segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Escritor também é uma profissão


Escritor também é uma profissão


Por Sérgio Tavares



1. O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.

Não penso que sejam condições antagônicas, mas subsequentes e inevitáveis. As tendências editorias são cíclicas. Com uma ou outra adaptação ao consumo pontual, as temáticas se repetem e, por mais fresca que possa parecer para uma determinada época, nada mais é que um produto igual em embalagem distinta. Há alguns anos, o que estava em alta era a chamada autoficção, depois vieram os romances que abandonavam o cenário urbano e se interiorizavam, contudo nenhum dos gêneros tem qualquer coisa de inovador. O que definitivamente é novo são os investimentos para seduzir o leitor ou alimentá-lo com o que este deseja. Agora, se analisarmos de maneira geográfica, sim, há uma diversificação (e proliferação) no aparecimento de novos autores e, por conseguinte, de novas editoras. Contudo esse é um processo que carece de cuidado, pois mais autores não condiciona uma variedade e, muito menos, uma qualidade literária. Literatura, no Brasil, não é algo a se esbanjar, portanto as grandes editoras, que dependem de retorno financeiro, apostam no que é mais certo de fechar a conta. E isso depende muito das vendas de livros internacionais. Os autores brasileiros, com raríssimas exceções, não se pagam. A verdade é que são o rescaldo do lucro vindo dos bestsellers.

2. Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?

A última Bienal do Livro de São Paulo mostrou que o futuro é o presente. Um evento onde a figura do autor (?) é muito mais celebrada que o livro. O caminho é inevitavelmente esse para as bienais e demais feiras: ocasiões em que se formam filas diuturnamente para se tirar selfies com celebridades literárias, no que há de mais raso nesse termo. Claro que os bons autores continuarão a ter seus espaços, suas mesas de discussão, seus assuntos pertinentes. Porém não são e nem serão as atrações principais, aquilo que irá motivar a ida em massa do público, sobretudo o público mais jovens. As feiras serão, cada vez mais, festas. E as festas serão, cada vez menos, literatura.

3. Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?

Sem demagogia,  penso que antes é necessário se fazer a nacionalização da literatura. Acho curioso quando vejo um autor reclamar que não consegue tradução e exportação para seu livro, sendo que este é pouco lido no Brasil. Por aqui, a literatura ainda é um disparo de curto alcance, um existir que depende de pequenos acontecimentos. Há de se investir na disseminação da literatura, não apenas vinculada a projetos educacionais, mas através de campanhas e eventos que apresentem e estimulem a literatura brasileira ao público brasileiro. E isso também inclui um interesse maior dos veículos de comunicação em abrir espaço para os autores nacionais. Só depois é que se pode pensar em internacionalização ou exportação do livro. Até porque não conheço nenhum autor estrangeiro lançado por aqui que seja um desconhecido em seu país de origem.



4. Políticas públicas de leitura ou saraus literários?

Políticas públicas de leitura, sem dúvida. De maneira efetiva, de maneira urgente. Projetos que sejam voltados para o estímulo da leitura nas escolas, ao longo do curso educacional, mas também para o público adulto, e não me refiro apenas aos menos favorecidos, os de baixa formação intelectual. Há muitas pessoas com graduação superior que não leem, que não leem sequer para seus filhos. Literatura só ganha força se for hábito. E hábito é algo que melhor se cria de pequeno, de maneira gradativa.

5. Ler o quê? Como? Para quê?

Ler, primeiramente, algo que dê prazer, seja o que for. Os livros devem ser convites, sem qualquer traço de imposição. Na resposta anterior, falei sobre a importância do estímulo à leitura nas escolas e, talvez, esteja nas próprias escolas um de seus adversários. É fundamental uma renovação do catálogo de livros aplicados nas salas de aula. Livros que condigam com a realidade dos jovens, que sejam mais atrativos nesses primeiros contatos. A leitura deve, sim, ser prazerosa, entreter. Livro não serve apenas para educar, para construir intelecto, mas para divertir. No Brasil, onde pouco se lê, há um entendimento bizarro de que o gosto pela leitura tem de partir dos livros de Machado de Assis, de Eça de Queirós. E isso, na maioria das vezes, vem atrelado a um sentido de obrigação. Está errado, produz o efeito inverso, gera rejeição. Se o livro não for apresentado como algo capaz de proporcionar fuga, não servirá para, num primeiro momento, agradar e, de maneira gradual, formar o leitor.

6. Ver, ouvir e imaginar o outro.  A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?

Não. Muito pelo contrário. Não houve um momento da literatura em que o outro, o homem social, fosse o protagonista invicto. Primeiro com a saída do campo para a cidade, depois do espaço externo para o espaço interior. A literatura brasileira contemporânea é calcada no realismo. E a matéria dessa corrente são as experiências, as observações. O autor brasileiro, independente da região do país, não se sente mais compromissado em registrar suas raízes sócio literárias, em instaurar polos de temáticas regionais. O país – e também o mundo – é o espaço onde se extrai elementos de múltiplas naturezas para serem convertidos em composição ficcional, um vasto espaço de inclusão

7. Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.

Certa vez, ouvi de alguém do mercado editorial que o autor, hoje em dia, não pode apenas escrever. Tem de ter muitas curtidas em suas postagens nas redes sociais, participar de eventos literários, ser extrovertido e agradar a plateia. Sinceramente, penso nisso de maneira prática. Escrever, ainda que muitos não acreditem, é uma profissão. E, como toda profissão, constitui-se do algo a se fazer. O padeiro faz o pão; o carpinteiro, a cadeira; o escritor, escreve. Simples. Se tiver isso com clareza e prioridade, o autor pode ser o que bem entender: profissional das letras, agitador, intelectual. Caso contrário, será um macaco de circo empunhando o catálogo do espetáculo.

8. Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.

Essa é uma das questões que mais me afligem. Com a chamada democratização da literatura, escorada nas novas maneiras de publicação, no surgimento das pequenas editoras e nas ferramentas virtuais à mão do autor, tivemos, nos últimos dez anos, um crescimento monstruoso no número de autores; ou melhor, de pessoas que escrevem e publicam. Não há mais os limites antes exercidos pelas grandes editoras, com suas demandas e seus filtros. Qualquer um pode publicar um livro de razoável qualidade editorial hoje em dia. E isso, a meu ver, tem dois efeitos inquietantes. O primeiro é o nivelamento da qualidade literária. Livro é livro e, apesar da diferença brutal de qualidade artística que possa existir entre um e outro, ambos têm igual condição de disputar o leitor. O outro ponto refere-se ao leitor. Independente de qualquer esforço, não há leitor para consumir toda essa oferta. E, assim, temos um cenário melancólico, que é o autor que lê o autor, e a literatura se encerra em clubinhos. Toda a vez que levanto esses fatos, há sempre uma argumentação mais ou menos parecida que é: “Não se preocupe, o que é bom ficará”. Mas, afinal, o que é bom? O que será o bom, no futuro?


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Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de Queda da própria altura, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participa também da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. A nova crítica (anovacritica.wordpress.com) é seu site de resenhas literárias.

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