quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Atuar como um filtro ao ruído do mundo

Atuar  como um filtro ao ruído do mundo

Por Ronaldo Bressane


O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Vish, falar de mercado rende muito assunto.
Existe a homogeneização quando se nota as editoras investindo massivamente nos youtubers para se capitalizar. A crise econômica dará vários passos para trás, e não só por conta da quebradeira do governo, que parou de pagar e de comprar livros das editoras via PNLD. Muitas editoras estavam se bancando com essas compras governamentais, e bancando também apostas em novos autores, novas literaturas.
2015 já foi fraco neste aspecto, e 2016 só aprofundou a depressão com novidades. O que foi lançado é porque já havia sido contratado. Tirando os usuais suspeitos - best-sellers, obras atreladas a celebridades e subcelebridades, biografias, temas polêmicos e os onipresentes livros de auto-ajuda e religiosos -, literatura brasileira contemporânea tem ido mal nas vendas. Se autores já consagrados, premiados e com currículo extenso não vendem nada, que se pode dizer dos novos, dos mais experimentais, dos mais ousados escritores?
Que procurem editoras independentes e modos alternativos para publicar e divulgar suas obras. Não existe vácuo para o capital - nem para as ideias novas. Ao lado da derrocada do mercado tradicional, existe uma visível e bem-vinda rede de feiras independentes ligadas às artes gráficas (falo da Feira Plana, da Parada Gráfica, da Pão de Forma etc). Lugares onde também são encontrados livros no meio de fanzines, gibis, revistas de quadrinhos, pôsteres, livros de fotografias, cartazes, cartões-postais, lambe-lambes etc etc. Lancei meu romance Mnemomáquina na Feira Plana de 2014: somente 50 exemplares em uma tiragem caprichada do selo Demônio Negro. Tudo vendido em uma hora.
A literatura pode e deve procurar outros suportes e outros públicos. Talvez esta seja uma lição do Nobel para Bob Dylan: 50 anos atrás, Robert Zimmermann não buscou um editor para seus versos - e sim um violão e um palco.

Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Torço para que se saia um pouco desse formato palestra, que, pra falar a verdade, acho bem chato. Me lembra aula de cursinho. Tirando autores que são evidentemente performers e cuja fala trescala a palco, ou autores cuja fala transcende o palco, do tipo que reflete em público questões que permeiam sua literatura, ou ainda autores que são excelentes contadores de histórias, as mesas em geral são muito aborrecidas. Falta eletricidade, falta pegada. Me lembram cursinho, aulas acadêmicas, seminários universitários etc.
Penso que os curadores de festas literárias poderiam ser mais criativos nos formatos das mesas, incorporando jogos, leituras, gincanas de auditório, interatividade com a plateia etc. Sério. E também seria interessante ver autores participando de mais oficinas e laboratórios de escrita criativa e ficar menos confortavelmente instalados num sofazinho no meio de um palco cercados de 200 pessoas.
Menos sisudez, mais humor: tempos bicudos pedem.
Outro ponto é a importância de desatrelar as festas literárias do mercado e da política de eventos para fomentar novos e imponderáveis conteúdos. A Flip, evento central na literatura do país, tem pautado, na figura do 'homenageado', um debate à parte do mercado ou atrelado a ele?
Por exemplo: o quanto a escolha de Ana Cristina Cesar guarda relação com o lançamento de sua poesia completa pela Cia das Letras (maior patrocinadora do festival, desde o início), com o recente fortalecimento de questões ligadas ao feminino, com a força da nova poesia brasileira escrita por mulheres ou com a revalorização da Geração Marginal? Um pouco de cada coisa? O que suscita o debate? As feiras e festivais têm de estar a serviço de um zeitgeist cultural e mercadológico ou criar novas percepções, tal como ocorrem em bienais de arte? São questões que podem iluminar este debate.
Talvez estabelecer um coletivo de curadores para cada feira em vez de deixar na mão de uma pessoa só possa diversificar esta questão.
Outro ponto que me parece crucial é o provincianismo, o paroquialismo e a falta de inventividade nos convites aos autores que participam de tais eventos literários pelo Brasil. Você pode ver, dá pra pegar uns 60, 70% que são os mesmíssimos nomes - autores, mediadores, curadores.
Parece até reserva de mercado.
Feiras e festivais à parte, fico também estarrecido com o desinteresse do mundo acadêmico em relação ao que acontece na literatura contemporânea. Não temos quase nenhum programa de escritor residente, são raras as universidades que promovem encontros dos alunos com escritores. (Sem falar o fato de que a grade do curso de Letras não tem uma disciplina como redação, mas este é outro problema que requer um outro post.)
Não fosse o Sistema S, em especial a rede Sesc, e centros culturais como o Itaú Cultural, não teríamos muitas atividades gratuitas com frequência ao público interessado em literatura.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Ambas. Projetos como o Amores Expressos, que mandaram o escritor brasileiro em residências literárias para outros países, são fundamentais (também é bacana o autor brasileiro se mexer e buscar uma residência literária no exterior). Infelizmente, a derrocada do governo Dilma e a bagunça do desgoverno Temer deixaram ao relento programas como o que financiava tradutores gringos de obras brasileiras, clássicos ou contemporâneos.
Os governos de países como a Holanda - cujo idioma tem um número muito menor de falantes que o português - mantêm programas de tradução e divulgação de sua literatura contemporânea em outros países. Isso se trata de política de Estado, sem qualquer viés ideológico.
Infelizmente a burrice reinante na esfera governamental percebeu de modo tímido nos governos petistas que a aposta em cultura e educação é mais relevante economicamente que o investimento em commodities - e o atual governo, ilegítimo, medíocre e reacionário sob qualquer ponto de vista, tende e aumentar a exclusão da cultura brasileira no exterior.


Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Ambos, claro. Sarau é a gambiarra criativa; política pública é aferramenta institucionalizada. Uma coisa não pode viver sem a outra.
Um exemplo simples de falta de política pública para um assunto bem específico.
Recentemente o mundo literário entrou em choque com a notícia de que a extinta Cosac Naify, sem ter como lidar com seu estoque de milhares de livros não vendidos, irá transformá-los em aparas. Fato tratado como um tabu pelo mercado, sabemos que grandes editoras incineram milhares, senáo milhões de livros, todo ano, por falta de venda. Seria o equivalente a jogar comida fora em um país de miseráveis e de gente que não tem dinheiro pra comprar pão.
Como sou um autor da casa (lancei por lá meu infanto-senil 'Sandiliche') me coloquei a olhar a questão por outro ângulo que não apenas o do escândalo. O que temos: uma editora falida, com milhares de exemplares por desovar, sem nenhum pessoal. Como doar livros no Brasil, em um caso como este? Quem vai pegar os livros, empacotá-los, catalogá-los, enviá-los a escolas, bibliotecas, CEUs, centros comunitários, espaços de leitura espalhados pelo país?
Seria interessante uma política pública de doação de livros que centralizasse os encalhes de todas as editoras e os dispersasse pelo Brasil. Só para começar. (Tente doar alguns livros a qualquer biblioteca no país: a burocracia irá tirar sua alegria de viver.). Torço para que mais ongs e oscips como a Expedição Vagalume – que distribui livros pela Amazônia - sejam alvos de mecenato e financiamentos.
Outra política pública essencial para o fortalecimento de um sistema literário é da manutenção de becas, de bolsas, para escritores, em vários níveis. Do iniciante ao medalhão, passando pelo intermediário. Países como o México têm sistemas de becas assim, que dão ao autor a estabilidade necessária para sua criação. Claro que é possível acontecerem distorções - como as quem ocorrem no funcionalismo público -, que podem acomodar o escritor. Mas o fato de nem mesmo haver este debate em termos sérios é outra demonstração de nosso provincianismo.
A mediação de leitura também é outro ponto muito pouco observado – e totalmente importante. Como professor de laboratórios de escrita criativa pelo país, pude notar o imenso descompasso que há no mundo literário. Mesmo pessoas interessadas em literatura, interessadas a ponto de pensarem em se tornar escritoras, conhecem muito pouco do que se produz contemporaneamente, no Brasil e no mundo.
Neste sentido, o professor de escrita criativa de tais cursos livres acaba suprindo um gap não só da academia quanto do próprio mercado literário (não temos uma revista nacional de livros no Brasil que faça essa mediação, por exemplo). Meu papel é não só de informador de técnicas literárias como também de formador de repertório e de conteúdo.
(Vai aqui um parêntese que poderia virar uma tese: nunca houve tantos
escritores dando tantas oficinas literárias na história do país. Um pouco por dom pessoal, outro por talento, outro por autopromoção, e também pela formação de público, sem falar, obviamente, na falta de outros trabalhos e na necessidade de ganhar dinheiro, laboratórios, oficinas e cursos livres de literatura têm se multiplicado. Só em SP, eu elencaria Marcelino Freire, Noemi Jaffe, Cadão Volpato, Nelson de Oliveira, Evandro Affonso Ferreira, Fabrício Corsaletti, Juliano Garcia Pessanha... deve ter muito mais gente. Que reflexo essa turma vai propagar ao longo de suas turmas, nos próximos anos? Fica a dica pra um futuro estudo.)
Raramente, no entanto, pessoas de menor poder aquisitivo têm acesso a tais cursos livres (penso aqui na rede Sesc e em lugares como a Casa das Rosas, mantida pela oscip Poiesis). Além do gap de formação em leitura, há o gap em formação de escrita: são raras as universidades que mantêm o curso de redação em sua grade de Letras, ou que oferecem oficinas de escrita. Se um universitário não aprende na academia a escrever, o que dirá de pessoas que não chegaram ao ensino superior?
Quanto aos saraus, eles têm sido cada vez mais relevantes na formação de novos escritores e leitores, tanto na periferia (Cooperifa) quanto no centro (Garçonnière). Seria interessante que tais saraus também fossem incorporados à cena de feiras e festivais literários.
Políticas públicas são essenciais, mas em um país em que o Estado é o tempo todo privatizado segundo as vontades da oligarquia econômica no poder, mais essencial ainda é tirar a bunda da cadeira e pensar em formas novas de fazer a literatura chegar ao leitor sem precisar de intermediários.



