sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O autor está numa encruzilhada


Profissional das letras, agitador ou intelectual?
As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.

Por Flávio Izhaki


No meu mais recente romance, Tentativas de capturar o ar, há um escritor consagrado que repentinamente parou de publicar. Ao mesmo tempo, ele já parara de dar entrevistas à imprensa. É um personagem fictício, mas possível. Ou será que é um personagem apenas fictício para os dias atuais, em que o autor não é só autor, mas uma persona que fala com seus leitores pela mídia, palestras e, especialmente, pelas redes sociais continuamente?

O escritor brasileiro contemporâneo, da poesia ao best seller, pode ser encontrado no facebook, no twitter, ou em ambos, falando sobre tudo e qualquer coisa, de literatura ao master chef, do capítulo final da novela ao tema quente do dia e, quase sempre, sobre política. Mas salvo raras exceções seus textos na internet não alcançam (ou almejam) nenhum tom intelectual. O autor, no fundo, humaniza-se, dessacraliza-se aos olhos do leitor. Um comum. Tem ou não filhos, gosta ou não de futebol, acha ou não que é golpe, joga ou não videogame. Informações quase binárias que planificam o modo como ele (autor) é lido e podem interferir na leitura (ou ao menos na aquisição) do seu livro.

Ser um autor ativo nas mídias sociais tanto pode trazer novos leitores como afastá-los. A tentação de ser emissor da sua própria mensagem é sedutora demais, mas será que é necessária? Youtubers são os maiores vendedores de livros dos últimos tempos da última semana, ou seja, internet de fato vende livros. Mas em termos de literatura séria (cof cof) ainda não é possível ter certeza dos  números.

Em certo sentido, a participação dos escritores em debates e feiras é uma extensão do papel de emissor que o facebook/twitter apresenta. É esperado que o autor conte anedotas, revele bastidores da escrita, fale frases de efeito que façam rir e chorar. A maioria do público não leu o último lançamento do autor, e possivelmente nem lerá; certas vezes nem o mediador leu, ele mesmo um performer condutor de bate papo de televisão. Um escritor brasileiro, na última FLIP, comentou a situação falando que certamente já teve mais espectadores em debates do que leitores dos seus livros.

O autor, portanto, está numa encruzilhada. Ele participa do jogo público por uma falsa necessidade, mas ao mesmo tempo essa exposição o tira do pedestal que a relação autor-leitor historicamente tem, e não ganha em troca, necessariamente leitores.

Um livro com preço de capa de 30 reais rende apenas 3 reais para seu autor. Para que ele ganhe 3 mil reais, é necessário portanto que ele venda 1000 livros. Não que esse dinheiro seja pago assim que o livro for vendido na ponta. A livraria só paga às editoras 4 meses depois e esses três reais por unidade só chegam no autor até sete meses depois disso, ou seja, se um autor demorou dois anos para escrever um livro, ele só começará a receber por seu trabalho quase três anos depois. Se três anos é um tempo razoável entre a escrita de um livro e outro, pode-se dizer que ele já estaria escrevendo um livro para pagar as despesas do outro.

Brincadeiras à parte, viver de literatura no Brasil é uma loucura. Em um breve ínterim alguns jovens autores até tentaram, mas é impossível que a conta feche enquanto as vendas não sejam substancialmente maiores. E por substancialmente eu digo 20 vezes maiores, que todos os eventos literários passem a ter cachês, que os eventos se solidifiquem Brasil afora e não apenas num pequeno eixo e bancados por dinheiro que vem e vai ao sabor da mudança de governo ou do marketing de grandes empresas, sem que os colégios e universidades sejam envolvidos, sem que a imprensa literária exista e seja parceira. E nessa oração estou pensando sempre em "e" e não em "ou". Caso contrário, a matemática não permite, fora descrepâncias na curva, verdadeiros profissionais de letras, apenas equilibristas sempre prestes da despencar lá de cima.

xxx




Flávio Izhaki nasceu no Rio de Janeiro, em 1979, e publicou os romances De cabeça baixa (Guarda-chuva, 2008) e Amanhã não tem ninguém (Rocco, 2013), eleito pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo como um dos melhores romances brasileiros daquele ano e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom 2014, e Tentativas de capturar o ar (Rocco, 2016). Como contista, já participou de oito antologias.

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