segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Mas você trabalha em quê?



Mas você trabalha em quê?

Por Claudia Nina

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
A diversidade é, sem dúvida, uma das marcas da contemporaneidade literária – e não apenas no Brasil, acredito. Nesta diversidade, incluem-se não só as diferentes linguagens, temas e gêneros, como também diferentes qualidades.  Muita porcaria tem sido editada. Sempre me pergunto por que motivo. É claro que podemos pensar que qualquer pessoa tem o direito de publicar qualquer coisa. Mas não deveria. Acho que falta critério – tanto por parte de quem escreve quanto por parte de quem edita. Aliás, alguns autores são tão afoitos que não esperam por uma editora – publicam por si mesmos, sem que um outro olhar participe da história daquela obra, o que para mim é fundamental. Além disso, há vários outros peixes podres neste mar: vende-se mais o que é produzido em grande escala, obedecendo a uma demanda? O que começou primeiro? Como se trabalha a leitura de qualidade no Brasil? Por um lado, temos os livros que não são boa literatura (não inovam, estão cheios de erros e de clichês) vendendo milhões; por outro, autores despreparados que se acham prontos para a publicação e insistem em acontecer não importa como. No meio disso tudo, estão os autores que já alcançaram uma certa qualidade literária, uma porcentagem pequena, tentando sobreviver e fazer com que os editores tenham tempo de ler suas obras – o que é difícil, pois estão sobrecarregados, na tentativa de encontrar alguma coisa de valor nas pilhas de originais diários. Bom, soma-se a isso a inexistência de um público leitor; não há política de incentivo à leitura que dê conta do atraso. Ou seja: um caos. Contudo, sou otimista. Acho que o número de excelentes autores crescerá cada vez mais, e a literatura contemporânea brasileira (para a qual acendo uma vela diariamente, tem autores incríveis despontando todos os anos), irá brilhar em um cenário mais gratificante. Não custa sonhar. Cansa menos.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Simplesmente adoro as festas literárias. A Flip, por exemplo, é um evento incrível. Adoro. E adoro cada vez mais. Não só por conta da programação oficial, mas especialmente por conta do entorno, das casas culturais que se abrem na cidade e que oferecem ótima programação gratuita. É só chegar, puxar uma cadeira e participar. Sei que é um trabalho lento. Não é de uma Flip para a outra que o número de leitores no Brasil irá se multiplicar, mas é uma iniciativa que precisa ser louvada, assim como as feiras e festas menores que se espalham pelo país. Não vejo problema algum nos selfies. Não são coisas excludentes em relação ao amor pelos livros. Pode-se querer tirar 300 selfies e ser apaixonado por literatura, atuante, bom leitor. A gente não pode achar que uma coisa exclui a outra. E tudo demanda tempo. Provavelmente, o mundo cultural e literário que queremos para o Brasil ainda demore alguns séculos...

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Temos vários entraves quanto à exportação do livro brasileiro. A língua, por exemplo. O intercâmbio entre autores e tradutores é essencial. Contudo, para que funcione, é preciso que haja agentes literários a fim de processarem a intersecção, incluindo aí a oferta do produto no mercado internacional. A meu ver, existem poucos agentes no Brasil. Há ótimos profissionais que estão absolutamente sobrecarregados. Falta gente boa para engrossar a atuação. Mas acredito que este não seja nosso maior desafio. Nosso maior desafio é ser lido pelos leitores da nossa língua. Não somos. Vai demorar muito até que venhamos a ser.

© Anouk Kruithof, Enclosed Content Chatting Away In The Colour Invisibility, 2009

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Políticas de leitura, saraus literários e tudo mais que houver nessa vida. Acho que nenhuma estratégia deve ser descartada. O cenário ainda é tosco, cruel, em termos de leitura. Observo as pessoas com as quais convivo diariamente. É um preconceito medonho dizer que as classes mais pobres são as que leem menos de forma generalizada. Tudo bem, as coisas ficam mais impossíveis quando não se tem acesso à cultura, certo, não sobra dinheiro para a compra de livros que são caros para os padrões nacionais, certo, e todo esse blá blá blá óbvio. Porém, gostaria de entender por que motivo pessoas que têm um ótimo salário, viajam anualmente para o exterior, comem nos melhores restaurantes e se vestem com as melhores grifes não leem. E não leem mesmo! Porque se tivéssemos uma classe dominante leitora, nosso país não estaria em situação tão precária. A literatura nos humaniza. É fato.

