quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Minha aposta é na diversificação

Minha aposta é na diversificação

Por Marcelo Nocelli

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
Vejo com bons olhos algumas possibilidades de diversificação que vêm aparecendo, principalmente, pelas pequenas editoras e pelas publicações independentes de autores. Creio que até bem pouco tempo a tendência do mercado era muito mais de homogeneização, porque as grandes editoras não estavam dispostas a apostar na diversidade e privilegiavam sempre um determinado “estilo” como, por exemplo, há algum tempo: a autoficção, em sua maioria de personagens-narradores brancos, classe média, intelectualizados, que se debruçavam em seus sofrimentos mais íntimos, em contraponto com as mazelas sociais, ou determinado período histórico. Com o surgimento das tantas possibilidades de autopublicação e as editoras menores, alçaram espaço neste tão pequeno e disputado mercado também as chamadas “literatura periférica” e outros subgêneros que têm atraído a atenção dos leitores. Essas formas de publicações também possibilitaram o resgaste de escritores mais experientes, esquecidos ou deixados de lado pelas grandes. Acredito que hoje, algo novo, e qualquer possibilidade de diversificação vem daí: das pequenas casas editoriais, dos guetos, enquanto as grandes, a maioria, atualmente, formadas por grupos de investimentos internacionais, publicam os consagrados, os grandes boons estrangeiros que já chegam vendidos, as séries adolescentes, as sempre presentes autoajudas e outras literaturas menores na qualidade literária, mas muito mais representativas em termos de mercado. Minha aposta é na diversificação. Estou no time dos que trabalham pra isso.   

Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Em tempos de selfies, redes sociais e exposição da intimidade, não é de se espantar que a imagem do autor tenha ganhado cada vez mais espaço que o próprio livro. Nas feiras, a participação é do autor. Pouco se faz, a não ser falar, do livro em questão. Fala-se muito mais da vida do autor, do seu processo criativo (pergunta sempre presente nestes encontros) e dos seus compromissos. Os curadores, que estão em alta nestes tempos, já sabem quais são os autores divertidos, os piadistas, os chatos, os que reclamam de tudo, e até os que têm alguma picuinha, para tornar interessante esses encontros. Em muitas feiras, vende-se ao público, stand-ups literários, discussões pouco relevantes sobre a literatura e os livros. Nosso país não consome tantos livros assim, para dar conta de tantos eventos, mas adoram ver e ouvir as celebridades. No meio literário também há celebridades que são presenças cativas em todos os eventos. No mais, a própria bienal de São Paulo mostrou isso, ao apresentar, como as grandes estrelas da feira, os youtubers, que levaram milhares de jovens ao evento. Vejo cada vez mais uma preocupação muito mais comercial do que literária e artística nesses eventos. Acho que a tendência é só piorar, visto que bons e antigos eventos como o da Feira do Livro de Passa Fundo, por exemplo, acabaram por falta de apoio e patrocínio, enquanto eventos com forte apelo de marketing só crescem.


Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Como editor, gosto da ideia. Levar nossos livros para outros países. Traduções. Porém, não dá para pensar nisso sem antes ter esse livro e essa literatura consolidada por aqui. Alguns autores brasileiros têm conseguido publicações em Portugal antes do livro sair no Brasil, mas isso não é sinônimo de sucesso ou mesmo de reconhecimento do trabalho. Algumas destas editoras, por exemplo, tem filiais no Brasil e veem este tipo de publicação muito mais como um bom negócio comercial, do que, propriamente, como uma aposta artística de qualidade. De qualquer forma, sempre consumimos a literatura estrangeira, no Brasil, posso afirmar que vende-se muito mais livros estrangeiros que brasileiros por aqui. Assim como também posso afirmar que fora do Brasil, 90% da literatura brasileira consumida são os grandes clássicos, autores consagrados, os cânones brasileiros, então, acho interessante a gente tentar mostrar que ainda continuamos produzindo boa literatura e novos nomes. Mas quando se pensa em vender direitos, exportar um livro brasileiro, é preciso ter em mente que é uma competição ainda mais difícil, pois temos como concorrência o mundo inteiro.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Ambos são importantes, mas tenho visto muito mais funcionalidade nos saraus literários do que nas políticas públicas de leitura. As políticas públicas de leitura existem, mas na maioria das vezes não são funcionais. Como boa parte das políticas vigentes no Brasil, os programas criados pelos governos só funcionam até a página 2, ou seja, até as verbas serem distribuídas, os serviços contratados, as impressões dos livros serem feitas, etc... Depois, os livros são distribuídos sem critérios, alguns vão até para o lixo, os programas não funcionam e não têm acompanhamento, o público alvo é mal definido e tudo vai por água abaixo. Isso para não falar da burocracia. Já os saraus literários são feitos, na maioria das vezes, dentro de uma comunidade e para aquela mesma comunidade. Muitas pessoas, principalmente, de origem mais humilde, têm se descoberto leitores de poesias (e também da prosa) nestes encontros. Esses saraus têm um alcance bem menor, porém, muito mais funcional. Talvez uma boa fosse aproximar as políticas públicas destes encontros, claro, sem deixar de lado a escola, a biblioteca e outras tantas possibilidades. 

