensaio”. Com a atual publicação O amor não nasce em muros (2016) completa dez livros escritos, sendo o nono publicado. Entre os demais, destacam-se Meninos que não criam permanecem no C.R.I.A.M. - histórias sobre adolescentes em conflito com a lei (2008); Palavra projétil, poesias além da escrita (2013) e Ensaios de um poeta só (2015). Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da poesia falada e performance. É idealizador do sarau “Tagarela, o maior slam do mundo”, professor da oficina “Palavra Projétil” e autor do projeto “Biblioteca de gritos”, os quais receberam contemplação em editais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Coordena a Rede de Criação e Protagonismos Cia Gente e a Fundação PAz. No ano de 2016 foi um dos escritores convidados pela FLIP, Paraty/RJ e da Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes/RJ. Em sua principal pesquisa na Literatura está a criação do gênero/método Reestruturalismo.

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