Ler o quê? como? Para quê?
Porque o mundo com a literatura é mais humano. A leitura não só faz com que a gente articule melhor as ideias, para que não sejamos manipulados por conceitos alheios como faz com que a gente entenda nossas falhas, nossos subterrâneos. Um mergulho literário transforma o que temos como horizonte de sonhos: o mundo simplesmente material, com seus desgastes, suas agruras, maldades, fica menor. Se aquele profissional liberal que gasta fortunas decorando uma casa nova, com banheira de pé dourado, por exemplo, mas nenhum livro na estante, soubesse o que está perdendo... Enfim, não estou generalizando. É apenas um caso real que utilizo como exemplo. A revolução literária será lenta. Ainda está por vir. Nas escolas, a leitura deveria dar mais ênfase ao prazer. Minhas filhas sempre preferem os livros que não são de obrigação. Muitas vezes, a forma como os livros são adotados é ultrapassada, chata. E, então, desde cedo, a literatura fica relacionada a uma atividade de obrigação. Alguns trabalhos escolares são chatérrimos. Muitos livros de obrigação também. Então, há que se criar novas formas de interação entre a criança e o livro. Uma iniciativa muito bacana que tem ocorrido cada vez com mais frequência é a participação dos autores nas escolas para que os alunos conheçam o rosto e a voz por trás das histórias. Isso faz com que a literatura ganhe uma tridimensionalidade fundamental.

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Para mim o grande desafio na literatura é o da profissionalização do autor. Imagine o dia em que ele poderá se apresentar como autor e não precisará esperar pela pergunta que vem depois: mas você trabalha em quê? Como se escrever não fosse um trabalho como qualquer outro. Talvez não seja mesmo. É altamente viciante – poucos trabalhos o são. Contudo, acredito que um dia poderemos completar simplesmente com uma pequena palavra as fichas dos hotéis – o que faço da vida? Sou autor. E que isso baste. Porque isso é imensidão.

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Claudia Nina é Jornalista e doutora em Letras pela Universidade de Utrecht, na Holanda, com tese sobre Clarice Lispector, publicada pela Editora da PUC-RS (A palavra usurpada, de 2003). Trabalhou como professora-visitante na Uerj, em Teoria Literária. Desta experiência, nasceu a base da pesquisa para seu segundo livro: A literatura nos jornais: crítica literária dos rodapés às resenhas (Summus, 2007). O livro A barca dos feiosos, com ilustrações de Zeca Cintra, foi sua primeira obra de literatura infantil, lançada em 2011. O texto, que fala de diversidade, foi apresentado como trabalho final de curso do Publishing Management – O negócio do Livro, pela Fundação Getúlio Vargas. Pela Editora DSOP, publicou seu segundo livro infantil, Nina e a Lamparina, com ilustrações de Cecília Murgel. Também publicou o perfil biográfico ABC de José Cândido de Carvalho (Editora José Olympio), e os romances Esquecer-te de mim (Editora Babel, 2011) e Paisagem de porcelana (Rocco, 2014). Os lançamentos mais recentes são os infantis A misteriosa mansão do misterioso Senhor Lam (Vieira & Lent, 2015) e A Repolheira (Aletria, 2015). Participou em 2014 da antologia Vou te contar (Rocco), com o conto “Na solidão da noite”. É colunista da Revista Seleções (Reader´s Digest). Em 2016 participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien et foi finalista do Prêmio Rio de literatura. 

Um comentário:

  1. Outra excelente entrevista. Vale por uma palestra, por um pequeno ensaio!!

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