Ler o quê? como? Para quê?
Ler tudo, e tudo ao mesmo tempo, e divulgar o máximo possível o mínimo que pode valer a pena: atuar responsavelmente como um filtro ao ruído do mundo. A leitura pode ser ativa. Em um mundo com tantas opções de leitura, como nunca houve, é essencial ao escritor ser um leitor

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Pois é: conforme as pesquisas de gente como a Regina Dalcastagnè, ficamos sabendo que a grande maioria dos protagonistas de obras literárias é branca, de meia-idade, profissional liberal - e homem.
Isso vem mudando, não exatamente na velocidade esperada, muito por conta do ativismo de inúmeras causas de minorias. É um reflexo da curiosidade em relação ao outro.
Talvez falte mais exercício de imaginação aos nossos autores, para que não tenhamos sempre na prosa brasileira personagens escritores, publicitários, jornalistas, roteiristas, cineastas e outros profissionais liberais que não saem do zona oeste paulistana ou da zona sul carioca.
É certo que vivemos em bolhas de informação, e as redes sociais só pioraram este fato. A literatura é naturalmente excludente num país em que, segundo pesquisa recente do MEC, somente 8% dominam o idioma a ponto de entender a ironia, por exemplo - e ainda temos 8% de analfabetos totais. Mesmo que como mero exercício de imaginação, estourar a própria bolha para investigar outros Brasis possíveis é vital para a diversificação dos campos literários.

"Mar adentro", Katia Maciel

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Falei acima do professor de escrita criativa, uma nova persona em que o escritor brasileiro tem ocupado. De fato, mesmo que não viva diretamente da venda do livro, o autor pode viver de oficinas, laboratórios, cursos, palestras, participações em feiras, festas, eventos etc. Ou seja, o escritor é hoje um profissional das letras, e este patamar é muito bem-vindo, pois retira do escritor aquela maldita aura mistificadora de alguém acima dos reles mortais. Há autores agitadores, como Chacal com seu CEP20.000 no Rio ou Marcelino com sua Balada Literária em SP ou Sérgio Vaz na Cooeperifa, tb em SP. Temos
poucos escritores que também são intelectuais públicos (como era Sartre), gente como Eliane Brum ou Luiz Ruffato, que não só narram mas também refletem o Brasil. Há também o autor performer, como JP Cuenca, Carpinejar, Xico Sá.
Mesmo autores mais reclusos ou refratários à publicidade usam das redes sociais para promoverem suas obras ou eventos de que participam. Aquele autor ao estilo de Rubem Fonseca ou Dalton Trevisan parece cada vez mais ligado ao século 20. O autor contemporâno é tão onipresente fisicamente que se aproxima da transparência total (ideia central do romance O Círculo, de Dave Eggers).

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente
Vish, este assunto renderia páginas e mais páginas. Mas já dá pra afirmar que do mainstream literário até o underground mais obscuro estamos contaminados e intoxicados pelo realismo e pela autoficção.
Talvez seja o zeitgeist. Talvez seja a percepção de alguém que sempre transitou no limbo do antirealismo. Mas acho que mais invenção, mais fantasia e mais presença do fantástico levaria a nossa prosa contemporânea a caminhos menos óbvios e mais intrigantes.
Chega, falei demais!
Abraço.

XXX



Ronaldo Bressane (SP, 1970) é escritor, jornalista e professor. Entre seus livros estão Céu de Lúcifer (contos, Azougue), O Impostor (poesia, Ciência do Acidente), Sandiliche (infanto-juvenil, Cosac Naify), V.I.S.H.N.U. (quadrinhos, Companhia das Letras) e Mnemomáquina (romance, Demônio Negro). Apresenta o programa Fluxo de Consciência, parceria da revista literária Pessoa e do estúdio Fluxo de jornalismo. Colabora com diversos veículos de imprensa, ministra laboratórios de ficção e publica regularmente em seu site Impostor, em ronaldobressane.com.





3 comentários:

  1. Gostei muito do Ronaldo Bressane e sua lucidez sensata.

    Aliás, estas entrevistas tem me ajudado a me situar melhor no campo da literatura, do livro e da leitura.

    Parabéns, Léo!

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  2. Muita lucidez ao falar do cenário literário brasileiro. Porém fiquei muito triste pois sou um poeta que ainda sonho em ver meus poemas publicados por uma editora. Enquanto permaneço na gaveta solto alguns nos blogs da vida. Quando puderes dá uma espiada lá.

    abelgoncalvespoeta.blogspot.com.br

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