Otavio Cesar : Livreiro do Alemão

Ler o quê? como? Para quê?
Ler de tudo. Sem preconceito. Até se descobrir leitor e definir seu gênero preferido. Ler por prazer, como primeiro passo. Essa é outra questão que nos aflige: nas escolas, sempre os mesmos livros, pouco ou quase nada do contemporâneo entra na grade. Tentar introduzir um jovem não-leitor à literatura com um livro escrito dois séculos antes é algo impossível, você acaba gerando um efeito contrário: o sujeito vai achar que literatura é a coisa mais chata do mundo. Apresentar um livro que fala a sua língua e situa-se no seu tempo, o livro de um autor que possa visitar essa escola (em tempos de selfies) é ainda muito mais funcional. Ler para quê? Para tudo, ler é sempre um boa e possível saída.  

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea: um espaço de exclusão?
Não. Acho o contrário. A literatura é sempre de inclusão. Às vezes você se depara com um personagem, tido como estranho, alguém socialmente não aceito e acaba por se identificar com ele. Sente-se até orgulhoso por isso. E por isso, acaba se aceitando, se incluindo de alguma forma. Gosto de escrever, publicar e ler meus contemporâneos que registram o seu tempo nos textos literários, não como um espelho do mundo social, mas parte construtiva dele, ou seja, assim como a texto sofre a ação do meio em que é produzido, sobre ele, age como elemento de reflexão, o que não deixa de ser um ato social e, de inclusão, mas não como compromisso. A literatura, por gosto pessoal, por aproximação, por reflexão, por disseminação de dúvidas e angústias, é sempre muito mais inclusiva que exclusiva, na minha opinião.

Biblioteca - Vieira da Silva


Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Antes de tudo, profissional das letras, já que escrever deve ser, sempre, a sua principal atividade. Mas neste mundo moderno, nada contra o autor ter outras atividades. Boa parte dos curadores, mentores das feiras e eventos literários são autores-agitadores culturais. Não vejo problema nisso. Quanto ao intelectual, propagou-se essa ideia de que o escritor, normalmente, é um intelectual. Prefiro ver o escritor como um contador de histórias, antes de tudo. Tivemos grandes escritores e compositores que não eram intelectuais e mesmo assim, deixaram obras incríveis, que intelectuais estudam até hoje. 

XXX


Marcelo Nocelli é escritor, editor e técnico gráfico. Formado em tecnologia eletrônica gráfica (1996) e Licenciado em Letras (2010). Atua há mais de 20 anos na indústria gráfica livreira, é sócio editor nas editoras Reformatório e Pasavento. Autor de contos e crônicas publicados em revistas e sites especializados no Brasil, Alemanha e Itália, é autor dos romances O Espúrio, 2007 (traduzido e publicado na Alemanha em 2013), O Corifeu Assassino, 2009 (traduzido e publicado na Itália em 2014), ambos pela LCTE Editora, e Reminiscências, 2013, editora Reformatório. Em 2014 organizou os livros Grenzelos, antologia de contos que reuniu 25 autores brasileiros inéditos com idade até 40 anos, publicado na Alemanha pela Editora Arara-Verlag e Crônicas da UBE, antologia de crônicas com 29 autores brasileiros filiados a UBE – União Brasileira de Escritores, publicado pela Editora Pasavento. Foi Secretário Geral da UBE – União Brasileira dos Escritores durante a gestão 2013/15. Em 2015 integrou a Comissão Julgadora do ProAC de Literatura nas categorias Autores Inéditos e Coleções de Editoras.


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