quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O mundo da literatura ainda é uma bolha


O mundo da literatura ainda é uma bolha


Por Micheliny Verunschk

O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Creio que vivemos um momento ímpar nesse tal mercado. Se por um lado as grandes editoras dominam as prateleiras das pequenas, médias e grandes livrarias, por outro lado as editoras independentes e os autores estão conseguindo se não reinventar a roda, ao menos fazê-la girar sob outra música. Acredito nesse movimento, uma configuração que aproxima pessoas, autores, leitores e editores, e que coloca os livros para circular fora dos espaços tradicionais (sem, contudo, excluir esses espaços).

Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Por um lado, tenho tido a sorte de participar de feiras e festas para além das “selfies”, por assim dizer. Ou seja, tenho tido a alegria de falar em livros, política, movimentos sociais e questões de gênero nesses espaços, apesar de a cada temporada o mercado apostar em nichos e propostas tão “espetaculares” quanto vazias, sejam os livros de colorir ou os youtubers. Por outro lado, vejo com preocupação eventos tradicionais do gênero serem extintos por falta de apoio e mesmo grandes eventos terem um público reduzido apesar dos frágeis anteparos que as ações de marketing, que colocam youtubers e Bruna Surfistinha na conta da literatura, representam. É espantoso que num país de dimensões continentais como o Brasil o “mundo da literatura” (chamemos assim) seja ainda uma bolha. Aliás, é espantoso e não é, porque se observarmos bem o fato de a literatura ser relegada a planos inferiores é sintomático.  O adoecimento da nossa sociedade, o perigoso flerte com o fascismo, a crença generalizada em religiões vorazes e centradas no individualismo e na meritocracia são coisas que têm muito a ver com o desprezo pela leitura.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro? 
As duas coisas, só que precedidas por um fortalecimento do livro aqui dentro. Quando se fala em internacionalização se agregam dados subjetivos que vão de glamour e sucesso à possibilidade de se ser lido para além dos limites do nosso mercado tão encolhido quanto excludente. Quando se fala em exportação do livro, se fala em negócios, em abertura de mercado, sobretudo em países lusófonos. É a lógica do santo de casa que não faz milagre, ou que precisa fazer fora para ter algum reconhecimento de fato. Mas se falarmos em fortalecimento do livro, da leitura e dos autores aqui dentro desse país gigantesco e por isso mesmo cheio de possibilidades, falamos de um outro tipo de abertura. Anos atrás, baseados nos dados de alguma pesquisa, dizíamos que o Brasil tinha cerca de mil autores e mil leitores, um pouco mais, um pouco menos. E mais, que os mil leitores eram os mesmos mil autores. Brincadeiras à parte, penso que devemos fortalecer nossas bases.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Políticas públicas de leitura, sem dúvida, pois são elas que formarão público. E não falo apenas do leitor infanto-juvenil. É preciso banir o analfabetismo funcional. Os últimos acontecimentos políticos escancaram uma realidade feia e nela o escândalo de termos políticos, juristas e outros graduados (e pós-graduados) verdadeiramente analfabetos.

Ler o quê? como? Para quê?
Primeiro, ler de tudo até para formar um referencial. Ler de tudo sem, entretanto, nivelar. Misturar os gibis, as graphics novels, as bulas de remédio, com os clássicos. A formação do leitor é um trabalho de sedução, daí a importância (muitas vezes posta de lado) à literatura infanto-juvenil, para mim o gênero mais difícil de se trabalhar criativamente. Por outro lado ter em mente de que formar o leitor é também e principalmente formar um crítico.

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Não, não acredito nisso. Penso que nunca vivemos um momento como este em que os tantos outros dialogam, debatem, entram em embates. Entretanto penso que precisamos pensar numa espécie de maioridade, na qual, por exemplo a poesia, não seja relegada ao cantinho da sala.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Ser alguém que escreve, que conta histórias, que luta com as palavras aquela luta mais vã, parafraseando Drummond. O resto é contingência social e de mercado que exige que vendamos o nosso peixe. Aliás, na minha experiência tem sido bem isso, sou alguém que trabalha com as palavras e que vez por outra vai fazer seu pregão na feira.

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Construir uma obra é o grande desafio, especialmente quando se precisa disputar tempo com os limites da sobrevivência. Construir uma obra, penso, é dar um salto no escuro, no escuro que é o futuro. Eu, por exemplo, a cada dia penso nisso, em construir uma obra para quem sabe, daqui a cinquenta ou cem anos, se o meteoro não chegar até lá, ser ainda lida. Isso sim seria sucesso. Ser lido agora pode ser um desafio ou um limite, visto que a pergunta de Alegria, Alegria é cada vez mais pertinente: quem lê tanta notícia? No caso específico de autoras mulheres, ainda há a questão do espanto de que mulheres possam escrever e escrever bem para além das etiquetas e estereótipos.

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Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010) e b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014), entre outros. Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro Geografia Íntima do Deserto. Publica em 2014 seu primeiro romance Nossa Teresa -vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015, e em 2016 Aqui, no coração do inferno, também pela Patuá. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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