quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O Futuro da literatura


Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?


Por Felipe Franco Munhoz

Pior do que o futuro das feiras e festas literárias no Brasil, talvez seja o futuro da própria literatura – ficção séria, poesia e dramaturgia. E não apenas no Brasil.
Tenho a impressão de que até a televisão – e, depois, mais veloz, mais notável, a internet –, alta literatura e cultura de massa apresentaram diversas intersecções. Desde a Grécia Antiga (com, por exemplo, competições teatrais), passando por Shakespeare (popular, a um penny no Globe Theatre), passando por Dickens e Hugo (best-sellers do século XIX), chegando em Tom Stoppard no meio do século XX (com inserções, inclusive, em rádio e televisão).
Tom Stoppard, em 2015, em declaração polêmica, disse que para sua última peça, The Hard Problem, precisara “dumb down the jokes” – de forma que os espectadores pudessem entender; e mencionou uma referência (na peça Travesties) a Goneril, personagem de King Lear: compreendida em 1974, despercebida por metade da plateia em 1990. Ou seja: detrás das coxias, Stoppard sentiu que, nesse curtíssimo intervalo, o público inglês distanciou-se de Shakespeare.
Por quê? Difícil dizer – mas certamente é mais rápido (e mais prático) assistir a um episódio de seriado, independentemente de sua qualidade, do que ler uma peça de Shakespeare; mais rápido (e mais prático) assistir a uma temporada de seriado do que ler textos como Fausto ou Grande sertão: veredas. Sem desmerecer toda narrativa audiovisual, a questão é: possibilidades de entretenimento expandidas, imediatismo de resultados.
E para cada David Lynch – criando uma obra de arte cinematográfica – existem milhares de cineastas, milhares de roteiristas, criando produtos culturais de massa. Produtos culturais de massa que ocupam o espaço da arte como entretenimento. Junto com redes sociais, selfies, jogos eletrônicos; trinca, em geral, reunida no mesmo pequeno dispositivo (carregado para todos os lugares).
Há cerca de um ano, Joshua Cohen, escritor estadunidense, escreveu PCKWCK, versão de The Pickwick Papers, de Dickens. Sua proposta foi: trabalhar em uma espécie de reality show autoinfligido. Os leitores-espectadores poderiam – através do site PCKWCK.com – acompanhar a produção do texto em tempo real, observar o rosto de Cohen e interagir com outros leitores ou escrever para o autor (resultando em sugestões, ofensas, piadas et cetera).
PCKWCK.com já está desativado; após sua conclusão, o texto foi removido.
Nunca li o trabalho de Joshua Cohen – não posso, portanto, opinar a respeito de sua relevância artística; mas parece-me que a elaboração de um livro online, aliando literatura e reality show, fenômeno de massa contemporâneo, é uma busca pelo palco popular, a um penny no Globe Theatre. (E, é claro, seja qual tenha sido seu conteúdo, principalmente pela obra finalizada removida, podemos encarar PCKWCK, se não como crítica, como instrumento para crítica ao nosso tempo do hiper e do efêmero.)
A feira e a festa literária é, também, uma forma de entretenimento. Sendo assim, é natural que celebridades (no momento, youtubers) angariem públicos maiores. Se o livro – de ficção séria, poesia e dramaturgia – não alcança um grande número de pessoas, por que um grande número de pessoas desconectar-se-ia para escutar o que seu autor tem a dizer?

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Felipe Franco Munhoz nasceu em São Paulo, em 1990. É graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Paraná. Em 2010, recebeu uma Bolsa Funarte de Criação Literária para escrever – em tempo integral – o romance Mentiras, inspirado na obra de Philip Roth. A convite da Philip Roth Society, Franco Munhoz leu trechos do romance durante as comemorações de 80 anos de autor, em Newark. Seus primeiros textos de ficção foram publicados em diversos veículos, como Gazeta do Povo, Rascunho, Cândido e The Huffington Post. É coordenador do site Antessala das Letras.

Um comentário:

  1. Muito boa a reflexão!!

    Mitsuo André
    percepcoes-literarias.blogspot.com.br

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