sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O extermínio do pensamento crítico.

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.

Por Paula Fábrio

Contra o esforço mercadológico de homogeneização sempre houve a força oposta (e natural) de diversificação, sobretudo por parte de quem escreve. No entanto, com o advento de tecnologias de publicação cada vez mais acessíveis (impressão digital em pequenas tiragens, livros eletrônicos, blogues, PDFs, plataformas como a da Amazon, entre outros), e de circulação mais democráticas (computadores, políticas públicas ou mesmo iniciativas da sociedade para saraus e encontros literários), além de canais de divulgação com grande poder de criar empatia, como as redes sociais, houve uma ruptura no mercado de livros. Se não pudermos chamar de ruptura, talvez possamos dizer que se trata de uma forte marcação de nichos.

De um lado, nas grandes lojas físicas, salvo exceções como a Blooks Livraria (SP e Rio), Livraria da Vila (Fradique Coutinho – SP), por exemplo, há o domínio de obras não relacionadas à literatura, em franca expansão nas prateleiras. Aliás, os únicos livros ligados à literatura, nesses casos, são obras de interesse comercial (algumas com qualidade literária, mas ainda estas são exceções). O mesmo fenômeno toma lugar nos jornais e revistas impressos de grande circulação. Esse raciocínio também vale para as bienais do livro e outros eventos que privilegiam números a serem apresentados para o sistema de captação de recursos, seja do governo ou de iniciativas particulares. Isto é, parece-me um derradeiro esforço do mercado de livros para perdurar diante de seu enfraquecimento com relação a outros apelos como séries de tevê, filmes comerciais, jogos de internet, a própria internet. Além do mais, esse esforço de subsistência do mercado livreiro também é comunhão, já de início um tiro no pé, com o projeto de globalização que parece tender (sob muitas máscaras e vernizes) a exterminar qualquer ideal de aprofundamento do pensamento crítico das pessoas. Dentre as principais estratégias consta a precarização das Ciências Humanas, vale lembrar. Em outras palavras, é como se nos dissessem: vamos faturar o máximo agora, neste imenso saldão, porque daqui a pouco não haverá nada disso e teremos de fazer outra coisa. O problema é que há centenas (milhares?) de pessoas que dependiam dessa renda para viver, balconistas, empacotadores, editores, assistentes, resenhistas etc etc. O que será feito delas? Quais profissões vão seguir? Os ricos, os que têm sobrenomes vão se ajeitar. Os gênios podem sobreviver. E nós, os médios?


Por outro lado, há a resistência. Literatura oral. Literatura impressa de alta qualidade. Às vezes, alguns editais contemplam produções nessa linha. Posso sugerir que alguns prêmios literários vêm laureando autores desconhecidos nos canais tradicionais, editoras pequenas. Alguns eventos que valorizam qualidade e diversidade também prestigiam essas ideias. Arrisco dizer mais: até curadorias de grandes eventos começam a farejar o óbvio, o público, que por sorte do destino ou por esforço próprio aprecia obras que vão além do espetáculo, esse público está insatisfeito e responde de modo favorável e entusiasmado às iniciativas plurais e inteligentes.

Talvez Marshall McLuhan tenha feito a mais acertada das previsões com sua aldeia global. Neste momento, tão sofrido para todos porque é o momento presente e nos parece de uma transição imensa, estamos apenas a ajeitar as cadeiras, e decidir (para quem ainda não decidiu) o que ler, escrever ou publicar, o que fazer da própria vida, afinal. Porém, com certeza, as pequenas aldeias já se visitam, suas fronteiras são nuançadas, há respeito mútuo e convivência, apesar e em virtude das discussões encetadas. Espero que as aldeias se preocupem cada vez mais com a formação de leitores, que se comprometam de modo enérgico com educação e cultura. Mas não nos esqueçamos, lá no meio, no meio do planeta, está o olho do furacão, nervoso, implodindo, a ser transformado em outra coisa. Esta coisa não sabemos o que será, sua forma em produto pode ser qualquer uma, no entanto estará vazia, sempre vazia.

XXX



Paula Fábrio nasceu em São Paulo, em 1970. É mestre e doutoranda em Literatura pela USP. Seu novo romance, Um dia toparei comigo (Foz) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e agraciado com a bolsa ProAC. Seu primeiro livro, Desnorteio, venceu o Prêmio São Paulo em 2013, na categoria estreante. A autora participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien e é colunista da Revista Pessoa.








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