sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Viva todos que tiveram as vozes embargadas!

Viva as periferias, as mulheres e todos que tiveram as vozes embargadas, historicamente !

Por Henrique Rodrigues

O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Venho acompanhando esse mercado há uns 20 anos, desde que entrei na faculdade de Letras, ainda no século passado, com trabalhos de fim de curso datilografados na máquina de escrever. Acompanhei o início dos blogs, da autopublicação, do medo e esperança que a internet trouxe, inclusive das apostas furadas em torno da ascensão do livro digital e o suposto declínio do impresso. Nesse balaio todo algumas questões antigas se mantiveram, como a preferência pelos livros impressos, inclusive pelos mais jovens, o que é positivo. Mas em outros aspectos pouca coisa mudou, como a implantação de uma cultura de valorização da literatura de qualidade. A regra do marketing em torno de best-sellers, a prevalência dos títulos internacionais em lugar do autor brasileiro, a pouca valorização moral e financeira do autor nacional em meio a esse mercado são as mesmas. Os segmentos que estão na moda, moda essa que sempre muda a cada dois anos ou menos (a bola da vez são livros de youtubers, mas não garanto se ainda será quando este texto for divulgado), recebem tratamento vip das editoras por venderem mais, fazem entrar algum rapidamente nesses tempos de crise. Sim, as editoras investem na divulgação do que já vende. Parece que os termos divulgação e marketing não se aplicam a uma literatura mais elaborada, não casa. As editoras pequenas furam esse bloqueio de forma fantástica. Mas apenas no varejo, pois os livros delas não conseguem ser bem distribuídos e o alcance acaba sendo bem pequeno, de nichos. Então vivemos um paradoxo mesmo da diversidade literária e mais acessos a canais de publicação com uma uniformidade do que se entende por livro bom no senso comum. Basta entrar numa livraria menos criteriosa, como as grandes redes, tirar uma foto da vitrine e voltar um ano depois. Serão muitos do mesmo. Acredito que apenas uma forte, regular e sistemática campanha de formação de leitores de literatura possa contribuir para uma democratização real dos livros, que são objetos ainda não valorados em boa parte da nossa população. E isso ainda levaria muitos anos para mudar. O chamado mercado (mandachuvas do marketing, donos das grandes redes de livrarias ou editoras?) tem suas regras próprias, e uma das mais fortes dela é não fazer juízo de conteúdo. Então, em termos de qualidade literária com formação de leitores, não podemos esperar muito dele.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Como trabalho diretamente com isso no Sesc e também sou autor que participa de vários eventos literários pelo país, vejo essa questão por duas perspectivas. Acho que é hora de se fazer um balanço do modelo de evento literário que a Flip trouxe e, felizmente, inspirou centenas de outros pelo país. Ao trazer a figura do autor para o centro do evento literário, o formato contribuiu para desmistificar a figura do sujeito que escreve como alguém superior ou cercado de aura. Paralelamente, as redes sociais permitiram uma aproximação dos autores com os leitores. Surgiu inclusive uma geração de escritores primeiramente conhecidos pelas comunidades virtuais e que depois caíram na estrada, alguns até contratados pelas grandes editoras. Mas apenas esses mais novos, de segmentos que atingem os leitores mais jovens (o leitor-fã) conseguiram fazer uma ponte entre os eventos e a leitura propriamente dita. Em boa parte de eventos literários, a galera até se interessa na hora pelo papo com o autor, mas por incrível que pareça em muitos nem precisa ter livro. Há um interesse quase fetichista pela rotina, “processo criativo”, do autor, e nem tanto pelo que ele de fato escreve. A ideia do escritor pode ser mais interessante que o livro dele.
Num evento em que compareçam 50 ou 100 pessoas para ouvir e conversar com um autor, não se pode precisar ou mesmo estimar quantos de fato irão ler o livro dele. Seja comprando ou pegando em bibliotecas. Uma das soluções pode ser o trabalho pedagógico prévio, em que as obras são trabalhadas em escolas ou clubes de leitura e culminam com a passagem do autor. A Jornada Literária de Passo Fundo fez um belo trabalho nessa linha. Acredito que os livros devam voltar a ser protagonistas das feiras e festas literárias, e os autores chegam para o fim de um cliclo formativo.  

Henrique Rodrigues e Leonardo Tonus (Salon du Livre de Paris 2016)

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
A literatura produzida no Brasil sequer é conhecida aqui. Acho engraçado que alguns autores parecem almejar publicação internacional quando a intranacional nem se concretizou direito. Há autores e livros de grande qualidade que merecem ser lidos fora, mas deveríamos priorizar a formação de uma base de leitores. Se não valorizamos aqui a própria produção, com a publicação e divulgação maciça de autores internacionais, como podemos esperar que tenhamos fora algum espaço de reconhecimento? Naturalmente, não podemos desperdiçar leitores em lugar nenhum do mundo, mas há um trabalho grande a ser feito aqui ainda. Por outro lado, se o leitor brasileiro valorizar mais determinado livro porque ele teve publicação e espaço fora, pode ser positivo, ainda que tenha um efeito casa de ferreiro...

