quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A literatura brasileira resiste

A literatura brasileira resiste

Por Alexandre Staut

Às vezes, tenho a impressão de que dono de boate, no Brasil, que ganha dinheiro vendendo álcool, tem mais valor do que um escritor. Falo isso sem inveja, com serenidade, mas com certa angústia. Na França, quando se folheia a revista Elle, por exemplo, encontra-se pelo menos dez páginas com perfis de autores, além dos lançamentos do mês. Nessa revista, conheci nomes como Anne F. Garreta. E olha que a sua literatura é tanto obscura aí na França.

Outro dia, sentado num salão de cabeleireiro, abri uma Vogue americana e lá estava uma entrevista de três páginas com Paul Auster e sua mulher, a escritora Siri Hustvedt.  Uma revista feminina, aqui, talvez subjugue seus leitores. Ao folhear uma, esses dias, encontrei três páginas sobre um livro de recordações, colagens e fotos de um ator de telenovelas. O atrativo do livro são as fotos do próprio autor, Caio Castro.

Já a grande imprensa, dita séria, só traz em suas páginas matérias de autores já célebres. Talvez por que tenha medo de dar bola fora. Ou por preguiça. Há até mesmo jornais que têm como foco a literatura que não olham para autores em começo de carreira, ou para lançamentos de pequenas editoras.

Aqui, pesquisas apontam que o leitor de internet não lê mais do que dois ou três parágrafos de um texto. E lá foram diretores da grande mídia: “Cortem o texto. Cortem o texto. Ninguém lê mesmo.” E acabaram com as resenhas longas. “Abaixo o espaço para a literatura que não vende.” Posso contar um caso emblemático. Trabalhava no Jornal da Tarde, no começo dos anos 2000, momento em que acabaram com o « Caderno de Sábado », que trazia resenhas de livros.

Numa reunião de pauta, o diretor e um dos criadores do jornal, Murilo Felisberto, um cara sempre citado como ícone do jornalismo, disse-me com todas as palavras: “Não quero autor preto na capa do caderno!” Eu e outros editores engolimos seco ao ouvir suas palavras. E em pouco tempo, enterravam o suplemento. A editoria de variedades começou a trocar escritores e poetas por perfis da Ivete Sangalo, Sandy etc. Para que entrevistar um dramaturgo da Praça Roosevelt? Por que falar de Hilda Hilst? Quem se interessaria por uma velha louca? 

Cadernos culturais se dissolveram, o espaço para a literatura nos segundos cadernos foi reduzido. Mas existe resistência! Temos a São Paulo Review, o site Homoliteratus, a Nova Crítica (do Sérgio Tavares), a Revista Pessoa, os suplementos de Minas e o de Pernambuco.

Às vezes, desconfio que donos de estádio de futebol tenham inventado a ideia de que por aqui ninguém lê. Não! Isso é coisa mais antiga, no Brasil. Sempre houve descaso, talvez tenha sido um descaso pensado estrategicamente. E quando criam políticas de distribuição de livros, muitos se perdem pelo caminho, ou se transformem em cifras nas contas de políticos.

Faltam políticas públicas para o livro. Nos últimos tempos isso piorou. A Biblioteca Nacional está respirando com balão de oxigênio. E aí está a importância das festas literárias Brasil afora. O modelo da Flip, de Paraty, ganhou o Brasil. A Flipoços, em Poços de Caldas, conseguiu fazer com que a cidade mineira entrasse para o time das cidades que mais leem no País.

Não acredito que festas literárias sirvam apenas para selfies com escritores famosos. Está certo que nessas festas e bienais há de se conviver com livros de colorir e os youtubers. Nunca soube de nenhum outro país em que os livros de colorir fizeram tanto sucesso como aqui. Mas poderia contrapor a ideia de que o leitor nacional queira literatura fácil a um exemplo concreto de que temos público bem informado. Num papo que a São Paulo Review promoveu com Lira Neto, dias atrás, soube que sua biografia de Getúlio Vargas vendeu mais de 250 mil cópias.  

Nós, que escrevemos, temos que pegar o leitor pelas mãos, seduzir. E, a cada livro lançado, é preciso sair por aí, como caixeiro viajante, com volumes debaixo dos braços, distribuir livros que muitas vezes serão esquecidos, numa prateleira, ou numa gaveta que nunca se abre.

Hoje, o autor precisa lançar livros e pegar um microfone para falar sobre a obra. Muitos de nós têm dificuldades em fazer isso. Eu faço... um tanto sem jeito, mas de bom coração. E faria mais, se fosse preciso. Às vezes, sinto-me como se estivesse na Idade Média e precisasse subir no banco de uma praça para ler trovas em voz alta.

Voltando aos dias de hoje... tenho ouvido de colegas que hoje a coisa se complicou e que temos de disputar espaço com tantos outros atrativos. Houve um momento em que eu próprio acreditei que séries de tevê estivessem roubando leitores Brasil afora. Mas numa conversa com Luciana Villas-Boas entendi que não é bem assim. Ela me fez perceber que quem é leitor e ama livros, sempre encontrará tempo para se dedicar à leitura. Ela me convenceu! Sou experiência viva disso. Gosto e assisto a diversas séries de tevê e leio todas as noites, antes de dormir.

Gosto de ler na cama. Embarcar no sono com o cheiro das páginas de um livro aberto próximo a minha cara. A literatura na minha vida é uma necessidade vital, inata. Como diz o turco Orhan Pamuk, escrevo e leio porque acredito na literatura, na arte do romance, porque é um hábito. E também por gostar do charme dos poetas, escritores. “Talvez para entender porque estou tão irritado com todo mundo (...) escrevo porque tenho uma crença pueril na imortalidade das bibliotecas e na maneira como os livros ficam na estante”, como diz Pamuk.

E mais, acredito na literatura contemporânea brasileira. Ela vai bem, obrigado! Está vivíssima. Poderia citar 20 autores, ou mais, de todas as idades, que fazem um trabalho lindo, potente. São livros engraçados, sérios, alegres e tristes. Há livros e vozes para todos os gostos. E nós autores encontramos leitores. Converso com alguns dos meus todos os dias, por email, telefone, por mensagens no facebook. O interesse pela literatura nacional existe. Quem acha que não, convido a passar uma tarde, durante a semana, no café da Livraria Cultura, para mim, o centro criativo de São Paulo. São crianças, jovens, novos e velhos, todos unidos por meio dos livros. E mesmo que, aqui, donos de boates tenham mais valor do que um escritor, ou que a grande imprensa seja quase sempre displicente, a literatura e os livros resistem quixotescamente.

xxx





Alexandre Staut é escritor, autor do recém-lançado "Paris-Brest" (Companhia Editora Nacional). Como jornalista, é o idealizador e o editor da revista literária www.saopauloreview.com.br  

4 comentários:

  1. A imprensa de fato se justifica nivelando por baixo, frequentemente e em vários campos. Mas é preciso mais que seguir o fluxo e aceitar como verdade que ninguém lê. Precisa haver posicionamento e ação que criem linhas de fuga. Talvez mercado, editoras, imprensa não façam isso, mas acredito que os autores tenham feito a sua parte. E também a turma que hoje busca novas formas de publicação, distribuição e comercialização dos produtos editoriais.

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  2. E também tem o www.angustiacriadora.com

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