quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Cisne e o aviador

O Cisne e o aviador

Heliete Vaitsman



2.

O Aviador chamou minha atenção logo que o vi a primeira vez, conta Frida a Brígida, muito antes dos falsos cisnes, dos edifícios espelhados e dos vendedores de água de coco, antes das bicicletas e da ausência dos nadadores. Na minha hora de folga diária depois do almoço, a hora abafada, se o verão não estivesse no auge eu caminhava pela orla quase deserta, e às vezes me sentava num tronco caído com um livro na mão. Não baixava os olhos ao passar por aquele homem maduro que ao me ver ajeitava os óculos de lentes espessas e interrompia o que estivesse fazendo – era o tipo de pessoa sempre em ação, manejando ferramentas, empurrando um bote para a água, ensinando algum movimento aos filhos. Fazia dez anos que eu estava no Rio quando, no dia seguinte a uma tempestade, dia de nuvens espessas, tropecei numa raiz de árvore – um jequitibá vermelho, gigantesco -- e correu para me ajudar. Levantei devagar, os joelhos ralados, um fio de sangue saindo do cotovelo. Não fiz de propósito, nem pense nisso. As poesias de Rilke em edição portuguesa voaram longe e ele as estendeu para mim antes de trocamos as primeiras palavras.
Aos poucos nos aproximamos, macho e fêmea iguais desde que o mundo é mundo. A faísca, você sabe. Por que nos percorre ou nos ignora, nunca descobri. Ele tinha chegado pouco depois da guerra, contou, e construíra uma dúzia de pedalinhos que eram utilizados em passeios por adultos e crianças. Eu era uma mulher madura aos 27 anos, dona do meu nariz, e livre; ainda que trabalhasse seis dias por semana, as noites e os domingos me pertenciam, e também a hora arrastada em que todos descansavam. Nunca tinha me apaixonado de verdade, nunca tinha imaginado compartilhar minha vida com um homem. Diante dele, porém, ao longo dos dias, seguidos de suas noites, olhei o avesso de mim e do mundo. Do meu mundo, letrado e contido. Ele erguia a cabeça e dizia que ia chover à noite, porque o vento sul trazia as nuvens que sabia nomear. Também era capaz de apontar todos os pontos de um globo terrestre, promontórios, baías, escarpas, e foi assim que me mostrou de onde vinha, segurando-me o braço com a mão direita cheirando a graxa. 
Não sei mais se foi apenas fantasia. Talvez. Mas o que lembro é concreto. Como se o mundo fosse feito de certezas e o futuro pudesse ser desenhado ao nosso gosto. O sofrimento nos encontra, não é preciso buscá-lo, você sabe. Hoje vocês têm psicólogos para explicar tudo, naquela época a gente só contava com a própria consciência para decifrar as emoções. Para mim, a presença dele era um intervalo; por mais amenos que fossem os trópicos, o cotidiano não dava trégua a forasteiros, precisávamos caminhar em linha reta se quiséssemos ser aceitos.
Tinha sido piloto militar famoso em seu pequeno país invadido por russos e alemães, me contou, os olhos azuis perdendo-se nas curvas das montanhas, Dois Irmãos, Pedra da Gávea, a beleza intocada. Rosto aceso ao desfiar um rosário de nomes exóticos, travessias oceânicas, desertos africanos, ilhas asiáticas, omitia memórias de guerra. Não ostentava cicatrizes nem mencionava feridas, não estivera em combate, retirara-se para uma propriedade rural que teria prosperado se os tempos fossem de paz. Por que viera, então? Apenas uma vez fiz a pergunta. Não em busca de glória, disse. Que os mortos fiquem entre os mortos, e não invadam o reino dos vivos – era meu lema silencioso naquela época, parecia ser o dele.
Apenas três anos depois de ter chegado, já era louvado como empreendedor – “PILOTO EUROPEU TRAZ NOVOS FLUTUANTES PARA OS CARIOCAS”, dizia uma revista semanal – e herói – “LUTOU CONTRA OS COMUNISTAS E FOI PERSEGUIDO!”. Estufava o peito ao mostrar o álbum de recortes, o hidroavião, os pedalinhos que montara (pensava em dar-lhes nomes além de números). Era preciso acostumar o povo dessa cidade a admirar do alto as suas paisagens. Tanta beleza a aproveitar se formos empreendedores! Em breve os casais fariam brindes à luz de velas sob o céu estrelado, num restaurante flutuante igual ao dos rios europeus.