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Os dois! Infelizmente não temos hoje no país nenhum programa de política pública de leitura em vigor. É uma vergonha que tantas ações de porte que foram na raiz do problema, como o Proler da década de 1990, tenham sido esvaziados. Há alguns anos o Governo tentou trazer o eficiente modelo de agentes de leitura de volta, mas naufragou na doença da descontinuidade. Há campanhas eficientes, como a Paixão de Ler, no Rio, outras também pontuais, mas a questão da leitura não pode ser feita com ação eventual, e sim com atividades de base regular, que aparecem menos mas dão resultado efetivo. São como o saneamento básico da leitura. Não temos ainda. As ações que surgem como iniciativas de Ongs ou mesmo apaixonados por leitura, como os saraus, são extremamente benéficas para se divulgar as manifestações orais e multiplicar a ideia da leitura. Ainda que em alguns pareça um tipo de karaokê literário, com produção ruim e por vezes banalizante, o saldo é positivo. Os eventos de batalha de poesia (slam) estão chegando pra valer nas capitais especialmente, atraindo muitos jovens que têm muito a dizer, especialmente de periferias. Somaria a essas atividades os clubes de leitura. Se em cada bairro do país houvesse uma biblioteca ou outro espaço com clubes de leitura, para as pessoas discutirem livros e compartilharem ideias, teríamos uma revolução silenciosa.

Ler o quê? como? Para quê?
Ler inicialmente o que dá prazer, que faz a cuca ficar inquieta, e depois ler outra coisa parecida. E depois outra coisa que não se parece, para não ficar monotemático. Ler e trocar ideias com outros sobre o que leu, compartilhar o entusiasmo com outros. Postar o que leu e de que gostou. Reservar um tempinho do dia para ler, que é o exercício da mente e do espírito. Porque a leitura não serve para nada e ao mesmo tempo serve para tudo. Não podemos nos esquecer dos Direitos do Leitor, do Pennac, claro.


Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Não podemos pensar a produção contemporânea dissociando-a dos tempos em que vivemos. O paradoxo da vida aberta provocada pelas redes sociais e os isolamentos dos indivíduos propiciam uma literatura que trabalhe essas tensões. A exclusão do outro é também a exclusão de si mesmo. Mas também vejo que se reflete certa crise da classe média. O branco classe média da Zona Sul (no caso do Rio, mas a lógica pode ser aplicada em qualquer grande centro urbano) sempre esteve à frente da produção literária e parece que isso está chegando a uma estagnação. Mas há sempre histórias para serem contadas se houver um olhar inclusivo, tanto de temáticas (livros sobre escritores em crise até quando?) quanto da pluralidade de vozes (viva as periferias, as mulheres e todos que tiveram as vozes embargadas historicamente).

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Com a internet, o autor entrou mais em cena no meio literário. E com isso muitos passaram também para o outro lado do balcão. Daí muitos se tornarem o próprio divulgador, agente, blogueiro, editor, curador de eventos literários. De todo modo, há algum tempo os escritores eram em sua maioria jornalistas ou professores universitários, para pagar o feijão com arroz, já que a literatura mesmo não paga o cafezinho. E o profissional que vive da palavra e gravita em torno da literatura pode desempenhar outras atividades. Há ainda um grupo que consegue viver relativamente bem apenas dando palestras e oficinas, que são serviços ligados à atividade literária. Por outro lado, toda essa exposição não pode fazer com que se esqueça do principal da atividade do escritor, que é ler, ler muito, e escrever.



Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Conforme disse anteriormente, o maior desafio hoje é de educação para a leitura literária no pais. Sem uma base maior de leitores, de pessoas que vejam na (boa) literatura um bem cultural do seu cotidiano, vamos ainda ter índices vergonhosos. Temos ¾ de analfabetos funcionais entre os indivíduos economicamente ativos no Brasil. E, como escritor, “agitado” cultural e alguém que vem das classes menos favorecidas, preciso contribuir, fazer minha parte para melhorar esse quadro. E abrir espaço para os demais.

XXX



Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa “Oi Kabum!” Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional. Participou de várias antologias literárias e é autor de 13 livros, entre os quais o romance O próximo da fila, inspirado no período em que foi atendente do McDonald´s. Foi um dos autores brasileiros selecionados para o Printemps Littéraire Brésilien em 2016, evento realizado na Universidade Sorbonne, na França. Website do autor : http://www.henriquerodrigues.net/


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