segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A literatura : um exercício de utopia e resistência

A literatura : um exercício de utopia e resistência

Por Carola Saavedra

O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Por um lado, temos os grandes grupos editoriais. Por outro, as pequenas e médias editoras, em geral empreendimentos quixotescos, que sobrevivem com pequenas tiragens, poucos leitores, dificuldades de distribuição etc. É um exercício de utopia e resistência. A esperança é que os grandes grupos mantenham espaços para a literatura de qualidade, mas que não necessariamente corresponde às expectativas do mercado, e que as pequenas e médias editoras encontrem formas de não sucumbir num país em crise.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literarias no Brasil?
As festas literárias são importantíssimas, mas acho que grande parte delas se interessa apenas pela persona do autor, ignorando o principal motivo de ele estar ali: o livro. Precisamos repensar esse modelo, o foco deveria ser sempre o livro, com mediadores realmente preparados para isso, com leitura de algumas passagens, com o estabelecimento de um diálogo capaz de aproximar público e literatura. Agora, só os festivais, sem um sistema educacional que funcione, rende muito pouco. Um público que não sabe ler literatura (e isso se aprende, ou deveria se aprender na escola) será sempre um público que precisa ser entretido, que espera ver no palco, não um escritor, mas uma mistura de ator, apresentador e comediante.
Compression de papiers - César

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
A internacionalização é uma tendência que veio para ficar, não há como ignorar esse aspecto, o que não significa que não existam fortes correntes contrárias. Na literatura brasileira contemporânea convivem todas as tendências possíveis, e me parece muito saudável que seja assim. Quanto à exportação do livro brasileiro, ela só é possível a partir de um apoio governamental à tradução, divulgação etc. o Brasil deu vários passos nesse sentido e tivemos resultados interessantes, mas agora, a tendência é que esse tipo de incentivo desapareça completamente.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Políticas públicas, com certeza. A literatura é uma necessidade cultural, e deve ser fomentada pelo Estado. Aliás, é o que acontece na maior parte dos países da Europa, a literatura não é um enfeite, um entretenimento de quem não tem mais o que fazer, ao contrário, a literatura é essencial para se pensar a realidade e as escolhas que fazemos, seja no âmbito individual, seja no que diz respeito à trajetória de um país.

Ler o quê? como? Para quê?
Acho que a questão principal é “para quê”. Não concordo com essa ideia de que a literatura não serve para nada. A meu ver, a função da literatura é (entre outras coisas) mostrar a complexidade do mundo e do próprio sujeito, permitir que as pessoas compreendam a existência de outras vidas e outras formas de pensar e que, assim, sejam capazes de enxergar naquele que é diferente, um outro ser humano. Num sentido político, aprender a ler (literatura) é adquirir uma ferramenta essencial para desenvolver o pensamento crítico, e por consequência ser capaz de transformar a si mesmo e à realidade em torno.


Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Acho que não. É claro que há tendências que apontam para o autor como centro da própria narrativa, mas não acho que isso signifique necessariamente a exclusão do outro, já que ao transformar a realidade num discurso narrativo, o que se faz é automaticamente criar um “outro”, que é e não é o autor. O importante aí é ser capaz de fazer a passagem do pessoal para o “universal”, em outras palavras, não importa que escolhas o autor faz, mas os resultados.

  
Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
A questão que permeia essas perguntas, me parece, é como sobrevive o escritor. Antes, até a década de 90, ou ele era rico e não precisava trabalhar, ou tinha um emprego fixo e nas horas vagas escrevia. A partir dos anos 2000 houve uma profissionalização, que me parece importantíssima, pois se trata de valorizar o trabalho artístico e intelectual, e principalmente, afastar-se dessa ideia absurda de que o escritor só precisa de lápis e papel, um ser etéreo que vive em sua torre de marfim à espera da visita das musas. O escritor é alguém que tem todo o direito de cobrar por seu trabalho! Porém, essa mudança trouxe outras questões, o autor passou a viver, não da venda de livros, mas de uma série de trabalhos relacionados à literatura: participação em feiras, artigos em revistas e jornais, traduções etc. Isso o obriga a buscar constantemente certa visibilidade, a publicar um livro a cada dois, três anos, enfim, a estar na mídia. E esse tempo, claro, é roubado de algum lugar, em geral, das horas necessárias para pensar com calma o texto literário, para ler de forma mais aprofundada etc. Agora, não vejo isso de maneira nostálgica, de jeito nenhum, se compararmos com o sistema anterior, as condições são bem melhores. O que não significa que sejam ideais.

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente
Acho que o principal desafio é escrever apesar do mercado e não para ele.

XXX




Carola Saavedra é autora dos romances Toda terça (2007),  Flores azuis (2008, eleito melhor romance pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), Paisagem com dromedário (2010, prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti), e O inventário das coisas ausentes (2014), todos publicados pela Companhia das Letras. Seus livros estão sendo traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Está entre os vinte melhores jovens escritores brasileiros escolhidos pela revista Granta. Carola Saavedra colabora para a Revista Pessoa

Um comentário:

  1. Carola Saavedra sabe dar resposta às perguntas de hoje sobre a matéria. Concordo plenamente com sua última frase sobre o desafio e a necessidade de se escrever apesar do mercado e não para ele. Maria Júlia - coordenadora do blog Roda de Escrevinhadores

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