quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A literatura precisa circular

Entre selfies e livros
Por Marta Barcellos

Primeiro, foram os lançamentos com debates, no Rio e em São Paulo. Depois: Flipoços, Casa Sesc na Flip, Feria del Libro de Santa Cruz de la Sierra, Flipipa, Café Literário em Vitória, Biblioteca Parque e Escola Sesc no Rio, Projeto Aldeia em Aracaju, Semana Literária no Paraná, Tarrafa Literária em Santos. Pela frente, eventos literários em Maceió, Foz do Iguaçu e Manaus. Não foram poucas as vezes em que me atormentei: esse blá-blá-blá faz sentido?

Talvez tenha sido o impacto. O circuito que um escritor normalmente demora a frequentar, um ganhador do Prêmio Sesc de Literatura conquista da noite pro dia. O.k., nem tanto; não se trata de um dia acordar escritor, porque para ganhar o prêmio o tal iniciante sempre tem uma intensa – e discreta – trajetória de escrita. Mas, um telefonema (Marta, você ganhou o Prêmio Sesc) e pronto, acaba a discrição. De repente me vi catapultada ao tal circuito, antes de ter chance de naturalizá-lo como parte da vida de um escritor.

Meu espanto com o fenômeno do “escritor-celebridade” talvez tenha sido potencializado por outra especificidade do Prêmio Sesc: como o anúncio dos vencedores de se dá a partir de um manuscrito, avaliado pelos jurados, a edição, pela Record, demora alguns meses. Durante este intervalo, vivi a inusitada situação de escritora célebre sem livro publicado. Eu me constrangia, mas ninguém parecia ver problema nisso. Lembro-me de um dia ter desabafado a um amigo: sou o personagem, de fama súbita e inexplicável, vivido por Roberto Benigni no filme “Para Roma com amor”, de Woody Allen. Leopoldo, de vida comum e pacata, passa a ser perseguido por jornalistas e paparazzi interessados em saber como prefere suas torradas, se dorme de bruços, com que mão escova os dentes.

Menos, Marta, menos – recomendou meu amigo, providencialmente distante do mundo literário. Pois, é, a celebrização do escritor, como ficará claro mais à frente, é bem relativa.

Quando o “Antes que seque” finalmente foi lançado, e ganhou resenhas simpáticas, fiquei mais confortável. Mas se avizinhava a agenda de lançamentos e feiras literárias que os vencedores Sesc em geral cumprem, e flagrei-me envergonhada de participar de algo que desconfiava já ter criticado. Senti a necessidade de buscar um sentido nessa “turnê literária” que fosse além do se render à autopromoção, supostamente necessária e típica do nosso tempo.



O sentido, ainda o busco, admito. Mas posso compartilhar aqui algumas reflexões. A primeira veio a partir da visita que fiz a uma professora com a qual tive o privilégio de conviver durante o meu recente mestrado em Literatura na PUC-Rio. Marília Rothier Cardoso fora uma espécie de coorientadora informal, de mim e de uma legião de alunos/fãs. Cheguei com o livro recém-lançado e com a minha vergonha; eu iria participar de muitos eventos literários, confessei. Falei da dificuldade com o primeiro deles, a necessidade de construir uma narrativa sobre o próprio livro, e, mais estranho, sobre si próprio, isso tudo alimentando uma espetacularização da literatura que...

A professora Marília, no entanto, não deu a menor trela para minhas pseudo-justificativas de escritora-marqueteira-mas-vítima-da-situação. Apenas me interrompeu com algo como, Marta, o importante é a literatura circular. Acho que usou outra palavra, não literatura, talvez escrita, como uma tradução de “escritura”, porque aquela suspensão imediatamente me remeteu a Jacques Rancière e seu pensamento sobre a necessidade, política, de fazer a escrita circular.

A questão política me voltou à mente quando uma segunda pauta se impôs, nas entrevistas e nos debates. Uma pauta que ia além do próprio livro ou da própria vida: mulheres escritoras. Em poucos meses, várias escritoras haviam sido premiadas, uma coincidência que, como jornalista, achei natural tornar-se um “gancho”.  E, por que não, uma oportunidade. Alguns amigos homens – estes ligados à literatura – preocuparam-se que eu e Sheyla Smaniotio, minha dupla de Prêmio Sesc, ficássemos marcadas pela maldição do assunto “literatura feminina”, já tão desgastado. Dessa vez, quem não via problemas era eu, que me encontrava numa fase de intensas reflexões feministas.

Mas não era para escrever; era para falar. E uma das poucas certezas que sempre tive na vida foi a de que escrevo infinitamente melhor do que falo. Então era para treinar e falar. Além de vislumbrar a oportunidade de falar sobre feminismo – ao expor as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na literatura –, comecei a flertar com a ideia (eu procurava um “sentido”, lembre-se) de que o escritor podem estar sendo (re)convocado hoje a assumir, sim, um papel de intelectual. Diante da suposta missão, passei a me preparar, com leituras, para os temas das mesas. Foi assim, por exemplo, que quase decorei um ensaio de Virginia Woolf sobre “Mulheres e ficção”.



E também tirei selfies. Mais que isso, tirei selfies com pessoas da plateia que nunca lerão o meu livro. Pessoas simpáticas, afetuosas, sinceramente tocadas por aquele momento, digamos, supraliterário. Tive encontros com outros escritores que buscavam igualmente o seu lugar, o seu sentido, naquilo tudo. Trocamos piadas cúmplices sobre nossa estranha condição. De longe, eu observava o traquejo dos escritores realmente famosos, nem sempre tão escritores assim. A literatura precisa circular, do jeito que der, do jeito que dá, me convencia. Tento me convencer.

Foram muitos os encontros. Com ou sem selfies, há sempre os leitores visivelmente tocados pela literatura – ela, ali, aproximada (do que jeito que dá, do jeito que deu) da vida.

Outros encontros virão. Vai que, num desses, tateio o tal sentido, ainda que ofuscada pelas luzes dos refletores. Se não o sentido dos eventos com selfies e sem livros, o de minha própria busca.

XXX


Escritora e jornalista, Marta Barcellos foi a vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015, com o livro de contos Antes que seque, na segunda edição, pela editora Record. É carioca, formada em jornalismo pela UFRJ, com mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Tem dois contos publicados na coletânea Sábado na estação (Ed. Apicuri), organizada por Luiz Ruffato, e está escrevendo seu primeiro romance. Trabalhou 18 anos como repórter nos jornais Valor, Gazeta Mercantil e O Globo. Atualmente é colaboradora do caderno “EU&Fim de Semana”, do Valor, e colunista na Revista Capital Aberto e no site Digestivo Cultural.


2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Leonardo, esta série de entrevistas/depoimentos está excelente! Difícil dizer qual a melhor.

    A da Marta Barcellos, por fugir um pouco do roteiro, foi a que mais me tocou por tratar deste tema tão presente na vida do escritor: a espetacularização das atividades em torno do livro, da literatura e do leitura.

    Já no aguardo do próximo!

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