terça-feira, 18 de outubro de 2016

O silêncio é o território das ditaduras

O silêncio é o território das ditaduras

Por Ovídio Poli Júnio


O mercado editorial brasileiro contemporâneo:  entre diversificação e homogeneização.

As grandes editoras comerciais tendem a reproduzir as mesmas linhas velhas e cansadas da banalidade bem-sucedida, enquanto as pequenas tentam desenhar algumas curvas coloridas e grafites nesse cenário. Isso leva a um esgotamento, e, como se sabe, o mercado editorial funciona como um ecossistema: a diversificação favorece a bibliodiversidade mas sobrevive em pequenos nichos, enquanto a homogeneização predominante favorece a extinção do que é diferente. Mas talvez o problema não seja tão simples assim e o futuro nos reserve uma pluralidade de títulos de qualidade, ainda que circulem em segmentos específicos. Em meio à proliferação de títulos, caberá ao leitor decidir o que ler, mesmo que mediado por interferências as mais variadas, algumas inclusive extraliterárias. Os livros sobreviverão, pois são bactérias muito resistentes.

Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literarias no Brasil?

Num país que levou ao cárcere Monteiro Lobato, Patrícia Galvão, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Dyonelio Machado, Barão de Itararé e tantos outros, para ficarmos somente no período do Estado Novo, a disseminação de eventos literários é uma resposta contundente ao silêncio perpetrado pelas ditaduras. Esses eventos criam espaço para que a literatura deixe de ser algo sagrado e distante e de algum modo volte a ser o que foi nas suas origens: uma forma de comunicação entre os homens. Quando a literatura toma as ruas, amplia-se o campo do possível. Todos esses encontros alimentam o horizonte comum de estímulo à leitura e criam condições favoráveis para que a literatura se firme como forma de reflexão e convivência humana. Então, nesse sentido, tanto faz se o foco estiver no autor ou no livro, o importante é que a literatura recupere o seu espaço.



Ler o quê? como? Para quê?

As coisas não têm valor em si mesmas, já dizia o filósofo, nós é que emprestamos valor a elas. Aí reside a importância maior da leitura literária: emprestar valor à vida, que não cessa de se reinventar e de se transformar no eterno retorno de si mesma. A rigor, a literatura não serve para nada. Em Moçambique se diz que "Só se conhece o tamanho de uma palmeira depois de sua queda". Com a literatura também é assim: só saberemos o seu real valor no dia em que ela morrer.

Ver, ouvir e imaginar o outro.  A literatura brasileira  contemporânea: um espaço de exclusão?

O grande valor da leitura literária é ser um meio de combater os dois maiores males e os piores extremos da condição humana: a intolerância e a indiferença em face do outro. Mário de Andrade tomava a literatura como uma experiência compartilhada (“ninguém escreve para si mesmo, a não ser um monstro de orgulho”, escreveu em carta a Manuel Bandeira). Escrever é uma espécie de convivência permanente com o outro, com outras pessoas e culturas. Não há política sem palavra, não há política no silêncio. O silêncio é o território das ditaduras. O sequestro da palavra conduz ao inferno da homofobia, do racismo, do machismo, da xenofobia, do terrorismo como prática corrente e como negação da política. Engana-se quem considera a literatura como uma arte impotente (e para comprovar isso basta citar a galeria de escritores que em todas as épocas foram perseguidos). Graciliano bem lembrava: “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”. Não estou falando aqui em literatura engajada, mas em literatura propriamente dita: “Quando os escritores levam a sério o seu compromisso, a política se torna supérflua”, já dizia o velho Guimarães Rosa.

Graciliano Ramos, arquivo DOPS

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.

De minha parte, tenho sido nos últimos dez anos pau-pra-toda obra: escritor, editor, crítico literário, palestrante, mediador, jurado, coordenador de oficinas, curador de eventos literários. Uma espécie de "despachante literário", como Carlos Henrique Schroeder costuma se definir. É muito difícil sobreviver apenas escrevendo. Ser escritor é uma profissão difícil mas nunca vou parar de escrever: a gente sara de uma neurose mas nunca se cura de si próprio, como dizia Sartre. Sou contista, cultivo um gênero narrativo ainda desprezado em nosso país, como de resto em nosso país é desprezada toda a literatura. No Brasil, como diz Márcio de Souza, é mais fácil se livrar de um cadáver do que de mil exemplares.

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da  literatura brasileira recente.

A literatura tem uma dinâmica geológica: por vezes, opera por erupções e deslocamentos profundos; outras, por longa sedimentação. Coetze diz que a literatura surgiu da poesia, que surgiu da música, que surgiu da necessidade de conferir linearidade ao tempo e de preencher o vazio da existência humana. Mas a leitura literária tem também outra grande importância: colocar em dúvida as coisas da vida, que não cessa de nos derrubar em nossas mais profundas certezas.“Se você tem alguma coisa a afirmar, você não tem que fazer literatura. Literatura é conversa sobre as dúvidas”, dizia Bartolomeu Campos de Queirós. A literatura não tem uma vocação evangélica. Não escrevemos para passar mensagens: "Se eu quisesse transmitir mensagens, enviaria telegramas”, dizia Hemingway.

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Ovídio Poli Junior foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa/Radio France Internationale (Paris) e teve destaque em concursos e prêmios literários brasileiros: Paranavaí, Paulo Leminski, Luiz Vilela, FLIPORTO, Unicamp 40 anos e Newton Sampaio. É graduado em Filosofia (USP), mestre em Educação (USP) e doutor em Literatura Brasileira (USP). Publicou O caso do cavalo probo (narrativa satírica), Sobre homens & bestas (contos) e, para crianças, A rebelião dos peixes. Participou da FLIPORTO (PE), do Fórum das Letras de Ouro Preto (MG), da FLIMAR (AL), da Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC), da FLAP (AP), do Festlatino (PE), da Flipinha (programação infantil da FLIP) , da FLIST (RJ) e da Ciranda Literária de Macaé (RJ). É curador da Off Flip das Letras e do Prêmio Off Flip de Literatura em Paraty e editor do Selo Off Flip. Ministra oficinas, cursos e palestras na área de literatura, é colaborador do jornal Rascunho e presta assessoria e consultoria a eventos literários, além de atuar como mediador em mesas de debate.

Um comentário:

  1. Muito interessante essa entrevista. Não conhecia o autor. Vou procurar conhecê-lo. Creio que, no caso de entrevistas, não há elogio maior do que esse.

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