domingo, 9 de outubro de 2016

Moinhos de Vento

MOINHOS DE VENTO
Por Carolina Vigna
A série de seis desenhos sobre tecido, aqui apresentada, intitula-se Moinhos de vento, e foi elaborada entre abril e setembro de 2016. Consiste em figuras feitas com costura à máquina em tecidos sarja de tons claros a terrosos. As linhas usadas na costura utilizam matizes de branco, amarelo, laranja, vermelho, marrom e preto. São de grande porte, variando entre 100 x 120 cm e 160 x 180 cm.
A série Moinhos de vento retrata homens acima dos 50 anos de idade, alguns flácidos, carecas etc. O ponto em comum entre esses corpos nus é a sua absoluta informalidade, a não-rigidez.  Os traços lembram rascunhos: imperfeitos e falhos. Os corpos masculinos costurados no tecido também o são. A costura, rápida e apressada, cria manchas pelo excesso de linhas.
A produção de Moinhos de vento iniciou-se durante o mestrado strictu senso Educação, Arte e História da Cultura, na Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo (2015-2016), sob orientação do prof. dr. Marcos Rizolli. 

A pesquisa a partir da qual esse trabalho se iniciou teve como estrutura um diálogo teórico e poético entre o escritor Italo Calvino, o artista visual Nazareno Rodrigues e a minha obra que, por conta do desenvolvimento pessoal e profissional natural nesses mergulhos acadêmicos, precisou ser revista. As principais obras em diálogo com a série aqui apresentada são Valentes (Nazareno Rodrigues, 2009) e Seis propostas para o próximo milênio (Italo Calvino, 1985-86). Ambas séries podem ser vistas como um fator de resistência: Valentes, à rigidez que denuncia; Moinhos de vento, à padronização que desobedece.

A ideia de uma literalidade  na linguagem visual e da leitura imagética na literatura é uma constante em minhas pesquisas. A aproximação com Nazareno e Calvino acontece através da mistura de linguagens. A visualidade na literatura de Calvino é a expressão verbal da obra visual que tanto Nazareno quanto eu produzimos.

Com exceção do título da série, uma referência a Dom Quixote, todas as frases contidas nas obras de Moinhos de vento são trechos de Seis propostas para o novo milênio, de Italo Calvino e possuem relação com Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e, por fim, Consistência.


A força motriz desse trabalho foi o Eros que não vejo nem em Valentes, nem em Calvino. Como uma busca do olhar pela falta, pelo não-dito, pelo intervalo entre o que existe e o que é imaginado.
Merleau-Ponty fala da pintura, mas acredito que o pensamento pode ser extrapolado para outras artes visuais:
O olho vê o mundo, e o que falta ao mundo para ser quadro, e o que falta ao quadro para ser ele próprio e, na paleta, a cor que o quadro espera; e vê, uma vez feito, o quadro que responde a todas essas faltas, e vê os quadros dos outros, as respostas outras a outras faltas.  (MERLEAU-PONTY, 2013, p. 23)

Então, em busca do ausente, do vazio, do silêncio, encontrei o meu Eros, o que me move, aquilo que me é humano. Esse olhar jamais é satisfeito e, por isso mesmo, a arte existe. Assim como a relação humana existe no interstício, o olhar viaja por entre os muitos entres do mundo.


Moinhos de Vento
Vernissage

Dia 14 de outubro de 2016
às 19h00
Epicentro Cultural
Rua Paulistânia, 66
Vila Madalena



Carolina Vigna possui bacharelado em Artes Visuais (Belas Artes); licenciatura em Artes (Poli das Artes); pós-graduação lato sensu em História da arte: teoria e crítica (Belas Artes); stricto sensu em Educação, Arte e História da Cultura (Mackenzie).

http://carolina.vigna.com.br/




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