segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Paris-Brest

Paris-Brest

Nunca entendi direito este apego de certas pessoas por trens. Também faço parte destes nostálgicos. Cantado a Maria-Fumaça. Os pés esmagados num vagão da CPTM. Todos esprimidos como sardinhas em lata. Sem óleo, obviamente. Nesta era dos bio.  Dos lights. E dos desnatados. Sem gorduras trans. Sódio. Ou qualquer outro glutenzinho malévolo que venha atazanar a nossa taxa de colesterol. Desamantegaram os meus croissants. Os pastéis foram para o forno. E o torresminho, destronado, vingou-se tomando um caldo de cana sem sacarose. Sôbolos rios que vão. Pelo brejo, talvez. Ou não. De todo modo, sempre gostei de trens. O meu primeiro foi até Rio Claro. Era um trem especial que tinha um nome esquisito. Hoje nem tchuc-tchuc eles fazem. Silenciosos. Velozes. A bala. Recuso-me a associar minha velha e nostálgica Maria-Fumaça a qualquer metáfora bélica. Meus trens não são a bala. Mas de bala. Cada vez que entro num deles, vingo-me. Cantando o jingle  do baleiro rodando. 


Le TGV numéro 4440, à destination de Brest, départ 12H01 partira voie 6. Il desservira. Voz docinha. Essa tem bastante sacarose. E até anelina. E eu gosto. Lembra a da mocinha  que sai nos alto falantes dos aeroportos no Brasil. Voo número 389 para Teresina. Embarque imediato. Meu amor. Portão 2. Mas antes passe aqui para um cafuné. Eu iria. E eu vou. Aqui. Cantando.  O roda-roda-roda-baleiro-atenção. Hoje meu trem vai para Brest. Eu desço em Rennes. Paris-Brest. Como o docinho. Pâtisserie en forme de couronne, composée d'une pâte à choux fourrée d'une crème mousseline pralinée, garnie d'amandes effilées. Tchuc-tchuc. E lá vou eu. No meu trem recheado de mousselina. Com um livro coberto de amêndoas. O livro é de Alexandre Staut. Ele também é um Paris-Brest. Que li. E gostei. E comi. Como Ezequiel. Devorei-o. Todinho. É doce como mel. E só sobrou o prólogo que hoje publico. Mas atenção. Leiam rápido. Pois ainda não almocei. E o baleiro já começou a rodar.
Leonardo Tonus

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Reescrevendo Trufault

Por Alexandre Staut

Uma das primeiras lembranças que tenho da França vem de “O garoto selvagem” (1970). Assisti ao filme numa madrugada, como tantas outras, na sessão Coruja, no fim dos anos 1980. François Truffaut, o diretor, inspirou-se em fatos reais de 1700 e pouco. A história fala de um garoto de idade indefinida, 11 ou 12 anos, aparentemente surdo-mudo, que grunhia e se movia como quadrúpede, numa floresta francesa, apartado da civilização e da espécie humana.
Logo nas primeiras cenas, o menino de cabelos longos e desgrenhados cheira o solo. Procura bolotas, cogumelos e raízes, que lhe servem de alimento. Em seguida, ele é capturado por caçadores e levado a um vilarejo. Vai viver com um médico (interpretado pelo próprio Truffaut) e vira atração entre as crianças do lugar.
Maravilhada com o esquisitinho, a meninada monta em seu lombo, como se fosse um burrico, divertindo-se ao perceber que o forasteiro se comporta mais como bicho do que como gente.
O filme se desenvolve a partir das tentativas do médico de modificar o comportamento do menino. Ele é batizado de Victor, tem o cabelo cortado e esfregam a sua pele para retirar-lhe a sujeira.
No entanto, Victor resiste ao mundo civilizado. Morde enfermeiros do instituto de surdos-mudos de Paris que tentam se aproximar para saber um pouco mais da vida que levava escondido no mato.
Nas anotações que faz sobre a descoberta, o médico escreve que o rapazinho não liga para os sons da voz humana, mas pode despertar de um sono profundo ao ouvir o barulho de uma noz quebrando. Nas tentativas de lhe apresentar o verniz da civilização, o homem o ensina a andar como um bípede, apresenta-lhe sapatos e mostra como beber leite educadamente numa cumbuca.
Aliás, a primeira palavra que Victor fala é lait (leite).
Os progressos na comunicação acontecem principalmente por meio da alimentação, sempre ao redor de uma mesa. É também em torno da mesa que o garoto recebe o seu primeiro castigo, por maus modos. É trancado num armário escuro e, quando sai, chora pela primeira vez. Entre avanços e fugas para o meio do mato, ele resolve encarar a vida em sociedade, com suas alegrias e mazelas.
Esse filme me acompanha há pelo menos três décadas. Depois de assisti-lo na TV, comprei o DVD e já o vi num festival sobre Truffaut, num cinema obscuro da periferia de Paris. Um dos meus maiores fetiches literários é reescrever essa história a partir do roteiro do cineasta, ou seja, fazer o inverso do que se costuma fazer quando se adapta uma obra literária para a tela grande.
Não sei se um dia vou conseguir realizar tal projeto. Em todo caso, há uns anos, me dei conta de que vivera história semelhante à de Victor. Foi, mais precisamente, em 2002, quando aportei num pequeno vilarejo francês, chamado L’Aber Wrach, ao norte da cidade de Brest, no oeste do país.


