domingo, 16 de outubro de 2016

Reza de Mãe

Reza de Mãe

A Editora Nós lança no dia 17 de outubro, no espaço Ação Educativa, Reza de Mãe, livro de estreia de Allan da Rosa no gênero conto. O escritor, que já é referência no que se convencionou chamar de periafricania, o contexto do movimento de coletivos e ativistas negros que viceja na periferia paulistana, coloca seu livro em cena às vésperas das comemorações do Mês da Consciência Negra.

Os contos enfeixados no livro assomam diante de nós uma impressionante versatilidade, que abarca desde poemas narrativos como o conto que dá título ao livro, a fábulas anímicas como “O Barco”. Os estilhaços cotidianos vazam dos lábios dos personagens, que muitas vezes têm o boletim de ocorrência na pele e no CEP, sejam frutos da opressão policial em “O Iludido”, do tratamento dado às esposas, mães e amásias na visita dominical ao presídio, como em “Três Cocorinhas”, ou ainda do atavismo da
história de vingança contra os barões escravocratas e suas madames de vestido de cambraia e casimira branca em “Costas Lanhadas”.

Mesmo diante do ambiente cruel da periferia, são personagens líricos, que têm nomes como Amora, Pérola, Lavanda ou Tebas de Jenê, e que podem aparecer em mais de uma narrativa, formando uma instigante teia de relações familiares que se estabelece a partir do conto “Pode Ligar o Chuveiro?”.

A elaboração poética de Allan é desvestida de qualquer artificialismo, sem frouxuras ou escorrências, centrada naqueles que têm ‘esmalte de cimento’, seja do Jardim Maxixe ou do Saboão da Terra, o microcosmo do autor. Acima de tudo, percebe-se a laboriosa ourivesaria do autor em cada linha ou verso, que resulta em um converseio com o leitor através da manipulação lúdica dos jogos de palavras e da criação de novos vocábulos, como alguns que foram utilizados aqui. Em síntese, uma estreia ambiciosa, digna dos escritores de duradouro alcance.



Allan da Rosa é escritor e angoleiro. Integra desde o princípio o movimento de Literatura Periférica de São Paulo e foi editor do clássico selo “Edições Toró”. Historiador, mestre e doutorando na Faculdade de Educação da USP, ali, na ocupação do Núcleo de Consciência Negra, fez cursinho e foi professor e alfabetizador. Pesquisa e atua em ancestralidade, imaginário e cotidiano negro. Há anos organiza cursos autônomos de estética e política afrobrasileira em várias quebradas paulistanas. Já palestrou, recitou, oficinou e debateu em rodas, feiras, universidades, bibliotecas e centros comunitários de muitos estados do Brasil e por Cuba, Moçambique, EUA, Colômbia, Bolívia e Argentina, entre outras paragens. É autor de Da Cabula (Prêmio Nacional de Dramaturgia Negra, 2014), Zagaia (juvenil), dos livros-CD A Calimba e a Flauta (Poesia Erótica, com Priscila Preta) e Mukondo Lírico (Prêmio Funarte de Arte Negra, em 2014), além do ensaio “Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem” e outras obras.

Lançamento Reza de Mãe
Segunda-feira dia 17 de outubro às 19h
Espaço  Ação Educativa
Rua General Jardim, 660 
Vila Buarque - São Paulo

Mais informações no site da Editora NÓS
editoranos.com.br



Trecho de Jogo da velha [Reza de mãe

Allan da Rosa 

Negrita,
hoje sou levinho de entrar em qualquer cortiço
casarão mofado não me afina
sem meter marra de peito de aço
mas me achego onde for
batizei quando fui encontrar minha véia
num treme treme dos campos elíseos
ali subi entre seringas, fezes e farrapos
penumbra xingada
eu sete anos sem ver a véia
da minha tia veio o endereço
sempre garantiu sua irmã nas avalanches
maledizia mas escorava
perguntei na rua, me estranharam
o que ia fuçar ali no pardieiro?
passei onde há trinta anos teve portão
degrau por degrau, missão guiava pro alto
no tal 521 bati
as seringas chacoalharam no chão
parede gemeu
de angústia batuquei muitos ritmos na porta rachada
tempo de abrir uma rosa
ninguém me atendeu
mas uma renca de fantasmas me encarava pelos buracos
da escada
e na hora de voltar...
o faro apagou o facho
medi o muquifo onde penetrei
adolescente crescido, marra na barba rala
e pavor entrevando a barriga
voltar era urgência, passada a sede que leva à fonte
inteiro medo
o medo amigo, do coelho na mata avisando da onça.
o medo bagunçado, de quem se afoga no raso.
bandos pipavam seus cachimbos
desci vagaroso
saliva entalada na goela
meu coração meu corrimão
no térreo pulei fraldas e ratas estouradas
mais o que deus não se orgulha ter feito
enrosquei meu pé num joelho e numa gaiola enferrujada
saí pro sol clarão, a vista ardeu
o mundo continuava largo
eu já tinha trovoado, relampeado e agora era garoa
triste eu mais eu comigo
o peito chiando
choro formigava mas não saía
vontade de nada, nem abrir nem fechar os olhos
sentei no bar, daqueles varandosos do tempo dos barões
ah, levei um mano, o Jôsa
na mão o que dichavou já tava suado grudento
nem perguntou, colheu no meu passo a decepção
minha íris amuada
calei num guaraná
pipoca doce mucha me mastigava
dois guaranás mudos
três
[...]








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