Não mostrou surpresa ao tomar conhecimento de minha origem, não fez perguntas, esperou que eu contasse. Contei pouco, e continuei, meses a fio, a reduzir a velocidade dos meus passos toda vez que o via junto aos barquinhos, na hora sem clientes, desertas as margens quase selvagens da Lagoa. Só gringos acreditavam que caminhar era um exercício, e eu, eterna caminhante, aproveitava a solidão.
À medida que trocávamos novas palavras, tateando na língua cheia de vogais – sem sinônimos para neve, eu brincava, nunca mais sentiremos frio – ele conferia com o olhar a moça ágil na sua frente e me estendia os remos de um caiaque que eu conduzia, sozinha, sobre as águas mansas, levantando a vista do fundo lodoso e enxergando o querido Tiergarten, meu parque enfeitado por faias e monumentos em meio aos gramados – organizados, geométricos – onde tantas vezes papai abrira diante de nós a toalha xadrez de piquenique.
Não podia prever, o ás da aviação, que as pessoas se desdizem, vão e voltam. Antes que o mundo virasse do avesso,  teve tempo de me observar como ninguém fizera. Uma tarde, entramos no barracão onde guardava ferramentas; a ponta dos dedos passou rapidamente por meus cabelos, e me arrepiei da ponta dos pés ao último fio de cabelo. Perrrfil camafeo – declarou com seu sotaque carregado, a voz baixa, inquieto, e lastimei que fosse refém da mulher e dos filhos que trabalhavam com ele no cais dos pedalinhos.  A moça ágil que eu era ainda não sabia que na vida só somos reféns de nós mesmos e da nossa covardia.
O belo perfil não me teria servido, reagi, eu teria virado pó como os outros se estivesse lá – cabelos de cinzas no lugar de cachos dourados de ariana. O Aviador engoliu a frase com uma careta. Pouco pródigo em aquiescências, tampouco fazia exigências, quem agia era eu, meus passos é que se aproximavam dele e do barracão de madeira, nos espaços deixados pela vida real. Os alemães têm fama de racionais, meu bem, mas a racionalidade é só uma camada sobre um romantismo delirante. A língua da ordem criminosa confunde quem não nos conhece. À berlinense antes tão cheia de si, obrigada a baixar os olhos para sobreviver na mansão, convinha a exaltação. Pudesse o destino colocar no meu caminho gente determinada a sorver apenas o novo mundo. Bastava-me um passado, o meu, não quis me defrontar com o dele.
Tudo isso aconteceu antes que os relatos sobre ele me deixassem perplexa, primeiro, insone, depois. Quando tudo se precipitou e o Aviador foi banido da Lagoa, condenado pelos mesmos entusiastas que haviam proclamado seu futuro radiante de “exímio construtor naval” e “precursor da urbanização”, foi com um suspiro de decepção que apressei o começo da minha segunda vida. Devia odiá-lo, não o odiei, mea culpa. Não me olhe decepcionada você também, Brígida, o que podia fazer?

Heliete Vaitsman é jornalista, tradutora e escritora. Graduada em Comunicação, Direito (UFRJ) e  Didática da Língua Inglesa (UERJ), fez cursos de pós-graduação em tradução e interpretação na PUC-Rio e na Georgetown University. Seu romance de estréia, O Cisne e o Aviador (editora Rocco, 2014), foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015.  Atuou em diferentes postos no Jornal do Brasil e em O Globo, onde foi titular da coluna Bem-Estar, e colaborou com as editoras Campus/Elsevier, Imago, Objetiva e Rocco. É diretora do Museu Judaico do Rio de Janeiro e autora do livro Judeus da Leopoldina. É atualmente sócia de uma pequena agência literária no Rio de Janeiro.




Nenhum comentário:

Postar um comentário