Não que eu queira fazer qualquer alusão ao mito do bom selvagem americano frente ao homem civilizado. Quero contar apenas que, no começo do outono de 2002, vi-me num lugar do qual não conseguia entender costumes, comportamentos. Estava eu lá sem falar e sem entender uma única palavra da língua local, o francês. Mas, antes de contar essa história, é preciso dizer que a minha aventura envolvendo a França começou uns anos antes.
Vislumbrei morar no país ainda no século passado, em 1999, numa temporada de um ano em Londres, período em que lavei louça e fui ajudante de cozinha em restaurantes. Lá, conheci chefs e cozinheiros franceses, em meio aos banquetes em que trabalham tantos brasileiros até os dias de hoje.
Nas cozinhas de hotéis pelos quais passei, The Chesterfield Mayfair, por exemplo, vi pela primeira vez cozinheiros uniformizados, de toque na cabeça, adorno que os coroava como se fossem de uma linhagem especial e principesca. Vi também alguém coar um molho de vinho tinto púrpura e aromático num utensílio de inox chamado chinois. Ouvi pela primeira vez a palavra fouet e alguém se referir ao fogão industrial de seis bocas como “piano”.
Foi na cozinha de um desses hotéis grã-finos que criei o meu primeiro colis de fruits rouges, onde também experimentei pela primeira vez um cassoulet ou um peixe assado com molho beurre blanc.


Um ano e meio depois, de volta ao Brasil, fui escrever sobre gastronomia em publicações nacionais. Sou jornalista e escrevi minha primeira matéria sobre culinária no caderno Variedades, do extinto Jornal da Tarde, a convite dos editores Sérgio Roveri e Regina Ricca.
Na época, o jornal contava com Saul Galvão como crítico da área; eu ficara responsável por reportagens que envolviam culinária, restaurantes e comportamento. Era um momento em que o Brasil começava a despertar para o mundo dos temperos e sabores.
Depois da breve passagem pelo jornal, trabalhei no núcleo de revistas da Folha de S.Paulo, onde fiz mais reportagens sobre restaurantes. Era o responsável por receber semanalmente a crítica do Josimar Melo, que saía no Guia da Folha, às sextas-feiras.
Em meio a chefs, cozinheiros e donos de restaurantes que conheci nesse entreato, alguns se tornariam bons amigos e me estimulariam a viajar para a França. Por sorte, surgiu o convite para passar uma temporada nos arredores de Brest, mais especificamente na cozinha de um restaurante por lá.
Mesmo sem ter a mínima pretensão de me tornar chef, cozinheiro ou coisa do gênero – minha história sempre esteve relacionada às letras e palavras –, senti uma espécie de chamado de alma para me mudar de mala e cuia para a Europa. É dessa experiência que o livro Paris-Brest trata.

Paris-Brest de Alexandre Staut
(Companhia Editora Nacional)

Lançamento no dia 27 de setembro, 
na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, 
em São Paulo
entre 19h e 21h30

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Alexandre Staut é jornalista e escritor. É autor de dois romances e um livro infantil. É o idealizador e o editor da revista literária São Paulo Review.  O texto acima é o prólogo de ‘Paris-Brest’









Um comentário:

  1. Belo texto do Alexandre Staut! Nem percebi que, de certo modo, era a resenha do seu próprio livro, o qual hei de adquirir.

    Aliás, estava saudoso dos Estudos Lusófonos... :)

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